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Archive for Abril, 2008

O albergue e o lenhador

Abril 29, 2008 noite Deixe um comentário

 

Ontem assisti “O Albergue” (Hostel), direção executiva de Quentin Tarantino e direção de Eli Roth. O filme conta a história de três mochileiros que, viajando pela Europa, vão à Bratislava onde, um a um são seqüestrados e torturados nos escombros de uma indústria abandonada, até que o último (casualmente um americano), interpretado por Jay Hernandes (Paxton), consegue fugir e vingar-se. No filme há muita tensão, muito sangue, várias cenas de tortura, vômitos, berros e gritos angustiados, mulheres belíssimas com muita disposição para sexo amplo e irrestrito e muitos efeitos especiais. A fórmula comum para o sucesso comercial está garantida.

Fiquei então pensando nos filmes de Quentin Tarantino e também nos de David Cronenberg, ambos dedicando suas filmografias ao bizarro, ao escatológico e ao nauseante. São produções dedicadas a mostrar atos, cenas, propostas regidas pela violência e pela estupidez humanas. Alguns desses filmes foram mais reconhecidos e premiados internacionalmente, outros nem tanto. Mas não cabe aqui discutir isso, mas o cerne comum a ambos os diretores: a violência. 

Explorar tais caminhos de modo comercial e sem qualquer sensibilidade maior me parece o caminho adotado pela dupla, Tarantino americano e Cronenberg canadense. Contrastando com ambos os diretores, me veio à mente o filme de estréia de Nicole Cassel, o Lenhador (The Woodsman), estrelado por Kevin Bacon. No filme, o tema da pedofilia é tratado do ponto de vista de um ex-presidiário (Walter)que foi preso justamente por se envolver em tal situação. A diferença básica entre uma linha de abordagem e outra é que, nos filmes de Tarantino e de Cronenberg, a violência é o que importa, enquanto, no filme de Nicole Cassel, há nuances que humanizam o personagem: ao invés de eleger a moralidade conservadora como ícone, Cassel traz à luz os dramas que tornam o protagonista mais próximo da realidade. Ao optar por essa visão, Casel buscou aprofundar-se na mente e no comportamento do protagonista, em eterna luta contra o seu desejo e a necessidade urgente de reprimí-lo.

Se analisarmos Hostel e The Woodsman, poderíamos enveredar por várias discussões: sobre sexo e violência, sobre violência simbólica, sobre torturas, sobre a banalização dessa mesma violência, sobre a pedofilia enquanto doença socialmente perigosa; sobre o bizarro, sobre os nossos desejos e como a indústria cultural os utiliza comercialmente; como explorar o sentido de brutalidade e de destruição que existe em cada um de nós e que é represado em nossas instâncias psicológicas mais profundas.

É sabido que tais sentimentos de violência podem explodir a qualquer momento, em face de uma infinitude de circunstâncias, comprovando que somos muito mais impelidos a agir pelas nossas pulsões límbicas do que pelo neocórtex. Talvez em cada rejeição às diversas maneiras de estupidização, estejamos sendo humanos, mas não deixamos de ser quando igualmente permitimos que as mesmas irriguem nossas mentes e corpos. Essa dicotomia, essa tensão permanente entre eros e tanathos talvez seja o maior exemplo das nossas belezas e das nossas feiúras, das nossas bondades e crueldades, tão socialmente praticadas e tão dessacralizadas em nosso íntimo. Sem dúvida, do ponto de vista cultural, tal balanceamento comportamental é o maior desafio que enfrentam nossas educações e urbanidades.

Não basta, portanto, sermos o que somos, mas é imprescindível que sejamos o melhor que possamos ser, e esse é um caminho árduo a ser trilhado, especialmente quando nos defrontamos com as dimensões Jeckill and Hide, tão marcadamente exploradas em um mundo rápido, voltado para o hedonismo e no qual valores são tão depreciadamente descartados.

A permissão e a permissividade do que entendemos por “liberdade artística” e outras sempre nos possibilita o sentido da escolha; contudo, talvez nós mesmos, em nossas precariedades, nos esqueçamos disso.

