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Archive for the ‘Contos’ Category

Um oásis

Outubro 29, 2009 noite Deixe um comentário

desert por Carlito Juanito

Fonte: http://www.flickr.com/search/groups/?q=oasis&w=35468132865%40N01&m=pool

Os camelos varavam o deserto, enquanto eu esperava por ti. Era mais ou menos assim, no deserto, com muita sede dos teus néctares que eu me (des) encontrava. Apenas me restou tua maior ausência.  Um oásis, eu necessito de um mas – por favor – sem odaliscas. Minhas energias se esvaíram e tudo parece ter perdido o sentido. Sei que não voltarás, te foste e isso é um fato que não posso discutir ou alterar, e, se algo ficou foi o desejo de compartilhar-me contigo, redescobrir talvez algum clarão de lua, mesmo um poema subitamente surgido do teu olhar. 

Se as memórias são uma idealização do que vivemos, mesmo o que vivemos se perde entre nossos desejos. Ilusões, as memórias são ilusões que manipulamos de acordo com nossas vontades. O presente é tua partida, o presente é a tua presença enevoada em alguma paragem, em alguma estrada, em algum caminho incerto. Não havia certeza, mas meu desejo, sempre ele, traiu mais uma vez meu entendimento. Estou embotado pelas minhas recordações, pelos meus sentidos que mais uma vez se entregaram aos sentimentos. Sou, eu mesmo, uma ilusão. Um fractal. Uma semana que se esgota rapidamente, um evento. Sou um evento, com horário marcado, com sorrisos calculados, com reticências expulsas. Talvez por isso me engane tanto, embora também haja uma parte de mim que às custas da sedução, aos outros encanta. Novamente aqui, aguardando, espreitando qualquer um, qualquer uma que me diga algo gratificante, que me tome nos braços, que reinicie o signo da envolvente paixão.

A tua ausência não permite que eu exerça meu autocentramento. Não estás aqui, partilhar o que com quem? Ser visto por quem? Ser amado por quem? Se não posso dar-me a mim mesmo, a quem devo me submeter para triunfar sobre minhas idiossincrasias? Um oásis…, por favor, você viu algum? Necessito de ti para que digas quem eu sou, o que sou, pois não posso conviver com o meu passado, vazio de um tudo como um copo que insiste em transbordar de fel. Não viras, contudo, és apenas memória, e não quero chorar por ti, pois seria chorar pela minha própria solidão.

 

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Pedro e Benjamim

Agosto 27, 2009 noite Deixe um comentário

The Avenue in mists and sun por algo.

Fonte: http://www.flickr.com/photos/algo/92463787/

Partilhava o homem de uma amizade sincera com Pedro. Um dia, ambos não mais se viram, e Pedro foi morar muito longe, e acabaram, como ocorre de quando em quando, por se perderem. Anos se passaram e eles passaram a ser, um para outro, uma cálida lembrança, um fio de sonho, passagens e memórias em comum.

Em uma noite de inverno, Pedro estava em sua casa quando, de repente iniciou uma ventania muito estranha, incomum. Ao olhar pela janela, notou que as folhas das árvores pareciam imóveis. Tudo, de repente, ficara suspenso; mesmo os sons comuns da rua emudeceram. Então, de onde lhe vinha aquele tremor, aquela sensação repentina de frio, senão…de si mesmo?! Onde estava Benjamim, e porque a lembrança do amigo lhe era tão viva, tão real, tão próxima que praticamente podia escutá-lo, sentir-lhe a presença? Onde, Benjamim, onde você estava, agora, perguntava-se angustiado Pedro, enquanto as sombras deslizavam, imperceptíveis entre Pedro e as janelas?

……

Em algum lugar ermo, perdido no tempo, Benjamim observava Pedro. Via-lhe o desespero, as lágrimas que acudiam o amigo, mas, sabia, que, independentemente da vida que ambos levaram, dos destinos e das estradas percorridas, estavam mais próximos que nunca. Em breve poderiam, calmamente conversar, enquanto, lá fora, uma chuva miúda anunciava mais uma noite fria e sem luar.

