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Archive for the ‘Crônicas’ Category

Amor

Outubro 17, 2009 noite Deixe um comentário

©©BODEGÓN DE AMOR™ por ©©Aticolunatico.

Fonte: http://www.flickr.com/photos/aticolunatico/1107256261/

Sapere Aude, 16 de  outubro de 2009.

O amor  não requer horários, compromissos, agendamentos; nem sequer sacrifícios ele requer; estar amando não é estar a mando de, por qualquer motivo que se imagine. O amor não é posse, embora possuamos e sejamos possuídos no amor, nem tampouco domínio, embora nos ponhamos tão dominados; é plena liberdade. Não amamos se não nos sentimos livres, em paz. Não se define, não se troca, não se barganha, não se mercancia com o amor. Talvez o mais sublime do amor seja conviver com tudo isso e continuar com o seu encanto, e nos aquecer tanto a alma e os sentidos. É, talvez o o amor seja isso, um misto de nossos desejos e de nossos desvarios.

Amar para o futuro é quase-amar, para o passado é lembrança. O amor é agora, ele simplesmente é. Sendo tudo, não se reduzindo a nada, é uma fímbria, uma tessitura, um horizonte que nos torna mais humanos, mais próximos, mais amigáveis, enfim mais amoráveis. O amor é mesmo a saudade dos momentos de paixão que poderíamos ter tido, mas não tivemos. De todo, renunciarmos ao amor é esquecermos não apenas o mundo, mas, especialmente, de nós mesmos. Amor é poesia, é música, é dizer, é muito mais do que confusamente poderíamos tentar explicar.

Exercitemos pois o amor; as luzes e o calor nos aquecerão. Não percamos nossos tempos; o amor, esse moleque, nos espera inesperadamente no brilho do olhar que, até então era somente um olhar.

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A expressão mágica

Outubro 5, 2009 noite 2 comentários

Estranha Criatura por José Ferreira 2009.

Fonte: http://www.flickr.com/photos/josesilvaferreira/3471482991/

Se você não está interessado na aula, se não entendeu algo, se não quer fazer o que foi proposto, se não pretende o mínima para tentar aprender se “não gosta” da aula, da disciplina, do professor, de seus pais, do mundo, se tem certeza de que o tema a ser estudado é muito difícil, quase que impossível de ser compreendido, se, ou qualquer outra coisa que, teórica ou praticamente o impeça de aprencder, especialmente sua própria vontade, basta usar a expressão ”eu sou burro(a), não entendi”, e pronto! é o seu passaporte para o Éden.

A partir do momento em que você diz isso, você está também comunicando ao seu (sua) professor(a) que está se autoliberando de qualquer compromisso com o estudo, seja lá o que for que a palavra compromisso signifique.

Aluno, liberte-se: assuma publicamente a sua indolência, ignorância e preguiça mental: basta clicar os botões certos e voilá - o pátio será sua saída para a felicidade!

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Confissão

Setembro 14, 2009 noite Deixe um comentário

Amenazadoras sombras / Threatening shadows por Miguel Ángel Yuste.

Fonte: http://www.flickr.com/photos/mollanas/2192168179/

 

Quis ativar em mim o gosto pelo meu passado, por tudo que me havia sucedido até chegar aqui, nesse momento, e poder te dizer o que se passou comigo, mas não de um jeito fugaz, nunca um “oi” desses descosturados pelo tempo, desses que dizemos e na verdade soam como um “estou indo embora”; não, que dessas saudações já ando farto, não as suporto mais.  Contrariamente, queria te dizer o que fui para que entendesses o que sou, e talvez pudesses entender melhor os desvãos dos meus pensamentos, mais ainda um pouco das minmhas inarredáveis promessas, bem mais sobre o que estendo em direção ao teu amor. Queria tanto te dizer o que fui e, no entanto, agora que estou aqui, olhando teus olhos, pouco mais do que calar é o que faço. Retraio-me frente a ti como um órfão, como uma estrela sem poesia, como um mar parado na imensidão da calmaria. Perco-me tanto de ti quanto me perco em ti, me perco de ti tanto quanto me perco de mim. Estou aqui, mas nada posso fazer mais do que simplesmente balbuciar. Sinto uma dor imensa ao pensar nos meus próprios esquecimentos, e só não sou leve porque teu olhar me centra à terra, me traz de volta de meus pensamentos para tua companhia.

Um pouco só, abraçando a solidão é o modo como me vejo ao aproximar-me de ti, porque tu és o meu todo, e nada que possas dizer poderá te remover de dentro do meu coração. Mesmo as tuas ausências e o que possam causar-me de desconforto não são capazes de te arrancar de mim, e talvez por isso tenha tanto de te dizer o que em minha alma ocorreu quando, bem antes de te conhecer, já te buscava. Tenho necessidade de dizer-te o que os anos de angústia me roubaram, o que os anos de tristeza me marcaram para que possas por em mim o bálsamo dos teus olhos. Quero te contar de mim, pois me necessito ver em ti, quero criar um avatar de mim para mergulhar em teus olhos, quero libertar-me de vez dos pesadelos que me tornaram o que sou, para renscer em teu olhar.

