A tatuagem
Há tempos que eu queria tatuar-me e, pensando se deveria ou não fazê-lo, refleti nas inesperadas conseqüências de se falar com a pele. Porque tatuar é falar, não é? Não tenho com quem conversar, mas uma tatuagem poderia dizer o quanto me sinto sozinho. Penso… será que eu e minha tatuagem conversaremos? Essas cicatrizes não me deixarão ainda mais só? Não freqüento a mídia, nem as galerias de arte; não sou político, nem jogador de futebol, portanto, esse desejo não é um nenhum golpe publicitário. Minha decisão de tatuar-me reside apenas na vontade de não afastar, nem que seja por um pouco, a solidão na qual estou prisioneiro.
Sou um homem que, amadurecido,já viveu o bastante para saber que o tempo não apenas devora tudo, mas, especialmente, vai apagando algumas memórias que me são muito caras. Sinto que progressivamente minhas recordações me abandonam, como me abandonaram os filhos, um a um.
Cada um deles possui suas razões, cada um deles também tem sua família. Os netos, igualmente, pouco me vêem. É claro que nas datas festivas fazem o possível para olhar o pai, o avô, e homenageá-lo, cada um de seu modo. Quando as festas se vão, igualmente eles partem, como o movimento contínuo das marés; eu fico aqui, imerso em meus pensamentos que também, a cada dia, mais se ausentam das minhas percepções.
Continuo elegendo um espaço de tempo para a leitura, pois até mesmo o computador, que manejava com uma certa destreza, atualmente me enfada. Minha velha paixão pelos livros retornou há cinco, seis anos… Prefiro sentir o cheiro das capas e de suas folhas do que a da luz infinitamente gélida de um monitor. Os livros me devolvem algumas de minhas memórias, me mostram que ainda estou vivo. Mas afinal, quando se está só, está-se realmente vivo?
Aposentei-me há muitos anos. Minha amada se foi antes de mim e dela são as minhas recordações mais prementes. O seu cheiro, suas risadas e mesmo seus amuos. Construímos uma história tecida de sonhos, de belezas entremeadas aqui e ali de alguns desapontamentos e mesmo de desilusões. Quando, à noite, mergulho em meus sonos breves e entrecortados, seu rosto e seu sorriso é o que mais vem se juntar a mim. A morte que levou-a e acabou com minha paz fez-me intuir que deveria preparar-me para encontrá-la. No entanto, passaram-se anos e nada mais tenho a reconstruir, senão a sua ausência. Quando as noites caem, muitas vezes apanho meu carro(ainda dirijo, posso garantir) e circulo sem rumo pela cidade. Todos me alertam quanto aos riscos que corro, mas, de certo tempo para cá, não sei se faria tanto mal ser surpreendido por algum perigo…
Numa noite dessas, sentei-me diante da tela fria de um computador. Num desses sítios de busca, lancei de pronto “tatuagem”, o verbete “tatuagem”. Há sete anos esse verbete me persegue e me assombra. Digo, também, que há sete anos esse verbete me instiga a escrever no corpo, um nome. Muito calmamente pensei, arquitetei, escolhi a melhor pele do meu corpo cansado.Tatuar-me? Há alguns meses, na Cultura, deparei-me com um capa vermelha de um livro que me parecia convidativo. O corpo em performance… Resolvi me tatuar. Inscrever o nome de minha amada sobre meu corpo de modo que jamais pudesse esquecer. A cada vez que lesse o que em minha carne ficaria gravado, retornariam as memórias, os beijos, as pequenas rusgas, e , com o recordar viriam, também, a infância dos filhos, os momentos que me orientaram como pai, os pequenos movimentos que fazemos diuturnamente e que são devorados com o romper dos anos. Viveria tudo de novo.
“Tatoo Press”, what that means? pensei eu quando entrei no ambiente acanhado, mas imensamente iluminado, onde exibiam-se desenhos e alguns posteres improváveis na parede. Imprensa tatuada? Não sei precisar se estava correta a minha literal tradução do inglês. Uma bela moça veio me atender, certamente, pelo sorriso, entendi que ela pensava que, inadvertidamente, eu havia entrado na porta errada… “Não”, eu disse “eu quero tatuar a minha pele.” O espanto traduziu-se, em princípio, por um alçar de sombrancelhas, que emolduravam belos olhos castanhos. “Sim, quero fazer uma tatuagem, enfim, saber os detalhes, o que é necessário, quanto custa, etc”.
Dias depois eu tinha uma inscrição no meu antebraço. Mandei fazer um coração, como uma moldura. Dentro, o nome da minha amada e, abaixo do conjunto, emoldurado por uma lua azulada, o nome de dois locais de minha intensa recordação afetiva. Se senti dor? Claro que sim! Mas, de certa maneira, a dor é uma amiga que á me acompanha pela vida… mais próxima nos últimos anos.