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Peregrinação

Agosto 21, 2009 noite Deixe um comentário

Conversaciones por alfonstr

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=conversa&w=all&s=int#page=6

Em algum lugar, bem longe de onde estou, começou minha peregrinação. Cheguei aqui, com todos meus sentidos, com meus percalços, com um pouco menos de espírito mas ainda sendo solidário, cheguei aqui, talvez para simplesmente sentar e te contar uma grande história, mas não essas de vultos e heróis pátrios, nem de descobridores, nem de talentosas pessoas. A história que venho te contar é a minha mesmo, essa que fui entretecendo nos dias e nas noites em que vaguei por aí, em que fui eu um parco herói de baixo coturno. Mas, se não quiseres escutá-la, não vou sequer me amolar, pois a compreensão habita em mim. Assim como o conformismo. Não, não te preocupes se te disse que percorri grande distância para que fosses meu ouvinte. Esquece, afinal, como se diz por aí, eu sou mentiroso. Essa é a minha fama, e portanto é nela que baseio meus comportamentos. Depois de tantos anos, é bom que brindemos à alcatéia com nossa mais solene indiferença. Me querem mentiroso, pronto! assim eu serei, e não se discute mais isso.

Sim, é por esse motivo talvez, por dares mais atenção aos boatos que aos fatos que não me queres escutar. És uma pessoa dessas sérias, comprometidas, probas, que tem muitos compromissos e não deves mais perder teu tempo me dando tua atenção. Sim, sim, as pessoas sérias sempre dão alguma coisa aos outros, para que esses fiquem lhe devendo favores. Eu, cá com meus botões, percebo: me destes já uma parte do teu tempo, mas não podes mais fazê-lo, então só posso agradecer a tua misericordiosa contenção ao me ouvir, pelo menos até aqui e a história – ah, sim, a história! – não, não te preocupes, afinal ela é longa, o tempo se esvai como líquido entre as mãos, e é melhor assim que tudo fique para outro dia, quando também não mais irei contá-la.

Não te dês ao trabalho sequer da curiosidade, pois em mim habita o improviso e decerto, do muito que te diria, a maior parte seria pura invencionice, assim, hás de sair agora, no que te dou razão, embora não te dê meus argumentos, minhas metáforas, sequer minhas metonímias, que tanto aprecio. Ficamos assim, então, sem mágoa, sem remorsos, sem desconfianças, tu partes e levas contigo o que trouxesses, tuas tarefas, teus agendamentos, tua pouca paciência, enquanto eu, pássaro livre e altaneiro levo em mim apenas o trinado da liberdade dos que nada tem a perder. Adeus, então.

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O homem caminhando

Agosto 4, 2009 noite Deixe um comentário

Sozinho por odisseuiag

Fonte: http://www.flickr.com/search/?w=all&q=caminhando+e+chuva&m=text

Há um homem que busca ver o que se esconde sob a chuva que molha as calçadas, as ruas, que se precipita sobre a cidade. Ele está ali, olhando através da vidraça as luzes âmbar das noites, mas seu pensamento está absolutamente longe, distante de tudo aquilo. Sua vontade atravessa a chuva, a noite, e vai perseguir seu desejo. Não, ela não está, não, ela já se foi, e tudo é passado. Há uma intensa sensação de vazio, um ato de resignação que o acompanha nos últimos meses. O homem veste um impermeável, sai para a rua, acende um cigarro e caminha em meio à chuva e ao frio. De certo modo, a água que cai o transporta à infãncia, à casa de madeira onde nasceu, e a lembrança do sorriso de seu pai de repente lhe aquece o coração.

Ele anda, anda, e vê luzes em perdidas janelas de apartamentos e ter cruzado por pessoas apressadas. Caminhou serenamente entre a chuva, tentando justamente não pensar, se concentrando apenas na força de suas pernas, em sua respiração e na própria noite. Finamente, entrou em uma cafeteria, improvável, pequena. Havia ali apenas duas pessoas além dele. Pensou que o café lhe faria bem, e foi o que aconteceu. Saiu para a noite, acendeu outro cigarro e continuou andando. O pensamento recorrente apanhou-o em cheio. Lia, as crianças, Fabiana, o amor, a casa, tudo acabado, e cada lembrança era como um alfinete que o feria. Continuou andando.

