Capitalismo, cultura e comunicação de massa


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Capitalismo, Cultura e Comunicação de Massa: as inter-relações no campo de batalha ideológico

Gabriel Besnos

O hábito pode levar ao esquecimento. A repetição contínua e cotidiana de certas rotinas reflete dimensões de um sistema histórico das quais nem sempre tomamos plena consciência. A automatização de algumas práticas sociais do dia-dia parece nos fazer crer que as coisas sempre foram como aí estão, quando na verdade elas são efeitos de uma determinada organização e concepção de mundo. O simples ato, impensado, de passar a roleta de um ônibus – e pagar por isso – é um sinal de que todos os nossos movimentos estão pré-condicionados a normas e conhecimentos culturais adquiridos em nossa formação social. Passar uma roleta não é inerente à natureza humana, mas sim uma ação condicionada por um conjunto de valores constitutivos de uma lógica: a lógica de um sistema, no caso o capitalismo. Esses condicionamentos indicam que existe neste sistema um alicerce para além da economia e da política.

Situações como “pagar a passagem do ônibus” fazem parte de uma regulação normativa da sociedade, que orienta as condutas sociais num sentido que as ordene, que as torne condizentes com os valores de convivência e coexistência no mundo capitalista. Outra maneira de regulação são classificações binárias, entre as inúmeras possibilidades de condutas sociais, do que é “bom” ou “ruim”, “aceitável” ou “condenável”, “normal” ou “anormal”. Também esta regulação da sociedade atua na construção de um certo “comportamento social padrão”. Ainda uma terceira forma de regulação, que ormalmente é acompanhada de resistência e conflito, diz respeito a tentativas localizadas de romper com um determinado modo de fazer as coisas em favor de outro que seja considerado pela autoridade (ou pela maioria) local mais interessante. Aí há uma substituição deliberada, consentida ou não, de alguns valores e significados por outros.

Todas essas formas de regulação da vida social se dão através da manipulação da cultura. A cultura é justamente a síntese dos valores que alicerçam um sistema, é uma soma de ações (no plano real) e de formações discursivas (no plano simbólico) em uma determinada conjuntura, em um contexto histórico específico (o capitalismo, no nosso caso). Qualquer prática social pressupõe condições culturais e discursivas que lhes atribuem significado. No artigo “A cultura como campo de batalha ideológico do sistema mundial moderno”, Immanuel Wallerstein afirma que “a cultura, isto é, o sistema de idéias da economia mundial capitalista, é o resultado das nossas tentativas históricas coletivas para entrar num acordo com as contradições (…) deste sistema particular”. Segundo o autor, a cultura como instrumento de contenção das contradições sistêmicas recebeu dois significados. O sentido I refere-se à cultura como conjunto de características atribuídas aos diferentes grupos a fim de diferenciá-los uns dos outros. Por esse raciocínio, uma mesma pessoa pode participar de “culturas” múltiplas e multifacetadas. Já o sentido II do termo cultura vincula-se a uma percepção de que existe uma hierarquia intragrupal: superior e inferior. Esta lógica fundamenta, por exemplo, a oposição que vemos e fazemos entre as artes “superiores” e a prática cotidiana. A cultura no sentido II não distingue os grupos entre si, mas os indivíduos dentro de um mesmo grupo. Essas duas definições de cultura são importantes porque sustentam o ziguezague ideológico entre teorias universalistas e racistas-sexistas que, num par simbólico, formularam as respostas históricas da sociedade às contradições do capitalismo. Mas que contradições são essas?

Wallerstein faz um levantamento de seis características contraditórias do capitalismo, e aponta como o universalismo e o racismo-sexismo atuam na contenção destas contradições a partir da manipulação da cultura. Essa centralidade que Immanuel Wallerstein confere à questão cultural na análise do capitalismo e seu modus operandi – verificada também em outro teórico que dá sustentação a este trabalho, Stuart Hall – o inscreve como crítico de um certo reducionismo materialista que ameaçou dominar as discussões nas ciências sociais durante um longo período.

