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Archive for Junho, 2009

F. e a diagonal

Junho 30, 2009 noite 2 comentários

 por elisandro.borges

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=desespero&page=2

F. sabia que talvez não fosse possível atravessar a avenida Assis Brasil; sempre, àquela hora o vaivém dos veículos era enlouquecido, além dos dois corredores de ônibus, cujo trânsito nunca cessava. Mesmo assim, movido pelo desespero, F. cruzou a avenida na diagonal. Pura roleta russa. Pura diagonal de homem gol. Pura diagonal que traduzia uma vida também assim, de atitudes incompreendidas, contidas até o extremo, atravessadas. F. realmente não se entendia. Tanto modo pra se matar e foi escolher justo o mais difícil. Poderia simplesmente usar, dos métodos, o melhor: um frio disparo de arma contra o palato. Mas não,foi buscar justamente um dos mais arriscados e que podiam, além de causar muita dor, falhar. Como quase tudo em sua vida, pensou, mas pensou errado e agiu pior ainda. Coisa de amador ou de quem, no fundo não tem coragem de assumir o que quer. “Sou um fraco”, foi o último pensamento que teve antes de sofrer o inevitável golpe.

F. não morreu, mas partiu a coluna, ficando tetraplégico e – se algo ainda podia ser pior – totalmente dependente de quem tanto odiava, justo quem lhe fizera cair em um desespero tão grande que o impeliu a atravessar, como um ensandecido a avenida Assis Brasil. “Entrevado” era a única palavra que vinha à mente de F., prostrado em cima de uma cama para sempre, uma vez que não dispunha de recursos para amenizar suas dores. Seu desgosto e a sensação de inutilidade eram sua companhia constante. Queria, urgentemente, levantar daquela maldita cama que o retinha como uma prisão e que o afastava definitivamente de uma vida que tanto gostaria de retomar.

Em uma madrugada, quinze anos após o acidente, reduzido fisicamente a um nada e totalmente dependente, vei0-lhe a redenção esperada, através de um ataque cardíaco fulminante; nada pode salvá-lo e, gostemos ou não, a história acaba aqui, porque nem sempre a vida real segue os roteiros de novela e menos ainda os heróis estão dispostos, quando desejamos, a salvar o mundo.

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Bom humor ou ironia?

Junho 26, 2009 noite Deixe um comentário

comedy / tragedy por Mr.  Mark

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=comedy&page=7

 

Maimônides disse: “O complexo está na superfície, mas para entendê-lo teríamos, nós mesmos, de sermos muito complexos.” Muitas vezes não temos a noção dessa complexidade. Partimos de nossas infelicidades quando tentamos entender o simples. De certo modo, somos culturalmente constrangidos a tornar mais difícil o que poderia ser entendido de modo menos doloroso.

Dependendo do nível de informação e das possibilidades reais de mobilidade cultural que possuímos, é esperável – quase impositivo – que sintamos dor, mal estar, depressão e um agudo sentimento de culpa e que, preferencialmente, nos dilaceremos. Há toda uma justificativa social para isso. Somos compelidos a infelicidade, às obrigações, às rotinas e assim por diante. Acreditamos firmemente em nossos terapeutas e em toda uma parafernália que sustenta e que se sustenta a partir do conceito triste de seriedade e de infelicidade.

Freud em O Mal Estar na Civilização (década de 30),argumenta que a construção da civilização é um exercício de repressão de Eros por parte de Tanathos,o que gera agressividade e desamor. O sistema social que nos limita é o mesmo que nos incita a sermos felizes, geralmente através da compra e venda, seja de produtos, de ideologia, ou de um estilo de vida. Assim, aprendemos a negociar ou a impor os nossos sentidos e sentimentos. Queremos inclusive que o outro sofra o que nós sofremos, o que é impossível, pois pessoas são diferentes. Podemos ser solidários, podemos ser piedosos, mas sentimos de modo distinto. Cada um chora o luto a seu modo.

Neste quadro o (bom) humor não é valorizado; antes é visto como um vício e não uma virtude, especialmente por quem se leva muito a sério o que, em realidade, é muito triste. Às pessoas muito sérias falta um pouco de autenticidade. Alguém que tenha a capacidade de trazer alegria a si mesmo e aos outros, não é bem visto por quem pretende demonstrar aos outros que viver infeliz é o normal e que portanto, somente a seriedade e a compra material ou a ascensão profissional são coisas que merecem ser vividas.