Quando o dia amanheceu, ainda o encontrou ali, como que carregando um peso excessivo que teimava em assoberbá-lo. O sol iluminou-o enquanto ele, o caminhante, buscava timidamente o caminho de volta.

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A cidade

Julho 20, 2009 noite 2 comentários

A Cidade Fantasma by Thalisson

Fonte+ http://www.flickr.com/search/?q=cidade+fantasma

Sapere aude, junho de 2009

Ali, naquela planície, havia uma cidade, e ela era como algumas cidades que temos em nossa mente. Todas as cidades; ali havia um rio que serpenteava e a abastecia durante o ano inteiro, e havia também ruas, avenidas, vielas, pequenas pontes, travessias, monumentos, praças e muitas pessoas que íam construíndo seu dia-a-dia, amando, envelhecendo, nascendo e se aposentando. E como em toda a cidade, havia os prédios, todos eles, os históricos, os modernosos, mesmo os shoppings (não há uma cidade sem eles…) e eram antigos, de todas as cores possíveis e ainda aqueles que foram perdendo as cores, as escolas, as repartições públicas, os hospitais, mesmo os hospícios, enfim, havia tudo ali que existe dentro de uma cidade, os lugares mal-afamados, os lupanares, os distritos policiais, as sargetas, a marginália que aumentava a cada final de dia e que ali parecia multiplicar-se enquanto o rio era ferido, maltratado, mas seguia o seu curso sempre igual entre as montanhas e os vales. E ali, naquela cidade, havia uma avenida e dentro dela uma rua transversal e dentro dela os seus prédios e dentro de um deles um apartamento no qual vivia um homem só e dentro do homem havia um coração e dentro dele nada, absolutamente nada.

Talvez, pensando naquele homem sem cheiro nem cor, que se confundia com a própria paisagem, com as pedras e com as cores dos tijolos que construíam as paredes, e sem nada no coração que alguém, de certo modo poético, tenha cunhado a expressão cidade-fantasma.  

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F. e a diagonal

Junho 30, 2009 noite 2 comentários

 por elisandro.borges

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=desespero&page=2

F. sabia que talvez não fosse possível atravessar a avenida Assis Brasil; sempre, àquela hora o vaivém dos veículos era enlouquecido, além dos dois corredores de ônibus, cujo trânsito nunca cessava. Mesmo assim, movido pelo desespero, F. cruzou a avenida na diagonal. Pura roleta russa. Pura diagonal de homem gol. Pura diagonal que traduzia uma vida também assim, de atitudes incompreendidas, contidas até o extremo, atravessadas. F. realmente não se entendia. Tanto modo pra se matar e foi escolher justo o mais difícil. Poderia simplesmente usar, dos métodos, o melhor: um frio disparo de arma contra o palato. Mas não,foi buscar justamente um dos mais arriscados e que podiam, além de causar muita dor, falhar. Como quase tudo em sua vida, pensou, mas pensou errado e agiu pior ainda. Coisa de amador ou de quem, no fundo não tem coragem de assumir o que quer. “Sou um fraco”, foi o último pensamento que teve antes de sofrer o inevitável golpe.

F. não morreu, mas partiu a coluna, ficando tetraplégico e – se algo ainda podia ser pior – totalmente dependente de quem tanto odiava, justo quem lhe fizera cair em um desespero tão grande que o impeliu a atravessar, como um ensandecido a avenida Assis Brasil. “Entrevado” era a única palavra que vinha à mente de F., prostrado em cima de uma cama para sempre, uma vez que não dispunha de recursos para amenizar suas dores. Seu desgosto e a sensação de inutilidade eram sua companhia constante. Queria, urgentemente, levantar daquela maldita cama que o retinha como uma prisão e que o afastava definitivamente de uma vida que tanto gostaria de retomar.

Em uma madrugada, quinze anos após o acidente, reduzido fisicamente a um nada e totalmente dependente, vei0-lhe a redenção esperada, através de um ataque cardíaco fulminante; nada pode salvá-lo e, gostemos ou não, a história acaba aqui, porque nem sempre a vida real segue os roteiros de novela e menos ainda os heróis estão dispostos, quando desejamos, a salvar o mundo.