A primeira característica do capitalismo é a existência de uma única divisão do trabalho, que submete diferentes culturas (no sentido I) a uma rede interestados, enredando sociedades absolutamente distintas num sistema de produção de bens, de trocas de capital, de investimento, de comércio, de serviços. Essa expansão em escala global, claramente universalista, encoberta a existência de uma hierarquia interestados (entre as culturas no sentido I) e intraestados (entre as culturas no sentido II), que se nutre da ideologia racista-sexista. Não se pode esquecer que, na formação universalista dos estados nacionais, diferentes (e às vezes antagônicas) culturas (no sentido I) foram colocadas “num mesmo saco”. Em nível local e mundial, portanto, percebem-se relações assimétricas. A união econômica entre os estados no capitalismo é comandada pelas nações desenvolvidas e justificada pela ideologia universalista, mesmo submetendo e gerando miséria à grande maioria das nações, subdesenvolvidas. A hierarquia entre as diferentes culturas (sentido II) dentro de um mesmo estado, seja ela por classe social, etnia, cor da pele, são justificadas historicamente por ideologias racistas-sexistas. A primeira contradição apontada por Wallerstein acerca do capitalismo é justamente o fato de as pressões econômicas serem majoritariamente internacionais e as políticas pontos nacionais. Como as ações podem ser explicadas e justificadas nestes dois níveis? Através do emprego das ideologias universalistas e racistas-sexistas, simbioticamente.

É importante salientar que a expansão do capitalismo está sustentada por um movimento mundial da informação, que confere aos meios de comunicação de massa um papel infra-estrutural no sistema. A mídia é uma das mais poderosas ferramentas de expansão do capitalismo, e portanto um veículo das ideologias que fazem a contenção das contradições do sistema, o universalismo e o racismo-sexismo.

Lembrando os teóricos da Escola de Frankfurt, com seu conceito de Indústria Cultural, os meios de comunicação de massa são responsáveis pela produção em série de bens culturais para satisfazer de forma ilusória necessidades geradas pela estrutura de trabalho. A Escola de Adorno, Benjamin, Habermas, Horkheimer, interpreta a mídia como expressão de um objetivo estrutural e sistêmico, a economia mundial capitalista, atuando em nível de dominação simbólica – através da educação, do lazer, da cultura.

Sobre esta primeira característica apontada por Wallerstein com relação ao capitalismo – a formação de uma malha interestados -, a Indústria Cultural tem larga atuação. Onipresentes, os meios de comunicação de massa estruturam-se em grandes redes que detêm o monopólio da informação. Multinacionais como Time Warner, Walt Disney, News International, transmitem ao mundo as mensagens oficiais, ou seja, aquelas que são ou do interesse ou retrato de uma concepção de mundo dos países desenvolvidos. Ainda que haja resistência interna nos países, a força econômica das grandes agências de notícias ou dos impérios de entretenimento, somada à fraqueza e dependência da maioria das empresas de mídia locais / regionais, acabam consolidando uma fonte única de informação, que atinge a ampla maioria da população.

A segunda contradição apresentada por Wallerstein diz respeito ao sentimento de populações incorporadas pelo capitalismo em seu processo cíclico de expansão e contração: a adesão ao sistema dominante é uma modernização ou ocidentalização? Será manejando a cultura através de formações discursivas que o universalismo considerará o mundo ocidental a fonte da verdadeira modernidade – impondo suas religiões, sua linguagem ou sua tecnologia -, e o racismo-sexismo irá se manifestar pelo desprezo das nações desenvolvidas aos países (e às culturas) que rejeitarem a ocidentalização / modernização.

Neste caso, a manutenção ou homogeneização das identidades culturais nas diversas nações é o foco central da contradição capitalista. De acordo com os frankfurtianos, a Indústria Cultural realiza o segundo movimento, a partir de uma cultura dominante. Exemplo deste processo é o cinema norte-americano, ícone de um processo comumente chamado de McDonaldização do mundo, porque despeja por todos os cantos do globo não só os bens de consumo, mas ícones, culinária, entretenimento e estilo de vida dos Estados Unidos da América. Esta tendência fica bastante esclarecida na colocação de Stuart Hall em “A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo”:

“Os efeitos do processo de ‘globalização’ – enfraquecendo a relativa autonomia dos estados nacionais na determinação das políticas culturais em seus próprios territórios soberanos e aumentando as pressões por políticas do tipo ‘céu aberto’, de internacionalização dos mercados culturais – têm tido um papel cada vez mais significativo, uma vez que está ocorrendo uma tendência, à qual não se tem dado muita importância, de retomada da monopolização pelas transnacionais globais.”

Eixo principal da economia mundial capitalista, a acumulação infindável de capital é apontada por Wallerstein como uma terceira característica do sistema, responsável por situações em que, apesar da lógica vigente ser de defesa dos auto-interesses, o empregado deve sempre se sujeitar à busca incessante de seu patrão por saldos positivos, aliando trabalho mais árduo e salário mais reduzido. Esta contradição evidente do modo de produção capitalista é contida pela tentativa de ideologizar a desigualdade e a assimetria, a partir de um discurso baseado no mérito universal do trabalho árduo, componente bastante visível da cultura ocidental, que cria no imaginário coletivo a percepção de sucesso e realização pela mobilidade social. Esta faceta da cultura ocidental é amplamente difundida através dos meios de comunicação de massa, em seu jornalismo, em sua dramaturgia. O racismo-sexismo, quando usado, associa a baixa remuneração ao “padrão inferior” de cultura (sentido II) do grupo discriminado.