O tempo, contudo, conspira contra mim, e sei que, pouco mais, pouco menos, irás partir não apenas daqui, mas de mim, e a tua lembrança não será necessariamente forte para me fazer escrever, de modo mais atento, o sentimento e o sentido com os quais moldasses meus desejos. Preciso pois, falar-te agora, e mesmo que não me possas escutar, mesmo que te ausentes, continuarei dizendo para mim mesmo o que tua falta me traz. Enfim, a qualquer momento, talvez por um motivo ínfimo, restarei cansado e cairei novamente no vazio em que me tornei em consequencia da intensa dor que me traz a falta dos olhos teus.

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Lembrar o amanhã

Agosto 27, 2009 noite Deixe um comentário

Volto amanhã ...I'll come back tomorrow por Casimiro Valério

Fonte  http://www.flickr.com/search/?q=amanh%C3%A3

|Lembrar o amanhã é saber que hoje (já) é a consequencia de ontem e que os amanhãs somente serão realmente novos dias na medida em que não nos permitirmos afundar nos compromissos, horários certos e outras obrigações, além dos processos produtivos, pelo menos não o nosso espírito.

É buscarmos, de um modo ou de outro, mais satisfações e menos estresses. Lembrar o amanhã é saber que hoje, daqui a pouco será o passado e que o momento em que digito esse texto já se diluiu entre os móveis, as paredes, as ruas e as ventanias.

Recordações de hoje e projetos nos levarão até amanhã; somos inexoráveis conosco mesmos. Cada um de nós tem a sua própria noção do de um tempo-dimensão, que é o da nossa estrutura biológica, e, assim como cada um de nós vê algo de modo distinto da forma como outro o vê, ocorre tanto assim com os nossos espaços, com os nossos sentimentos. Nossos sentidos igualmente determinam o que observamos, pois observar não implica necessariamente em passividade, como os físicos quanticos já nos informaram, mas sim em possibilidades. Na medida em que interferimos sobre o que vemos e o que vemos interfere sobre nós, não somos nem deuses nem instrumentos, mas máquinas desejantes, conforme Deleuze. Frustrações incorporadas, seres neuróticos em busca de novos referentes que sejam plenos de culpas e de redundãncias. Somos o que nos construímos, dentro das opções possíveis, mas, mesmo sem elas, continuamos a nos construir.

Somos seres que aprendem, porque os seres vivos aprendem, não poderia ser diferente. Lembrar as frustrações é prorrogarmos seus efeitos, para que possamos criar uma nova consciência comportamental, a partir do que já conhecemos, ou restarmos em nossas zonas de conforto. Nos construindo no cotidiano, o tempo cronológico se esvai mas isso, de certo modo, não importa. Talvez seja mais significativo o cultivo da vaidade, estar up to date quando necessário. De qualquer modo, talvez seja interessante lembrar o amanhã, no mínimo para não esquecermos de nós mesmos e de que, queiramos ou não, não somos meramente as lajes de um calçadão. 

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Morte no engarrafamento

Agosto 20, 2009 noite Deixe um comentário

Atropelamento por Brazil Press - Welcome.

 

Fonte: http://www.flickr.com/photos/brazilpress/3752784322/

Junho de 2009.

Ontem à noite, retornando da escola, por volta das 22h40, eu de carona, notamos um engarrafamento que normalmente àquela hora não acontece. Noite fria, meio de semana, retornando do trabalho com cansaço acumulado e, sem mais nem menos, tudo parado, o trânsito sem fluxo. “Só pode ser a BM fazendo blitz” - comentamos. Mais comentários casuais. BM é a sigla da Brigada Militar e em uma blitz param-se veículos, para verificar documentos, pessoas ou ambos. Erramos. Adiante, uma mulher já madura jazia morta, no lado oposto da via. Vestia um blusão pesado e uma calça comprida, cor escura. Há duas semanas um jovem igualmente morto, vitimado em mais um dos infindáveis acidentes envolvendo motos, também se encontrava jogado na pista, desta vez no início da noite, por volta das 18h15, no momento em que eu me dirigia à escola.

Nos dois casos os cadáveres estavam sós, ninguém os pranteava e, muito provável, até pouco tempo eram pessoas dotadas de capacidades, de sonhos, de famílias e dos inevitáveis compromissos do dia-a-dia. Talvez tivessem filhos, talvez não, mas agora estavam ali, no meio da via pública, como se fossem res – coisas abandonadas o que, naquelas circunstâncias, de certo modo, eram. Passamos pela mulher, pelo corpo da mulher da qual não sabíamos o nome e absolutamente nada. O automóvel voltou a deslizar pela avenida. A curiosidade se esgota rápido, flui como água e parece que todos nos habituamos, desde muito com a banalização da morte, com a rotina onde sequer esse evento necessita de uma justificativa, a não de algo como um comentário breve, um muxoxo, um piscar de olhos, um menear de cabeça e só.