CategoriasCultura

EMEF Chico Mendes: o umbigo e a democracia

Abril 23, 2008 noite 2 comentários

 (0292) Llibertat / Freedom

 Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=Democracia&w=all&s=int

Amanhã, 24 de abril de 2008 haverá uma assembléia do SIMPA, Sindicato dos Municipários de Porto Alegre, que examinará questões como a data-base da majoração dos vencimentos da categoria e também analisará proposta do Executivo Municipal no sentido de um aumento (ou reajuste?) de cinco por cento com repercussões imediatas nos vencimentos. Aqui na escola temos uma representante da ATEMPA, que é a entidade que representa especificamente os trabalhadores em educação, inclusive os professores. Hoje à tarde, nossa representante nos trouxe a pauta de amanhã na assembléia. Ok.

Agora, as questões paralelas.

Foi proposta uma alternativa para os professores poderem comparecer na assembléia. Considerando que um turno de trabalho equivale a uma carga horária de quatro horas, a escola faria um turno único, pela manhã e que funcionaria do seguinte modo: das oito às dez horas, atendimento dos alunos dos primeiro e segundo ciclos e das dez horas às doze horas, atendimento aos alunos do terceiro ciclo. Ora, é óbvio que ainda restariam duas horas a serem trabalhadas, tanto no turno da manhã quanto no turno da tarde.

Consultado, o turno da tarde entendeu que seriam necessários no mínimo seis professores para darem conta do terceiro turno, das dez às doze horas, mesmo com uma evidente sobrecarga da área de educação física, que organizaria um torneio interturmas.

Ótimo! Tudo resolvido então, uma vez que seis professores se dispuserem a vir à escola para fechar as turmas e as atividades, de acordo com o horário programado para o terceiro ciclo?

Não, claro que não! Bastou a vice-diretora perguntar se, uma vez que estava tudo resolvido, alguns professores gostariam de formar uma comissão para ir à assembléia representando a escola e pronto!acabou a boa-vontade e os meus colegas, então, calaram-se. Não houve uma viva-alma que se dispusesse a ir para a assembléia, a não ser a própria representante da ATEMPA e um outro professor.

O raciocínio era simples: mesmo sabendo que, se trabalhassem apenas no turno da manhã, ainda haveria a obrigação de ir à assembléia, por causa das duas horas restantes, mesmo sabendo que os temas interessam diretamente aos municipários (dos quais os professores fazem parte), mesmo entendendo que todo o movimento de turno único somente existiria em razão e por causa da assembléia, não houve democracia nem inteligência política nem solidariedade que conseguisse mover meus colegas de suas zonas de conforto. Afinal, essas questões, deve entender a maioria, não são páreo comparado com o dia-a-dia, com o de-sempre de todas as tardes.

Então, volta tudo como antes no reino de Abrantes. Esse, infelizmente, é o espírito dos meus colegas (ou da maioria deles para não ser injusto) da escola Chico Mendes: o mais absoluto descomprometimento com qualquer evento, assembléia, reunião ou com qualquer outra coisa que signifique abalá-los de suas rasas conveniências. É lógico, contudo que, se houvesse embutida aí qualquer possibilidade de obter alguma vantagenzinha lá na frente (esquecer as duas horas da assembléia ou compensar isso de algum modo), evidente que os colegas pensariam diferente. Talvez até alguns ensaiassem um discurso mentiroso no sentido de que estavam preocupados com o coletivo quando, em verdade, se ocupavam com nada mais nada menos do que o próprio umbigo.

Em resumo: não haverá turno único porque os professores sequer querem trabalhar as suas quatro horas regulamentares. Isso sem considerarmos que nas quintas-feiras há reunião de duas horas na própria escola, atendendo os turnos da manhã e da tarde (a da EJA é nas noites de sexta-feira).