O humor, em si, é inclusivo, é uma virtude. Os que estão infelizes não suportam a leveza do humor. O mundo, afinal, é um calvário e, portanto, crêem que o ideal é buscarmos problemas como se isso fosse uma predestinação divina. No fundo, são pessoas que perderam o rumo do simples, da autenticidade, não se permitindo viver em paz. O tormento as comove, a intolerância e a sisudez são suas armas de combate.

Tais pessoas adoram a ironia, que é o inverso do humor. A ironia é uma arma, pronta para ser usada em qualquer circunstância; ela fere, ela marca territórios, ela exclui. Um irônico ri sempre dos outros, nunca de si mesmo. A ironia é sempre séria, sempre procurando algo a que cortar, é um fio de navalha, um estopim pronto a ser aceso. O irônico perde em humanidade, o bom humorado ganha em convivência, em solidariedade; o irônico se perde em solidões.

A não aceitação do humor pelo irônico bem fala a respeito de suas diferenças. Para o irônico, o bom humorado é o palhaço, o carente, o tolo, o bobo da corte, o que diverte aos demais buscando ser incluído por estes. O humor é algo viciante e só deve prevalecer desde que se lhe imponha regras, momentos, porque sendo sérias tais pessoas, elas possuem dificuldade em lidar com o inusitado, que é justamente uma das matérias primas do humor.

O humor é a flor do pensamento, sua ativação mais interessante. A ironia é a flor da tristeza e do afastamento. O humor, no fundo,  talvez tenha apenas comiseração quando encontra a ironia; irmã bastarda da leveza, seus passos irrompem trazendo o monocórdio, apontando armas enquanto o humor já se foi por ali, entre as árvores e os mares, apontando o caminho do que é belo, risonho e amorável.

É claro que ninguém é (ou pelo menos deveria) ser totalmente bem humorado ou irônico. Há uma necessidade de ambas as situações dentro dos diversos cenários que atravessamos diuturnamente. Contudo, quase sem querer ou sem percebermos acabamos tendo padrões de comportamento que demonstram que nossas escolhas fizemos para nós mesmos. Minha opção, consciente, já foi tomada. E a sua?

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Viver

Junho 26, 2009 noite Deixe um comentário

Itaúnas, Espirito Santo por bpwilby 

 Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=esp%C3%ADrito&page=2

VIVER

Na medida em que crescemos, buscamos nossa independência, que associamos e traduzimos como sucesso em termos materiais, o que é uma ilusão. Não crescemos por acumularmos coisas, mas pela nossa capacidade de entendimento de nós mesmos e/ou dos outros, o que implica em aceitação, transigência e sensibilidade para vermos nos outros o que, não raro, ocultamos de nos mesmos.

O exercício da aceitação, contudo, é penoso; preferimos bem mais cultuar nossas idiossincrasias e opor barreiras aos que não pensam ou agem do mesmo modo que nós. Somos sectários. Nosso possível sucesso profissional diz respeito ao mundo das coisas, mas não ao espírito. Confundimos instâncias e papéis sociais. Muitas vezes acreditamos poder usar os mesmos padrões do mundo material em nossos contatos humanos, o que é um erro crasso.

O homem gera o contrato, mas não é o contrato, do mesmo modo que uma obrigação pactuada não é uma obrigação moral, e por aí continuamos de modo ingênuo, arrogante ou pretencioso confundindo comportamentos e necessidades reais e ilusórias. Nos tornamos, finalmente maduros quando, ao longo dos anos finalmente compreendemos o que é realmente importante e o que obedece à mera aparência e conveniência social.

A partir daí, finalmente podemos refletir sobre o mundo das coisas e do espírito, sabendo que, embora ambos se interpenetrem, possuem essências distintas. Só então estamos razoavelmente prontos para a melhor das artes e a mais grata de todas as experiências: viver.

Café da Oca, POA, 23-06-2009

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Perguntas e respostas

Junho 20, 2009 noite Deixe um comentário

 por Dani Pizzo

Fonte:

http://www.flickr.com/search/?q=p%C3%A9rguntas+e+respostas&page=8

Há perguntas que nem sempre são feitas para ser respondidas; somente a experiência pode distingui-las das demais. Algumas são utilizadas como armas, tão-só para desqualificar aquele que deveria respondê-las; na verdade são afirmações ou cobranças disfarçadas com um ponto de interrogação. Sua existência é apenas uma forma de colocar o outro em uma situação de incômodo, de inferioridade, de culpa. Tais perguntas, no fundo, querem simplesmente ferir.