Vivemos em um tempo em que poucas coisas são capazes de nos mobilizar, de nos fazer sair da apatia e da indiferença, ressaltada alguma injustiça sofrida ou a catalizadora indignação. Corpos mortos em acidentes não mais nos comovem, e não paramos um segundo para refletir sobre o fato. A morte é não muito mais do que um mero dado estatístico, pouco importando se ela se deu graças a uma doença, a um assassinato, a um suicídio. Olhamos corpos reais com a mesma naturalidade e indiferença que observamos corpos virtuais na web, na televisão, nos jornais ou em qualquer outra mídia. É muito mais provável que lamentemos sincera e profundamente a morte de um cão ou de um gato do que a morte de uma ou mais pessoas, simplesmente porque criamos laços afetivos com os animais, mas somos individualistas a ponto de não nos importarmos – e especialmente de não nos vermos refletidos e em interação com o outro.

Nos sentimos e agimos como peças de engrenagens, a tal ponto que não temos e não nos concedemos tempo para pensarmos no  que realmente importa, a não ser em nós mesmos, em nossa produtividade, em nossos desejos materiais, em nossas solidões, em procurarmos saber se temos ou não dinheiro para pagar o aluguel ou o financiamento, a troca de carro, o cartão de crédito, além de, claro, nos envolvermos no acúmulo precário de bens que, por sua vez são ainda mais inflados de uma futura e previsível obsolescência. Na condição de peças, de coisas massificadas, o uommo machina assim vê o outro, especialmente quem não conhece, pelo que naturaliza-se a indiferença na mesma proporção em que esquece-se a solidariedade.

Das lições, nada aprendemos. Parecemos necessitar de uma catarse coletiva, de um crime bárbaro e do incentivo midiático para promovermos nossos sentidos e sentimentos. Somos edulcorados, acríticos e, especialmente, egoístas em relação aos outros. A continuar assim nos transformaremos, da forma mais rápida possível em seres kafkanianos, insetos sociais dentro de comunidades de interesses mercantis onde, ao invés de feronômio, andaremos tontos, iluminados da clara cegueira de que nos noticia Saramago, tateando em busca – talvez – de nossas combalidas humanidades e de alguns valores fundamentais que devemos ter jogado em alguma gaveta ao longo das nossas histórias.

 

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Declaração tardia

Julho 22, 2009 noite 2 comentários
 
 
Não sou um homem bonito, desses que atraem os olhares femininos de modo quase que automático. Em suma, a minha aparência não me torna um objeto de desejo momentâneo. Se já maduro sou assim, quando adolescente também era. Portanto, não tive relações amorosas com mulheres lindíssimas. As pré-modelos passaram longe de mim, deixando-me, às vezes angustiado, especialmente em uma fase de vida na qual muito se diz e pouco se faz. Pois justo por me relacionar não com a beleza em si, mas com o melhor das pessoas é que fui desenvolvendo, aos poucos, o sentido de que, em verdade, eu namorava sim mulheres fortes, mulheres com inteligência, criativas e amorosas. A amorosidade sempre preside relações nas quais o efêmero não é posto como valor absoluto.

Isso fez com que eu ficasse cada vez mais seletivo, que cada vez ficasse mais bem humorado e tivesse, através do contato com o mundo feminino, uma visão diferenciada – ou pelo menos mais balanceada - da vida, embora, evidentemente, me tornasse menos flexível às bobagens que escuto e às conversas fúteis com as quais sou obrigado a conviver. Qualificar uma visão melhor de mundo, misturando o feminino ao masculino, a curva à reta, a sensibiidade à razão, talvez essa tenha sido a melhor herança que me deixaram as mulheres com as quais mantive amizade, aquelas que amei e, mesmo, àquelas que me relegaram ao sempre possível nicho do esquecimento.

Beijo grande. Amo vocês.

 

hILTON 

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Sampa 2009

Julho 19, 2009 noite Deixe um comentário

Lago do Ibirapuera, noite em Sampa by [.#43] Fabio Raphael

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=sampa

lAGO DO IBIRAPUERA À NOTE

Chovia em São Paulo. Onde estava, no bairro Casa Verde, parecia que o mundo vinha realmente abaixo. Estrangeiro dentro de si, estrangeiro na cidade, nada mais lhe restava do que voltar ao pequeno hotel da Rudge com a Salesópolis, especialmente porque era noite. Sem um automóvel, não queria se arriscar por aí, em um lugar que não conhecia, em limites que não dominava. A megalópole praticamente o obrigava a ter cuidados adicionais, algo entre simplesmente arriscar sair à noite sem referências maiores e sem ter com quem contar ou ter um pouco de paciência e procurar ver, de dia, o que a noite lhe negava.