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Âmbar

Maio 26, 2009 noite Deixe um comentário

 Sombras por Danann

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=luz+ambar&page=6

                                                                                                                                     

                                                                                                                                      Para Esther 

 

Aprendi que existe dois tipos de solidão: aquela desejada e a provocada por circunstâncias, sem a vontade de quem está só. Assim, pelo menos teoricamente podemos optar e isso faz parte da nossa trajetória de vida. Não sei porque isso veio à minha mente… talvez porque esteja muito frio hoje, seja domingo à tarde e a chuva continua escorrendo pelas ruas, pelas calçadas, acostamentos e janelas do apartamento e especialmente pela minha alma. Vejo televisão, ou pelo menos finjo para mim mesmo que o faço, tentando disfarçar o que já sei. Sequer me interesso pelo programa, de todo feito para imbecis. Ritualmente abro a porta do meu apartamento em busca de algo ou de alguém que possa estar circulando pelo corredor… Ninguém. Aqui e ali uma luz âmbar ultrapassa os desvãos de algumas portas, indicando que há pessoas em alguns dos apartamentos e é só. Fecho a porta e retorno para meu espaço interno. De pé, olho para cada um dos móveis como se fosse pela primeira vez.

À mesa, meu filho tem sete anos e conta suas histórias, do que está fazendo na escola, e sorri amorosidades que as crianças possuem de modo espontâneo e cálido. A vida é isso, um banho tépido, um frescor infantil e sem malícia. Agora minha mulher circula entre o quarto e a cozinha, com seus olhos rápidos e seu corpo ágil. Num instante e ela sorri para o filho, enquanto põe seus olhos em mim. A xícara, como fui esquecer de pô-la na mesa, bem na hora do café? Vou para a cozinha, trago o restante da louça. Um gol explode na televisão e tudo automaticamente congela para escutar de quem foi, como foi e se vai haver slow motion. Mais um pouco e a noite irá cair, e enquanto nosso filho estiver dormindo, estaremos abraçados, comentando as coisas do dia-a-dia, os momentos atribulados, preparando mentalmente uma agenda para o dia seguinte. Corte.  Meu primeiro filho, dos quatro que tenho, está estudando no quarto, o vestibular vem aí e as suas inquietações aumentam, especialmente com física e com química. As chamadas ciências duras além, é claro, da matemática. Pouca gente gosta de matemática. Muitos a associam aos rigores da linguagem, às armadilhas do pensamento, às inflexibilidades enfrentadas na vida cotidiana. Meu filho apenas a suporta, não mais que isso. Já são duas horas da manhã, e ele acaba de desligar a luz do quarto. Levanto-me e caminho pelo apartamento. Tudo desligado, posso finalmente dormir. Sempre sou o último a deitar. Passo pelo quarto, olho meu filho, desejo que tenha uma boa noite de sono e caminho para a cama. Corte. O estádio está repleto e quando o Inter entra em campo o Beira-Rio vem abaixo. Cantam-se hinos de torcidas, a alegria nos acompanha como uma cálida companhia. O domingo é de sol e é muito certo, para quem é torcedor, que o Palmeiras será apenas uma vitória a mais do Inter. Naquela tarde o Inter empatou. A sensação de empate é talvez a pior de todas: não é uma derrota nem é vitória, é algo intermediário, que incomoda ao Inter e incomoda menos ao Palmeiras. Voltamos para casa e a sensação não é boa. Corte.   

Corte. Corte. Corte. Nada mais existe, as lembranças apenas me trazem esse sentido, esse sentimento de corte. O apartamento está vazio, retorno de meu sonho, os devaneios findaram e estou aqui, parado no meio da sala, olhando as minhas recordações. O computador, esse poderá vir em meu socorro! Vou rápido em direção ao mesmo e ao ligá-lo procuro desesperado por alguma mensagem. Não há nada no messenger, nada no orkut e, na caixa de mails apenas bobagens e piadas (os argentinos diriam chistes, não?) sem graça, mandadas por alguém cujo nome real não é muito familiar. Há também algumas pessoas em sites de relacionamento que dizem querer falar comigo. Uma outra piada, eu sei, apenas contada de modo diferente e por outros protagonistas. Pego o meu celular e tento ligar para um amigo, daqueles que faz cinco meses que não vejo. O número está desabilitado. Meu amigo sumiu. Jogo o celular sobre a cama, vou para sala e desligo a televisão. Poderia ir a um cinema, mas sequer tenho ânimo para pesquisar no google. Finalmente resolvo tomar um banho. Pode ser que a água fria lave bem mais que o meu corpo, pode ser que, de algum modo, alivie a minha solidão. Penso no corredor do prédio e descubro claramente o que sou, quem eu sou e porque sou o que sou. A luz filtrada dos apartamentos e que iluminava parcamente o corredor,  invade minha alma. Sou assim. Uma luz âmbar.