Se desmobiliza a EMEF Chico Mendes do ponto político da forma mais prosaica possível.  Essa total apatia com os interesses da categoria, que contrasta com uma total pro-atividade no que tange aos próprios interesses corporativistas e personalíssimos, contudo, tem uma rica história na EMEF Chico Mendes. Não é algo que foi criado agora, mas uma das faces de uma escola que adotou a não-posição, o democratismo, o conservadorismo  e a indolência política como bandeiras. E que, sem dúvida, as estende com ares de dama onde deveria haver, no mínimo, uma educação crítico-social e uma responsabilidade política, senão com os alunos, pelo menos consigo mesmos.

 

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Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=corporativismo&page=2

CategoriasEducação

Matemática e aprendizagem

Abril 20, 2008 noite 1 comentário

Gimnasia para el Cerebro

Fonte: http://www.flickr.com/search/?s=int&q=matem%C3%A1tica&m=text

Matemática exige disciplina e não adianta tentar jogar conhecimento matemático na zona de memória, como estratégia principal para entendê-la. Matemática é filha dileta da filosofia, encantamento de Descartes e tendente à conceitualização. Para muitos alunos, a matemática, contudo, é sinal de duas palavras que, semânticamente, tem uma conotação negativa: problema e erro.

São poucos os que conseguem ver em uma situação-problema possibilidades reais de crescimento, de oportunidades, de melhoria de auto-estima. Referindo a palavra à matemática, uma boa parcela dos alunos associa o problema a algo a ser evitado, a ser afastado, a obstáculos incontornáveis. Problemas são sempre chateações e é esse paradigma que orienta a visão do aluno ao deparar com algo que irá forçá-lo a abandonar sua zona de conforto.

Quanto ao erro, essa é uma palavra totalmente estigmatizada; nossa civilização judaico-cristã apenas tolera o erro por não ter melhor alternativa. No fundo, o que de melhor poderia ocorrer seria que ele fosse de uma vez por outro expurgado: como isso não é possível, a convivência é a melhor alternativa e, sem dúvida, a única possível. Por outro lado, não estamos habituados ao duplo significado da palavra: errar também pode ser caminhar, trilhar, mas mesmo assim, o jugo pode ser posto, se este caminhar não for orientado, disciplinado, direcionado, se não for aquele com predestinação certa e sabida.

E essa orientação é determinada pela expectativa social, em uma época mergulhada entre conceituações mercanicistas e descartianas, onde prepondera a exatidão. Isso ocorre em sala de aula, quando o aluno se vê momentaneamente privado de sua liberdade de perguntar, por se sentir constrangido no sentido de que seu provável erro vá representar algo desviante, marginal do que seria esperado e mesmo passível de julgamento moral. Ao ser chamado de “burro” por seus colegas e perceber a indiferença do professor, o aluno tende simplesmente a renunciar a aprender, para refugiar-se dentro de sua paralisante zona de conforto.

Quando o aluno decidir ou for levado a se afastar da aprendizagem, precisará de um arcabouço psicológico que justifique tal situação. Poderá então tentar justificar para si mesmo tal renúncia; na maior parte dos casos, tal justificativa implica na negação do outro: da escola, dos professores e mesmo de seus colegas. Talvez aí esteja um dos motivos que alimenta a indisciplina, o desrespeito e o desinteresse na escola ou pela escola.

Dentro de tal universo, sem pensarmos absolutamente que a escola igualmente não pratica suas violências simbólicas, o erro maior a ser evitado é, sem dúvida, o distanciamento do processo de aprendizagem. Por outro lado, é totalmente frustrante ao próprio aluno que ele pretenda que seu mero desprezo por uma ou outra disciplina escolar poderá trazer-lhe qualquer tipo de progressão. Isso fica mais claro ainda se ressaltarmos o evidente papel que a matemática e a língua portuguesa cumprem como filtros sociais e de funcionarem como chaves de acesso para aprovações não somente na escola, mas em concursos públicos, exames preparatórios, cursos, etc.

Diz a mais rasa prudência que seria bem mais razoável a convivência produtiva do que a negação estéril em relação ao processo de aprendizagem. No entanto, se vivenciarmos um discurso semânticamente negativo e não houver uma postura didático-curricular que assuma uma visão crítico-social, serão reduzidas as possibilidades de sucesso de encaminhamento de uma melhoria nas relações que tradicionalmente irrigam o aprender matemático.

