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Archive for the ‘Cultura’ Category

Sobre a violência

Maio 27, 2009 noite Deixe um comentário

Violence por Ahmed Jalbani (www.ideatic.com)

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=violence&w=all

Sobre a violência.

Às vezes, olhando alguns filmes, gostaria que os mesmos fossem estritos, datados, ou seja, retratassem uma época específica. Easy Rider, por exemplo, é datado. Vários filmes históricos ou com fundo histórico também. Eles nos fazem refletir a partir de um fato ou de uma conjugação de fatos passados. O que assusta, ao ver Laranja mecânica é que ele é atualíssimo; há um pouco dele pulsando diuturnamente na sociedade, há um “Alex” que se reproduz potencialmente em cada movimento de agressão e violência. No entanto, da mesma forma que Laranja Mecânica, quando assistimos documentários sobre violência e crimes já institucionalizados, ou seja , quando tratamos de fatos e propensões criminosas, nos damos conta de que não se trata de uma configuração em que há um bandido e do outro lado, um mocinhoo. Os tempos de Roy Rogers já se vão longe, e o Zorro já desceu de seu cavalo há muito tempo. Mesmo Super Homem (pasmemos!) já tem suas crises existenciais. Mas, retornando, há uma dubiedade, uma duplicidade na questão da violência.

No documentário assistido, uma fala é fundamental: “Será que a sociedade não quer uma polícia corrupta? Será que a sociedade quer uma polícia que efetivamente entre na casa do meninão rico de Copacabana e o leve preso, ou ao seu pai, ou a todos juntos?” Então, como fica a sociedade? Embora seja doloroso concordar, essa indagação vai remeter às épocas ditatoriais, mas antes, bem antes dela, quando D. João VI fugindo das Terras D’Além Mar, com Napoleão em seu encalço, distribuía as melhores casas existentes no Rio de Janeiro para parte da Corte que o acompanhara em fuga, e os moradores eram postos na rua; quando Isabel terminou com a escravidão por pressão política inglesa, bem como anteriormente o próprio D. João havia, por recomendações inglesas “aberto os portos às nações amigas”, eufemismo para contentar novamente a Inglaterra… Quanto de corrupção e de violência patrocinada pela ação ou inação estatal geraram o caos que ora estamos vivendo?

Hà cerca de três anos atrás, lendo a Veja, prestei atenção em uma reportagem que apontava que a favelização no entorno das grandes cidades brasileiras vem aumentando de forma constante, o que é outra maneira de dizer que a miséria cada vez mais campeia…Para onde irmos? Para a confiança celestial de que nada acontecerá, para as casas prisões que temos hoje em dia, abarrotadas de cercas e que podem ser abertas todas com um piscar de olhos? Talvez estejamos reintroduzindo um conceito já perdido de idade média, contraponto à idade pós-industrial e cibernética…

A questão é pois de todo urgente, e soluções extremas, como a pena de morte já provaram ser apenas um modo de vendetta oficial, mas de modo algum podem sequer constranger o aumento e o perpetuar da violência, tomando-se como referência os Estados Unidos. Somos então cativos da violência? Ela nos toma e joga com nossas vidas da maneira que bem entende? Infelizmente, por enquanto, sim.

Ao Estado também cabe uma parte enorme, talvez infinita quanto ao propagar da violência. Não se trata aqui, de dizermos o óbvio, ou seja, de que os recursos para combatê-la são sempre inferiores, são uma capilaridade em face do jorro de projetos criminosos… O Estado que não protege seus cidadãos é o mesmo que patrocinou a miséria que aí está, uma insidiosa combinação de torpe distribuição de renda, um incremento às favelizações, à propagação de um ensino elitista e quando não de duvidosa qualidade, ao difícil acesso à justiça e à exclusão dos menos aquinhoados no processo produtivo… Essas condições elevam o potencial de criminalidade, elevam a propensão ao violento, ao grosseiro, àquilo que estigmatiza a pessoa como se ela pertencesse a uma classe inferior. Assim criam-se os nichos de riqueza, os nichos de pobreza, enquanto os investimentos em saneamento e em educação em todos seus níveis não crescem…

Verificamos pois que em plena época pós-industrial, em que nunca a humanidade teve à sua disposição tanta tecnologia para melhorar significativamente seu padrão de vida, continuamos atrelados às idéias de fundo político que se caracterizam por simplificações incabíveis onde o complexo é o que prepondera. Peguemos, por exemplo, uma Dinamarca. Qual a contribuição da Dinamarca para os índices altíssimos de criminalidade no mundo? Quase nenhuma. Não há analfabetismo, a maioria esmagadora da população (mais de noventa por cento) possuem casa própria, os serviços de saúde e de saneamento funcionam.

Há então que se ver até que ponto as políticas globais de um país favorecem ou não, propositadamente ou não, trazem um discurso meramente repressivo ou trazem, de outro lado, preocupações emergentes com a sanidade de sua população. A partir dessa mediação é que poderemos alcançar uma mediação institucional que permita, ao menos, enfrentar o caos. Temos de definir não só uma estética, mas a ética dessa estética. Ou, como diria Freire, temos de sair do nível de consciência semi-intransitiva, como sociedade e como prática governamental…

Hilton Vanderlei Besnos

CategoriasCultura, Educação

A velha assertiva

Maio 19, 2009 noite Deixe um comentário

Grobalização por fagnersouza 

Fonte:http://www.flickr.com/search/?q=globaliza%C3%A7%C3%A3o

A velha assertiva de que “para alguém ganhar, outro tem que perder”, revela-se particularmente cruel, em razão da exclusão da cidadania, gerada no âmago de um quadro institucionalizado de injustiça social. No Brasil, hoje, em razão de crises de diversas ordens e do abuso de uma significativa parcela feudal instalada na classe política, há um entre-devorar em busca do alcance de necessidades imprescindíveis à estabilidade individual e familiar, o que, em suma, faz avultar patologias e distorções sociais que se retroalimentam e cuja solução se circunscreve a uma efetiva fiscalização do cidadão sobre as instituições políticas, econômicas e financeiras das quais é súdito. 

Aqui, o projeto neoliberal é porta-voz da globalização. De todo, vasta bibliografia sobre o tema, nos permite visualizar a origem, as tendências ideológicas e as conseqüências de tal fenômeno. Ora, o que tem isso a ver com a escola, e como pode atingir, por exemplo um aluno no interior do Ceará, do Maranhão ou do Rio Grande do Sul? O que o professor  do interior de Goiás tem a ver com tais processos, que por vezes parecem tão distantes e afastados de sua realidade? Usando-se o próprio conceito de globalização a malha de interesses que se estende de Nova Iorque a Brasília, de Hong Kong a Berlim, de Osaka a Miami, igualmente atinge a professora de Tocantins, bem como o aluno de Campinas. Como isso acontece, e quais são as suas conseqüências reais?

Os influxos econômicos e financeiros gestados dentro de uma política nacional globalizada atingem o projeto educacional por inteiro. Exigências do capital trazem conseqüências diretas a política educacional, e não poderia ser diferente. Os salários dos professores, a expansão, conservação ou manutenção das salas de aula, números de alunos matriculados, a capacidade da rede pública em atender tais demandas, tudo está interligado dentro de um sistema de orçamento público e dentro de uma legislação que regula as atividades desenvolvidas pela escola.