Há respostas complexas, que demandam situações, por vezes delicadas e que, em princípio, não deveriam ser envolvidas na questão; quem responde deve então ter uma perícia muito grande para recortar, do complexo, o que realmente importa e caiba aí, além de uma paciência beneditina para não encalacrar-se, deixando de citar fatos que julgue relevantes, mas que poderiam levar a discussões bem mais largas do que o que a pergunta, maliciosamente, quer saber. Nesses casos, o que mais importa na resposta são os “cortes” que a prudência recomenda.

Mais complicado ainda é você se quem pergunta é um (a) estrategista, pessoa que tem imenso talento para manipular cenários com o objetivo de obter o que deseja. Dá-se, pois, que as complicações muitas vezes são urdidas anteriormente e terminam por constituir um caminho nem sempre bem orientado, ou particularmente desorientado. A pergunta vem como um complemento para trazer maiores desentendimentos.

Recortar um conteúdo não é tarefa fácil e normalmente requer uma experiência bastante grande. Há pessoas que não se satisfazem com o que perguntaram e ficam cada vez mais buscando pontos de atrito, com o fito de poderem então dizer o que realmente pensam. Caberia às mesmas o exercício de pensar antes de perguntar ou simplesmente pensar sobre o que a sua pergunta encerra. Discussões são próprias, mas não quando simplesmente se quer partir de critérios arrogantes para impor sua própria opinião.

O exercício da mediação é quase que impossibilitado quando cremos que temos de defender como um castelo nossos próprios pontos de vista, quando queremos impor aos outros as nossas opiniões, geralmente desqualificando o terceiro para que nos sintamos vitoriosos ou para tentar inculcar um sentimento de culpa em outro, mesmo que saibamos que isso não é real. A deslealdade de uma discussão levantada a partir de prerrogativas infamantes só pode levar ao desrespeito e ao estresse sem sentido.

O que menos importa é a pergunta ou mesmo sua resposta, se partimos do ponto de vista de que possuímos a razão. Qualquer movimento contrário será visto ou como uma defesa indevida, ou como uma queixa inapropriada. O passo seguinte é querer forçar o outro a pensar e a agir de acordo com o que desejamos. Não temos aí uma relação adulta, mas a mera submissão. Submetem-se, em princípio, os que dependem de terceiros e essa dependência pode ser de várias ordens, mas sempre caracterizará a dependência. Há pessoas que se habituam a subserviência de outras, e que, por estarem assim acostumadas, não conseguem ver no outro alguém que se posiciona de modo distinto ao seu.

Trata-se, muitas vezes, de uma postura arrogante, possivelmente de alguém que encarou no mimo a si mesmo uma virtude. Para a mesma não há limites possíveis, mas a simples e comum gritaria que não leva a nada, a não ser ao desrespeito, à quebra de limites e à falta de convivência. Preços altos demais a pagar? Depende da relação que você tem com quem você quebrou os limites.

A pedagogia do silêncio, talvez, seja uma resposta apropriada, não no sentido de afastamento, mas como uma viva recordação de que estamos todos sujeitos a aprender. Nem que tenhamos de nos portar como Sísifos ou que a vida, com sua imensa sabedoria, tome a nós mesmos como aprendizes.

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Paradoxo

Junho 20, 2009 noite Deixe um comentário

♥  MUNDO UNO  ♥ por Tommok

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=mundo&page=7

Talvez em nenhuma outra época tenhamos acumulado tantos recursos científicos, técnicos e de conhecimentos. No entanto admitimos um caos social organizado e consciente orquestrado por parte daqueles que não tem qualquer compromisso senão com sua própria vaidade e egoísmo. Aceitamos pacificamente que pessoas e organizações acumulem riquezas materiais publicáveis apenas em cifras de milhões, de bilhões, assim como o fazemos em relação aos milhões que vivem abaixo da linha da miséria e que não tem acesso à medicina, à educação, à habitação e condições mínimas de cidadania. Continuamos tratando de fontes de reservas animais, vegetais, minerais e do subsolo como se fossem inesgotáveis, quando sabidamente não são. Nunca, por efeito das tecnologias de comunicação, da informática, da medicina, da biotecnologia e da agricultura estivemos tão próximos de conseguirmos solucionar os problemas mais aflitivos que afligem a todos, o desemprego, a violência, o cansaço, a dor e, por outro lado, nunca depredamos tanto, além de demonstrarmos conscientemente nossa indiferença social, cultural, afetiva e financeira em relação ao outro. Somos radicais na preservação dos nossos sítios, mesmo que as raízes plantadas estejam minguando dia-a-dia.