CategoriasEducação

Chaplin

Abril 20, 2008 noite Deixe um comentário

Tempos modernos (Charles Chaplin)

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=charles+chaplin

Noite de 17 de abril.

Em aula na Educação de Jovens e Adultos da Chico Mendes, atualmente com muitos adolescentes vindos do ensino regular, mesclados com adultos, citei, em uma determinada passagem, Charles Chaplin e seu personagem imortal, Carlitos.

Silêncio profundo.

À excessão de duas senhoras, ninguém ali tinha sequer ouvido falar de Carlitos. Mas todos tinham ouvido falar e conheciam filmes de Schwarzenegger, de Van Damme, de Diesel.

Triste indicador cultural.

CategoriasEducação

Aldeias

Abril 19, 2008 noite Deixe um comentário

City map

Fonte: flickr city maps

Os homens passeiam em suas aldeias

Aldeias

Aldeias que viram povoados

Povoados

Povoados que viram cidades

Cidades

Cidades que viram metrópoles

Metrópoles

Metrópoles que viram megalópolis

Megalópolis

Megalópolis habitadas por clãs

Clãs

Clãs que viram aldeias

Aldeias

Aldeias contidas nas cidades

Onde, ainda, passeiam os homens.

Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada II

Abril 11, 2008 noite 1 comentário

USTOP

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=ustop&m=text

Em relação ao post citado acima, Gabriel me enviou um comentário que acho muito esclarecedor, inclusive em relação à determinadas idéias que reforçam escritores atuais que tratam, às vezes genericamente, às vezes de forma mais particularizada, do assunto. Demonstra também, claramente, quais os rumos e as confluências entre propaganda e publicidade no mundo de hoje, considerando as questões identitárias. Vale a pena ler!

GABRIEL BESNOS

É isso, pai. Mas tenho comentários adicionais.
As “coisas” em si – entenda-se aí tudo que é material, palpável e, portanto, “produto” – estão perdendo a importância em ritmo acelerado. O que importa, no mundo contemporâneo, é a “não-coisa”, tida aí como informação, serviço e, finalmente, experiência. Por conta disso, a publicidade venderá cada vez menos produto, e cada vez mais experiência. Não importa a coisa, mas o valor atribuído à coisa pelo seu consumidor. O consumo, portanto, é de imagem. Este valor percebido de uma marca depende de uma rede de referências e experiências do indivíduo – que são influenciadas pela mídia, mas não mais “massificadas”, exclusivamente. O discurso da massificação está esvaziado diante de um indivíduo com identidade fragmentada, pós-moderna, customizada, em oposição a um modelo de identidade mais sociológico.
Nessa direção, portanto, está ficando impossível separar publicidade e propaganda, porque toda a persuasão passa a ser ideológica, e não racional. Indo além, dá pra dizer que a publicidade tende a perder terreno, na medida em que está muito focada na comunicação. O design, por sua vez, está ampliando o foco, com uma abordagem mais estratégica. O design estratégico reúne profissionais de diversas áreas (além do designer mesmo, especialistas em tecnologia, em marketing, em comportamento do consumidor, caçadores de tendência, antropólogos e etc.), com o propósito de projetar um sistema-produto, ou seja, além do bem material, o seu entorno, as ferramentas de sua comunicação e posicionamento no mercado e, por último (e mais importante), a experiência do usuário com o mesmo.
Isso é uma inversão e tanto! Ao contrário de as mídias verticalizarem discursos, elas terão que se horizontalizar, recolhendo no mundo o seu conteúdo. E quem estará informando (no sentido de “dar forma a”) o conteúdo de consumo serão os designers, que não tem outra escolha senão se portarem como radares de tudo que acontece no mundo.
Interessante, né? Beijo, Gab.