Os ingressos de receita nos diferentes níveis de competência constitucional da administração pública (federal, estadual, municipal) bem como sua capacidade de endividamento, moldarão a política educacional como um todo, do qual a professora de Palmas, ou o professor catedrático da USP terão de se haver.  A falta de recursos para atendimento às suas demandas, das mais diversas ordens, tem origem, sim, não raras vezes, em Londres, Nova Iorque, Washington,  Osaka, em Cingapura, e outros locais  alhures. A partir do momento em que a economia globalizada tem a capacidade de volatizar capital, atendendo interesses meramente especulativos, e o feudalismo legislativo comporta-se como porta voz de tais necessidades, seus efeitos atingem todas as instituições, idem sistema escolar, independentemente de suas necessidades, premências ou características setorizadas. Submeter-se a globalização implica submeter políticas nacionais estratégicas.

A escola pública tem seu papel regulado pela administração que a gerou, inconteste sua  verticalização hierarquizada e sua submissão ao poder político que dá-lhe sustentação, além do que seus agentes educacionais encontram-se adstritos a estatuto funcional na maioria dos casos, afora algumas distorções do sistema.  Logo, a mantenedora pública regerá a gestão de suas mantenidas, dentro de seus peculiares interesses e disponibilidade orçamentária, dispondo dos recursos humanos e materiais destinados à escola, balizará sua praxis pedagógica e dará cor a seu projeto educacional.  As tensões havidas no âmbito escolar derivam-se desde posições ideológicas,  movimentos associativos ou de caráter sindical,  diferentes visões pedagógicas, pressões comunitárias e sociais, interesses políticos (ou meramente eleitorais), qualificação do ensino e dos professores egressos de instituição de instituição de nível superior, falta de capacitação necessária para implementar tal projeto educacional, problemas relacionados à estrutura da escola, enquanto instituição inserida no âmbito social, situações de caráter material e ético, violência, predação de escolas, ameaças a alunos e professores, questões que envolvem avaliação, promoção, reprovação, índices de alunos evadidos, preponderância conteudista ou não,  democratização da escola, sendo essas apenas algumas das complexidades com que a escola, pública se depara no seu dia-a-dia.

 A educação comporta análise e visão multidisciplinares, pois seu caráter sócio-cultural predispõe a abordagens que se autocomplementam, o que, contudo está longe de ser entendido como consenso, pois as necessidades educacionais variam assim como as próprias sociedades movimentam-se de modo fluído e complexo. “Esta ruptura entre o mundo instrumental e o mundo simbólico, entre a técnica e os valores, atravessa toda a nossa experiência, da vida individual à situação mundial. Somos ao mesmo tempo daqui e de toda parte, isto é, de lugar algum. Enfraqueceram-se os laços que a sociedade local ou nacional estabelecia através das instituições, da língua e da educação, entre nossa memória e nossa participação impessoal na sociedade de produção, deixando que nós administremos, sem dedicação e sem garantia, duas ordens separadas de experiência”. (Alain Touraine, in Poderemos Viver Juntos, Ed. Vozes, Rio de Janeiro, 1999).

A complexidade animada pelos interesses econômicos, políticos e ideológicos e alimentada pelos mass mídia, pela indústria do espetáculo, pelo azeitamento e pela criação constante de necessidades artificiais via publicidade e propaganda atravessam as diversas sociedades e instâncias, impondo um modus vivendi fundado no egocentrismo e no consumo alienante, em clara oposição à autonomia e ao ser.  

1984, de Orwell cada vez mais é um ícone de um processo mundial de aculturação.Ali o mesmo criou a novilíngua, cujos signos e significações tendiam a sincretismos semânticos que reduziam o espaço para o simbólico, a abstração e o interpretativo; a mesma emprestou um brilho todo singular à ficção, que abordava o absolutismo dogmático e centralizador do Estado.  Ora, o uso da fala e do signo são uma das mais eficazes formas com que conta o homem para sua autonomia, além de possibilitar-lhe interpretar o mundo e melhor decidir a partir de tais experiências. Reduzir ou minimizar tais possibilidades é interferir negativamente na capacidade de produção intelectual e abstrata do homem, o que implica na sua maior alienação.

“Na literatura, é belo (e triste) o exemplo que Graciliano Ramos nos dá com Fabiano, protagonista de Vidas secas. A pobreza de vocabulário da personagem prejudica a tomada de consciência da exploração a que é submetida, e a intuição que tem da situação não é suficiente para ajudá-la a reagir de outro modo”. (Maria Lucia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins, in Filosofando, Ed. Moderna, São Paulo, 1993 ). Dentro de um cenário regido por signos técnicos e interesses construídos sob subterfúgios não há mais nichos que abriguem paradigmas que não possam ser extintos alterados ou cooptados por essas mesmas presentes e invisíveis instâncias de dominação ideológica e econômica.

Os mercados de trabalho exigem cada vez mais que o profissional tenha capacidade de interação, de diálogo e que mantenha sua criticidade inclusive cultural e artística, dentro de uma expectativa mundial que privilegia as atividades terceirizadas e de serviços em contraponto àquelas industriais, especialmente nos países desenvolvidos. As lógicas de mercado querem mais o inglês comercial do que as línguas nacionais; mais a criatividade do que o burocratismo alienante e privilegiam as habilidades de negociação e de juízo em contrapartida ao taylorismo sufocante que caracterizou o processo industrial. Não estamos aqui dizendo que as rotinas massificantes e a impessoalidade tenham deixado de existir ou que as administrações voltadas para a produção tenham uma visão mais holística da realidade. O que ocorre é uma expansão dos serviços em relação às atividades industriais, o que requer um profissional com maior capacidade de adaptação e criatividade.

A criação de novas tecnologias trouxe consigo a necessidade dos grandes conglomerados econômicos terceirizarem seus serviços, ocasionando a capilarização de atividades específicas via parcelização ou terceirização, criando assim novas profissões.  Por outro lado, o terceiro setor emerge em vários países como grande arregimentador de força de trabalho solidário. 

“Em 1870 … de 13 milhões de empregados nos Estados Unidos só três milhões dedicavam-se à produção de serviços; em 1940, dos 50 milhões de empregados mais de 24 milhões já trabalhavam nesse setor.”

“A General Electric, por exemplo, em 1980 tinha 85% do seu faturamento em atividades nitidamente industriais e 15% em atividades terciárias. Em 1997, praticamente invertera-se a proporção, com 75% de seu faturamento proveniente das atividades de serviços: basta pensar que a GE opera com satélites, cartões de crédito, companhias de leasing, transportes marítimos e aéreos em todos os cinco continentes, Só no setor de seguros possui 28 empresas.” (Domenico de Masi in O Futuro do Trabalho, Editora UNB e José Olímpio, Rio de Janeiro e Brasília, 1999)

A expansão e retração dos mercados nacionais e o consumo alienante aliado a instituições pressionadas por demandas sociais que não conseguem atender trazem um sentimento de instabilidade aos indivíduos que se isolam em seus casulos ou mergulham no mundo globalizado, perdendo sua identidade. Inserida nesse cenário de alternâncias bruscas, contínuas e complexas, encontramos a educação formalizada pela escola e para a qual, sem dúvida, chegam também os processos de ruptura e de quebra de paradigmas.

