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Archive for Junho, 2008

Meus olhos

Junho 26, 2008 noite Deixe um comentário

O antigo é belo,

pleno de história,

de passagens

cujas marcas se renovam sempre.

O novo é fugaz,

efêmero,

uma nuvem que evapora.

O antigo e o novo se configuram

por vezes doces

por vezes cruéis

ante as nossas aldeias.

O vento os leva a todos,

antigos e novos,

e dança ante meus olhos cansados,

frios,

plenos de poeira.

Orangotango, o cara!

Junho 23, 2008 noite Deixe um comentário

Quem não conhece o orangotango? É aquele cara que fala, veste, anda e trabalha como homem mas cujo perfil é o de um orangotango. Como todo orangotango, ele faz os outros rirem, mas nem sempre do que ele conta, mas sim dele próprio. Nosso amigo não tem limites, ou seja, ele diz o que lhe vem à telha, sem passar pelo córtex. No trabalho quer as vantagens. Ele é muito conhecido, especialmente pelas suas ações e pelo que diz, muitas vezes aos gritos.

Se ele doa sangue, é porque quer ficar o dia sem trabalhar, e não por solidariedade. Quando participa de reuniões de trabalho, se dedica especialmente a ler jornal, quando pode, a provocar tumultos e a pressionar os colegas para que a reunião termine o mais cedo possível (de preferência que nem comece). Adora participar de eleições como mesário ou como presidente de mesa, mas está se lixando para o processo em si. O que interessa é que ele poderá gozar o dobro dos dias sem trabalhar em relação àqueles que prestará serviços ao Tribunal Eleitoral.

O orangotango não gosta do Lula porque é nordestino (embora ele negue o tempo todo) e porque não é letrado, mas também não gosta do FHC porque, para ele, o ex-presidente é um enrolador. No trabalho, parte do princípio do mínimo-suficiente para as coisas continuarem andando. É o rei do razoável. Se puder, trabalha sempre no mínimo, bem próximo ao stand by. Para não trabalhar, pode carregar pedra.

O orangotango pode ser selvagem, agressivo e intransigente: basta que digam algo que ele não goste ou que o desagrade ou o pressionem para sua voz se erga muitos decibéis acima do esperado. No entanto pode ser divertido e solidário, desde que não mexam nas suas bananinhas.

Do poonto de vista social e político, seus pensamentos vão do óbvio para o mais óbvio, e se não fossem as expressões padrões (todo político é ladrão, trabalho tem mas ninguém quer trabalhar, meu time é o melhor do mundo, eu sou o f… e por aí vai). ele morreria de inanição intelectual. Ele se julga eternamente perseguido e poderia historiar a vida profissional de seus pares e as vantagens obtidas pelos mesmos, assim como as centenas de vezes (entre aspas) em que ele próprio foi preterido, injustiçado, colocado em segundo, terceiro ou quarto plano, etc.

Segundo o orangotango, ninguém trabalha mais que ele, ninguém entende mais os alunos do que ele, poucos são os que o entendem e, em relação áqueles que discordam dele, normalmente ele debocha, agirde ou simplesmente não dá atenção. Todo trabalho burocrático é uma fonte de angústia e tristezas.

O orangotango não sabe mas, no fundo, é um personagem.

CategoriasReflexões

Humanos

Junho 14, 2008 noite Deixe um comentário

trilhos

Fonte: http://www.flickr.com/search/?s=int&q=pessoas&m=text

Pretos, brancos, amarelos,

Todos são humanos

Homossexuais, crianças, rebeldes,

Todos são humanos

Operários, renascentistas, pós-modernos

Todos são humanos

Sexistas, machistas, feministas

Todos são humanos

Homo-ludens, homo-faber, homo-erectus

Todos são humanos

Universitários, enfermeiros, sem-teto,

Todos são humanos,

Sensíveis, eróticos, narcisistas,

Todos são humanos

Religiosos, cristãos, novos-cristãos,

Todos são humanos

Assassinos, neuróticos, depressivos,

Todos são humanos

Ordeiros, desordeiros, pensadores

Todos são humanos

Alemães, japoneses, brasileiros, irlandeses

Todos são humanos

Ditadores, artistas, livres-pensadores

Todos são humanos

Clérigos, bispos, papas e rabinos

Todos são humanos

Lésbicas, heterossexuais, músicos e poetas

Todos são humanos

 