Mortalha

Abril 10, 2008 noite Deixe um comentário

A solidão

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=solid%C3%A3o&m=text

Não sei exatamente se este é o momento para te dizer o que tento, de há muito, falar. De qualquer maneira, é necessário… ou talvez não, talvez já saibas tudo que vou dizer, é muito provável que sim, pois lês o que a minha mente quer, portanto…talvez não reste mais nada a fazer do que sair, me afastar, carregar comigo as conseqüências do que fiz, e eu fiz, sim, eu fiz, e nada existe para ser negado, ainda mais em relação ao que já sabes, então só resta amargar essa tristeza, essa estupidez que me deixa em tal estado deplorável…Sim, eu vou, entendi que nada tenhlo ou nada devo dizer, que isso já passou, e que teria feito melhor se simplesmente me tivesse ido já de primeira…no entanto, fiquei aqui, e talvez a minha presença atormente tanto por nos lembrar o que vivemos, nossos sonhos, utopias, sentimentos, o que construímos e agora – agora! – saber que nada mais vai restar, senão apenas lembranças.

Sim, amanhã parto para São Paulo, no vôo das treze e quinze. Vou direto pra casa do Edgar e então conto para ele… Não, claro que ele não sabia. Infelizmente a única pessoa que eu não queria que soubesse era quem? Você, é claro, e que foi quem primeiro soube, então amanhã estou indo, devo ficar lá talvez por uma semana, e depois viajo para Recife, de onde jamais deveria ter saído…Queres o telefone do Edgar? Ah, sim, não queres, certo, claro tens razão em não querer saber, afinal de contas não vais me ligar.

Bem, estou indo, vou levar só o necessário, amanhã venho buscar o resto. É, sim, de manhã cedo um resto vem buscar o outro. Hoje durmo na… ah, sim, desculpe, claro que não queres saber… está bem, então estou indo. Que horas posso passar para buscar? Ah, não sei, não sei…estou indo…

Abro e fecho a porta do apartamento e fico aguardando o elevador. Lá fora começa uma chuva fina e de repente, como acontecia quando eu era criança e ficava só, me bate uma melancolia enorme e eu choro. Finalmente, quando o elevador chega ao andar e eu entro, tenho a impressão de que minha vida toda está ali comigo, como um casulo estranho, como uma carga desajeitada que insiste em me pesar sobre os ombros, que me paralisa e anestesia o corpo. Escuto cada barulho dos mecanismos do elevador, enquando descemos, eu e minha angústia. O elevador e eu.

O elevador, estranhamente, parece uma mortalha.

CategoriasContos

Serpentário

Abril 10, 2008 noite Deixe um comentário

raiva!

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=raiva&m=text

 

 

O que dizer quando já dissemos tudo, quando já provamos tudo, quando as nossas sensações já explodiram como um arco-íris ilulminado e quando, em outras ocasiões, nossa vontade tornou-se úmida e pegajosa como uma enguia, com um sentido de deslocamento tão grande que sequer nos reconhecemos?

O que falar quando, durante muito, muito tempo mentimos, e as mentiras ficaram grudadas em nós como carapaças, quando nos habituamos a iludir de modo tão insano que, após algum tempo de desencanto, de desolação, de ruína, sequer nos importamos se o que dizíamos tinha ou não coerência, sentido, razão…se o que fizemos para nós mesmos redundou em uma indiferença tão grande que nos tomou como as garras de um passado já tão morto dentro de nós?

Sim, claro, nada mais havia para recuperar, e tu sabias disso tanto quanto eu, e, por outro lado, nos deliciávamos com esses jogos mesquinhos, de caça e de caçador, em que em algumas vezes somente eu queria descobrir tuas inverdades e em que, em outras oportunidades, eram tuas as vinganças, as desídias, os deboches, os prazeres nas torturas de amor diárias a que nos dedicávamos…

Em nome de que fizemos tudo isso? Do amor decerto que não, pois o fomos perdendo com o decorrer de nossas próprias fatalidades, de nossas vontades messquinhas… Nosso amor foi minguando, fenecendo, tornando-se bruma ante nossas pequenas maldades; então porque fizemos, se não foi em nome do amor, talvez tenha sido em razão de um sentimento de culpa que nos acompanha a ambos, que nos entretém assim juntos, como duas serpentes, como duas tristezas que se buscam, como duas tenebrosas sinas…