Aqui é necessário um breve corte histórico objetivando ter clara a idéia da cultura escolástica imposta pelo colonizador português à novas terras. A mesma privilegiava o texto, afastando-se do empirismo científico. O humanismo e o renascimento europeus tomaram um viés diferenciado em Portugal, especialmente a partir de 1550, com a ascenção do protestantismo e dentro do espírito da Contra-Reforma pós Concílio de Trento. O fortalecimento da Companhia de Jesus e o declínio do humanismo em Portugal privilegiaram a leitura e o fazer pedagógico imbricado nos clássicos greco-romanos.

“Por ciência escolástica, entendemos aqui a escolástica dos séculos XV e XVI, com o seu distanciamento e quase esquecimento dos métodos e conquistas da filosofia natural do período anterior. E por ciência humanística queremos significar a de um humanismo que, à força de se preocupar com as letras, desdenhava prática e, por vezes, teoricamente as ciências enquanto conteúdos de saber. Ao voltar-se para a medicina e para a filosofia natural, esse humanismo interessou-se sobretudo pelos textos, pretendendo superar com eles na mão a corrente arábico-escolástica, mas descurando de fato o exame das coisas.”

 Basta então uma releitura da influência da Companhia de Jesus nos primórdios da escola brasileira e de seu viés ideológico para termos um retrato bastante razoável do desenvolvimento da educação formal e da tendência ao tradicional que permeia uma enorme parcela das práticas pedagógicas que ocorrem ainda hoje. Tal influência ideológica enraizou-se fortemente na escola nacional; em outros termos, é grandemente responsável pela formação profissional dos professores e nas suas visões de mundo. 

Cada vez mais a sociedade cobra soluções da escola brasileira; uma das idéias semeadas e incentivadas muitas vezes cinicamente pelos sistemas públicos de educação é a de que as escolas devem “dar conta” das demandas que lhe são encaminhadas, sem que haja uma contrapartida estrutural que garanta a própria eficácia do sistema. Hoje as escolas, especialmente as públicas, lidam com violência física e verbal,  ameaças,  alunos drogados,  famílias desestruturadas, adolescentes desrespeitosos, criticidade exacerbada contra  a autoridade; alunos que são vítimas de molestamento sexual,  alunas adolescentes grávidas que vão engrossar as fichas de FICAIS, e assim por diante.

 Administrativamente lidam com a falta dos professores, com a improvisação desestruturante das mantenedoras, com uma falta de política de integração entre os órgãos públicos no sentido de uma cooperação efetiva para superar problemas que demandam saúde física e mental, lidam com encaminhamentos sem retorno, lidam com um alto nível de estresse e de corrosão da própria estrutura da escola. Ora, inexiste formação profissional que possa abarcar toda essa demanda. Somente uma rede multidisciplinar profissional extremamente bem azeitada poderia minorar tais problemas. 

Alguns fatores observados na prática:

 (a)      os professores e as escolas são um dos raros espaços públicos onde a agressão e a violência são cotidianamente suportadas como se isso integrasse o código de relações estabelecidas e sem pauta de discussões com a sociedade;

(b)     as mantenedoras públicas tem suas responsabilidades minoradas, a partir do momento em que se discute unicamente os efeitos da violência escolar mas não se discute o papel das mesmas no sentido de prevenir a violência institucionalizada com políticas públicas integradoras e multidisciplinares;

(c)      o mito romântico linkado a figura do professor ainda subjaz ao seu papel de profissional da educação fazendo com que não raras vezes, a sociedade admita que aquele cumpra a função de substituição psicológica aos papéis reservados aos pais, às famílias, às comunidades, aos serviços sociais, etc.

(d)     a visão utilitarista do conhecimento, o que faz com que o sujeito epistêmico tão-só importe-se realmente com o produto final do ensino, representado por um diploma, não raras vezes carente de valência real.

A educação comporta análise e visão multidisciplinares, pois seu caráter sócio-cultural predispõe a abordagens que se autocomplementam, o que, contudo está longe de ser entendido como consenso ou homogeneização, pois as necessidades educacionais variam assim como as próprias sociedades movimentam-se de modo fluído e complexo.

“Esta ruptura entre o mundo instrumental e o mundo simbólico, entre a técnica e os valores, atravessa toda a nossa experiência, da vida individual à situação mundial. Somos ao mesmo tempo daqui e de toda parte, isto é, de lugar algum. Enfraqueceram-se os laços que a sociedade local ou nacional estabelecia através das instituições, da língua e da educação, entre nossa memória e nossa participação impessoal na sociedade de produção, deixando que nós administremos, sem dedicação e sem garantia, duas ordens separadas de experiência”. (Alain Touraine, in Poderemos Viver Juntos, Ed. Vozes, Rio de Janeiro, 1999).

A complexidade animada pelos interesses econômicos, políticos e ideológicos e alimentada pelos mass mídia, pela indústria do espetáculo, pelo azeitamento e pela criação constante de necessidades artificiais via publicidade e propaganda atravessam as diversas sociedades e instâncias, impondo um modus vivendi fundado no egocentrismo e no consumo alienante, em clara oposição à autonomia e ao ser.

Dentro de um cenário regido por signos técnicos e interesses construídos sob subterfúgios não há mais nichos que abriguem paradigmas que não possam ser extintos alterados ou cooptados por essas mesmas presentes e invisíveis instâncias de dominação ideológica e econômica. Os mercados de trabalho exigem cada vez mais que o profissional tenha capacidade de interação, de diálogo e que mantenha sua criticidade inclusive cultural e artística, dentro de uma expectativa mundial que privilegia as atividades terceirizadas e de serviços em contraponto àquelas industriais, especialmente nos países desenvolvidos.

As lógicas de mercado querem mais o inglês comercial do que as línguas nacionais; mais a criatividade do que o burocratismo alienante e privilegiam as habilidades de negociação e de juízo em contrapartida ao taylorismo sufocante que caracterizou o processo industrial. Não estamos aqui dizendo que as rotinas massificantes e a impessoalidade tenham deixado de existir ou que as administrações voltadas para a produção tenham uma visão mais holística da realidade. O que ocorre é uma expansão dos serviços em relação às atividades industriais, o que requer um profissional com maior capacidade de adaptação e criatividade.

A criação de novas tecnologias trouxe consigo a necessidade dos grandes conglomerados econômicos terceirizarem seus serviços, ocasionando a capilarização de atividades específicas via parcelização ou terceirização, criando assim novas profissões.  Por outro lado, o terceiro setor emerge em vários países como grande arregimentador de força de trabalho solidário.

