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Archive for the ‘Educação’ Category

Ralé cognitiva

Novembro 11, 2009 noite 1 comentário

Lu sur un tableau d'école : "L'ignorance toujours mène à la servitude" por nitot.

Fonte: http://www.flickr.com/photos/nitot/3156066257/

Embora haja pesquisas, estudos, seminários, encontros, formações, etc, em relação à educação, grosso modo,  concluo que, pelo menos na escola onde trabalho, com a anuência expressa da SMED e com a conivência de todos nós, estamos criando uma ralé cognitiva. Sei que o termo pode ser discriminatório, forte, fora dos padrões normais com os quais se trata a educação, e, sinceramente, se os meus eventuais leitores se desagradarem, estamos por aqui, para suportarmos as possíveis críticas.

Antes, quero deixar claríssimo que isso não se aplica a todos os alunos, claro que não, mas ao sistema com o qual somos obrigados a conviver. Vejamos.

Uma turma inteira de sexta série (vamos deixar os eufemismos de lado como as siglas C isso e aquilo) simplesmente não sabe, não se interessa em saber sequer como se aplica uma operação inversa em matemática.  Será que é preciso que eu vire um showman para entenderem que 7 + 2 é 9 porque 9 – 2 é 7? Será que é necessário que eu consulte tratados pedagógicos para que os alunos aprendam que, se 12 : 4 é 3, então 4 x 3 é 12? Será que eu tenho que fazer mais formações para que meus alunos aprendam que, se m – 4 = -15, então m = -15 + 4, e que, portanto m= -11? Perguntei em uma sexta série quanto é 4.000 dividido por 1.000 e me disseram que é 2, ou ficaram olhando pela janela, ou me olharam simplesmente aguardando a resposta. Dizem eles que 500 dividido por 500 é zero. Meu Deus, seré preciso escrever um tratado para explicarmos isso?

Me lembro do Ginásio Estadual Inácio Montanha, onde estudei há mais de quarenta anos. Escola pública. Média sete para passar de ano. Não atingia os sete, babaus. Me lembro de ter professores de inglês e de francês. Me lembro de ter estudado gramática, de ter lido Machado de Assis, de ter lido todos os clássicos que as escolas exigiam e que os meus professores conheciam de trás para frente e o contrário. Me lembro de ter aprendido equações, me recordo de que muitos alunos eram simplesmente expulsos, quando transgrediam as regras da escola. Que fossem para outro lugar, mas não permaneciam ali, não naquela escola. Era justo, era injusto? Os discursos variam, mas a verdade é que eu aprendi. Fui o único? Não, claro que não.  Então porque, como professor, meus alunos não aprendem? Não se interessam, ficam debochando, conversando e rindo o tempo todo? Isso é ensinar? Claro que não é.

Mas eu vivo em um momento democrático da educação, no qual um professor é cobrado insistentemente pelo sistema, que é o mesmo que instaura a bizarria na escola, elege e protege a irresponsabilidade coletiva, privilegia o laissez faire, privilegia a falta de ética e de consequencia nos atos perpetrados pelos alunos. O resultado disso tudo, além dos discursos compensatórios e das teses acadêmicas é, sem dúvida, a criação de uma ralé cognitiva. O preço será cobrado mais tarde pela mesma sociedade que se aliena da educação, que pensa que escola é depósito e que professores são “substitutos” naturais de pais e mães. Eu não estarei mais ensinando, mas tenho certeza de que a formação de uma ralé cognitiva não será em vão. Muitos vão pagar a conta pelo que não fizeram.

Sem dúvida, muitos. 

 

 

CategoriasEducação

Questionário pedagógico

Novembro 7, 2009 noite Deixe um comentário

coruja dourada 3d pedagogia desenho por camiseta-funari

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=pedagogia#page=2 

Se você acertar todas as questões, já pode ser Secretário de Educação, Pós Doutorado, Honoris Causa ou outro título qualquer de relevância social. As respostas estão no Gabarito – claro, lápis papel, lápis papel, lápis papel – após o questionário.

EI!

Apenas uma opção está correta.

