Elaboração para projetos de pesquisa


FAPA  – NÚCLEO INTEGRADO DE PÓS-GRADUAÇÃO – ESPECIALIZAÇÃO EM SUPERVISÃO EDUCACIONAL

ORIENTAÇÕES PARA ELABORAÇÃO DE PROJETOS DE PESQUISA

Prof. Ms. Rudimar Serpa de Abreu (organizador)

Porto Alegre, julho de 2004.

  

APRESENTAÇÃO

           Atualmente os cursos de pós-graduação em nível de especialização solicitam aos alunos a realização de monografias. Em função disso, a disciplina de Metodologia da Pesquisa, do Curso de Especialização em Supervisão Educacional – 2004, tem como um de seus objetivos orientar os acadêmicos na elaboração e montagem de um projeto de pesquisa, o qual resultará no trabalho final – a monografia*.

            Inicialmente é fundamental que se compreendam o significado dos termos projeto e pesquisa.

            A palavra projeto incorpora a idéia de planejamento de uma ação. Traz em si uma concepção de futuro, ou seja, de algo que vai acontecer. Portanto, é planejar para o futuro. Pesquisa, de um modo geral  é a produção de conhecimento, uma ação para se buscar uma resposta a determinadas perguntas.

            A elaboração do projeto de pesquisa é o primeiro momento da pesquisa. Após a conclusão do  projeto de pesquisa, o acadêmico deverá realizar o trabalho que é denominado trabalho de campo, de acordo com o planejado no projeto. Finalizado este momento, deverá organizar e analisar os dados levantados ou coletados. E, para comunicar os resultados do estudo, deverá elaborar um relatório de sua pesquisa – monografia.

            Bom trabalho…

A CONSTRUÇÃO DO PROJETO

Quando escrevemos um projeto, estamos mapeando de forma sistemática um conjunto de recortes. Estamos definindo uma cartografia de escolhas para abordar a realidade (o que pesquisar, como, por quê). Esta etapa de reconstrução da realidade, entendida aí enquanto a definição de um objeto de conhecimento científico e as maneiras para investigá-lo, traz em si muitas dimensões. Ao elaborarmos um projeto científico, estaremos lidando, ao mesmo tempo, com pelo menos três dimensões importantes que são interligadas.

A dimensão técnica trata das regras reconhecidas como científicas para a construção de um projeto, isto é, como definir um objeto, como abordá-lo e como escolher os instrumentos mais adequados para a investigação. Sendo que técnica sempre diz respeito à montagem de instrumentos (Demo, 1991), o projeto de pesquisa é visto neste sentido como um instrumento da investigação.

A dimensão ideológica  se relaciona às escolhas do pesquisador. Quando definimos o que pesquisar, a partir de que base teórica e como pesquisar,  estamos fazendo escolhas que são, mesmo em última instância, ideológicas.  A neutralidade da investigação científica é um mito.

Não estamos, é certo, nos referindo a uma visão maniqueísta, onde o pesquisador reconstrói a realidade com “segundas intenções políticas”. Estamos, sim, falando de uma característica intrínseca ao conhecimento científico: ele é sempre histórico e socialmente condicionado. O pesquisador opera escolhas (mesmo sem ter a percepção clara disto), tendo como horizontes sua posição social e a mentalidade de um momento histórico concreto.

A dimensão científica  de um projeto de pesquisa articula  estas duas dimensões anteriores.

A pesquisa científica ultrapassa o senso comum (que por si é uma reconstrução da realidade) através do método científico. O método científico permite que a realidade social seja reconstruída enquanto um objeto de conhecimento, através de um processo de categorização (possuidor de características específicas) que une dialeticamente o teórico e o empírico.

 

O que é um projeto de pesquisa?

Fazemos um projeto de pesquisa para mapear um caminho a ser seguido durante a investigação. Buscamos, assim, evitar muitos imprevistos no decorrer da pesquisa que poderiam até mesmo inviabilizar sua realização. Outro papel importante é esclarecer para o próprio investigador os rumos do estudo (o que pesquisar, como, por quanto tempo, etc.). Além disso, um pesquisador necessita comunicar seus propósitos de pesquisa para que seja aceita na comunidade científica e para obter financiamentos. O “meio de comunicação” reconhecido no mundo científico é o projeto de pesquisa. Através deste, outros especialistas poderão tecer comentários e críticas, contribuindo para um melhor encaminhamento da pesquisa. É importante lembrarmos que a pesquisa científica engloba sempre uma distância coletiva de reflexão.

Ao alcançarmos a forma de projeto, o pesquisador já empreendeu alguns esforços anteriores (Holanda, 1975): a) Estudos preliminares, cujo objetivo maior é a definição do problema, possibilitando ao investigador perceber os alcances e limites da pesquisa proposta; b) Realização de um anteprojeto, isto é, um estudo mais planejado dos aspectos que comporão a pesquisa, definidos de forma mais ampla, sem grande rigor ainda.

O projeto de pesquisa deve, fundamentalmente, responder as seguintes perguntas (Barros e Lehfeld, 1986; Rudio, 1986):

  • O que pesquisar? (Definição do problema, hipóteses, base teórica e conceitual);
  • Por que pesquisar? (Justificativa da escolha do problema);
  • Para que pesquisar? (Propósitos do estudo, seus objetivos);
  • Como pesquisar? (Metodologia);
  • Quando pesquisar? (Cronograma de execução);
  • Pesquisando por quem? (Equipe de trabalho, pesquisadores, coordenadores, orientadores).
MINAYO, Maria Cecília de Souza (organizadora). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, RJ : Vozes, 1994. p.31-37.

 

 

ELEMENTOS PARA ELABORAÇÃO DE UM

PROJETO DE PESQUISA

 

  • Escolha do tema
  • Justificativa
  • Problema
  • Questões de Pesquisa/Hipóteses
  • Objetivos
  • Fundamentação teórica ou base teórico/conceitual
  • Metodologia
  • Cronograma
  • Referências
  • Anexos

 

 Definição do tema 

Para que o aluno possa realizar uma pesquisa de caráter acadêmico é importante que tenha algumas indagações, inquietações em torno de um assunto, de um fato, de um fenômeno ou de uma questão social. Ele precisa ter perguntas e indagações cuja resposta, ou algumas pistas, só  a pesquisa poderá fornecer. A pesquisa não tem e não pode ter a pretensão de resolver problemas sociais, pois se assim fosse, não teríamos problemas, como por exemplo, o analfabetismo, problemas no trânsito nas grandes metrópoles etc. Portanto, isoladamente, uma pesquisa não resolve os problemas sociais, pois estes dependem de um conjunto de ações, como, por exemplo, diretrizes políticas, disponibilidades financeiras e a articulação de várias pesquisas. A pesquisa pode e deve contribuir para orientar a reflexão para objetivos e meios de ação.