 

 

Para onde caminhamos, céleres e estupidificados

Maio 15, 2009 noite Deixe um comentário

Fonte: http://www.crazy4teachers.com/MB003.php

Revista Eletronica Caros Amigos

A EDUCAÇÃO MALTRATADA: PROFESSORES PRECARIZADOS
O eventual tapa-buracos

Por Beatriz Rey

Às 23h de uma quarta-feira do mês de março, o professor Carlos Alberto Pires Guimarães, 25 anos, saía da EE Pereira Barreto, na Lapa, e iniciava uma jornada de uma hora e meia até a sua casa – a pé. Chamado de última hora para substituir um professor, ele deu sete aulas naquela noite, mas só será pago por elas, segundo ele, no mês de maio. “O que eu quero saber é se o ônibus espera para receber o dinheiro da passagem e se o estômago espera para comer”, questiona Carlos, que é formado em biologia há dois anos, mas já chegou a lecionar matemática, também substituindo um professor.

Relatos como este ajudam a visualizar, mesmo que de maneira fragmentada, o perfil do professor eventual da rede estadual de São Paulo. O professor eventual é aquele que, na cadeia da carreira docente, vem depois do efetivo e do contratado em caráter temporário. Ele é um dos exemplos vivos de como ainda há professores em situações de extrema precariedade no Brasil. Mais: de como a universalização do ensino deu conta apenas da quantidade – qualidade ainda é, infelizmente, um objetivo a ser alcançado no sistema educacional do país.

A discussão sobre os temporários foi levantada após a instituição da prova seletiva para os temporários pela secretaria estadual de Educação de São Paulo. Os candidatos com a melhor classificação usariam a nota como um dos critérios para atribuição de aulas em 2009. O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), indignado, moveu uma ação civil pública contra o Estado, alegando irregularidades na avaliação, já que algumas diretorias de ensino teriam vazado o gabarito da prova. No fim das contas, a juíza Maria Gabriela Pavlópoulos Spaolonzi, da 13ª Vara Cível, determinou a suspensão da prova, por considerar que ela desprestigiava os professores mais antigos, especializados nas disciplinas em que lecionam.

O que fugiu da cobertura da mídia nesse caso foi, em primeiro lugar, a diferença que existe entre o professor contratado em caráter temporário e o eventual. O contrato do primeiro começa no início do ano letivo e dura até a próxima atribuição, no outro ano. Depois, se ele não consegue obter aulas na atribuição, é desligado da rede estadual e tenta ser contratado novamente (como eventual, inclusive). O segundo fica à mercê da ausência inesperada e, muitas vezes, pontual de um professor de uma disciplina. Ele recebe por aulas dadas.

De acordo com a secretaria estadual de Educação de São Paulo, há 90 mil professores temporários na rede, mas não há distinção entre os temporários e os eventuais. “O eventual é um professor que está lá para eventuais faltas. O problema é que o sistema tem muitas faltas. Ele é um tapa-buracos”, aponta Thaís Bernardes, assessora do projeto Nossa Escola Pesquisa a sua Opinião, da ONG Ação Educativa. O presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE) usa outra palavra para a condição de eventual: grotesca. “Além de contribuir com a baixa qualidade da educação, a existência desses profissionais contribui para a depreciação de outros professores: há pessoas dispostas a trabalhar em quaisquer condições. Há um exército reserva que enfraquece o poder de reivindicação dos efetivos”, pondera.

Beatryz Reis é jornalista

Para continuar a ler essa matéria e outras confira a edição de abril de 2009 da revista Caros Amigos, já nas bancas, ou assine a versão digital da Caros Amigos.

Comentarei sobre o tema. Hilton.

 

 

CategoriasCultura, Educação

Mapeamentos

Selva de Pedra por Omar Junior

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=mapa+humano&page=4

 

Vivemos em um mundo mapeado, definido, onde as tecnologias da informática, da comunicação e das mídias são onipresentes; um cenário posto em exatidão, no qual cada vez mais a não linearidade se impõe em razão da complexidade cada vez maior das sociedades. Por outro lado, contrariamente à precisão da reta se ressalta a importância da curva, aqui entendida como as claras possibilidades criativas que se alimentam de um feedback coletivo, das nossas experiências e conhecimentos, que se difundem em rede e que constituem um contraponto a um mundo que herdou do tecnicismo um padrão não apenas comportamental, mas definidor de um paradigma disjuntivo. A criatividade não prescinde das interações em rede, da tolerância às diferenças, do saber ouvir, do desenvolver a empatia e conviver com o outro, muitas vezes divergindo de opiniões e de visões de mundo.

Não há assepsia no ato criativo, que não se restringe às certezas da reta. Contrariamente, é do pensar oblíquo, das relações não formais, da ubiqüidade, do que escapa à rotina, que podemos estender nossas possibilidades além das relações profissionais e de suas idiossincrasias. Podemos, sem o jugo da obrigação explícita, exercer convívios e criar hipóteses, aprofundando enriquecimentos pessoais, culturais e solidários. Assim, as idéias criativas podem se evidenciar não apenas em cenários contratuais, mas, por igual, no âmbito de um espírito de ócio e de liberdade.

A reta, que é um produto humano e que não existe na natureza, tem seu sentido e trajeto absolutamente definidos, o homem dá-lhe o início e destino; a curva, diversamente, erra, vaga, percorre o que não é conhecido; em suma, se arrisca a. Deste modo, não é demais associarmos a reta à precisão e a curva ligada às probabilidades das relações cognitivas e sociais em rede.

O exemplo icônico do mecanicismo é encontrado no espírito descartiano e dentro da física clássica, que constituíram e construíram uma visão de mundo regida pela disjunção entre corpo e mente, espírito e matéria, objetividade e subjetividade, exatidão e probabilidade. Para sustentar tal visão de mundo, era necessário erigir a ciência a uma substituta em potencial do sentido de transcendência tão cultuado na religiosidade. Esvaiu-se, com a idade moderna, iniciada com a revolução francesa em 1789, o poder que a Igreja Católica exerceu durante todo o medievo. O homem, que antes vivia de acordo com um processo produtivo no qual dominava todos os passos e procedimentos, passou a conviver com a desonra de ter um patrão e, portanto, não poder mais determinar sua própria vida. A partir da venda de sua capacidade laboral, passou a conviver com sua própria dependência. A reação a tal estado de coisas foi o ludismo.

O início do processo industrial, especialmente, aliado ao desenvolvimento de um capitalismo predatório ressaltou ainda mais clara a dissociação pregada pela ideologia mecanicista e as necessidades e sonhos das classes burguesa e proletária, ainda em processo de emergência social. Embora a mensagem política e institucional fosse a da liberdade econômica e social, a realidade não era condizente com a mesma. Os novos operários, submetidos, passaram a conviver em um cenário que os oprimia e os alienava em relação ao trabalho. O processo produtivo lhes era cada vez mais desconhecido e sua influência sobre o mesmo era basicamente nula. Apenas a venda da sua capacidade de trabalho sustentava a si e a sua família.

O desenvolvimento das cidades, muitas vezes de modo descontrolado, as novas vias de acesso e a implantação da coletivização de serviços públicos agenciada pelo Estado, a destruição pura e simples de recursos naturais para alimentar o processo de produção, as novas tecnologias e a concentração de renda findaram por não solucionar qualquer dos graves problemas nos quais mergulhou a sociedade. A naturalização da miséria, as guerras artificialmente fabricadas e mantidas pelos Estados em atenção aos interesses comerciais, o consumismo alienante e alienado e as mudanças dos processos industriais em face do gerenciamento científico não solucionaram de modo significativo qualquer dos problemas emergentes que se relacionavam com uma melhor qualidade de vida, incluindo-se aí não apenas salários nominais, mas questões como seguro desemprego, políticas públicas de saúde, moradia e segurança.