São Paulo. São Paulo. “São Paulo”, dizia ele, quase de modo reverente. Quando andava pela Rudge em direção ao centro, uma caminhada de aproximadamente uns cinquenta minutos, se perguntava porque a megalópole tanto o impressionava, pois também morava em uma capital. Não era alguém que se impressionasse de modo especial por inovações tecnológicas, e apreciava a arte, a conversa inteligente e o humor. Concluiu que a dimensão do inusitado e do múltiplo eram ímpares ali, e era isso que o encantava, além da arquitetura, claro. Andando sempre pela Rudge, passou pelo CRV Mário Covas. Foi uma surpresa, pois vinha distraidamente pela rua quando, de repente, se deu conta da placa. Entrou imediatamente e lá foi atendido por Nicolau Lawand, responsável pela área pedagógica do centro de referência em educação. Conversaram muito tempo, mas, como todos sabemos, qualquer tempo de conversa sobre educação é sempre mínimo. Não lhe aborrecia, absolutamente, não seguir roteiros turísticos. Contrário a isso, apreciava imensamente uma conversa na qual o tempo pudesse ser apenas a fruição de bons momentos. Talvez por isso tenha apreciado tanto falar com Lawand.

Lawand, mais um nome de origem estrangeira em uma cidade múltipla. O encanto de São Paulo era o mundo infinito que ela continha em si mesma. Ser múltipla e ser, a seu modo, acolhedora. Receber pessoas do mundo todo, os Lawand, os Schaninni, os Lazzaroni, absolutamente todas as etnias distintas ali recebidas, cada povo com seus costumes, com sua educação, com seus ritos, mas todos vivendo em paz étnica.  

Em uma das manhãs decidiu almoçar no centro. Como tinha tempo, optou por não tomar qualquer ônibus, mas ir a pé, um hábito ao qual vinha se habituando para realmente sentir a cidade, veer as pessoas e compreender melhor os cenários onde se movia. Quem segue pela Rudge em direção ao centro passa por um viaduto (que leva ao bairro, chamado Casa Verde) e, logo mais adiante, a um outro. De repente, parou para observar uma linha de trem que passa em umnível de rua abaixo, cortando o viaduto. O que viu o espantou. Ali, além da linha de trem, havia uma enorme favela. A mesma não tinha qualquer organização; simuolacros de casa se ajuntavam aqui e ali entre a sujeira e os dejetos. Ripas de tábuas protegiam tenuamente o que deveriam ser casas e pedaços de papelão se espalhavam aqui e ali, como uma triste realidade. Como havia chovido, o barro se acumulava e os que estavam por ali, deambulavam de um lado para o outro, com algo que deveria ser vestes. Crianças sujas se apinhavam de um para o outro lado, e ele, espantado, observava a tudo.

Do nível em que estava observando, podia notar, em sua diagonal, prédios enormes, alguns de bom gosto, outros nem tanto, feitos para acolher a classe média. Abaixo do viaduto o caos chamado Crackolândia. Como o nome diz, vive-se de crack em tal lugar, seja da venda ou do consumo. Quando escrevo este post, tenho notícias de que a polícia invadiu a Crackolândia e que seus habitantes andam agora vagando pelo centro de São Paulo, fazendo as mesmas coisas que faziam ali: comercializando e consumindo crack.

São Paulo é um pouco como são os homens e as questões da cultura: passa-se da sofisticação de uma avenida Paulista a trechos de insanidade; passa-se do Museu Paulista à violência em segundos. Afinal, nós não somos assim?

 

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Princípios incontestáveis da obtusidade

Julho 17, 2009 noite 2 comentários

La fatiga de la ignorancia by carlos cubeiro

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=ignorancia&w=all

 

Ouso dizer que todos nós temos nossas pequenas ou grandes obscenidades e ignorâncias, alimentadas dentro de nossas inconstâncias. O que se segue não é um manual de boas etiquetas; contrariamente, é uma pequena fotografia dos nossos infindáveis defeitos, de nossas imoralidades consentidas ou não. Um manual de dispositivos que muitas vezes usamos cotidianamente, sem nos darmos conta, ou, o que é pior, que fazemos de modo racionalizado. Talvez a gente se reconheça, mais ou menos, mas, sem qualquer pretensão, talvez nos tenhamos dedicado a alguns desses itens de modo estratégico.

De qualquer modo, são atos vis.

Mais: me apetece imensamente dizer que esse é o tipo de listagem infinita, sempre buscando novos adendos. Se houver novos itens, por favor, colaborem.

Um abraço a todos que me ajudaram, durante todos esses anos a elaborar esse pequeno ser abjeto.

Sejam bem vindos.

hILTON 

1

Brancos são superiores aos negros, homens às mulheres e todos são superiores aos pobres.

2

Haverá um esforço contínuo e persistente no sentido de submeter a inteligência à mediocridade e à ignorância.

3

Sempre que possível, seja desagradável.

4

Só faça ou deixe de fazer algo se houver alguma vantagem a ser auferida, especialmente financeira.

5

Não confie em ninguém. Todos são inimigos.

6

O mundo foi criado para você e não o contrário.

7

A aparência é tudo.

8

Entre o burocrático e o criativo, estimule o primeira e critique permanentemente o último.

9

Sexo é algo que você usa unicamente para o seu prazer.