Descartamos valores como solidariedade, maturidade, amizade e compaixão, substituindo-os pela arrogância, pelo dinheiro e pelo consumo. Como desaprendemos a conviver, para quase tudo deve haver uma lei, uma norma, uma regra, uma normatização para regular nossos comportamentos, o que aumenta a sensação de perda de liberdade individual. Para sabermos que não podemos dirigir alcoolizados milhões são mobilizados em campanhas publicitárias para dizer-nos o que já foi ditado pelo bom senso. Admitimos ainda regimes fechados de governo, bem como o jogo sórdido promovido por meios de comunicação. Sabemos definir problemas, mas não temos ética nem respostas institucionais equilibradas para encaminhar as soluções.

O mundo, mesmo assim, progride. Nunca houve tantos hospitais, tanta informação, tantas possibilidades de uma vida com maior qualidade. As organizações sociais, comunitárias e assistenciais se multiplicam. Indústrias criam necessidades artificiais para que nós, consumidores, possamos nos perder em sonhos e cartões de crédito, enquanto campeia a violência e a desumanidade programadas, o que aumenta o cinturão de miséria que a cada dia se torna mais denso, apertando os limites das grandes cidades.

Confiamos em religiões, mas não em nossos vizinhos que, na maior das vezes, desconhecemos. Dizemo-nos civilizados, mas banalizamos a tortura, a guerra comercial e os extermínios étnicos, que, em nome das religiões, são tolerados, incentivados e mesmo banalizados pela imprensa, a mãe de todos nós. Nossa solidariedade termina onde começa nosso interesse. Somos um poço de paradoxos e examinamos nossos umbigos como se o mundo todo estivesse ali, para prestar suas homenagens às nossas frágeis e inconsistentes arrogâncias.

No entanto, continuamos, e as nossas vidas vão construindo pontes entre tais paradoxos e inconsistências. Então nos dizem que o caminho para que consigamos sair destas incongruências é a educação, mas mesmo ela não tem a capacidade de iluminar tanto esta longa estrada. É necessário, além dela, que tenhamos informação, além de uma tábua de valores e de virtudes que não se esgotem e não se esvaiam quando surgem interesses menores.

Hay hombres que luchan un dia y son buenos. Hay otros que luchan un año y son mejores. Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos. Pero hay los que luchan toda la vida: esos son los imprescindibles. Bertold Brecht.

É necessário cultivar a inteligência no sentido civil, não nos alienarmos do que ocorre, não pensarmos que o que acontece além de nós não nos alcançará, mas nos colocarmos na pele daquele que já foi alcançado pelo infortúnio; que não tenhamos medo de contrariar pessoas ou instituições e que busquemos a probidade; que tenhamos coragem para dizer o que é justo mesmo que tenhamos prejuízos com isso. É hora de nos tornarmos mais que homens e mulheres, mas humanos. Somos todos humanos e não podemos compactuar com o vírus paralisante e letal da estupidez.