Do ponto de vista estatal era necessário intervir para garantir minimamente melhores condições para as classes mais marginalizadas pelo capitalismo; a idéia de welfare state (estado de bem estar social) passou a preponderar em algumas economias de ponta. Contudo, a escola monetarista de Chicago foi decisiva na implementação do neoliberalismo, a partir do controle das economias emergentes através de organismos financeiros internacionais, como o Fundo Monetário Internacional e o Bando Mundial, fundados a partir da reunião de cúpula de Breton Woods, após o final da Segunda Guerra Mundial, e que passaram a gerenciar a economia mundial, sob o controle dos Estados Unidos.

Enquanto isso, as ciências exploravam de modo cada vez mais aprofundado os fenômenos naturais. Se às matemáticas coube papel importantíssimo em um mundo regido pela disjunção e pelo mecanicismo, igualmente restou às mesmas, junto com a física molecular e a biologia uma distinta visão de mundo, seja a partir das relações biológicas e eco-estruturais, seja a partir do desenvolvimento da física nuclear. Através do projeto genoma cada vez mais o homem buscou se assenhorar dos conhecimentos do código genético, enquanto as multinacionais voltadas para a agricultura e alimentos solidificavam processos de implantação de novas tecnologias. Os novos avanços em medicina empurraram a idade média do homem para além de setenta anos e a explosão do consumo alienante passou a ser a mola mestra da economia.

O desenvolvimento das ciências sociais e naturais, especialmente os trabalhos de Schrödinger, Manuel Castells, Einstein, Planck, Freud e o surgimento dos serviços enquanto novo agente econômico, fizeram com que cada vez mais surgisse a necessidade do trabalho em rede, no que a implantação da web e da informática tiveram um papel fundamental. A comunicação não apenas institucional entre mestres e estudantes se expandiu de modo exponencial e hoje a tecnologia da informação permite com que fatos sejam apreciados no mundo todo de modo quase que simultâneo, graças às tecnologias dos satélites. É claro que devemos ter em mente que as informações são geradas e editadas por grandes redes de televisão e de mídia que não são infensas às pressões do capital, dele dependendo através do dinheiro dos anunciantes. Por isso, não sejamos românticos. No entanto, mesmo que recebamos tais informações como plânctons, há um mar informativo no qual temos mesmo dificuldades de navegar. Cabe a nós mesmos e aos sistemas educacionais formativos, em grande parte, a tarefa de nos tornar cidadãos do mundo, o que é especialmente difícil dentro da complexidade da educação e dos processos de ensino-aprendizagem. Sermos conscientes de nosso papel no mundo não é tarefa fácil, especialmente em uma época na qual os valores morais (não moralistas, por favor…), a ética e a solidariedade foram alienadas pelos verbos ter e possuir ao invés dos verbos ser e conviver.

De todo modo, a consciência de que somos muito mais nossos sentidos e sentimentos do que razão já é um bom início a trilhar, assim como a inegável constatação de que vivemos em um mundo no qual o estabelecimento de redes de solidariedade e de conhecimento são muito mais possíveis do que eram há cerca de cinqüenta anos atrás. Cada vez mais existem organizações no mundo todo preocupadas com a vida neste nosso planeta, e as manifestações a respeito das interações entre os humanos e seu habitat são cada vez mais intensas. Talvez tenhamos matado já muitas possibilidades, mas muitas ainda restam a ser cultivadas. O tratamento que se dá às questões cruciais, como, por exemplo, as de qualidade de educação, da permanência das guerras e do aquecimento global não podem ser deixadas simplesmente no âmbito do poder político e econômico: já sabemos onde nos levaram.

É cada vez mais necessário que expandamos os conhecimentos e nos relacionemos de modo que as sociedades civis organizadas, as ONGS e os mecanismos de agregação social possam tomar a si encargos cada vez mais complexos e que, ao fim e ao cabo, serão melhor solucionados fora do circuito oficial e do stablishment. Aproveitemos sabiamente as oportunidades da tecnologia para efetivarmos um contra-fluxo dentro desse sistema, criando comunidades bottom up de que nos fala brilhantemente Steven Johnson. Necessitamos de feedback, de interação, de inteligência coletiva; somos carentes cada vez mais da curva enquanto metáfora criativa. Afinal, se é preciso uma resposta à naturalização da miséria e da corrupção, e se nós mesmos sofremos as suas conseqüências, porque não buscarmos minorá-las através da nossa participação?

Put people first

Abril 13, 2009 noite Deixe um comentário

Documento lançado há dias: além do protesto, alterntivas

Fonte: Le monde diplomatique, http://diplo.wordpress.com/2009/03/16/recado-ao-g-20/

 

O cartaz acima foi utilizado por mais de cem movimentos civis em protesto à reunião do G20, ocorrida dias atrás. O que ele busca é que seja dada primazia ao humano, em detrimento dos frios cálculos capitalistas que, cada vez mais produzem crises, milhares de desempregados e que sustenta os lucros absurdos da jogatina no mercado de capitais. Pode ser que eu seja desinformado, mas os jornais brasileiros não produziram nada de muito relevante a respeito das reuniões preparatórias para o G20, especialmente aquelas nas quais as entidades civis buscaram ter uma maior visibilidade, considerando que o capitalismo, da forma como se apresenta é absolutamente predatório e desumano.

As coberturas jornalísticas que vi se contentaram em mostrar algumas passeatas pacíficas e algumas manifestações mais radicais e acabou, o que me lembrou que realmente a imprensa foi criada depois da mesa de edição, que é comandada não pela notícia, mas pelo interesse de mostrar ou não a notícia. Também me lembrei de uma frase de Millor: “quando a imprensa quer, ela transforma uma revolução numa briga de vizinhos.” A frase não é bem essa, mas o sentido sim. Provavelmente se Churchill vivesse hoje, diria que nunca tantos acreditaram em tão poucos. É o milagre da tecnologia, mas não a tecnologia do milagre. Os interesses econômicos continuam sempre preponderando e a idade da inocência, desde há muito se perdeu.

É tempo de nos organizarmos de modo solidário e sem líderes messiânicos. Usemos a rede para isso.

Marx disse

Abril 12, 2009 noite Deixe um comentário

Karl Marx por Sobibor

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=karl+marx&page=2

Este texto tem 142 ANOS, mas é muito atual.

“Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado”.

Karl Marx, in Das Kapital, 1867.

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Conceito: nova janela?