10

Avalie os homens pelas suas posses, as mulheres pelos seus corpos e todos de acordo com os seus interesses.

11

Entre a administração e o humano, sempre prefira a primeira opção.

12

Não pense, apenas execute.

13

Todo homem bem sucedido é homossexual, pedófilo, ladrão, estelionatário ou recebeu herança da família.

14

Ser mau humorado é a regra, pois o bem humorado não leva nada a sério.

15

Sempre que puder, seja maledicente.

16

Mulheres inteligentes são chatas e, no mais das vezes, perigosas e ameaçadoras.

17

Quando você quiser um(a) ditador(a), conceda uma fatia de poder, mesmo que ínfima, a um prepotente.

18

Quem não trabalha é porque gosta de ser vagabundo.

19

Sempre que puder, concentre o máximo de riqueza possível, sem qualquer espécie de retorno social.

20

Destrate e ridicularize as preferências dos outros, especialmente as religiosas, étnicas e políticas.

21

Não perca uma oportunidade de se mostrar superior a quem quer que seja.

22

Constranja e critique os outros da maneira mais insidiosa ou ostensiva que puder.

23

Sempre generalize, de preferência utilizando o senso comum.

24

Ao receber uma mensagem em seu e-mail repasse-a imediatamente para o máximo número de pessoas possível, mesmo que saiba que tal mensagem é mentirosa, antiética, racista ou caluniosa.

25

Trate a negligência como uma flor a ser cultivada.

26

Classifique as pessoas e as catalogue, como se todas coubessem no seu escaninho.

27

Em hipótese alguma socialize o seu conhecimento.

28

Em assuntos complexos, seja reducionista.

29

Importe-se absolutamente com a opinião de todos sobre tudo, especialmente se entre esse tudo você estiver incluído(a).

30

Em uma reunião, faça o possível para que o foco da mesma seja perdido e, de preferência, polemize assuntos fora da pauta.

31

Fale, pense e vista-se de modo obsceno, especialmente tenha um comportamento obsceno.

32

Sempre que possível, berre; na pior das hipóteses, guinche ou grite.

33

Manipule as situações, não se importando se os outros perceberem ou não, de modo a que façam o que você quer.

34

Use o poder de modo despótico e imperial.

35

Seja subterrâneo e melífluo em seus argumentos, dando preferência a linhas discursivas baseadas no senso-comum.

36

Em uma polêmica ou discussão, não contra-argumente o ponto-de-vista do outro, mas ataque-o pessoalmente e tente desestabilizá-lo.

37

Não revele as suas opiniões nem seja autêntico em seus propósitos; sempre deixe uma carta na manga de reserva.

38

Comprometa-se apenas considerando seus próprios interesses e nada mais além disso.

39

Em uma situação de dissensão, aguarde convenientemente que uma opinião ou uma corrente seja majoritária e só então adira a mesma.

40

Lembre-se: você só tem direitos enquanto os outros só tem deveres e obrigações, especialmente em relação a você.

41

Falte a aula e depois reclame que o professor não o ensinou.

42

Vitimize-se, partindo do princípio de que sempre a culpa é dos outros.

43

Somente seja ríspido com pessoas que se encontram em uma situação econômica, cultural ou social abaixo da sua.

44

Jamais responda diretamente ao que lhe for perguntado. Seja evasivo.

45

Quando você sabe de antemão que alguém tornará pública uma opinião com a qual você não concorde, interrompa, grite, seja ironico, procurando desestabilizar seu oponente. Não o deixe externar o que pensa. Se não for possível, pelo menos plante dúvidas e desarmonias.

46

Cultive a violência simbólica ou física. Tente impor-se ante terceiros, mesmo utilizando a força bruta.

47

Os seus desejos sempre são mais importantes; a sua vontade é sempre a mais justa e as suas decisões as mais sábias.

48

Ser flexível demonstra fraqueza e você, como sabemos, é forte, rígido e inabalável em suas convicções.

49

Entre a sensação e o sentido, opte pela primeira; entre o escutar e o falar, prefiro o último e entre a conversa e a imposição, imponha.

50

Seja sempre macho, porque homem não demonstra seus sentimentos e nem suas reais intenções.

51

Seduza como um meio estratégico para obter alguma benesse ou favor.

52

Quando pretensamente beneficiar alguém, assegure-se de que será, de algum modo, recompensado.

53

Não atualize-se profissionalmente e cristalize-se no passado.

54

Só leia quando houver um ganho calculado.

55

Aproveite a lassidão e o comodismo do outro para justificar sua própria lassidão e comodismo.

56

Havendo oportunidade, jogue um grupo inteiro contra um oponente mais fraco.

57

Nunca traga, para alguma atividade, o material necessário, pois assim você poderá perturbar o outro e todo um trabalho, pedindo-lhe algo que você deveria ter trazido e podendo, então, acusar esse outro de insensível e de egoísta.

58

Se necessitar desculpar-se ou não puder evitar algum tipo de perda em uma situação conflituosa, chore. É uma estratégia bastante utlizada e com ótimos efeitos práticos.