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Conveniências e realidades

Junho 16, 2009 noite 2 comentários

Estranha Criatura - Construção por José Ferreira 2009

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=ACEITA%C3%87%C3%83O&w=all

Pois, em algum livro de interesse, li que a sala dos professores é um dos locais mais estressantes que existe. Infelizmente a minha experiência me faz concordar com tal assertiva. Há muitos anos lecionando, já perdi a conta de quantas impropriedades, tolices, desmandos e idiossincrasias me brindaram em tal ambiente. Talvez por isso a minha tendência seja a de não permanecer ali nas horas de intervalo. É claro que, ao longo do tempo, algumas raríssimas amizades vão se solidificando. O que ocorre é a proximidade de pessoas que, por se respeitarem, paços de interesses comuns, o que pode ser potencializado e vir a se transformar em algo mais do que o cumprimento de uma agenda profissional. Contudo, isso depende de tempo, de confiança e de um envolvimento todo especial, que não pode ser confundido com conveniências que nada mais são do que os ajustes de interesses, que podem ser mais ou menos nobres, egóicos ou narcisistas, mais solidários ou individualistas até as raízes dos cabelos. De qualquer modo, as conveniências existem e continuarão existindo. Satisfazê-las ou não depende de uma tábua de valores que vamos incorporando ao longo das nossas histórias e, que são elementos constitutivos de nossa personalidade. A questão de fundo é quando você, de modo ostensivo, sacrifica deliberadamente a sua tábua de valores em nome da conveniência, sua ou de outros. Você deixa de ser o que o identifica consigo próprio ou a de outros. Você deixa de ser o que o identifica para ser simplesmente agradável, querido, etc., pelo outro. Você fratura a si mesmo e expõe a sim mesmo, pois, por várias circunstâncias, pretende ser conveniente, azeitado, aceito, por esse outro; você não se sustenta porque renunciou a sua identidade, não coloca seus pontos de vista e sua visão de mundo porque “não vale a pena”. Sua submissão o afoga e você simplesmente esqueceu como nadar ou apenas abandonou a si próprio. O que alavanca esse processo de perda de auto-imagem, em princípio é a conveniência, mas também pode ser o sentimento de culpa, de depressão, de sentir-se vazio, pelo que você busca, para compensar tal situação, naturalizar o que não é de forma alguma natural, mas tão-só ideologicamente construído. Dentro de uma sociedade complexa, vários papéis devem ser exercidos e, para cada um deles, espera-se o desenvolvimento de habilidades específicas: a atenção no caso do aluno, o comprometimento profissional, a perícia em atividades de risco, a prontidão quando necessárias respostas rápidas, e assim por diante. Há papéis sociais, contudo, que exigem mais do que habilidades, mas uma simbiose entre aquelas e o sentimento, o feeling, uma prontidão afetiva, amorosa, que pode mesmo levar a doses mais ou menos razoáveis de renúncias e sacrifícios pessoais. O mais evidente de todos esses papéis é o da filiação. Se você abre mão das suas convicções simplesmente para atender aos desejos dos seus filhos, você deixa de ser pai, passa a ser simplesmente uma pessoa com a qual eles entretêm relações de conveniência. Cabe a você decidir o que fazer. A paternidade – de modo genérico – consciente leva a lidar com múltiplos cenários e com uma carta de valores distintos: amor, ética, compromissos, responsabilidade e educação, cada um significando e sendo significado dentro de uma relação que muitas vezes é confundida com mera conveniência. Sendo tais fatores muito mais que especulações, temos ainda de considerar que vivemos em uma sociedade de consumidores, de alta rapidez e volatilidade, em que conversas necessárias com adolescentes são muitas vezes trocadas por bens materiais, como tênis, viagens, celulares, festas, etc. Mercancia-se com os adolescentes da mesma maneira como mercancia-se com um comerciante o preço de uma camisa. Isso implica em que o adolescente sofrerá uma perda no que respeita aos valores sociais e éticos que teria de desenvolver e seguramente desempenhar quando adulto. O mundo se resolve através da negociação e não através da mediação, o que é um erro. Há valores que não são passíveis de ser negociados; para bom entendedor, há situações e cenários que não se prestam para tanto. De qualquer modo, a conveniência se presta sempre a quem não sustenta a sua posição ou tem interesses em se demonstrar desta ou daquela forma. A conveniência busca a submissão e se alimenta de vagos sentimentos de culpa, reais ou manipulados por terceiros. Ser conveniente é igualmente uma escolha pessoal, que pode ser evitada. Talvez a consideração desses fatos seja uma opção para refletirmos sobre nós mesmos e, especialmente, matutarmos sobre exercermos ou não o direito inalienável de nos respeitarmos, deixando de ser marionetes teleguiados pelo desejo de terceiros.

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Bem vindo à tribo

Junho 15, 2009 noite Deixe um comentário

Ser Diferente..... por Vely***

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=diferente&page=2

Uns dias atrás, mais ou menos um mês, tive uma nova abordagem de um mundo desconhecido. A sensação não foi a de acolhida, senão de estranhamento.  Observei que determinados padrões que não só eu conhecia como tinha ajudado a criar se esboroaram, se perderam nesse novo mundo. Algo assim como você se empenhar em plantar e cuidar de uma ameixeira e, após tanto zelo, colher uvas. Nessa situação você perde a referência do que ajudou a criar, especialmente quando a videira parece gritar: “mas foi você que me criou!”

“ Não, eu não criei uma videira, eu criei você ameixeira, e ameixeiras não produzem uvas”, é o que digo, mas novamente parece que a videira não ouve. Ela insiste, mas nada pode modificar o meu passado, assim como não posso admitir o que não fiz. Mas, por outro lado me parece que isso não importa muito ao mundo que desconheço. Durante muito tempo investi afetividades, amores, carinhos e cuidei da ameixeira e agora ela vem me dizer que é uma videira! Estranho mundo esse, local em que você, sabendo que deve alcançar a nado a outra margem do rio, se joga com vitalidade e força mais do que suficiente para enfrentrar a correnteza, mas a cada braçada que dá, a margem se afasta na exata medida do esforço dispendido.