Imagino, entre curioso e divertido, o que meus filhos e meus amigos irão dizer quando testemunharem a minha morte, quando enfim eu me for, e, só nesse momento, poderem ver minha tatuagem. Não contei para ninguém que me tatuei e guardo, comigo, como um mapa do tesouro, as pequenas cicatrizes coloridas na minha pele. Um derradeiro segredo, uma fonte de volúpia. Apenas quando me banho revelo para mim mesmo as marcas que mandei fazer em meu corpo. Converso de vez em quando com essas inscrições como se fossem uma amiga cálida, como se elas sempre tivessem estado ali.
De certo modo, a conversa com minhas tatuagens mantém minha mente ativa, porque na escuta… É um espelho que me recorda, ainda, o que de melhor em minha vida eu experimentei e disso eu posso contar. Dia desses, calor abrasivo, voltei à Cultura e procurei o livro que me deu a idéia da tatuagem. Lá estava o artigo na página 97, “Tatuagens e cicatrizes: performances narrativas na contemporaneidade”. A autora, das terras distantes de Minas, Lyslei, Lyslei Nascimento, nascimento… Que nome estranho para se ter em Minas… Em casa, com o livro a minha cabeceira, adormeci e parece que não sonhei… Quando o dia nasceu, demorei-me ainda a contemplar o pequeno livro vermelho e, junto a ele, minha inconcebível inscrição. Após tantos anos, nunca me sentira tão bem.

belo texto, adorei! vc escreve muito bem..
Patrícia,
que bom que o texto lhe agradou, fico muito feliz por isso. Afinal, escrevo para compartilhar idéias, comunicar meus pontos de vista, aguardar ansiosamente que haja retorno ao que foi postado.
Minha satisfação é muito grande em recebê-la aqui no BLOG DO BESNOS. Peço desculpas por não ter respondido antes.
Um belo dia!
hILTON
veia loka olha vc
Mariana, a maior loucura é a solidão, podes ter certeza.
Continue visitando o BLOG DO BESNOS e, se possível, comentando.
Abraços, hILTON
Nossa, maravilhoso! Tanto o texto em si, bem escrito e com palavras que fazia algum tempo que não lia, palavras bonitas… Adorei a idéia também de tatuar e não falar nada a ninguém, com certeza será uma surpresa! Continue escrevendo, até breve! Abraço.
Ariane!
Muito obrigado pelos seus elogios, escrever é realmente uma delícia. Por favor, continue explorando o BLOG DO BESNOS e comentando. Não há nada melhor! Participe,
Abraços,
hIL
As vezes me pergunto, como voce, se estamos realmente vivos quando estamos sós. Quando nos sentimos vazios, esquecemos e somos esquecidos através do tempo. Muitas vezes tentei esconder de mim mesma que a minha companhia mais íntima nos ultimos tempos tem sido a tela gélida de um computador… Meu amigos não têm mais vozes, cheiros, expressões… Só vejo seus sorrisos e rostos imóveis numa pequena janela de MSN.
Imagino, que, se eu ficar dias sem aparecer… Provavelmente não sentirão minha falta.. Serei apenas mais um dos contatos offline.
Vc tem um talento incrivel, seu texto está ótimo.. Me ientifiquei com suas idéias.. Continue escrevendo!!
Um abraço..
Esther,
gostei muito do seu comentário. A solidão, na maior parte das vezes, morde. Pensei em escrever a respeito disso, especialmente em razão do que você traz para o BLOG DO BESNOS.
Seja muito bem vinda e explore os demais textos.
Grato pelos elogios, sinta-se em casa.
Abraços grandes,
hILTON
Há dois tipos de solidão: a que desejamos e a que não. Se estamos no segundo caso, nos sentimos muito mal. É como se fossemos alguém à espera de uma notícia que não chega, de uma conversa que não aconteceu. A solidão é um gelo, mas podemos criar novos laços reais, verdadeiros, desde que estejamos realmente inclinados para tanto. Muitas vezes não enxergamos possibilidades tão próximas, tão favoráveis. Continue, por favor, participando. Um grande abraço, hILTON
Parabens meu caro, fizeste um lindo poema. Essa parte da solidao, mesmo sendo jovem, rodeada de amigos, familia, namorado. Sinto essa mesma frustação, de abandono, na verdade começo a entender que a solidão vai sempre nos acompanhar, e o que podemos fazer contra isso? Fugir dela. Como se fosse possivel? Quero ao menos tentar, talvez ai esteja a graça. Continue escrevendo, esta fazendo um otimo trabalho. Abraço
Penso que um bom caminho é descobrirmos algo que efetivamente nos interesse, que nos tire do mundo das obrigações, pelo menos por algum tempo durante os nossos dias. Precisamos de autogratificação e isso não necessariamente envolve multidões de pessoas. Devemos valorizar o que efetivamente gostamos e assim, não confundirmos consumo com felicidade. Adorei sua participação, continue nos lendo. Abraço grande, hILTON
Só ela sabe o que passa.
Deve ter seus motivos.
Seja bem vinda ao BLOG DO BESNOS!
Grato pelo seu comentário,
Abraços,
hILTON