59

Use o sentimento de culpa ou a dependência de um terceiro para atingir seus objetivos.

60

Se o outro errou chame-lhe a atenção; se acertou, não o elogie; diga que ele nada mais fez que a sua  obrigação.

61

Force os outros a escutá-lo, de preferência criando uma história interminável.

62

Minimize o mérito alheio brindando-o com uma irritante indiferença.

63

Cultive a dependência dos outros em relação a você.

64

É imprescindível que suas palavras afiadas como punhais tenham a suavidade do algodão.

65

Quando pressionar alguém, mantenha-se calmo, quase carinhoso e meigo e só então enfie a faca o mais profundo que puder.

66

Em assuntos polêmicos, mantenha-se dentro de uma neutralidade vazia. Deixe que os outros se estraçalhem, enquanto você sorri aos ventos.

67

Não ande, corra. Empurre se achar que deve, mesmo que você não saiba onde quer chegar.

68

Una-se a frustrados, mas competentes. Pessoas felizes nem sempre dão atenção a detalhes e estratégias que podem se transformar em armas.

69

Não atire para matar, mas para incapacitar o outro.

70

Acima de tudo respeite seus próprios interesses; todo o mais é supérfluo.

71

Ignore caminhos construídos graças à criatividade dos outros. Afinal, se você tivesse sido consultado, os resultados seriam muito melhores.

72

Quando alguém necessitar da sua decisão ou ajuda, postergue-a para demonstrar seu poder.

73

Delegue funções e obrigações aos outros, mas mantenha-os sob controle para que possa capitalizar em cima do trabalho alheio.

74

Quando alguém tiver argumentos suficientemente fortes, isole essa pessoa, usando a intriga, a maledicência e a desqualificação pessoal pura e simples.

75

Quando você não for capaz de solucionar algo, culpe terceiros, ou a instituição ou, em último caso, o sistema.

76

Animalize seu relacionamento com as pessoas e humanize seu relacionamento com os animais.

77

Converse sempre em voz alta, deixe o celular ligado, arraste classes e cadeiras, maximizando este tipo de comportamento.

78

Fure filas, fume em locais proibidos; se chamarem sua atenção, bestialize e inicie uma discussão.

79

Se alguém tem por hábito fumar, inicie um discurso anti-tabagismo, indicando precisamente os cânceres possíveis.

80

Se alguém tiver o hábito de fumar, anuncie aos quatro ventos os malefícios que acorrem aos fumantes passivos.

81

Inicie, sustente e polemize sobre assuntos irrelevantes ao contexto do que está sendo discutido.

82

Diga que seu trabalho é insuportável, que seus colegas são intoleráveis e, de acordo com a situação, diga exatamente o contrário.

83

Não estabeleça prioridades nem perca seu tempo planejando sua vida, prefira interferir nos projetos pessoais alheios.

84

Viva pautado pelo relógio, pelas conveniências sociais e por seus interesses profissionais.

85

Inveja. É indispensável nutrí-la constantemente.

86

Seja possessivo e ciumento em relação ao seu amor; liberal e condescendente em relação ao amor dos outros.

87

Quando o assunto não lhe interessar, se faça de desentendido; ocorrendo o contrário, seja atento o máximo que puder.

88

Use o cinismo e designe-o de crítica construtiva, a falta de respeito como se fosse um argumento válido e a ignorância como se fosse sabedoria.

89

No trato com os outros, tenha uma atitude displiscente e dispersiva.

90

Mesmo que você tenha entendido algo, faça com que seu interlocutor repita o máximo de vezes a mesma coisa, levando-o à irritação.

91

Endeuse a futilidade.

92

Em uma aula, palestra ou experiência, interrompa perguntando coisas absolutamente irrelevantes como “que horas são”, “que dia é hoje”, etc.

93

Antes mesmo de ouvir, diga que não entendeu e que você não tem a mínima disposição para fazer o que lhe for pedido.

94

Seja indulgente com seus erros e cruel com os erros alheios.

95

Se atingir uma meta demanda muito esforço, convença alguém a fazer o trabalho, mas não esqueça de colher os louros.

96

A solução dos seus problemas deve ser buscada por todos, mas as questões dos outros são de plena responsabilidade desses outros.

97

Defenda a exclusividade do seu conhecimento como se fosse a última bastilha civilizatória resistente contra os invasores

98

Transforme o seu trabalho em uma extensão da sua vida pessoal.

99

Suporte seu trabalho e odeie seus colegas.

100

Seja rancoroso. Espere anos por uma vingança pessoal. Alimente seu ódio, de preferência cotidianamente.

101

Marginalize ainda mais o marginal, discrimine mais ainda o discriminado e rotule exponencialmente o estigmatizado.

102

Seja objetivo: sentimentos são coisas de tolos.

103

Se algum desafeto estiver fragilizado, esse é o momento de atacá-lo com toda sua força.

104

Mulheres são objeto de uso e de consumo (nem sempre exclusivos).