Os referenciais que você tentou imprimir perderam-se em um processo do qual você não participou. Apenas existem alguns deles, talvez aqueles que alertem a videira que na realidade ela é uma ameixeira, o que ela reluta em aceitar. Ela deixa de existir enquanto algo que foi criado, para se transformar em algo artificialmente manipulado. A questão crucial é que a agora videira, quer convencê-lo de que você deve embarcar no mesmo barco, ou seja, você deve admitir não apenas que a ameixeira é uma videira como ainda comer as ameixas sentindo o sabor de uvas…

Você deve se habituar com um mundo que não é mais o seu, mas que não repõe referências que sejam entendíveis por você. Não há uma interface possível porque estamos lidando com linguagens diferentes e, especialmente com comportamentos que partem de visões diferentes de mundo. Você não tenta ser impositivo e se arrepende na medida em que elegeu tão-só questões argumentativas e éticas para estabelecer as suas relações de autoridade, e percebe que elas não funcionam mais, porque os argumentos, cada vez mais se perdem em uma complexidade diáfana. Tudo, em todos os aspectos se dilui, e você acaba, por fim, entendendo que pertence a uma tribo exógena. Não há mais argumentos porque não há mais idéias a serem pensadas ou defendidas.

A voracidade do consumo, da aparência, da manipulação, do dinheiro, da posição social e do diuturno refazer de papéis sociais simplesmente o cansa. Não se trata, inclusive, de falta de vitalidade para encarar de frente esse novo mundo, mas apenas se trata de falta de vontade de participar dessa mutação adolescente, especialmente se adultos estiverem se posicionando desta maneira. Todos os valores importam, mas alguns muito mais do que os outros, e você os sustenta e mantém. Preso em uma experiência de vida sólida, você não pretende participar desse happening de factóides do dia-a-dia, não precisa mais andar em meio à corda bamba para se fazer respeitado, em trocar de idéia como quem troca de roupa, o que não o faz inflexível, mas experiente. Você já atingiu esse ponto, e o fez independentemente do que você possua em termos materiais. Não precisa mais ser sempre agradável para não desapontar sua mãe, seu pai, seus filhos, sua mulher e assim por diante. Não precisa mais da mutável aparência para ser aceito por a ou por b. Simplesmente você é.

Bem vindo à tribo.

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Perda de tempo

Junho 14, 2009 noite Deixe um comentário

labirinto por medeiros_pl

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=labirinto&page=3

Conversando a gente se entende? Concordo, mas na escola onde trabalho falta muito para conseguir conversar algo que não seja os assuntos circulares e sem futuro, além das reclamações acerca de quase tudo e todos na sala dos professores. Há uma enorme apatia para a discussão de temas relevantes, como, por exemplo, carreira profissional. Assuntos sensíveis sistematicamente não são analisados a fundo. Contudo o fato não pode ser debitado unicamente à direção. A dinâmica, em reuniões é a seguinte:

Primeiro os assuntos administrativos continuam desde sempre tendo prioridade;

Segundo, os assuntos privados continuam furando qualquer pauta, pois qualquer professor se acha no direito de interromper o trabalho proposto para resolver ou discutir os seus problemas o que demanda tempo e paciência de seus pares, mesmo porque assuntos individuais deveriam – é o que diz o bom senso – ser resolvidos em outra instância que não reuniões grupais de professores;

Terceiro, praticamente nenhum assunto é esgotado, porque não existe a cultura de um estudo anterior sobre temas relevantes e então os professores apelam para o famoso achômetro sem qualquer referência que possa colaborar efetivamente para um melhor encaminhamento do assunto;

Quarto, nessa altura da peleia, alguém levanta um caso específico e pronto! os colegas comentam sem qualquer critério além da suas próprias convicções e, num zás! troca-se de assunto, normalmente porque “não se tem tempo” para concluir o tema. Por outro lado cada um que quis ou pode falar fez a sua catarse psicológica e então pode, confortado (a) enfiar sua viola no saco e voltar para os assuntos da vala comum, a saber-se, desde seus achaques pessoais até a vida das suas empregadas ou algum comentário a respeito do nada.

