Cultura Imaterial – Texto 0172 – Akira Umeda


“Cultura Imaterial” ou “Patrimônio Cultural Imaterial”, entre outras similares, são denominações que se tornaram mais repetidas e reforçadas no âmbito dos discursos da “Cultura” no Brasil recente. Entendo o que o termo “cultura imaterial” busca captar e os esforços dos especialistas em patrimônio cultural em preservar o que ele capta; considero, ainda, tanto o termo como as ações culturais legítimas (eu não poderia considerá-los ilegítimos, pois literalmente contam com respaldo legal). Mas, de modo geral, sinto que a expressão “cultura imaterial” é inadequada, porque a meu ver tudo que chamamos de “Cultura” é material. De acordo com este ponto de vista, “Cultura” é justamente o esforço e o trabalho humano de produzir e construir coisas tangíveis, materiais; “Cultura” é, no sentido mais amplo (e ambíguo), manipulação da matéria. Neste sentido, é interessante lembrar que a noção de matéria e de material amplia-se tremendamente ao longo do tempo em direção ao momento presente, assim como a de manipulação. Estas noções não se prendem às (supostas) origens na Grécia Antiga e, portanto, matéria não se limita a madeira, e manipulação não se restringe a trabalho manual. Mais que isto, tanto matéria quanto material não dizem respeito apenas a objetos mas também a sujeitos, pois sujeitos são tão materiais e manipuláveis quanto objetos.

Esta ampliação das noções de matéria, material, objeto e sujeito tem sido lida, muitas vezes, de forma tendenciosamente trágica. Mas a ênfase na imaterialidade da cultura, que é tendenciosamente lida como pura, não é uma boa alternativa para mudar a nossa percepção trágica da materialidade da cultura. O sabor de determinadas iguarias, por exemplo, é tido como algo intangível, inefável, imaterial. Mas só se pode preservar um sabor se as iguarias forem preservadas. Iguarias são coisas materiais, são objetos, são manipulações. Como tais, elas não se fazem por si próprias: sujeitos as produzem (considerando que uma fruta, como a gabiroba, por exemplo, não é em si uma iguaria, por não ser produzida por sujeitos). Para produzir iguarias, é necessário um saber. O saber é algo material, é um objeto, é uma manipulação. É este saber que necessita ser preservado para que o sujeito continue a produzir a iguaria que tem um sabor. Como não é possível preservar um sujeito para sempre (as pessoas morrem), é importante que o saber seja transmitido de um sujeito para outro. Esta transmissão pode assumir diversas formas e percorrer diferentes canais, não apenas as formas e canais tradicionais, como a escrita, por exemplo. A condição de iletrado não é um obstáculo às ações de preservação do patrimônio cultural. Sabor e saber são materialmente articuláveis, são materiais.

Acima de tudo, toda política pública de preservação do patrimônio cultural tem como objeto (material) o sujeito (material).

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