Abril 10, 2009 noite Deixe um comentário

5 por gian calvi

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=design+educa%C3%A7%C3%A3o&page=7

Acredito muito no privilégio do conceito, se compará-lo com a simples decoreba, reminiscência da época em que aprender era saber recitar as catilinárias. Infelizmente não há, muitas vezes uma maior preocupação com a questão conceitual. Não tem grande significancia você decorar os afluentes do Amazonas se você não souber o que é um rio ou uma mata ciliar e qual o impacto desse rio e de seus afluentes na vida das pessoas que tiram dali o seu sustento, que irrigam os campos que servirão para as plantações ou se, em função daquele rio, há lendas e histórias, ou estórias que passam de geração para geração. Os nomes dos afluentes, em si, não dizem absolutamente nada. Vejamos:

“O Amazonas recebe os seguintes afluentes: Tapajós, Xingu, Paru e Jari. Estima-se que o Amazonas mande uma descarga equivalente a 11% de toda a massa de águas continentais para o oceano. Nas águas baixas, tem uma imensa largura que é camuflada por muitas ilhas, que dividem o rio em braços chamados paranás. Entre a enorme quantidade de afluentes que recebe, os mais importantes da margem direita são: Huallaga, Ucayali (Peru); Javari, Juruá, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu (Brasil). Através de sua margem esquerda recebe: Pastaza, Napo (Peru); Içá, Japurá, Negro, Trombetas, Paru e Jari (Brasil). ” (retirado de http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20080612171818AAqfZYq)

Isso é informação, não é formação, o que fica bem claro se a mesma não for significante na economia de uma região. Assim também não adianta você saber de cor e salteado que 1789 foi o ano da revolução francesa e que esse evento inaugurou a idade moderna se desconhecer suas implicações no cenário sócio político não só da França mas também as modificações que foram alcançadas a partir desse evento. O mesmo em relação à revolução russa, igualmente à revolução industrial. Reduzir tais fenômenos a simples informações é quase um crime. O conceito, portanto, em o caráter não somente de esgotar-se em si mesmo, mas o de abrir novas interrogações, aguçar a curiosidade, propor diferentes temas, enfim, ensinar e aprender dentro do conceito de rede, o que mais privilegia o conhecimento.

A mim impressionam alguns comportamentos quando a aula é de matemática. Um exemplo típico. Se eu perguntar em aula quanto é 3 vezes 9 dirão que é 27, se novamente perguntar quanto é 9 vezes 8 dirão que é 72, mas se eu pedir o conceito de multiplicação, todo o processo trava.  Simplesmente porque o foco não é entender o que é multiplicação, mas decorar a tabuada. Isso é bom ou ruim? Claro que é bom você decorar a tabuada, mas isso é pouco se você não souber o porque a tabuada diz que 5 vezes 8 é 40 e não 45, por exemplo. Somente o conceito de multiplicação esclarece. Se este não for conhecido, a informação (e não o conhecimento) pode ser esquecida. Se eu souber o conceito (multiplicar é adicionar parcelas iguais entre si), mesmo que eu não lembre a a tabuada decorada poderei deduzí-la a partir do meu conhecimento.

Ah, sim, no meu entender conhecimento é informação significada apreendida de modo crítico.

Ocorre que – sejamos realistas – o ensino massificado continua premiando bem mais o aluno do que o estudante, o comportamento passivo do que o ativo, o normalizado ao criativo, o aluno submisso ao curioso, o que implica em uma decisão político-pedagógico que privilegia o informar e o memorizar em detrimento do significar e do conceitualizar. Assim estabelecida a hierarquia compete ao professor a figura do condutor unilateral do processo de ensino e de aprendizagem. Por outro lado, a proposta conceitual não prescinde da autonomia do estudante. Em relação ao aspecto didático, o aprender ganha cores e significado pelo fato de que o estudante ao efetivamente tomar a si o conceito, realiza uma desacomodação no sentido piagetiano e sai de sua zona de conforto no sentido vigotskiano. Há uma qualificação do processo de ensino e de aprendizagem no sentido real. O estudante tem um acréscimo em sua auto-estima e confiança, por ter a certeza de que está progredindo a partir de seu próprio esforço e, portanto, aumentando de modo competente sua possibilidade de novas aquisições cognitivas.

Mais: em crescendo enquanto essência, o estudante passa a depender menos do professor, que passa então a representar alguém que o estimulará a novos vôos, diferentemente de representar apenas um terceiro que prima pela exigência de conteúdos memorizados que nada significam. A questão maior não reside, portanto, apenas nas práticas didáticas, que nada mais é do que um desaguadouro natural de uma visão educativa e da cultura que se estabeleceu na escola; há portanto uma orientação político-pedagógica informada e formadora do pensar e agir médio de uma escola enquanto sede do saber social e politicamente privilegiado.

Se planos políticos-pedagógicos podem resolver tais problemas? Sim se realmente ele for a expressão do pensamento médio da cultura escolar e da sua posição majoritária em relação ao papel da escola e não se ele for tão só um instrumento para ser entregue para a mantenedora dentro de um determinado prazo e privilegiar muito mais questões discursivas do que a realidade vivida pela comunidade escolar. Não se faz uma carta de intenções que não reflita a realidade, pois ela passa a ser desrespeitada antes mesmo de sua conclusão.

Voltando à questão do conceito, seu conhecimento é algo que deveria permear o fazer pedagógico com o que, em meu entender, ganhariam todos os atores educacionais envolvidos; a conceitualização, a partir do momento em que estabeleça ligações fortes entre as diferentes áreas cognitivas, recria a gosto pelo estudo, mas não só ele, havendo um reflexo necessário no processo educativo formal, o que demandará novas posições de desacomodação em relação às próprias estruturas curriculares, além do não aprisionamento do conhecer às falsas promessas que o uso da memória traz.

É preciso, contudo, combater a inação e o conformismo, propor novas questões e realmente desacomodar a cultura da escola e suas práticas pedagógicas, o que, se é desejável, nem sempre é exeqüível, simpático, pois sujeito à perturbações que podem ser desencadeadas a partir daí. No entanto, as turbulências são normais em qualquer proposição distinta da que já se encontra encastelada, cristalizada e, em muitos casos e infelizmente, morta.

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Novos comportamentos

Abril 10, 2009 noite Deixe um comentário

máscara por Peka!

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=mascaras

Ontem, no lotado ônibus R 41 havia uma senhora muito muito idosa e com dificuldades para andar, em pé no corredor. Ninguém ofereceu-lhe lugar. Pelas tantas vagou um lugar. Imediatamente antes da senhora iniciar sua movimentação para sentar na poltrona, uma mãe alertou a filha pré-adolescente, toda vestida de rosa pink e segurando uma boneca enorme: “filha, pega o lugar!” Bastou isso e a new barbie se jogou na frente da senhora, capturando o lugar, enquanto a idosa continuou ali, de pé.  O que mais me aborreceu foi ver a mãe instruindo claramente a filha ao individualismo.

Às vezes penso que determinados valores como solidariedade, respeito e consideração foram riscados da vida urbana e absolutamente nada de positivo ficou em seu lugar. A solidariedade foi substituída pelo individualismo narcisista, o respeito pela intolerância e a consideração pela mais gélida indiferença. Assim nos tornamos cada vez mais pessoas com menos, no sentido do convívio com os outros, bem como no sentido afetivo. Noto isso em vários cenários: na escola onde trabalho, nas ruas, nos ônibus, nas filas, nas irritações doentias do trânsito e no estresse dominante: uma boa parte dos viventes esqueceu o bom humor, a gentileza em pequenas atitudes e que podem tornar os ambientes mais leves e tornar mais suave o cotidiano.