Para que o acadêmico dê conta de um problema é preciso que tenha uma indagação central. Para formular o problema de pesquisa é preciso ter claro qual é a dificuldade que se quer resolver.

O tema de uma pesquisa indica uma área de interesse a ser investigada. Trata-se de uma delimitação ainda bastante ampla. Por exemplo, quando alguém diz que deseja estudar a questão da ”violência conjugal” ou a “prostituição masculina”, está se referindo ao assunto de seu interesse. Contudo, é necessário para a realização de uma pesquisa um recorte mais “concreto”, mais preciso deste assunto. Ao formularmos perguntas ao tema e ao assunto proposto, estaremos construindo sua problematização.

A definição do problema ou objeto de pesquisa às vezes é tarefa difícil. Embora possa parecer uma “recaída” positivista, vale lembrar que uma maneira de facilitar este primeiro momento de impasse é a descrição do problema especulando sobre seu campo de observação em relação a algumas variáveis.

Esta medida deve ser entendida como provisória para melhor aclarar o objeto proposto e não como “molde” restritivo. Passemos ao exemplo.

Quando dizemos que vamos estudar a “violência conjugal”, delimitamos aí, muito amplamente, o campo de observação: casais (legalmente casados ou não). Se acrescentamos que o interesse é por “maridos que espancam suas esposas ou companheiras”, conferimos ao assunto uma variável a ser observada. Se afirmamos ainda que desejamos saber como tais espancamentos são vistos ou representados pelas mulheres vitimizadas, apontamos outra variável. Expressamos então o intuito de relacionar duas variáveis: o espancamento que maridos realizam em suas esposas e a representação destas sobre este acontecimento.

Desta forma poderíamos enunciar o tema já problematizado desta pesquisa, ou seja, nosso objeto: “A representação sobre espancamentos elaborada a partir de mulheres maltratadas por seus esposos ou companheiros”.

CARVALHO. Alex Moreira. Aprendendo metodologia científica : uma orientação para os alunos de graduação. São Paulo : O Nome da Rosa, 2000. p. 99-100.

Justificativa 

Trata-se da relevância, do por que tal pesquisa deve ser realizada. Quais motivos a justificam? Que contribuições para a compreensão, intervenção ou solução para o problema trará a realização de tal pesquisa?

A forma de justificar em pesquisa que produz maior impacto é aquela que articula a relevância intelectual e prática do problema investigado à experiência do investigador.

MINAYO, Maria Cecília de Souza (organizadora). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, RJ : Vozes, 1994. p.31-37.

Justificar é oferecer razão suficiente para que algo tenha acontecido ou aconteça. A justificativa de um projeto consiste em apresentar motivos bons o bastante para o desenvolvimento de pesquisa a respeito do tema específico (ou do objetivo geral) escolhidos.

O conteúdo de uma justificativa deve contemplar dois aspectos: importância ou relevância do tema; abrangência do assunto, isto é, o relato do interesse da comunidade humana, especialmente no presente, em relação ao tema que se quer pesquisar.

Um tema pode ter importância social, científica ou acadêmica. O desenvolvimento dele pode trazer benefício direto para a sociedade em geral, ou para um grupo social específico, ao resolver ou encaminhar a solução para uma necessidade ali instalada. Pode também beneficiar de imediato uma ciência, contribuindo com informações para o avanço de determinado estudo científico. Pode, ainda, beneficiar o processo acadêmico, facilitando ou inovando o ensino-aprendizado de um assunto.

A abrangência do tema é mostrada ao mencionar eventos sociais, ou científicos, ou acadêmicos, comprovadores da importância que se anunciou para o tema. Tais eventos podem ser a menção referenciada de publicações (livros, revistas, jornais que trataram ou tratam do assunto e de que forma tratam), programas sociais desenvolvidos ou em desenvolvimento; outras pesquisas da área, congressos, simpósios, seminários, etc., em que de alguma forma o assunto foi abordado.

O que se pretende, enfim, na justificativa, é que o leitor adquira convicção semelhante à do pesquisador: o tema é relevante e abrangente o bastante para merecer uma investigação científica. 

BARROS, Aidil de Jesus Paes. LEHFELD, Neide Aparecida de Souza. Projeto de pesquisa: propostas metodológicas. Petrópolis, RJ : Vozes, 1990. p. 16-18.

A justificativa, consiste, também, “na apresentação, de forma clara e sucinta, das razões de ordem teórica e/ou prática que justificam a realização da pesquisa” (Gil, 1994, p. 145). É uma “exposição sucinta, porém completa, das razões [que tornam] importante [sua] realização”(Lakatos e Marconi, 1992, p. 103). Mostra “as razões da preferência pelo assunto escolhido e sua importância face a outros temas” (Cervo e Bervian, 1983, p. 59).

Para Lakatos e Marconi (1992) e Gil (1994), a justificativa deve indicar:

  • O estágio de desenvolvimento dos conhecimentos referentes ao tema;
  • As contribuições que a pesquisa pode trazer, com vistas a proporcionar respostas aos problemas propostos ou a ampliar as formulações teóricas a esse respeito;
  • A relevância social do problema investigado;
  • A possibilidade de sugerir modificações no âmbito da realidade abarcada pelo tema;
  • Importância do tema do ponto de vista geral e para os casos particulares em questão;
  • Descoberta de soluções para casos gerais e/ou particulares.

Ao justificar a realização da pesquisa, o aluno estará dizendo o porquê de sua execução, envolvendo aí a escolha do assunto, sua problematização e como pretende trabalhar a realidade a ser estudada. É uma síntese com ênfase ao valor da pesquisa, devendo o estudante cuidar para não fazer uma dissertação conclusiva sobre o assunto, uma vez que o que interessa na justificativa é, sinteticamente, apresentar o porquê do assunto e sua importância enquanto objeto de estudo. Sua redação deve ser textual, não por tópicos.

LIMA, Teófilo Lourenço. Manual básico para a elaboração de monografia.Canoas : Editora ULBRA, 1999. p.33.