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Nano-bolha

Janeiro 16, 2009 noite Deixe um comentário

Relojes del museo del tiempo por Museu del Temps

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=tiempo&page=13

Às vezes, quando parece que o mundo todo fala, grita, berra, comenta, discute, eu clico a tecla mode. Isso ocorre no auge da confusão e, a partir daí tudo e todos ficam mudos, imóveis, e eu tenho a maravilhosa sensação de ser um deus. O tempo, contudo, continua fluindo, mas de uma forma imperceptivelmente mais lenta, de maneira que quando cessa o efeito da tecla mode, poucos são os que notam micro-diferenças no relógio e - claro – não dão a mínima importância ao fato.

Mode é tão poderoso que para tudo ao meu redor; então as dimensões tempo-espaço abrem uma nano-bolha virtual, onde me abrigo de todo o ruído, som e palavrório explodindo ao meu redor. Então eu descanso e me integro ao universo. Cada vez que eu clico o botão mágico, a minha vida diminui exatamente o tempo de duração da bolha. 

Talvez por isso, por ser uma pessoa desmedida e por não saber controlar minhas ansiedades, eu esteja já tão envelhecido, e minha pele tenha se carcomido tão rapidamente. Tenho tempo para as minhas memórias, e normalmente uso a nano-bolha para escrevê-las, de modo tão lírico que talvez  algum descendente se dê ao trabalho de lê-las, entendendo um pouco mais o que sou (ou o que fui, quando lerem).

De todo modo, aqueles momentos maravilhosos me pertenceriam para sempre, me acolheriam. E quando enfim eu encontrasse meu descanso, talvez eterno, talvez não, eu estaria feliz. Poucos são tão bem afortunados, tão agraciados por Deus. Fui ungido, fui escolhido para conhecer a nano-bolha. Eventualmente, quando ao seu abrigo, até neste blog eu escrevo.

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Gavetas

Janeiro 11, 2009 noite 2 comentários

the best kept secrets inside por nadiobolis

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=gavetas&page=5

O homem, já idoso e só, procurou, aqui e ali, as suas justificativas. Achou-as facilmente, estavam espalhadas por sua casa, por sua história. Depois ele procurou os seus amores, que estavam em multigavetas: sexo, paixão, amizade,  reconhecimento, tudo isso e muito mais poderia ser amor. No entanto ele buscou só a palavra amor. Achou e, ali, buscou seu conteúdo: havia alguns nomes, os dos irmãos, os dos amigos. Procurou mais no fundo da gaveta e achou duas fotos antigas, em preto e branco, e reconheceu ser a de seus pais. E quando menos esperava, uma foto três por quatro, já esmaecida pelo tempo, quase saltou-lhe a mão. Mostrava uma mulher bonita, de traços bem definidos e um olhar decidido, que contrastava com a boca pequena, bem feita. Ela, a foto, estava lá, mas ele não a identificou. Estava muito cansado. Viu as fotos dos filhos, e pensou – ingratos! – fechando a gaveta de vez.

E lá ficou a foto do seu amor, no fundo da gaveta, sem que ele, das dezenas de vezes que teve oportunidade em sua vida –  a reconhecesse.

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Futebol

Outubro 29, 2008 noite Deixe um comentário

Beira Rio por f_nunes

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=colorado+beira+rio&m=text

O dinossauro não gostava de futebol, então nem deu bola para a bola e para a goleira.

O sol continuou brilhando, enquanto o dinossauro passeava pelo Beira-Rio.

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