O interessante é que a escola tem duas horas de reunião por semana o que, por baixo, perfaz cerca de oitenta horas em dez meses de atividade. Se pensarmos que são três turnos de atividade, são duzentas e quarenta horas por ano letivo. Não é pouco, então fica claro que o problema não é tempo, mas, de um lado a sua administração e por outro o papel convenientemente passivo dos professores.

Temas como avaliação, questões pedagógicas, carreira profissional, relações com a comunidade, papel dos diversos setores na escola, indisciplina e outros nunca chegam sequer a constituir um mínimo consenso mediado e menos ainda uma orientação clara e unívoca, o que leva a maiores confusões que tendem a fazer com que cada dia de trabalho seja um dia a mais de aventura, de acordo com as circunstância do cotidiano.

Para tanto concorre a alienação de colegas que pensam especialmente em acariciar seus egos, obter vantagens quanto a horários, discutir seus teréns e não dar atenção a qualquer assunto que demande estudo, posicionamento político ou o envolvimento com questões profissionais. Embora uma boa parte tenha qualificação em cursos de especialização e de mestrado, são raros os que se posicionam quando o assunto mereceria intervenções qualificadas, ficando todos reféns de quem grita mais, de quem chora mais, de quem se estressa mais e de quem controla mais os mesmos professores.

Por fim, alguma mente iluminada determina regras, regras e regras que, todos sabemos, existem para serem burladas, desrespeitadas, distorcidas. Por exemplo: não suporto mais ouvir a expressão “regras de convivência” e “direitos e deveres”, quando a escola não possui estrutura suficiente para responsabilizar quem burla tais semânticas lingüísticas. Assim como não suporto mais o psicologismo de colegas que sistematicamente tentam livrar a responsabilidade de alunos com o argumento de que eles “tem problemas”, ao que se segue uma lista infinda de atribulações et caterva.

Realmente um desperdício absurdo, no qual o tempo passa a ter uma valia cada vez menor e a qualificação profissional se perde em meio a uma situação onde a indefinição pedagógica parece ser o bem comum a ser incessantemente buscado.

Sugere-se que:

Primeiro, os professores reflitam sobre a possibilidade de que sua profissão tem um campo teórico próprio, e que conhecê-lo não é nenhum demérito, antes pelo contrário, é necessário para sua prática;

Segundo, que haja uma pauta permanente de estudos a respeito de vários temas que não são passíveis de soluções imediatas, porque são complexos, a ver: avaliação, currículo, relações ensino-aprendizagem, maximização dos recursos da escola, investigação sistemática sobre o plano de carreira, influência de empresas privadas sobre a vida dos profissionais da escola, plano político pedagógico, relações institucionais com a provedora, estudos sobre os conselhos de classe e encaminhamento das questões que prevêem retenção ou promoção de alunos, registros, tratamento de questões funcionais, relações com a comunidade, forma de atuação pedagógica e muito mais;

Terceiro,  que procure se objetivar as falas dos professores e que eles se comportem em respeito aos seus pares como gostariam de ser respeitados e que aprendam a escutar, a refletir não com base nas suas opiniões pessoais, mas à luz do que estudaram, utilizando argumentos que não sejam dispersivos, passionais ou simplesmente tolos;

Quarto,  que não se perca tanto tempo com questões administrativas. Não adianta haver uma pauta se ela simplesmente não é cumprida. Não adianta haver pautas que não tenham a ver, em primeiro, com as aflições dos alunos e dos professores, com as suas necessidades prementes;

Quinto,  que se proponha, se reconheça e se implemente uma cultura política na escola, de modo que a mantenedora também seja cobrada, responsabilizada e pressionada acerca do que faz ou do que deixa de fazer, deixando a escola de ser uma mera caixa de ressonância do que encaminha a secretaria municipal de educação, passando a constituir uma identidade própria e afinada com sua visão de educação.

 

 

CategoriasEducação

Imbroglio

Junho 14, 2009 noite Deixe um comentário

Dr. Bogéa por Guilherme Kramer

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=confus%C3%A3o&page=7

Há pessoas que sentem prazer em incomodar, aborrecer os outros e não deixá-los trabalhar. Há todo um cinismo concatenado aí, de todo modo buscando desestabilizar um quadro que deveria ser mais ou menos harmonioso. Em sala de aula, os movimentos são cíclicos mas os comportamentos, previsíveis. O start desses hábitos podem ter iniciado há muito tempo, mas continuam do longo de todo um processo que deveria ser de aprendizagem; como esta não ocorre unicamente na escola, compreende-se que os mesmos são culturalmente estruturados ao longo de uma história pessoal. Não é obra de ficção, mas a realidade de cada qual é trazida à baila no processo educacional formal. Em suma, as pessoas repetem padrões. Poderão ou não aprender com eles, mas isso dependerá não apenas de tal reconhecimento, mas de situações que possam ou não ser apreciadas ou que as levem para alguma posição melhor do que a que se encontram, a partir do próprio conhecimento dos mesmos padrões, o que forçosamente se dá a partir de seu autoreconhecimento e da melhoria de sua autoestima.