O progresso é inevitável, custe o que custar. Alto valor do capitalismo, a tecnologia alimenta a necessidade permanente de mudanças no sistema de produção. A mesma modernidade que nutre o sistema lhe é uma ameaça, na medida em que coloca em risco a legitimidade das suas autoridades, historicamente calcadas na tradição, na antiguidade; aí reside a quarta contradição estudada por Wallerstein. O apelo universalista nesses casos é para a revolução necessária, o desenvolvimento nacional, quiçá um “espetáculo do crescimento”. Já o racismo-sexismo fica arraigado na postura patriótica, dificilmente não experimentada por algum país.

A Indústria Cultural atua também de forma isolada nos seus países, apesar de o foco dos estudos frankfurtianos estarem numa teoria crítica da comunicação de massa em escala global. São notáveis os casos de alinhamento (ou não) dos meios de comunicação de massa com os governos locais e sua capacidade, através de padrões de manipulação da grande imprensa, de legitimar posturas favoráveis ou contrárias às autoridades em questão. A mídia é constantemente um poderoso instrumento de que políticos lançam mão para sua permanência ou alçada ao poder, em todos os países.

No estudo das mass media, posteriormente a Adorno, Benjamin, Horkheimer, os estudos de recepção darão atenção não só ao emissor. Teóricos como Jesús Martín-Barbero deslocam o olhar para o receptor, usuário dos meios, capaz de processar as informações de múltiplas maneiras, inclusive como elementos constituintes de uma identidade cultural (patriótica, por exemplo). O foco deste trabalho, no entanto, está na Indústria Cultural frankfurtiana, sobretudo a teoria crítica de Adorno, e as suas relações com o capitalismo e a cultura.

Quinta característica do capitalismo, a polarização é uma das faces mais cruéis do sistema – e também uma das mais visíveis. O acúmulo de riqueza por uma minoria e o empobrecimento da grande massa populacional do globo é o retrato acabado da assimetria do sistema mundial moderno. O princípio capitalista é crescer, expandir; Immanuel Wallerstein afirma que “todos os parâmetros absolutos assumiram, com o tempo, a forma de uma projeção linear ascendente. Desde o início, a economia mundial capitalista tem tido cada vez maior atividade produtiva, cada vez maior produção de ‘valores’, uma população cada vez maior, invenções cada vez mais numerosas”. Esta riqueza superlativa não é traduzida, no entanto, em melhoria generalizada das condições de vida da população mundial, porque a renda está concentrada. A contradição está no contraste que o sistema capitalista produz entre o “luxo” e o “lixo”: a opulência do capital em oposição aos bolsões de miséria, à fome, à violência crescente que é fruto da concentração de renda.

A realidade empírica é crua: o capitalismo não apresenta nada em termos sociais que não um abismo cada vez maior entre ricos e pobres. Já a ideologia oficial universalista encarrega-se de difundir o “desenvolvimentalismo”, para legitimar a polarização através de um discurso frágil de que todos os estados tem a possibilidade de desenvolver-se. A partir deste ponto, revelam-se os rasgos racistas-sexistas da ideologia oficial, tecidos na afirmação de que o “atraso” de alguns estados é uma recusa voluntária dos mesmos à modernidade. Nações desenvolvidas passam a servir de modelo para as subdesenvolvidas (que vivem momentos históricos e possuem culturas – no sentido I – radicalmente diversas, na maioria das vezes).

Ancorada no sucesso das potências mundiais, a Indústria Cultural faz o proselitismo capitalista. Imagens, textos e sons vendem a cultura “empreendedora” das nações vencedoras, a propaganda do sistema, a exemplificação do estado rico possível no mundo moderno, através de manifestações seguidamente triunfalistas (caso notório de algumas películas hollywoodianas). Também visões racistas têm grande circulação nos meios de comunicação de massa dominantes, instrumentando a ideologia oficial com seus bens culturais. Claro, há tecnologia de mídia para todos os lados. TVS orientais travam seu embate com o ocidente, veículos ocidentais aderem ao anti-americanismo. Também caberão ideologias racistas-sexistas nessas empreitadas. Há espaço para muita informação, mas também há domínio do mercado global, há constrangimento econômico. Principalmente, há uma maioria sendo atingida pelas mensagens prontas dos estados pujantes.