Problema

Complexidade da questão

Formular um problema científico não constitui tarefa fácil. Para alguns, isto implica mesmo o exercício de certa capacidade que não é muito comum nos seres humanos. Todavia, não há como deixar de reconhecer que o treinamento desempenha papel fundamental nesse processo.

Por se vincular estreitamente ao processo criativo, a formulação de problemas não se faz mediante a observação de procedimentos rígidos e sistemáticos. No entanto, existem algumas as condições que facilitam esta tarefa, tais como: “imersão sistemática no objeto, estudo da literatura existente e discussão com pessoas que acumulam muita experiência prática no campo de estudo” (Selitiz, 1967, p. 30).

A experiência acumulada dos pesquisadores possibilita ainda o desenvolvimento de certas regras práticas para a formulação de problemas científicos, tais como: a) o problema deve ser formulado como pergunta; b) o problema deve ser claro e preciso; c) o problema deve ser empírico; d) o problema deve ser suscetível de solução; e) o problema deve ser delimitado a uma dimensão viável. Estas regras serão detalhadas adiante.

Com muita freqüência, problemas propostos não se adequam a estas regras. Isto não significa, porém, que o problema deve ser afastado. Muitas vezes, o melhor será proceder à sua reformulação ou esclarecimento, o que poderá mesmo exigir a realização de um estudo exploratório (que será objeto de atenção específica nos capítulos a seguir).

O problema deve ser formulado como pergunta

Esta é a maneira mais fácil e direta de formular um problema. Além disso, facilita a sua identificação por parte de quem consulta o projeto ou o relatório de pesquisa. Seja o exemplo de uma pesquisa sobre o divórcio. Se alguém disser que vai pesquisar o problema do divórcio, pouco estará dizendo. Mas se propuser: “que fatores provocam o divórcio?” ou “quais as características da pessoa que se divorcia?”, estará efetivamente propondo problemas de pesquisa.

Este cuidado é muito importante sobretudo nas pesquisas acadêmicas. De modo geral, o estudante inicia o processo da pesquisa pela escolha de um tema, que por si só não constitui um problema. Ao formular perguntas sobre o tema, provoca-se sua problematização.

O problema deve ser claro e preciso

Um problema não pode ser solucionado se não for apresentado de maneira clara e precisa. Com freqüência são apresentados problemas tão desestruturados e formulados de maneira tão vaga que não é possível imaginar nem mesmo como começar a resolvê-lo por exemplo, um iniciante em pesquisa poderia indagar: “Como funciona a mente?”, “O que acontece no Sol?”, “O que determina a natureza humana?” etc. estes temas não podem ser propostos para pesquisa, porque não está claro a que se referem.

É pouco provável que pessoas com algum conhecimento de metodologia proponham problemas deste tipo. Porém, nesta eventualidade deve-se reformular o problema de forma a ser respondível. Talvez se possa reformular a pergunta “Como funciona a mente?” para “Que mecanismos psicológicos podem ser identificados no processo de memorização?” claro que esta é uma das muitas reformulações que podem ser feitas à pergunta original. Nada garante que corresponda exatamente à intenção de quem a formulou. Esta certeza só poderá ser obtida após alguma discussão.

Pode ocorrer também que algumas formulações apresentem termos definidos de forma não adequada, o que torna o problema carente de clareza. Seja, por exemplo, a pergunta “Os cavalos possuem inteligência?” a resposta a esta questão depende de como se define inteligência.

Muitos problemas deste tipo não são solucionáveis porque são apresentados numa terminologia retirada da linguagem cotidiana. Muitos termos utilizados no dia-a-dia são bastante ambíguos. Torne-se o exemplo de um problema que envolva o termo organização só poderia ser corretamente colocado depois que aquele termo tivesse sido definido de forma rigorosamente não ambígua.

Um artifício bastante útil consiste em definir operacionalmente o conceito. A definição operacional é aquela que indica como o fenômeno é medido. Nas ciências físicas e biológicas, a definição operacional tende a ser bastante simples, pois geralmente se dispõe de instrumentos precisos de medida. Por exemplo, o termo temperatura pode ser definido como “aquilo que o fenômeno mede”. Nas ciências humanas, todavia, as definições operacionais nem sempre são satisfatórias, por exemplo, em algumas pesquisas define-se como católica a pessoas que se declara como tal. Daí poderão surgir intermináveis discussões. Entretanto, não há como negar que tal definição confere precisão ao conceito. Qualquer pessoa que busque informar-se acerca da pesquisa logo saberá qual o significado que é atribuído ao termo. O mesmo não ocorreria se a determinação da religião do pesquisado ficasse por conta de considerações subjetivas do pesquisador.

O problema deve ser empírico

Foi visto que os problemas científicos não devem referir-se a valores. Não será fácil, por exemplo, investigar se “filhos de camponeses são melhores que filhos de operários” ou se “a mulher deve realizar estudos universitários”. Estes problemas conduzem inevitavelmente a julgamentos morais e, conseqüentemente, a considerações subjetivas, invalidando os propósitos da investigação científica, que tem a objetividade como uma das mais importantes características.

É verdade que as ciências sociais interessam-se também pelo estudo dos valores. Todavia, estes devem ser estudados objetivamente, como fatos, ou como “coisas”, segundo a orientação de Durkheim. Por exemplo, a formulação de determinado problema poderá fazer referência a “maus professores”. Estes termos indicam valor, mas o pesquisador poderá estar interessado em pesquisar professores que seguem práticas autoritárias, não preparam suas aulas ou adotam critérios arbitrários de avaliação. Trata-se, portanto, de transformar as noções iniciais em outras mais úteis, que se refiram diretamente a fatos empíricos e não a percepções pessoais.

O problema deve ser suscetível de solução

Um problema pode ser claro, preciso e referir-se a conceitos empíricos, porém não se tem idéia de como seria possível coletar os dados necessários à sua resolução. Seja o exemplo: “ligando-se o nervo ótico às áreas auditivas do cérebro, as visões serão sentidas auditivamente?” esta pergunta só poderá ser respondida quando a tecnologia neurofisiológica progredir a ponto de possibilitar a obtenção de dados relevantes.

Para formular adequadamente um problema é preciso ter o domínio da tecnologia à sua solução. Caso contrário, o melhor será proceder a uma investigação acerca das técnicas de pesquisa necessárias.

