A +! Limites, valores e ética – Yves de la Taille


Etica. por heatseeker_86

Fonte: http://www.flickr.com/search/?w=all&q=etica&m=text#page=7

Yves De La Taille, professor de psicologia da USP, fala sobre a falta de limites, valores e ética na escola

Sexta-feira, 13 de dezembro de 2002

Entrevista concedida ao jornalista  André Henriques, do Diário do Grande ABC

DIÁRIO DO GRANDE ABC – Coordenação pedagógica – Luciana Hubner Textos – James Capelli Diário na Escola – Santo André é um projeto do Diário em parceria com a Secretaria de Educação e Formação Profissional de Santo André. Fale com @ gente lhubner@diarionaescola.com.br Tel: 4433-0703

As crianças hoje estão sem limites? Para muitos professores não há dúvida para responder a essa questão: aparentemente, os alunos de agora são mais indisciplinados. Para o psicólogo Yves De La Taille, professor do departamento de psicologia da aprendizagem do desenvolvimento da personalidade, da USP, essa aparente falta de limites está ligada a uma série de fatores.

“Vivemos um período de transição, no qual valores antigos deixam de existir e faltam novos. Há uma ausência de utopias e exacerbado consumo. As fronteiras da família estão pouco delineadas”, disse. Ele também acrescentou que nessa época de globalização, até os limites geográficos, políticos e econômicos estão frágeis.

 “Um fato que acontece no Oriente Médio ou nos Estados Unidos, mexe conosco, pois repercute diretamente em nosso cotidiano.”

Além disso, de acordo com o Yves, vivemos um período de anomia (ausência de normas).

“É comum um cidadão ao ser pego fazendo algo de errado, justificar-se dizendo: todos fazem isso mesmo…”.

E para completar a reflexão sobre o ciclo social que leva ao comportamento das crianças de hoje, Yves afirmou que a sociedade necessita redefinir o conceito de felicidade.

“Atualmente, este conceito se confunde com consumo e glória, denotando um grande vazio ideológico das pessoas. E esse fato pode ser gerador de violência quando alguém de uma camada com menor poder de consumo, pratica ato violento para conseguir um bem e se sentir alguém.”

Portanto, num mundo sem limites e valores, as crianças também sofrem os efeitos. Porém, o psicólogo ressaltou que, sob o ponto de vista do desenvolvimento, as crianças ainda são as mesmas de décadas atrás.

“O meio ambiente não pode ter um peso tão excessivo assim para mudar as fases de desenvolvimento”, afirmou.

Para ele, o que ocorre é que as crianças atualmente recebem muito mais informações que são fatores geradores de valores. Por isso, precisam ter uma capacidade superior de organização diante de tanto conhecimento. Dentro das etapas do desenvolvimento, Yves explica que a fase que vai dos cinco aos nove anos é o período fundamental no desenvolvimento moral da criança. Durante esta etapa, o papel dos professores, junto com os pais, é de referência na construção do mundo dos valores, pois as crianças estão atentas ao comportamento e atitudes dos adultos.

“Os valores éticos e morais precisam ficar claros. Não podem ser confusos ou inexistentes”, disse. Segundo o especialista, esse momento da infância é essencial na construção da ética do indivíduo adulto. De acordo com Yves, os meios de comunicação também influenciam a construção dos valores dos pequenos.

“Diante da tevê, do noticiário, dos desenhos, dos programas de auditório, a criança se pergunta: que sociedade é essa?” Por tudo isso, o psicólogo ressaltou ser fundamental que a escola discuta valores com os alunos da educação infantil, que estão com cinco ou seis anos.

“É preciso discutir sobre o certo, o errado, sobre o que é ser uma boa pessoa. Mas com diálogo e não de maneira dogmativa, com imposições. Também é preciso muito cuidado ao qualificar os valores que definem o que é ser um bom menino”, afirmou. Uma recomendação de Yves é que os educadores de ensino infantil explorem as histórias que contam para os alunos. “

As fábulas são ricas em personagens carregadas de virtudes e vícios que podem proporcionar ótimas conversas com a classe”, disse. Para o psicólogo, na prática, a escola não tem tratado de ética, cidadania e valores como poderia fazer.

“A escola não tem a consciência de criar um cidadão com valores. Ela está mais preocupada em formar profissionais para o mercado de trabalho ou preparar o aluno para passar no vestibular”.

Yves disse acreditar que, para mudar essa realidade, os responsáveis pela educação precisam deixar claro para alunos, pais, professores, diretores quais são os princípios que regem a filosofia da escola. “Nada além de dois ou três princípios. Sem confundir princípios com regras. Por exemplo: convivência com respeito é um princípio. Não usar o telefone celular durante o intervalo para incentivar a convivência com os colegas da escola, é uma regra”, explicou.

De acordo com o psicólogo, muitas escolas falam em princípios, mas não os têm. Só criam regras sem explicar claramente como elas preservam e incentivam os princípios. Além disso, ele afirmou ser fundamental um bom trabalho de equipe dentro do estabelecimento de ensino para que realmente haja transversalidade nas ações da escola.

“Não basta um professor ter iniciativas relativas à discussão da ética dos alunos. Precisa haver um trabalho bem elaborado que encampe todos os profissionais e diversas disciplinas.”

Virtudes como honra, coragem, fidelidade, amizade, também devem ser estimuladas e exploradas como temas transversais dentro do currículo escolar.

“Para que as crianças percebam que esses valores devem estar presentes em todas as matérias e em todos os momentos da vida”, disse. Para concluir, Yves afirmou que a escola é a instituição com maior poder para resgatar valores éticos e princípios.

“Ela congrega toda a sociedade. A maioria das pessoas tem alguma ligação com a escola. Ou é aluno ou pai, mãe, professor, parente de educador. A escola poderia ter papel de liderança, mas vive com excesso de timidez.”

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4 thoughts on “A +! Limites, valores e ética – Yves de la Taille

  1. Assisti vc hoje no café filosofico e o tema peregrino ou turista me foi muito util, embora tenha algumas questoes mas nãohá possibilidade de nós conversarmos. Infelizmente. Te admiro e o que vc fala tem tudo a ver. priscila

    1. Ei, Priscila, um grande abraço! Mas é preciso dizer que há um certo mal entendido aí. Você não me viu no café filosófico,; deve ter visto o Yves de La Taille, o que deve ter sido ótimo. Apenas publiquei um trabalho do mesmo no meu blog, BLOG DO BESNOS. Eu já tive o prazer de assistí-lo aqui em Porto Alegre, em uma palestra promovida há uns seis anos pela Secretaria Municipal de Educação, e fiquei tão encantado quanto você. Assim, procurei publicá-lo no blog.

      De todo modo, espero que o blog tenha lhe agradado, e convido-a a continuar com sua visita e comentários. Tenho certeza que você gostará. Escrevemos sobre diversos temas, em especial contos, comportamento e educação. Receba um grande abraço,

      Hilton

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