Eu sei que me esqueceste, mas, para ser sincero, eu jamais estive junto a ti; talvez na cama mas para nós, cães de rua, parceiros iguais o tempo todo sempre enjoam…qual de n´los teve a iniciativa da traição, eu, tu, com quem, onde, de que modo? Tanto faz, tanto desfaz…Hoje reconhecemos que não somos nada do que dissemos um ao outro que seríamos. Acho que começamos mentilndo aí, e fomos assim, de mansinho nos tornando um o algoz do outro…mas só até hoje, pois agora, por Deus agora! tudo, mas tudo mesmo vai terminar…

Gritos varam as noites do mundo, mas mesmo aqueles foram poucos, até o momento em que a lâmina parou de golpear.

 

CategoriasContos

Escrever por conveniência

Abril 9, 2008 noite Deixe um comentário

A cara da literatura

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=literatura&m=text 

Vejam, amigos, aconteceu isso com fulano ou com beltrano no século xis. Percebam que o escritor zê também tocou no tema no século ypsilon. Assim sendo, vou conduzí-los, senhores leitores, a que pensem comigo e cheguemos todos à mesmíssima conclusão que, por ser de domínio geral, os senhores já chegaram antes de começar a ler o que eu escrevi. Por outro lado, meus fiéis leitores: isso não é bom, não nos dá a todos uma sensação de déja vù reconfortante?”

 

 

Um dândi mexendo no motor de um carro. O jeito confortável de escrever me incomoda. Acaba dizendo sempre obviedades, e se estrutura a partir do senso comum. Quando escreve sobre liberdade, não toca em nenhuma ferida, em nada que não seja conveniente. Nada de ingressar em profundidades, pois isso leva a compromissos, estabelece alianças, mas pode ser perigoso para quem possui na escrita um meio totalmente comercial de expressão. Voltando: quando escrever sobre liberdade, se lembrará então algum escritor, ou pessoa pública que fez isso ou aquilo a respeito do tema e – zás! – temos aí mais uma crônica maravilhosa para lermos no jornal, de preferência no café da manhã ou durante as tardes de domingo e pronto, esquecermos com a mesma facilidade com que lemos.

 

Quem escreve assim tem muitos leitores fiéis: é o entertainment escrito. Poderá até selecionar algum assunto mais rumoroso, mas ele mesmo, escritor, não se permitirá nenhum tipo de exposição; invariavelmente irá conduzir sua produção para o senso comum. Será a favor do amor, da liberdade de modo geral e da liberdade de imprensa de modo particularíssimo, será anti-racista, anti-sexista e anti qualquer parâmetro que não esteja ligado ao senso comum. Por isso, será quase que uma unanimidade, desenvolvendo um estilo inconfundível praticamente impermeável à marginalidade, ao estranho, ao estrangeiro e ao desviante. É um escritor que se devota aos perfumes do bom senso, cultivando uma postura judicante.

 

Há nessa escrita uma fluidez, uma delicadeza etérea, quase que urbanística, uma comodidade, uma inteligência no escrever que faz com que o estilo seja tão soberano que a mensagem em si não importe tanto. Afinal, quando nos dispomos a lê-lo, já sabemos de antemão que nada encontraremos de polêmico, de incomodativo, de trabalhoso, de perigoso, de instigante. Então, comme si comme sa, ali está nosso biscuit, nosso biscoitinho literário que irá combinar perfeitamente com o que fazemos ou não fazemos em nosso dia-a-dia.

 

Ora, com o decorrer do tempo o que mais se destaca nesse conjunto é o modo de escrever, o estilo, a forma e não aquilo que foi escrito, a mensagem que talvez remotamente devesse ser transmitida, os nós que possivelmente gostaríamos de desatar (mentira!) ou as denúncias que pretenderíamos fazer. Como tal escritor não se envolve absolutamente com tais agruras, em verdade não importa muito o que ele escreva, mas sim a maneira pela qual escreve. O estilo, então, avulta, toma asas, fica em um plano superior.

 

Aqui a criatividade morre, passando a ser apenas um subproduto comercial. Exatamente como os cordões de um par de tênis que nos servirá durante algum tempo e que, dias depois jogaremos fora, quando algo mais interessante nos acenar do mercado.