O problema deve ser delimitado a uma dimensão viável

Em muitas pesquisas, sobretudo nas acadêmicas, o problema tende a ser formulado em termos muito amplos, requerendo algum tipo de delimitação. Por exemplo, alguém poderia formular o problema: “em que pensam os jovens?” Seria necessário delimitar a população dos jovens a serem pesquisados mediante a especificação da faixa etária, da localidade abrangida etc. seria necessário, ainda, delimitar “o que pensam”, já que isto envolve múltiplos aspectos, tais como: percepção acerca dos problemas mundiais, atitude em relação à religião etc.

A delimitação do problema guarda estreita relação com os meios disponíveis para investigação. Por exemplo, um investigador poderia ter interesse em pesquisar a atitude dos jovens em relação a religião. Mas não poderá investigar tudo o que todos os jovens pensam acerca de todas as religiões. Talvez sua pesquisa tenha de se restringir à investigação acerca do que os jovens de determinada cidade pensam de alguns aspectos de uma religião específica.

GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 3. ed. São Paulo : Atlas, 1991.

Questões de pesquisa – Hipóteses

As hipóteses, em geral, pertencem ao campo dos estudos experimentais. Os outros tipos de estudo, descritivos e exploratórios, aceitam, geralmente, questões de pesquisa, perguntas norteadoras. Nos estudos descritivos podem existir ao mesmo tempo, como também nos outros tipos de estudo, hipóteses e questões de pesquisa.

Definição de hipóteses

A hipótese surge após a formulação do problema. A dificuldade está presente. Diante dela o investigador vislumbra prováveis soluções. A hipótese envolve uma possível verdade, um resultado provável. É uma verdade pré-estabelecida, intuída, com o apoio de uma teoria. Os fatos poderão verificar ou não a hipótese. A princípio, o investigador se perguntava: que investigar? Agora se pergunta: qual pode ser a solução ou soluções do problema colocado? A hipótese indica caminhos ao investigador, orienta seu trabalho assinala rumos à investigação.

Condições das hipóteses

Uma formulação correta das hipóteses deve reunir algumas condições, algumas das quais são essenciais:

1ª. As hipóteses devem ser expressas numa linguagem clara, simples. Os termos que possam levar à confusão devem ser previamente esclarecidos. Não é aconselhável abusar de vocábulos técnicos.

2ª. Os termos devem possuir a qualidade de ser verificados empiricamente. Esta é uma característica essencial no enfoque positivista. Desta maneira todas as expressões valorativas não podem ser objeto de hipóteses.

3ª. As hipóteses devem ser específicas. Às vezes, porém, o pesquisador coloca hipóteses amplas. Estas são válidas se são possíveis de especificação, através do enunciado de sub-hipóteses.

4ª. As hipóteses devem ter apoio de uma teoria, surgir do âmbito de um campo teórico.

5ª. As hipóteses dêem ter, se possível, uma dimensão geral. Elas não podem referir-se a um só fato. Sua abrangência deve ser muito mais ampla.

6ª. E, finalmente, o que está demais expressar: a hipótese deve ser uma proposta favorável à interrogativa colocada pelo investigador. Isto é, toda hipótese que parte de uma teoria ou de um conjunto de conceitos orientadores deve ter a possibilidade de ser comprovada, verificada. Por exemplo:

“As mulheres dos bairros das vilas proletárias têm uma escolaridade maior que os homens desta mesma vila.”

“As crianças que repetem a primeira série do 1º grau das escolas públicas são de baixo nível sócio-econômico.”

Questões de pesquisa. Perguntas norteadoras

Geralmente, os trabalhos de pesquisa que se realizam em educação colocam Questões de Pesquisa ou Perguntas Norteadoras. Algumas pesquisas levantam também hipóteses. Não é raro que um trabalho de investigação reúna, ao mesmo tempo, Questões de Pesquisa e Hipóteses. Realmente, muitas vezes as Questões de Pesquisa envolvem subentendidamente a colocação de alguma hipótese.

A Questão de Pesquisa representa o que o investigador deseja esclarecer. Neste sentido, a Questão de Pesquisa é profundamente orientadora do trabalho do investigador. Esta orientação é necessária especialmente quando se tem pouca experiência como pesquisador. A Questão de Pesquisa deve reunir algumas condições que permitem não ter dúvida alguma sobre o que ele significa: precisão, clareza, objetividade, etc., e deve servir aos propósitos manifestos e latentes da pesquisa. A Questão de Pesquisa parte das idéias colocadas na formulação do problema e dos objetivos da investigação. Elas podem indicar, entre as variáveis que a formam, relações de associação, dependência, causalidade, etc., ou, simplesmente, freqüências, absolutas e relativas. Exemplo:

“Quais as características profissionais e pessoais dos sujeitos que integram a amostra, em relação a: idade, sexo, estado civil, escolaridade, experiência no magistério?”

“Existe relação entre a experiência no magistério e a percepção dos supervisores face aos problemas que enfrentam a supervisão nas escolas?”

Triviños, Augusto Nibaldo Silva. Introdução à pesquisa em ciências sociais : a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo : Atlas, 1987. p.105-106.

Objetivos 

Buscamos aqui responder o que é pretendido com a pesquisa, que metas almejamos ao término da investigação. É fundamental que estes objetivos sejam possíveis de serem atingidos. Geralmente se formula um objetivo geral, de dimensões mais amplas, articulando-o a outros objetivos mais específicos.

Sugerimos a utilização dos verbos no infinitivo para a descrição dos objetivos.

Por exemplo, podemos ter como objetivo: “Analisar os fatores que desencadeiam ou predispõem a agressão de maridos contra suas companheiras” ou “Conhecer as opiniões das mulheres maltratadas por maridos sobre a violência por elas sofrida”.

 Objetivo geral

O objetivo geral de um projeto de pesquisa científica é sua “espinha dorsal”. Deve expressar claramente aquilo que o pesquisador pretende conseguir com sua investigação. Não é o que ele “vai fazer” (isto se prevê nos procedimentos), mas o que pretende conseguir como resultado intelectual final de sua investigação. São os objetivos de uma pesquisa que delimitam e dirigem os raciocínios a serem desenvolvidos. Fornecem, até mesmo, o “calibre” dos dados que serão necessários para o desenvolvimento dos argumentos.

O enunciado de objetivos inicia-se por um verbo no infinitivo. No caso da pesquisa científica, que se caracteriza como “atividade intelectual”, o verbo que abre os objetivos deve ser verbo que indique “ação intelectual”, mensurável, isto é, cujo “produto final” possa ser verificado.