105

Mostre-se atencioso, apaixonado e delicado até conseguir ir para a cama com a mulher desejada, depois despreze-a.

106

Tenha um dossiê da vida pessoal de seus desafetos.

107

Não seja piedoso com aqueles que não podem ameaçá-lo.

108

Aproxime-se de alguém para colher informações que você possa utilizar contra terceiros que possam importuná-lo.

109

Seja totalmente individualista na prática mas solidário no discurso.

110

Resista a mudanças que podem mudar seu poder de controle.

111

Seja democrático no discurso e autocrático na suas ações.

112

Dê pequenos presentes – baratos, de preferência – a seus aliados, reforçando seus laços de confiança sem gastar muito.

113

Use mulheres para servir de bengala à sua autoimagem.

114

A melhor tecnologia continua sendo a exploração do trabalho alheio.

115

Confunda seus desafetos tratando-os bem para agir quando eles, finalmente, baixarem a guarda.

116

Aproveite da carência de outro para se fartar.

117

Crie artificialmente a imagem de que é doente ou tem algum tipo de problema emocional: é um passe livre para você exercer, sem peias, a sua estupidez.

118

Retalie, mas, dependendo da situação, nunca o faça diretamente, use outros para isso.

119

Veja o futuro através de um retrovisor.

120

Fale com absoluta convicção e certeza a respeito de assuntos que você desconhece por completo.

121

Seja redundante: discurse no sentido de sustentar o que já foi majoritariamente decidido.

122

Faça com que outros percam tempo e energia com irrelevâncias.

123

Discuta e muito a respeito do que já está provado e comprovado.

124

Em uma discussão particularmente delicada havida em um grupo, faça o possível para reacender divergências, expondo-as de modo reducionista.

125

Jamais respeite inscrições para falar em alguma reunião: simplesmente atropele o outro.

126

Em alguma reunião, retenha o máximo possível a palavra, dando-se ares de ofendido quando outro estiver falando.

127

Não esqueça: as suas grosserias são chamadas de espontaneidade.

128

Consuma acima do que pode e depois reclame dos juros do cartão de crédito, do governo, da sua vida difícil, etc.

129

Converse sobre a sua vida íntima como se fosse um tema obrigatório ao grande grupo.

130

Lamente-se constantemente.

131

Trate seu trabalho como se fosse um bico e não se esqueça: sempre reclame de outros que trabalham menos ou pior que você e ganham muito mais.

132

Entre investir e resolver um problema, procure gastar menos e criar paliativos, junto com serviços de manutenção.

133

Viva o ontem e projete o hoje.

134

Siga o planejamento, mesmo que desconectado com a realidade.

135

Faça grandes planejamentos, especialmente se não tiver meios e tempo de executá-los.

136

Viva com um homem por conveniêncie social ou material e apregoe contra a prostituição.

137

Comporte-se de modo lascivo mas use um discurso moralizante.

138

Fique sempre além do seu horário no trabalho, mesmo que não haja nada urgente a resolver: isso fará com que os outros pensem em como você é necessário e em como você vive sobrecarregado.

139

Negligencie a sua família em relação ao seu trabalho.

140

Use sempre números menores de roupa que o seu, para se sentir atraente e sensual.

141

Banque o gentil e prestativo para, após, poder cobrar com juros o que fez por pretenso desinteresse e solidariedade.

142

Empenhe-se em ter discursos moralistas, nos quais, obviamente não acredita.

143

Para demonstrar que gostou de uma refeição, arrote.

144

Ande sempre com uma expressão estressada no trabalho.

145

Viva repetindo que não sabe o que fará na aposentadoria, porque não saber viver sem estar trabalhando.

146

No trânsito, buzine sempre e ande em alta velocidade.

147

Seja inflexível.

148

Mostre-se adulto em relação às crianças e infantilizado em relação aos adultos.

149

Case com o relógio acima de todas as coisas. 

150

Transforme uma pergunta simples em um interrogatório.

151

Recrimine alguém em público, com a voz mais alta e clara que conseguir.

152

Comprometa-se com terceiros a fazer algo e, ato contínuo, esqueça o assunto.

153

No sexo, faça teatro e seja artificial. Leve o celular ligado para a cama.

154

Esclareça o que já foi esclarecido, explique o que todos já sabem e repita o informado.

155

Em ambientes formais, seja informal; em cenários informais, vá de gravata ou de tailler.

156

Introjete nos outros o medo, a insegurança e o ressentimento.

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Diáfana

Julho 13, 2009 noite Deixe um comentário

Fumaça por Acauã Fonseca

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=fuma%C3%A7a+de+cigarro

A fumaça azul do cigarro é diáfana, da mesma cor dos seus olhos. Procuro, aqui e ali registros seus, uma fotografia… talvez algo tenha ficado por aqui, dentro de alguma gaveta, em algum escaninho, perdido entre papéis. Que vontade de uma foto sua, e assim, obscessivo, vasculho o que posso, me perco entre pastas, arquivos, enquanto o tempo vai ceifando as minhas esperanças. Saudade, saudade, dilaceramento da alma, cântico de quem é só. Queria ter você, mas só há recordações, você não está.