Os padrões de comportamento influenciam na própria possibilidade de aprendizagem. Cada vez mais os professores tem de adotar posturas de autoridade para poderem trabalhar, pois as demais instâncias que poderiam ter peso de orientação no aprendizado se omitem, sendo massa de manobra nas mãos de filhos, especialmente de adolescentes que atravessam essa fase de vida sem um referencial consistente no que respeite a valores que deveriam ser adquiridos seja através da família ou da comunidade onde transitam. Adolescentes simplesmente se autodeterminam com base na resistência ou na omissão aos papéis sociais e familiares; sobra portanto, ao professor, o papel psicológico de corte, que deveria ser exercido pelo pai.

Por outro lado, o professor passa a ler sua imagem colada a uma autoridade que tanto os adolescentes querem negar quanto a papéis que esses mesmos profissionais não vêem como cumprir, nem tem desejo de que isso ocorra. O papel profissional do professor escorrega, então, para uma perigosa relação falsamente familiarizada e que não raro se torna artificiosamente naturalizada na medida em que aquele aceite epítetos como “tio”, “tia” ou se porte como se coubesse a si papéis sociais eminentemente paternos. A aceitação do professor passa a ser identificada com uma dose dupla de autoridade: a dos pais, que os adolescentes aprenderam a mitigar e manipular e aquela que deriva de um conhecimento curricular, que, para o bem ou para o mal, pouco interessa a muitos dos seus alunos, imersos em um mundo no qual dinheiro, consumo, sexo e poder foram elevados a uma condição suprema. De todo o professor vê a sua imagem profissional associada à repressão, especialmente em relaçâo àqueles que se habituaram a viver uma violência objetiva ou simbólica.

Nesse quadro, devemos admitir, por forçoso, que a escola igualmente produz violência simbólica, por um lado, e muitas vezes se omite quando há violência física. Ao proceder desse modo, simplesmente torna ainda mais exacerbado valores que tendem a redimensionar a incapacidade à sociabilidade, à convivência e à criação efetiva de um ambiente educador. Em tal cenário, aqueles alunos que buscam conhecimento na escola, assim como seus professores, tornam-se reféns de um ambiente no qual valores como ética, solidariedade, respeito ao outro, cidadania e polidez simplesmente foram volatizados pela estupidez de uma cultura que torna os homens cada vez mais ignorantes em relação a si mesmos e mais predadores em relação à comunidade que habitam. Há uma circulação cada vez mais densificada de critérios que apontam para uma negatividade no convívio social, o que obriga a que, bem prematuramente, violências sejam suportadas, máscaras sociais sejam empunhadas e, dentro de um processo de injustiça inominável, se aprofundem fossos entre aqueles que deveriam teoricamente buscar o conhecimento para uma melhoria cultural e aqueles que ali estão para, igualmente de modo teórico, serem vetores de tal processo. A estigmatização é real e, se de vez por todas, as influências extra muros ingressaram nas escolas, estas se quedam por aí, paralizadas ante um mar normativo e positivista ao qual interessa bem mais o assistencialismo e os métodos de contenção social do que os parâmetros de aprendizagem que deveriam presidir os movimentos das escolas.

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Dias e noites

Junho 10, 2009 noite 2 comentários

São Paulo, inicio de noite ... por João Paulo Cauduro Filho

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=noite

O dia é a indústria, é o empreendimento, é a fábrica, é o movimento; a noite não, a noite é a entrega, o tempo passando devagar, como biologicamente ele se fez, e não um tempo de horário de verão. A noite não é apenas um passar de horas, a noite é a própria hora a partir dos seus momentos de devaneio, de criatividade, de impulsividade.

A noite revela os monstros e os bons; ela os absorve e os recebe na sua rede de estrelas. O dia não. O atavismo do dia é engolfar-se em si próprio, reto como uma lâmina. A noite? Ah, essa é curva, incerta, mal-sabida e mal-dormida. A noite é para poucos, o dia, para todos.

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