Sabe-se que o cérebro humano é capaz de estágios ou estados cognitivos diversos, com graus também diversos de complexidade. São eles: conhecimento, compreensão, aplicação, análise, síntese e avaliação. O grau de complexidade (e não necessariamente de dificuldade) da atividade intelectual aumenta do anterior para o posterior. Com efeito, a atividade de avaliação pressupõe sínteses, que pressupõem análises, que pressupõem compreensões (havendo ou não entre elas a atividade de aplicação), que pressupõem conhecimentos, isto é, a posse final de dados. Por outro ângulo, o conhecimento, a posse individual de dados, é base para a compreensão (o “encaixe” de um novo dado no esquema cerebral já existente). Só quem compreendeu algo pode aplicá-lo bem na vida prática. Aplicada ou não, a informação compreendida é analisada (o julgamento do cérebro a respeito de sua nova condição, agora com o dado recentemente compreendido). Daí surge uma nova síntese: o cérebro decide o que fica como resultado, se mantém a nova informação compreendida, ou se a descarta. Com as sínteses cerebrais finais é que avalia, se julga, se vive.

Cada um desses estágios cognitivos possibilita atividades ou ações intelectuais, expressas por verbos específicos.

Estágio de conhecimento – se expressa em verbos como apontar, citar, classificar, conhecer, definir, descrever, identificar, reconhecer, relatar.

Estágio de compreensão – em verbos como compreender, concluir, deduzir, demonstrar, determinar, diferenciar, discutir, interpretar, localizar, reafirmar.

Estágio de aplicação – em verbos como aplicar, desenvolver, empregar, estruturar, operar, organizar, praticar, selecionar, traçar.

Estágio de análise – em verbos como analisar, comparar, criticar, debater, diferenciar, discriminar, examinar, investigar, provar.

Estágio de síntese – em verbos como compor, construir, documentar, especificar, esquematizar, formular, produzir, propor, reunir, sintetizar.

Estágio de avaliação – em verbos como argumentar, avaliar, contrastar, decidir, escolher, estimar, julgar, medir, selecionar.

Na prática, montar objetivo geral consiste em antepor à hipótese um verbo que expresse ação intelectual, da escolha do pesquisador. É uma escolha subjetiva, em que se procura o verbo que melhor expresse aquilo que de fato se quer como resultado intelectual, e que, evidentemente, possa ser realizado. Tenha-se o cuidado de inserir as partículas que ajustem bem o verbo à hipótese, tornando o enunciado correto.

Exemplo: a hipótese “o limão é eficaz no combate aos resfriados” pode ser transformada em objetivos de diversos graus de complexidade. “Relatar que o limão é eficaz no combate aos resfriados” é menos complexo do que “analisar se o limão é eficaz no combate aos resfriados”, que por sua vez, menos complexo do que avaliar se o limão é eficaz no combate aos resfriados”. Com efeito, o volume de informações e o grau de elaboração intelectual exigido para um relato, é menor do que aquele exigido para uma análise, que, por seu turno, é menor que para uma avaliação. Ou seja, é o verbo escolhido que “calibra” a atividade a ser desenvolvida. Qualquer dos três, porém, seria um bom objetivo de pesquisa científica. Se for tomado como objetivo geral, a título de exemplo, “analisar se o limão é eficaz no combate aos resfriados”, este será o núcleo do conteúdo a ser desenvolvido. A análise do conteúdo será o resultado mensurável, palpável, para essa pesquisa.

 Objetivos específicos

“Analisar se o limão é eficaz no combate aos resfriados” acaba de se tornar, por escolha do pesquisador, um problema intelectual a ser resolvido. Como se sabe, os problemas intelectuais podem (e devem) ser divididos em tantas partes quantas possíveis ou necessárias para bem resolvê-los. Por esta razão, o problema expresso como objetivo geral será subdividido em tantos objetivos específicos quantos necessários para o estudo e solução satisfatória do problema contido no objetivo geral. É claro que será de grande utilidade a revisão de literatura já feita, pois é o que ajudará a vislumbrar os aspectos componentes do problema a ser resolvido. Cada um dos objetivos específicos será uma parte distinta da futura redação 9um capítulo, um segmento). Ou seja, os objetivos específicos indicam as partes do conteúdo do futuro texto, a ser produzido na fase da redação.

Na prática, sugere-se a montagem de objetivos específicos em quatro momentos.

  1. Levantamento dos aspectos componentes importantes do problema – Examina-se o problema (o objetivo geral), procurando nele divisões possíveis, ou seja, os aspectos que o pesquisador considera como componentes relevantes do objetivo geral.

Exemplo: para o objetivo geral “analisar se o limão é eficaz no combate aos resfriados”, o conhecimento anterior, já adquirido e melhorado pela revisão de literatura, indica aspectos componentes importantes, tais como: “o vírus do resfriado”; “componentes químicos do limão”; “reações do vírus do resfriado aos componentes químicos do limão”; etc.

  1. Transformação de cada um dos aspectos escolhidos em um objetivo – antepõe-se a cada enunciado um verbo que indique ação intelectual. A escolha é feita com base na natureza do assunto, na extensão e profundidade com que o pesquisador julga querer/precisar tratá-lo.

Exemplo: pode-se decidir que os aspectos levantados transformem-se nos seguintes objetivos específicos: “analisar o vírus do resfriado”; identificar os componentes químicos do limão”; “analisar as reações do vírus do resfriado aos componentes químicos do limão”.

  1. Verificação da suficiência dos objetivos específicos propostos – o conjunto dos objetivos específicos deve ser suficiente para que o objetivo geral seja preenchido. O pesquisador deve verificar se os componentes (objetivos específicos) propostos, quando desenvolvidos, cumprem a tarefa intelectual apontada pelo objetivo geral. O conjunto dos objetivos específicos não deve, por outro lado, extrapolar a atividade proposta pelo objetivo geral.
  2. Decisão quanto à melhor seqüência lógica – considerando que os objetivos específicos indicam as partes do futuro texto, deve-se ter cuidado de já tê-los na melhor seqüência lógica. Significa estabelecer desde já quais assuntos devem preceder a outros, tanto para o desenvolvimento da investigação, quanto para a futura leitura do texto.

Exemplo: parece que a melhor seqüência no exemplo proposto é:

a)      identificar os componentes químicos do limão;

b)      analisar o vírus do resfriado;

c)      analisar as reações do vírus aos componentes químicos do limão.