CategoriasReflexões

Adeqüações e pensamento mágico

Abril 7, 2008 noite Deixe um comentário

Marginalidade

 

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=marginalidade&m=text 

 

 

O estudo formal exige uma adeqüação em termos de disciplina, horários, atenção e constantes revisões conceituais. Se considerarmos que vivemos em um caldo cultural em que se adicionam imagens multicoloridas, sexualidade exacerbada, banalização da violência, recepção passiva de mensagens midiáticas, miríades de produtos a serem possivelmente consumidos e uma tecnologia que (re)liga o homem ao mundo em questão de um nada (celulares, internet, notebooks, pagers, etc), e que cria e destrói ídolos com a mesma facilidade com que trocamos de roupa, constataremos que, para uma boa parte dos estudantes as agências de conhecimento são defasadas e não lhes dão qualquer motivação especial.

 

Tudo que ocorre, ocorre rapidamente. Não temos sequer tempo para entendermos algo, quando já somos sacudidos por outras novidades, outras perspectivas, de tal modo que o não-entendimento passa  a ser a regra geral e, talvez por isso, banalizemos as informações e não as transformemos coerentes com um mínimo de criticidade. Somos vistos, não raro, como produtos de um meio informatizado, computacional no qual, muitas vezes, perdemos a noção da realidade. Ou, se não perdemos, pelo menos preferimos o mundo virtual, visto que o primeiro é repleto de frustrações, as quais queremos afastar. Nos envolvemos com as novelas, mas não percebemos que nós mesmos somos personagens de romances, ficções, biografias, crônicas não-lineares, imprevisíveis e sem uma resposta final de nosso agrado, e que incluem nossos próprios roteiros, dependências e angustias, gozos e insatisfações.

 

A midia premia o pensamento mágico, que  para o Dr. Phillips Stevens Jr., antropólogo, é uma “crença na interconexão de todas as coisas através de forças e poderes que transcendem conexões tanto físicas quanto espirituais”. Ainda segundo o mesmo, “…a grande maioria das pessoas do mundo … crê que existam conexões reais entre o símbolo e aquilo que ele representa, e que um poder real e potencialmente mensurável flui entre eles”. (ver fonte)

 

Muitos alunos crêem que, embora não sendo responsáveis em relação aos seus estudos, “algo acontecerá”, fazendo com que sejam bem avaliados no processo de aprendizagem. Não raras vezes o próprio sistema educacional fará o papel desse “algo” que os promoverá, mesmo que, na realidade não tenham condições reais para tanto. Isso ocorre, infelizmente, dentro do regime de ciclos de estudos, associados errôneamente por muitos como um regime no qual se institucionalizaram as aprovações diretas ao próximo nível de aprendizagem, independente de o aluno ter ou não ter demonstrado a aquisição de habilidades para tanto.

 

Se a escola estigmatiza o aluno, mostrando-lhe claramente que as suas histórias de vida, que as suas expectativas e experiências e suas linguagens são de menor importância dentro da instituição e se a isso for ajuntada uma desvalia sócio-econômico-cultural, aquele irá se habituando, cada vez mais, a ser passivo, a sentir-se uma pessoa de segunda classe, preparando sua não-cidadania.

 

Esses fatores servem de mote para que o aluno se afaste da escola e adira, de vez, à sua região de conforto. Se o aluno se sente minorado dentro de um cenário que não lhe é favorável, não há porque adaptar-se às exigências da instituição. Ora em um mundo mediado pelo consumo, onde as frustrações se avultam e a violência se banaliza, o conforto tende à acomodação acrítica, o que, infelizmente redundará na institucionalização de uma cultura marginal e explorada. Em tal situação, o pensamento mágico, o destino, ou qualquer outro elemento servirão como fundamento para uma vida carente de oportunidades melhores, seja dentro do sistema produtivo, seja nas possibilidades concretas de opção e objetivos de vida.

 

Fonte citada: http://skepdic.com/brazil/pensamentomagico.html

 

 

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