Na escola, por exemplo, quando participo de reuniões profissionais, observa que uma parte significativa dos meus pares não tem uma atitude colaborativa, se comportando como soldados no front que estão na eminência do ataque inimigo. Sensíveis a qualquer palavra, idéia ou argumento que não lhes contemple a vontade, esses professores tem uma sensibilidade de um led touch screen. No entanto, costumam dizer o que pensam de modo inadequado e agressivo e de preferência com uma voz tonitroante, que é para deixar a sua inconformidade muito clara. Mesmo que haja sentido no que se diz, há modos de dizer e pessoas que parecem ter a capacidade de falar mesmo o melhor de modo desagradável, como se estivesse promovendo uma caça às bruxas, uma vendetta.

Em muitas reuniões vejo meus pares como porcos-espinhos reunidos dentro de um espaço mínimo e com fome. É notável o embate. Possivelmente isso ocorre, entre outros motivos, porque há um privilégio social do individualismo e do consumo desenfreado e veloz em detrimento do comunitário, do avizinhamento solidário e do consumo consciente. Se a mídia exige algo, você recebe isso passivamente, de maneira domesticada, perdendo a noção de esperar, de ter paciência, de saber ouvir. Assim, você se torna, aos poucos, um adulto inconstante, que pensa que o mundo foi feito para sustentar seu implacável ego, o que faz com que reaja com rispidez a qualquer situação que não possa trazer algum bônus, algum privilégio, algo a ser consumido, alguma pílula dourada embutida num kit de satisfação. Com o ego inflado e a parcial obliteração do super-ego, você está pronto para a estúpida conclusão de que o mundo lhe deve algo e que os outros devem serví-lo.

No fundo você não quer se envolver, porque não há vantagem nisso, apenas se livrar do desagradável, pelo simples fato de que você, adulto, está sendo cada vez mais mimado como consumidor que deve suportar seus problemas com mais contas e compromissos a pagar. Não havendo nem interesse nem paciência e muito menos bom humor você está caminhando a passos largos para se tornar um boçal ignorante, algo vago mas desagradável com o qual os outros são obrigados, por obrigação profissional, a conviver. Você está fadado a ser uma figura triste, gris, preconceituosa, sem um nível de informação filtrado pela criticidade, apenas um alguém sem qualquer motivação maior do que verificar o tamanho do seu umbigo.

A partir daí compete aos outros terem de suportar a sua indiferença, o seu palavrório e as suas convicções, lamentarem as suas idiossincrasias e inconsistências o que, convenhamos, não é pouco e muito menos é razoável Se você foi ensinado assim e se não houver nenhuma circunstância especial ou excepcional na sua vida, você continuará assim, um tanto mais insuportável quando a idade aumentar e achará, na maior parte dos casos, que somente você tem razão, a despeito de tudo e de todos, pois o mundo está em débito com você.

De qualquer modo, é claro que existem pessoas extremamente delicadas, gentis, bem humoradas e que com sua inteligência, sagacidade e bom astral colaboram, em muito para a melhoria das relações e a distensão de momentos delicados. A lamentar apenas que as mesmas, como a idosa senhora, continuem de pé, no ônibus.

Io amo Dolce & Gabbana

Março 26, 2009 noite 3 comentários

Women’s fashion 1980s por irina ivanova

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=fashion

Aluna vem à aula da EJA com uma camiseta negra onde se destaca, em prateado, as letras D & G e, logo abaixo a inscrição “Dolce & Gabbana”. A leitura me leva, por associação, para o trailler do filme “Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado” (4: Rise of the Silver Surfer, EUA, Alemanha, Inglaterra, 2007). Há uma cena na qual surge o Surfista Prateado na linha do horizonte e o Quarteto se encontra em uma festa, no terraço de um edifício. Ao ver o vôo incrível do Surfista, Reed Richards olha para Johnny Storm esperando que ele aja. O último então devolve o olhar e diz “Mas eu estou com um Dolce & Gabbana!” Mesmo assim se joga no ar e, transformado no Homem Tocha, observa sua roupa se volatilizar entre as chamas. Jogada de marketing? Muito provável, mas como a linha narrativa exige, lá se vai ele. Também recordo do Gabriel, que em 2005 entrou na praia de Canoa Quebrada, no Ceará, com um óculos D & G e voltou do mar sem os mesmos.

Fosse um consumista inveterado, recordaria que nunca usei nada da D & G;  não tive sequer namorada, amiga, tia ou teúda e manteúda que usasse a brand. Será algo do qual deva me envergonhar ou a simples constatação de que tal ausência poderá eventualmente ter me afastado de uma situação social more up to date do ponto de vista das classes dominantes?

Szygmunt Bauman, como em outras oportunidades, esclarece: em Vida para Consumo  (Jorge Zahar Ed., 2008), afirma que nos constituímos enquanto mercadorias do mesmo modo que qualquer outro objeto,  na medida em que não apenas pensamos e agimos como consumidores, mas acolhemos passivamente os símbolos e a descartabilidade características da sociedade de consumo. Permitimos a grande influência da mesma em nossa própria constituição identitária na medida em que passamos a pautar nossos comportamentos/desejos em razão de um mapa estratégico de persuasão no qual brands como D & G, Louis Vuitton ou Armani (apenas para exemplificar)  são componentes de um cenário desejado, por vezes à exaustão. 

Em O diabo veste Prada (The evil wears Prada, EUA, 2006) há claras referências àqueles que não tem condições reais de participar do banquete do consumo: são loosers, aqueles que se fixaram em uma vida sem cores, sem vôos financeiros, empobrecidas e sem possibilidades de deslocamento ou de ascenção social e sem acesso aos bens culturais, econômicos e de educação que naturalmente são ínsitos às elites. As observações de Bauman em Globalização: as conseqüências humanas (Jorge Zahar Ed., 1999) se confirmam no sentido da exclusão dos párias de uma sociedade tecnicizada e altamente simbólica, na qual o signo e o crédito ocupam a centralidade da vida social.

No sentido real, a não absorção dos valores da sociedade do consumo pode ocorrer pela absoluta incapacidade de participar da mesma, o que irá gerar não apenas revolta, por um lado, ou a absoluta comiseração de outro, com o proveito de sistemas específicos que se beneficiam de tal passividade, como as possibilidades de manipulação religiosa, ou ainda o incremento da violência (e, claro, não apenas a simbólica, como sugeriu Bordieu), que será sujeitada às leis do Estado, cuidadosamente implementadas em favor das classes dominantes e verticalizadas o suficiente para manter as coisas em ordem, pelo menos no sentido de quem paga para tanto.

Os loosers dependem basicamente de políticas governamentais que buscam afastar os mesmos da marginalidade e não raro de uma vida sujeita às influências do crime organizado que se alimenta de um sistema de distribuição de renda injusto e nefasto. No entanto, por múltiplas razões, há um percentual bastante elevado de contribuintes que simplesmente não quer pagar - mesmo podendo! – o preço de um welfare state,  preferindo arriscar-se aos golpes cirurgicamente precisos da infortunística. Independentemente de qualquer discussão, todos, incluindo os loosers pretendem, sim, um acesso aos bens sociais que lhe são negados. Se a saída é a violência, que seja! e temos aí o caldo de uma cultura fundada na ilusão do consumo e no tensionamento dos invisíveis aos olhos do mercado.