O trabalho de investigação passará a ser feito em torno dos objetivos específicos propostos, que na verdade, são problemas específicos a serem resolvidos. Busca-se realizar diretamente cada um dos objetivos específicos, para que, indiretamente, resolva-se a proposta do objetivo geral.

BARROS, Aidil de Jesus Paes e LEHFELD, Neide Aparecida de Souza. Projeto de pesquisa: propostas metodológicas. Petrópolis, RJ : Vozes, 1990. p.  27-31.

 Referencial teórico

 A definição teórica e conceitual é um momento crucial da investigação científica. É sua base de sustentação.

Remetendo este item a uma dimensão técnica, devemos dizer que é imprescindível a definição clara dos pressupostos teóricos, das categorias e conceitos a serem utilizados.

Devemos tomar cuidado para não reescrevermos a obra dos autores que embasam a teoria escolhida, reconstruindo um verdadeiro tratado e certamente de menor qualidade. Devemos, então, ser sintéticos e objetivos, estabelecendo, primordialmente, um diálogo entre a teoria e o problema a ser investigado.

É essencial que se defina os pressupostos teóricos  e os principais conceitos com os quais se vai trabalhar.

Para as pesquisas, sejam elas de caráter qualitativo ou quantitativo[1], é necessário definir de forma clara e precisa os conceitos contidos no problema e nas questões de pesquisa/hipóteses.

Na medida do possível, deve ser definida com clareza qual a teoria ou as teorias que são as bases de sustentação da pesquisa, ou seja, o marco conceitual teórico-metodológico.

Sem a definição de conceitos e de categorias não é possível estabelecer um diálogo entre a teoria e o problema a ser investigado. Por exemplo: deseja-se pesquisar a violência nas escolas públicas. Existem vários tipos de violência, mas este estudo está preocupado com um certo tipo, que é a violência explícita nas escolas públicas, ou seja, a violência que é praticada diretamente contras as pessoas ou contra o patrimônio público. Nesse sentido, o estudo conceitua o tipo de violência que está sendo estudado. É claro que o estabelecimento de conceitos se dá no âmbito de determinada teoria.

CARVALHO. Alex Moreira e outros. Aprendendo metodologia científica : uma orientação pra os alunos de graduação. São Paulo : O Nome da Rosa, 2000. p. 99-100.

Também podemos entender que:

A teoria de base, ou referencial teórico, caracteriza-se pelos conceitos outrora apresentados por pesquisadores/estudiosos do assunto e reconhecidos como adequados à ciência em questão. É a linha de raciocínio a ser adotada pelo pesquisador, que serve como diretriz para a reflexão. Para Gil (1993, p. 146),

Boa parte das pesquisas científicas no campo da psicologia, sociologia, antropologia, ciência política e economia apoia-se (sic) em certos supostos teóricos. Nestes (sic) casos, torna-se conveniente indicar a teoria ou as teorias que fornecem a orientação geral da pesquisa.

Isto implica dizer que todo projeto deve conter  “…as premissas ou pressupostos teóricos sobre os quais o pesquisador (…) fundamentará sua interpretação” (Lakatos e Marconi, 1992, p. 110).

Quando se fala em teoria de base, há quase que se deixar claro que não é a mesma coisa que revisão bibliográfica. A teoria de base é a aplicação de conceitos teóricos numa determinada situação-problema, como fundamentação ao pretendido, quer enquanto confirmação, quer enquanto negação de hipóteses.

É a identificação das teorias ou quadros teóricos de referência que proporcionam orientação geral à pesquisa ou contribuem para a construção de hipóteses. (Gil, 1993, p. 152)

Por outro lado, continua Gil, não é sempre que se consegue definir com precisão qual referencial teórico se tomará  como sustentação à pesquisa, fato que gera dificuldades quando da elaboração do projeto.

Não é, portanto, um modelo a ser seguido cabalmente, princípio que contraria a prática da investigação científica, livre na criatividade e análise dos fatos. Mas deve haver coerência e consistência em relação ao objeto-problema a ser estudado, com ele formando um conjunto lógico. Sobre isso, Severino (1996, p. 129-30) alerta para o fato de que

Não se pode agregar, num único quadro, elementos teóricos incompatíveis entre si, ainda quando modelos diferentes pudessem ser mais úteis para a solução de diferentes processamentos de raciocínio ou de diferentes aspectos do problema. Fusões artificiais de modelos teóricos incoerentes levam necessariamente ao sincretismo lógico-filosófico, de pouca validade para o trabalho científico.

Mais uma vez, portanto, fica  evidente a necessidade da leitura enquanto preparação para a elaboração de um projeto de pesquisa.

LIMA, Teófilo Lourenço. Manual básico para a elaboração de monografia.Canoas : Editora ULBRA, 1999. p.33.

 Metodologia

 Geralmente é uma parte complexa e deve requerer maior cuidado do pesquisador. Mais que uma descrição formal dos métodos e técnicas a serem utilizados, indica as opções e a leitura operacional que o pesquisador fez do quadro teórico.

A metodologia não só contempla a fase de exploração de campo (escolha do espaço da pesquisa, escolha do grupo de pesquisa, estabelecimento dos critérios de amostragem e construção de estratégias para entrada em campo) como a definição de instrumentos e procedimentos para análise dos dados.

Definiremos, sinteticamente, os principais elementos da metodologia.

a)     Definição da amostragem. A pesquisa qualitativa não se baseia no critério numérico para garantir sua representatividade. Uma pergunta importante neste item é “quais indivíduos sociais têm uma vinculação mais significativa para o problema a ser investigado?” A amostragem boa é aquela que possibilita abranger a totalidade do problema investigado em suas múltiplas dimensões (Minayo, 1992).

b)     Coleta de dados. Devemos definir a técnicas a serem utilizadas tanto para a pesquisa de campo (entrevistas, observações, formulários, história de vida) como para a pesquisa suplementar de dados, caso seja utilizada pesquisa documental, consulta a anuários, censos. Geralmente se requisita que seja anexado ao projeto o roteiro dos instrumentos utilizados em campo.

c)     Organização e análise de dados. Devemos descrever com clareza como os dados serão organizados e analisados. Por exemplo, as análises de conteúdo, de discurso, ou análise dialética são procedimentos possíveis (revisão bibliográfica, montagem de instrumentos de coleta, pré-testes dos instrumentos, aplicação dos instrumentos e fase de análise). 