Talvez eu não devesse falar, mas este desespero é a companhia de quem, como eu, se sente assim, meio sem rumo, vivendo os dias como um fantasma que transita dentro da solidão que me consome. Não quero amores, não quero sequer esperanças: me movo como um boneco de molas, e quando a noite surge, naufrago com ela. Meus navios não chegam ao porto, meus ritmos perderam a cor, meu sonho esvaiu-se. De real, de palpável e de concreto, na minha vida, só a fumaça azul do cigarro.   

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Contemporâneo

Julho 13, 2009 noite Deixe um comentário

Deus costuma usar a solidão para nos ensinar sobre a convivência por Fábio Pinheiro

Fonte: http://www.flickr.com/search/?w=all&q=solid%C3%A3o&m=text 

Tenho dificuldades em entender determinados comportamentos contemporâneos; talvez porque eu seja de outra geração ou porque tenha uma visão geral um pouco distinta ou, bem mais provável, o somatório de ambas. Me chama muito a atenção de que as pessoas cada vez mais se sintam isoladas quando temos uma tecnologia de ponta para a comunicação. Escutamos e vemos fatos ocorridos no mundo inteiro (claro que devidamente editados e filtrados) mas não falamos com nossos vizinhos. Construímos um discurso repetitivo e redundante para lidarmos com nossos colegas de trabalho, que, por sua vez, nos respondem com a mesmice de sempre, com raras e honrosas excessões, o que me faz concluir que muitos preferem, senão o isolamento, pelo menos o não-envolver-se.

Grande P. conversava comigo dia desses sobre a apatia das pessoas sobre política, ela que, na época de estudante, participou ativamente de movimentos contra a ditadura. Eu disse que simplesmente as pessoas, em sua maioria, perderam o interesse por quase tudo, a não ser pelo sacro trinômio: consumo, sexo e poder. As agendas individuais são cada vez mais extensas e normalmente priorizam questões profissionais, enquanto as relações familiares, afetivas e de convívio são relegadas a um plano sombrio. Pais e filhos devem se habituar aos novos tempos, no qual as convivências são pontuais e os contatos reservados para momentos ou situações específicas.  Conversar, que antes era uma arte a ser cultivada, passou a ser quase uma perda de tempo que se esconde ante o edifício da solidão.

Querer a presença do outro não é absolutamente bem-vindo, pois interfere em agendas e tempos de terceiros, sejam esses pais, filhos, esposas, amigos, etc.  A palavra de ordem é: “prefiro a qualidade do que a quantidade”, o que é de todo uma balela, um escapismo. Se pessoas que deveriam ser íntimas umas das outras se encontram com intervalos de meses, como preservar a qualidade? As relações afetivas estão sendo regidas do mesmo modo que as rotinas do mundo produtivo.Exagero? Então diga lá: excetuando o fato de viverem na mesma casa, há quanto tempo pais e filhos não se encontram? Há quanto tempo afetividades foram trocadas por tênis, passagens de avião, automóveis novos, um livro, um notebook, um pc, um celular, um mp3 ou 4 ou 5 ou, ainda por uma televisão lcd? Há quanto tempo fazemos questão de dizer coisas que não permitam que o outro se envolva em nossas vidas, em nosso território pessoal, e nos isolamos em uma muitas vezes frágil tribo urbana?

O contemporâneo é dominado por tecnologias de comunicação, mas também pela individualidade arraigada e pela competição. Devemos simplesmente aceitar tal fato, sob pena de passarmos por demodées e sermos taxados de inoportunos (por incomodarmos agendas alheias), prepotentes (por querermos interferir em assuntos personalíssimos), carentes (por querermos a presença do outro) e desrespeitosos (por que queremos concorrer com as amizades fluidas contemporâneas). Para esses, não é o convívio que resolve, mas o que é socialmente orientado pela fluidez do consumo: hoje um determinado grupo, amanhã outro, hoje um psicólogo, amanhã quem sabe um psiquiatra e assim por diante. É a maravilha dos tempos modernos.  Sempre há uma alternativa para nos alienarmos, especialmente das pessoas que efetivamente nos amam. Sofremos com isso? Sofremos, mas sofrer também é uma alternativa, é uma opção. Renunciamos aos nossos amores mais caros, mas sempre podemos chorar por eles, quando eles se forem para não mais voltar. Podemos então carregar cruzes, nos dilacerarmos e finalmente mutilarmos nossas almas, preenchendo-as com recordações e com sentimento de culpa.

Temos,  finalmente, uma perda irrecuperável mas isso, dentro de um castelo de areia, talvez possa reforçar ainda mais nosso sentido de solidão. Ao fim e ao cabo, talvez seja isso que queiramos: sermos infinitamente infelizes. Somente aí, destroçados, finalmente podemos nos reconhecer e sermos reconhecidos em nossos grupos sociais. Como diz Saramago, talvez realmente a cegueira tenha o condão de nos unir a todos.

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