O meu trabalho de educador se faz em meio aos excluídos, aos filhos dos loosers, àqueles que não tem um perfil de consumidor, mas que, por uma questão que a lógica desentende, vêm à escola com celulares, que ostentam e com as réplicas possíveis das brands; a menina que usava a camiseta negra com a inscrição D & G sequer sabia o que isso significava (sei porque lhe perguntei e obtive a resposta) mas, de todo, retomava um simulacro a que todos nos habituamos, o de nos associarmos de modo bastante corriqueiro aos símbolos que teoricamente nos catapultam a cenários em condições sociais superiores às quais nos entendemos posicionados. 

A outra possibilidade de enfrentar a passividade requerida pelo mercado de consumo é o conhecimento de como ele funciona, o que comporá um perfil de informação, de consciência e de conservadorismo no que tange às ocupações financeiras e econômicas. Os que não são consumidores contumazes e alienados tentam estruturar suas vidas dentro do possível, não cedendo às pressões midiáticas de modo tão prosaico. Para tanto, elegem critérios que possam trazer-lhes uma paz indispensável – a financeira.  Diferentemente dos loosers, esses consumidores são objeto de desejo do mercado, na medida em que dispõem de recursos reais para alimentar o infindável ciclo do consumo, que se inicia com o desejo e se finda com a descartabilidade do objeto. O crédito lhes é oferecido, e o telemarketing passa a ser algo às vezes inoportuno, mas que sempre agrada (pelo menos ao ego econômico) tais consumidores, por se revestir de prestígio.

O consumidor consciente, assim, diferentemente dos invisíveis, é alguém que tem opção de escolha e talvez justamente por isso possa não compactuar com o Diabo que, conforme todos sabem, veste Prada. 

A quebra da inocência

Fevereiro 25, 2009 noite 3 comentários

 ovelha-negra por carbalhax

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=ovelha%20negra&w=all

O afastamento de um professor de inglês provoca polêmica no Distrito Federal. Ele foi acusado de fazer apologia do homossexualismo na sala de aula. O caso aconteceu em uma escola pública da cidade de Brazlândia, próxima a Brasília. O professor de inglês Márcio Barrios decidiu usar uma música da cantora e compositora americana Katy Perry em uma das aulas. Na letra ela conta a história de uma garota que depois de beber beijou outra garota. …  O professor afirma que a aula era sobre verbos no tempo passado e que a música, um sucesso, seria um bom exemplo.  Os verbos da música, todos eram no passado e eram o foco que eu tava trabalhando com os alunos na época”, disse o professor.  A escola orientou o professor a escolher outra musica porque o conteúdo não seria adequado para alunos de 12 a 14 anos. Mas Márcio não concordou. Levou a letra para a sala de aula e foi afastado pela direção da escola em novembro do ano passado. … A Secretaria de Educação apoiou a decisão da escola, pois considerou que se tratava de um

a apologia do uso de álcool e do homossexualismo.  ”Reflete um comportamento inadequado e, portanto, acabou do jeito que acabou” disse José Valente, Secretário de Educação do DF. 


O contrato de Márcio, que era temporário, venceu em dezembro e não foi renovado para o ano letivo que acaba de começar. Ele diz que foi vítima de preconceito. ”Não interessa a opção de ninguém. Interessa que as pessoas que estão ali com a responsabilidade de educar os nossos jovens, os eduquem de acordo com a educação pedagógica da escola”, completou o Secretário de Educação.

Notícia de 17-02-2009

Fonte: g1.globo.com/Noticias/Vestibular/0,,MUL1005945-5604,00-PROFESSOR+E+AFASTADO+ACUSADO+DE+APOLOGIA+AO+HOMOSSEXUALISMO+PARA+ALUNOS.html

 Muito para escrever e mais ainda para discutir. Ao fim e ao cabo, a questão central gira sob um tema: inadeqüação.  Podemos abordar o tema sob uma visão educacional lato ou strictu sensu, podemos cogitar sob a ética envolvida ou, claramente, sob as questões de gênero. Isso em princípio. Óbvio que a face que mais se escancara e parece absolutamente ansiosa para ser discutida aqui: nossa velha conhecida hipocrisia e sua inefável amiga, a intolerância.

Haverá aqueles – e muitos – que dirão que os jovens e adolescentes de 12 a 14 anos estão acostumados a ouvir e ver muito mais erotismo de péssima categoria do que o que foi apresentado pelo professor de inglês Barrios aos seus alunos. Para os que assim entendem,  toda a situação passa pelo falso moralismo de uma sociedade hipócrita, da qual o principal alvo é Barrios e seu algoz o  secretário de educação do DF., Sr. José Valente.   

Para outros, Barrios errou e, aqui, o moralismo e a ética prevalecem; a secretaria de educação do DF está correta, ao afastá-lo da escola. No meu entender, ambos estão errados.

Barrios sabia da orientação da escola em relação ao uso de tal música como recurso didático. O fato de os seus alunos de 12 a 14  anos terem acesso às barbaridades midiáticas que se perpetram a todo instante ( e muitas vezes com o  beneplácito ou a omissão criminosa de pais, professores e alunos que aqui hipocritamente se dizem ofendidos)  não o autoriza, de per si, a utilizar o mesmo critério em sala de aula. A estupidez e a ignorância não são autorizadores didáticos, a não ser sejam essas patologias sociais o foco do que se está processando enquanto conhecimento, mas o foco, segundo o mesmo Barrios era o de explorar verbos em inglês. 

Na mesma reportagem, Barrios diz que se sentia excluído pelos colegas, em função das roupas que usava, etc. Há, portanto, uma cultura do corpo docente contrária ao acolhimento do professor entre seus pares, e aí temos novamente uma cultura interna que pode ser intolerante  e preconceituosa, fazendo ressaltar as questões de gênero e de sexismo. A intolerância dos pares deveria ser objeto de atenção por parte do mesmo serviço que orientou Barrios a não utilizar mais a música de Katy Perry em aula. Aí a segunda inadeqüação. Por que, afinal, Barrios chocava tanto, e se o fazia qual deveria ser o caminho a ser percorrido pela instituição, no sentido de acolhimento ao colega?

E, por fim, a terceira inadeqüação. Há muitos caminhos para serem seguidos antes de se excluir um professor, que no caso era responsável por uma turma e estava normalmente trabalhando. Aqui, a total inadeqüação é da secretaria de educação que, ao que parece, utilizou critérios medievos para banir Barrios da escola.

Nesses momentos me lembro de duas referências: que a estupidez não pode ser algo que deva se perpetuar e, por último, da história do lobo e do cordeiro, se não me engano, de Perrault. De qualquer modo, sem dúvida, tais inadeqüações revelam mais sobre o sistema do que sobre o fato em si e desmascara um velho mito que muito engana a vida do professor. Muitos se sentem quase profissionais liberais, entendendo-se livres para adotarem os critérios que quiserem em suas salas de aula. Rematada mentira: são funcionários públicos ou são empregados. E aí, quando o sistema quer eliminar, o faz com a mesma indiferença com a qual um peão é despedido pela empresa que o contratou. Talvez essa seja a principal lição a ser aprendida, assim como a de que a inocência se quebrou já há um bom tempo atrás. 

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