MINAYO, Maria Cecília de Souza (organizadora). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, RJ : Vozes, 1994. p.31-37.

 Também pode-se compreender a metodologia como a parte mais complexa na redação de um projeto.

A especificação da metodologia (…) é a que abrange maior número de itens, pois responde, a um só tempo, às questões como? com quê? onde? E quando?. (Lakatos, 1992, p. 105)

A metodologia evidencia os caminhos e os meios para se chegar ao resultado final da pesquisa e, ao contrário do que se vê em projetos de trabalhos de conclusão de curso de graduação, deve distinguir o método do procedimento das técnicas. O primeiro se atém ao aspecto filosófico da pesquisa, que pode ser:

1. Indutivo                                         

Vai das constatações particularizadas para as   abrangentes, de forma ascendente.

2. Dedutivo

Numa condição inversa ao indutivo, parte de uma situação abrangente para a particularidade, numa relação descendente.

3. Hipotético-dedutivo

A partir da formulação de hipóteses, busca sua ocorrência no seu campo de abrangência.

4. Dialético

Vê os fenômenos a partir de sua ação recíproca, da contradição e das modificações que ocorrem no objeto de estudo.

Já o segundo aspecto, o procedimento, Lakatos e Marconi (op. Cit.) esclarecem dizendo que:

Constituem etapas mais concretas da investigação (…). Pressupõem uma atitude concreta em relação ao fenômeno e estão limitadas a um domínio particular.

O procedimento pode ser histórico, comparativo, monográfico ou estudo de caso, estatístico, tipológico, funcionalista, estruturalista, etnográfico, etc.. Vale salientar que esses são os principais métodos e estão ligados diretamente às ciências sociais.

As técnicas, por sua vez, correspondem à maneira, ao processo para que se execute a coleta de dados e classificam-se em observação direta intensiva e observação direta extensiva, caracterizadas por Lakatos e Marconi (1994, p. 107) da seguinte maneira:

Observação direta intensiva

  • Observação – utilizada os sentidos na intenção de determinados aspectos da realidade. Consiste em examinar todos os fenômenos que se deseja estudar. Pode ser sistemática, assistemática, participante, não participante, individual, em equipe, na vida real, em laboratório.
  • Entrevista – é uma conversação efetuada face a face, de maneira metódica; proporciona ao entrevistador, verbalmente, a informação necessária. Tipos: padronizada ou estruturada, despadronizada ou não estruturada, painel.

Observação direta extensiva

  • Questionário – constituído por uma série de perguntas que devem ser respondidas por escrito e sem a presença do pesquisador.
  • Formulário – roteiro de perguntas enunciadas pelo entrevistador e preenchidas por ele com as respostas do pesquisado.
  • Medidas de opinião e de atitudes – instrumento de “padronização”, por meio do qual se pode assegurar a equivalência de diferentes opiniões e atitudes, com a finalidade de compará-las.
  • Teste – instrumento utilizado com a finalidade de obter dados que permitam medir o rendimento, a freqüência, a capacidade ou a conduta de indivíduos de forma quantitativa.
  • Sociometria – técnica quantitativa que procura explicar as relações pessoais entre indivíduos de um grupo.
  • Análise de conteúdo – permite a descrição sistemática, objetiva e quantitativa do conteúdo da comunicação.
  • História de vida – tenta obter dados relativos à “experiência íntima” de alguém que tenha significado importante para o conhecimento do objeto de estudo.
  • Pesquisa de mercado – é a obtenção de informações sobre o mercado, de maneira organizada e sistemática, tendo em vista ajudar o processo decisivo nas  empresas, minimizando a margem de erros.

Para esta parte do projeto, tomou-se como referencial a estrutura sugerida por Lakatos e Marconi (1994, p. 119), compatível com a estrutura sugerida por Carlos Gil (1994, p. 152), por nós adotada. Poderia, ainda, ser elaborada de forma textual, onde, em um único texto, seria feita referência ao método, ao procedimento e às técnicas.

Chamamos a atenção para a possibilidade da utilização de procedimentos diferentes, associados ao método de procedimento estatístico, primando sempre pela coerência e relação entre eles.

LIMA, Teófilo Lourenço. Manual básico para a elaboração de monografia.Canoas : Editora ULBRA, 1999. p.35.

O elemento básico de uma boa metodologia consiste em um plano detalhado de como alcançar o(s) objetivo(s), respondendo às questões propostas e/ou testando as hipóteses formuladas. De fato, a “boa” metodologia é a apropriada à solução do problema e aos objetivos do estudo.

O capítulo da metodologia se inicia com uma indicação sobre sua estrutura, enunciando-se as seções quem o compõem.

As principais seções do capítulo da metodologia são apresentadas a seguir, a título de sugestão.

População e amostra

Nesta seção, se define a população (universo da pesquisa) e, em seguida, a(s) amostra(s), se for o caso. Ao descrever a amostra, especifica-se a forma pela qual foi selecionada,justificando-se os procedimentos de amostragem. Esclarece-se, também, como foi estabelecido o número de unidades da amostra – calculado por meio de fórmulas, determinado por tabelas próprias, ou atendendo a limitações de ordem administrativa, financeira, ou outras. Em estudos de caso, os critérios de definição da amostra são, igualmente, explicitados.

É comum encontrar-se esta seção sob os títulos “Participantes do Estudo” ou “Seleção dos Sujeitos”.

Instrumentos de medida

Os instrumentos de medida utilizados (entrevistas, estruturadas ou não; questionários; testes; escalas; observação, participante ou não; instrumentos de laboratórios e outros) devem ser igualmente descritos, informando-se sua validade e fidedignidade.

Coleta dos dados

Refere-se à descrição do processo de coleta dos dados: como (em grupo, individual ou outro); por quem (o próprio pesquisador, equipe treinada ou outro(s)); quando (período); onde.

Tratamento e análise dos dados

Nesta seção, devem ser explicitados o tratamento e a forma pelos quais os dados coletados serão analisados. Estes devem ser interpretados de acordo com: (a) o referencial teórico ou conceitual adotado na pesquisa, caso este tenha sido definido anteriormente, e (b) os resultados de estudos e pesquisas anteriores. Isto permitirá ao pesquisador ter indicações precisas sobre a dimensões e categorias de análise ou as relações esperadas entre as variáveis estudadas, a partir das quais os dados devam ser interpretados.