O último ponto de Wallerstein na caracterização do capitalismo é a sua condição de sistema histórico, sujeito a um ciclo de vida. A característica sui generis desse sistema, contudo, é a acumulação infindável de capitais, que pressupõe uma possibilidade ilimitada de expansão. Mesmo assim, a decadência foi um sentimento experimentado inclusive pelos países mais ricos e poderosos. O autor pondera que deve-se encarar a possibilidade de morte do sistema mundial e o declínio de países em escala local, apresentando também a forma de ação das duas ideologias conservadoras na negação deste processo.

Conservadores racistas-sexistas atribuirão a decadência a uma liderança incapaz transitória ou, no caso de morte definitiva, ao poder em demasia delegado à grupos de cultura inferior (no sentido II). Universalistas tratarão de denunciar o igualitarismo intelectual e negarão a autoridade da elite científica. Wallerstein também aponta para a possibilidade de ideologias progressistas que saudariam a morte como transição: na versão universalista, ela é inevitável, na racista, uma retomada dos grupos superiores.

Para a morte do sistema capitalista a Indústria Cultural não parece oferecer muitas respostas. Denúncia de uma época, a Escola de Frankfurt transformou as suas teorias sobre os meios de comunicação de massa também em um movimento anti-sistêmico, de grande alcance no meio acadêmico. Os media foram atrelados ao mundo administrado do capitalismo (expressão cunhada por Adorno), como ferramentas de sua dominação sobre o indivíduo no campo simbólico, discursivo, cultural. Independentemente da atualidade ou não das teorias conspiratórias frankfurtianas, elas constroem a base para a percepção de que entender o sistema mundial moderno passa pelo estudo crítico da Comunicação de Massa: onipresente, sustentáculo das trocas de informações, símbolos, mensagens e discursos no sistema capitalista. A Escola de Frankfurt apresentou teorias que convergem em muitos aspectos com a concepção que Imannuel Wallerstein atribui a cultura. O campo de batalha ideológico do sistema mundial moderno é espelho das tentativas de construção do sonho liberal – reflete as ideologias que se defrontaram para acomodar as contradições do sistema, o mosaico das experiências coletivas, as normas, as formulações simbólicas do mundo capitalista.

Na “Dialética do esclarecimento”, Adorno e Horkheimer denunciam a racionalidade contemporânea instaurada na ciência, na indústria, na organização política e moral, a fim de revelar que o nazi-facismo é inerente ao processo de modernização burguesa. Esta intenção foi uma bandeira dos pensadores de Frankfurt. Percebe-se aí, por exemplo, uma aproximação clara com Immanuel Wallerstein, que coloca a ideologia racista-sexista não como mero fenômeno político, mas elemento constitutivo do sistema capitalista, em um par simbólico com o universalismo.

Para Immanuel Wallerstein, o sonho liberal é universalista, preconiza a ciência e a assimilação política, e a globalização vigente é um reflexo de que movimentos sistêmicos e anti-sistêmicos atuaram ao longo da história (conscientemente ou não) para sua realização. Todas as alternativas de defesa (contra suas próprias contradições e contra as conjunturas) parecem contempladas pelo sistema capitalista. As experiências históricas totalitárias, o nazi-facismo, as ditaduras latino-americanas, foram respostas que o próprio sistema arregimentou para conter suas contradições, através da ideologia racista-sexista.

Sistema excludente, o capitalismo apóia-se enormemente na cultura para existir e resistir aos seus percalços cíclicos. Pode-se dizer que o sistema mundial moderno é constituído de uma economia mundial capitalista e de uma cultura mundial capitalista, ou seja, de um sistema de idéias, de um “campo de batalha ideológico” próprios, nas palavras de Immanuel Wallerstein. Capitalismo, para além de qualquer reducionismo materialista, é também discurso.

“Não deve nos surpreender, então, que as lutas pelo poder sejam, crescentemente, simbólicas e discursivas, ao invés de tomar, simplesmente, uma forma física e compulsiva, e que as próprias políticas assumam progressivamente a feição de uma ‘política cultural’.”

(HALL, Stuart in A centralidade da cultura)

Referências Bibliográficas:

1. WALLERSTEIN, Immanuel. A cultura como campo de batalha ideológico.

2. HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo.

3. ADORNO, Theodor e HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos.

4. RAMONET, Ignacio. A Tirania da Comunicação.

5. BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão.

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