São humanos todos os que nos constituem

E que nós vimos em alguma imagem,

Em algumas vozes,

Por algumas vezes,

Ou que talvez nunca vejamos

 

Nas barbáries das guerras, nas covardias dos estupros,

Nas noites eivadas pelas bebidas e pelos aniversários,

Nas camas alugadas, nos seios púberes, nas barbas e nos pelos

 

Nas construções, nas brigas, nas bigas

talvez até nos improváveis mundos,

construímos nossas histórias, nossos medos, nossas rotinas,

nossos eternos desmandos e nossos intensos amores,

elevamos nossas paliçadas, nossos intensos ódios

e, por fim, agradecemos ou amaldiçoamos nossas vidas

vidas de todos nós, pois, afinal

todos são humanos

 

 Hilton Besnos

Verborragia redundante

Junho 9, 2008 noite Deixe um comentário

Na mira . . .

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=falar&s=int&page=2

Após assistir um show de verborragia redundante em uma reunião na minha escola (Chico Mendes) sábado último que tratava de plano político-pedagógico, resolvi dedicar este post àqueles que, de modo tão destemido, se entregam a tais elocubrações mentais.

 

 

 

Às vezes é necessário um gravador. Mais do que isso, uma filmadora. Ou talvez uma filmadora com um gravador embutido. Para que tudo isso? Para registrar, documentar, explicitar, sem nenhum corte, sem nenhuma edição o que significa, na essência, o fenômeno da verborragia redundante.

 

O mesmo é basicamente é uma expressão do eu desatinado: todos devem conhecer as minhas opiniões e os meus pontos de vista, mesmo que opiniões e pontos de vista semelhantes ou mesmo iguais já tenham sido expressos. Não importa o que os outros digam, mesmo que eu concorde com eles, pois eu tenho de repeti-lo, se possível à exaustão.

 

O verborrágico não consegue, simplesmente não consegue aguardar a sua vez de falar, pois parte do princípio de que o que ele (ou ela) vai dizer é o mais importante, é o fundamental, é o que mudará o rumo das coisas. Por isso, ser verborrágico e redundante prima pela deselegância, pela mesmice e até pela grosseria, por não respeitar o espaço crítico-social do(s) outro(s). Quando muitos verborrágicos redundantes se unem, não há o que possa ser mediado, pois cada qual é ou quer ser a medida de todas as coisas.

 

A situação mais se agrave pois todo verborrágico redundante se julga uma referência a qual os demais devem adorar, de preferência se submetendo à tão infalível idéia ou opinião.

 

É-lhe impossível ser coordenador, organizador ou mediador de uma mesa de trabalho, simplesmente porque fica em uma dúvida muito cruel: ou segue a pauta, ou inscrições para as falas, ou não dá a mínima para isso, falando quando bem entende. Esse é o nó da verborragia redundante. O desejo de falar é maior que o de organizar e escutar. Aliás, escutar é um martírio, quase uma ofensa. Prefere sempre que os outros o escutem.

 

Todo verborrágico redundante tem o ego inflado, mas apresenta algumas falhas interessantes na construção do superego, por isso às vezes faz o papel de ridículo. Tem um prazer dionisíaco em cortar os argumentos dos outros, tentar manipulá-los, dizer o que já foi dito, fazer perguntas desnecessárias para então responder aquilo que todos já sabiam. É irresistível para o mesmo aconselhar na hora indevida, assessorar quando não há mínima necessidade, explicar quando o assunto já está entendido, discutir apaixonadamente por uma bobagem qualquer e sentir-se ofendido pessoalmente quando um outro argumento não é a sua opinião. Uma de suas preferências é dizer ao outro o que deve ser feito, sem ter dado a esse mesmo outro a chance de fazê-lo.

 

Em certo sentido, a verborragia redundante pode ser epidêmica. Se pensarmos seriamente, podemos dizer que a mesma é o post-mortem da educação, na medida em que não é nada educado, ou crítico, ou democrático fazermos com que os demais escutem cantilenas, catilinárias repetitivas ou sejam miseravelmente cortados em seus raciocínios.

 

É possível que o verborrágico redundante queira, no fundo, uma admiração especial, uma platéia que o adule e o faça feliz e que, no final da apresentação no palco, seja carregado em triunfo. Desde que o texto da peça, claro e evidente, seja um monólogo.

CategoriasEducação