No caso de projetos de pesquisa que impliquem dados quantitativos, deve-se especificar o tratamento estatístico dos dados (estatística descritiva), antes de coletá-los. Em alguns casos, dados coletados com grande esforço podem tornar-se inúteis por não ter sido seu tratamento previsto a priori. Até mesmo níveis de significância (alfa) para rejeição de hipóteses são definidos com antecedência porque, o investigador pode ser tentado a influenciar os resultados.

Considerações sobre as possibilidades de tratamento dos dados por computador  muitas vezes implicam decisão sobre a magnitude e sofisticação de um estudo, devendo, portanto, ser cogitadas pelo investigador no início do projeto.

No capítulo da metodologia, incluem-se:

Justificativa do Método (explicitando-se a adequação e a pertinência do tipo específico de pesquisa adotada)

Identificação e Seleção dos Participantes, já que a amostra é quase sempre intencional nesses estudos

Instrumentos de Medida (observação, participante ou não; entrevistas; análise documentária; questionários e outros)

Tratamento e Análise dos Dados (antecipando-se os procedimentos gerais utilizados na análise dos dados, utilizando-se ou não um referencial teórico a priori).

LIMA, Teófilo Lourenço. Manual básico para a elaboração de monografia.Canoas : Editora ULBRA, 1999. p. 40- 42.

 Cronograma 

O projeto deve traçar o tempo necessário para a realização de cada uma das etapas propostas. Muitas tarefas podem, inclusive, ser realizadas simultaneamente.

A forma mais usual é a do gráfico, onde são cruzados o tempo (mês 1, mês 2, etc.) e as tarefas da pesquisa (revisão bibliográfica, montagem de instrumentos de coleta, pré-testes dos instrumentos, aplicação dos instrumentos e fase de análise).

Cronograma é, também, a previsão e distribuição de todas as atividades relacionadas ao projeto em um período de tempo. A distribuição pode ser feita em horas, dias, semanas, meses, etc., de acordo com a realidade. Esta etapa do projeto procura responder ao quando e deve ser elaborada de forma coerente entre as atividades e compatível aos recursos e tempo do pesquisador.

Sua finalidade é esclarecer e informar acerca do tempo disponível e necessário para cada atividade relacionada à pesquisa. No exemplo abaixo, optamos pela distribuição mensal em um período de três semestres; em função do espaço limitado nas figuras até então utilizadas, usaremos o espaço normal da folha, exemplificando o cronograma fora da figura. Mas lembramos que o cronograma é parte integrante do projeto e, por sua vez, deve observar a mesma estrutura das demais partes. Se necessário, pode ser feito de maneira horizontal na página, facilitando, assim, a distribuição das atividades no tempo disponível.

 Modelo de cronograma

Atividade Período: março/2004 – dezembro/2004
1º semestre 2º semestre 3º semestre
Escolha do assunto X                                  
Elaboração do projeto   X                                
Levantamento bibliográfico e seleção de material   X X                              
Documentação bibliográfica e análise do material       X X X                        
Elaboração dos instrumentos para coleta de dados           X                        
Aplicação-teste dos instrumentos             X                      
Aplicação dos instrumentos para coleta de dados               X X X X              
Coleta de instrumentos e classificação                       X X          
Análise e tabulação dos dados                         X X        
Interpretação dos dados e redação da monografia                             X X    
Revisão e redação final da monografia                               X    
Digitação e encadernação d a monografia                                 X X
Entrega da monografia                                   X
Apresentação do resumo da monografia no

Seminário final

                                   

 Referências

Geralmente num projeto científico, muitos autores e dados são citados. No corpo do projeto deve ser feita citação breve que possibilite maior agilização da leitura. Em seguida, ao final do projeto todas as citações feitas serão listadas de forma integral num item à parte.

Referência bibliográfica é o conjunto padronizado de elementos que permite a identificação de documentos no todo ou em parte, impressos ou registrados em diversos tipos de suporte.

Consultar a norma ABNT específica para a elaboração de referências: NBR 6023/2000.

Incluir na lista apenas as fontes que efetivamente foram utilizadas para a elaboração do trabalho.

MANUAL PARA ELABORAÇÃO DE TRABALHOS TÉCNICO-CIENTÍFICOS – FACULDADES PORTO-ALEGRENSES – FAPA . 2003.

 Anexos

Anexamos, sem numeração de páginas os modelos dos instrumentos a serem utilizados na pesquisa. Incluímos aí também os guias para preenchimento dos instrumentos, mapas da área a ser investigada, etc. São anexadas, enfim, aquelas informações que o pesquisador julga necessárias para melhor compreensão do projeto.

Outras informações:

 –          Na livraria da FAPA existem capas para trabalhos acadêmicos já com o logo da Faculdade, no tamanho e espessura ideal.

-          As  Normas para Apresentação de Trabalhos Acadêmicos constam em Livro próprio  da Faculdade, também disponível na Livraria.

 


 

* Monografia é o resultado final de uma pesquisa; é a sistematização do conhecimento através da dissertação de uma temática, respeitando os procedimentos metodológicos convencionados.

[1] De modo geral a pesquisa quantitativa envolve dados passíveis de mensuração e a pesquisa qualitativa trata de variáveis que não se reduzem a expressões numéricas ou quantitativas, pois referem-se a valores, crenças, relações, símbolos etc. No entanto, dependendo da postura adotada pelo pesquisador e do problemas da pesquisa, a oposição entre qualitativo e quantitativo não existe, ao contrário, se complementam.

9 thoughts on “Elaboração para projetos de pesquisa

  1. A forma didática de apresentação e a objetividade do conteúdo foi fundamental para uma boa revisão do meu projeto de doutorado. Foi ótimo. Parabéns!

  2. De facto as informacoes aqui presente sao importantes, visto que tem sido tarefa dificil por parte de muitos estudantes elaborar projectos de pesquisa, nao pelo facto de falta de vontade ou instrumentos mas sim como elaborar, o que deve constar num dado projecto. Neste sentido louvo esta iniciativa em nos tornarem informados porque so assim se forma o homem de hoje, amanha, um homem capaz reflectir sobre o seu quotidiano. Obrigado mais uma vez.

    • E que seja alguém ético, socialmente crítico e informado, de forma a contribuir com sua comunidade. Esse é, sem dúvida, um de nossos objetivos. Continue lendo nosso BLOG para que possamos, cada vez melhorar mais!

      hILTON

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