1 – O aluno deve ser aprovado por que:

a) tem potencial

b) se não for aprovado, se evadirá

c) tem problemas familiares

d) escreve seu nome completo, sem utilizar vírgulas

2 – Os conselhos de classe se reúnem para:

a) aprovar o aluno

b) passar o aluno de ano

c) impedir que o aluno repita de ano

d) não rodar o aluno

3 – Para reprovar um aluno é necessário:

a) que o aluno, antes do conselho de classe, vá a óbito (terá aprovação post mortem)

b) um portfolio, um dossiê, trabalhos diversos e aprovação da mantenedora

c) um portfolio, um dossiê, trabalhos diversos, dois terços, um patuá, cinco estatuetas genéricas e a aprovação da mantenedora

d) um portfolio, um dossiê, trabalhos diversos, dois terços, um patuá, cinco estatuetas genéricas, uma caixa de pandora, e a aprovação…de quem mesmo? ora, da mantenedora

4 – Quando dois ou mais alunos brigam em sala de aula, você, como professor, deve:

a) ter um ataque e chamar a direção, o conselho tutelar, a orientação pedagógica, a brigada militar, a câmara dos deputados e o BOPE.

b) sentar calmamente e fazer suas apostas

c) filmar e vender para alguma rede de televisão

d) emprestar rapidamente uma arma branca para cada um dos contendores e aguardar o resultado.

5 – Reuniões pedagógicas servem para

a) planejar o que não será executado

b) executar o que não será planejado

c) perder tempo

d) avisos burocráticos

6 – Em uma oficina pedagógica encontraremos:

a) materiais diversos, como sucata, sucata, sucata e sucata

b) alguém fazendo stand up

c) aula teórica

d) afetos e desafetos

7 – Professores motivados são aqueles que

a) estão em férias

b) estão em licença remunerada

c) estão aposentados

d) não apanharam, não foram ameaçados nem morreram nos últimos cinco dias

8 – Alunos não aprendem determinadas disciplinas por que

a) não gostam do professor

b) detestam o professor

c) abominam o professor

d) hã?

9 – Para alguns o conteúdo de uma disciplina

a) é só o que importa

b) é o que menos importa

c) é algo que esqueci

d) é uma overdose

10 – No próximo verão, as alunas virão a escola

a) com tudo em cima e nada por baixo

b) com nada por cima e tudo por baixo

c) nuas

d) semi-nuas

11 – É errado cobrar atitude e desempenho escolar do aluno por que

a) isso pode traumatizá-lo

b) não é fashion

c) de todo modo cada vez mais a escola ensina menos

d) meritocracia é bobagem

12 – Alguns classificam os professores em

a) bonitos e gostosos

b) complascentes e durões

c) insuportáveis e chatos

d) velhos e jovens

13 – Cognição é

a) saber que não se aprende

b) aprender que não se sabe

c) uma proparoxítona

d) oi?

14 – Ir a escola serve para

a) encontrar os amigos e bater papo

b) Saber as novidades e as fofocas

c) participar de um clube

d) namorar e  passar à condição de pai ou à condição de grávida

15 – Em escola, escadas servem para

a) pular vários lances de degrau

b) correr, brincando de roleta russa

c) brincar de cair e rolar

d)  empurrar e ser empurrado

16 – Todo aluno sabe perfeitamente o que é

a) o ECA

b) FICAI

c) seus direitos

d) os deveres dos outros

17 - É importante que toda sala de aula tenha

a) janelas para entretenimento

b) ausência de professor

c) desafetos para que eu brigue e afetos para que eu mime

d) cestos de lixo para tiro ao alvo

18 – Corredores escolares servem para

a) correr e berrar

b) correr, berrar e brigar

c) correr, berrar, brigar e dar uns amassos

d) correr, berrar, brigar, dar uns amassos e chutar portas

19 – Em determinadas situações, apenas um dos citados conseguiria, teoricamente, dar aula. Seria

a) Mahatma Gandhi

b) Jesus Cristo de Nazaré

c) O capeta

d) o BOPE

20 - Os professores

a) sempre fazem menos do que deviam

b) sempre fazem mais do que poderiam

c) não entendem o que os alunos querem

d) não entendem o que a direção quer

21 – Um bom(boa) professor(a) se assemelha a

a) um psicólogo de plantão

b) uma galinha cuidando dos  pintinhos

c) Brad Pitt

d) Gisele Bundchen

22 – O modelo de escola pública ideal é o de

a) um depósito para os pais deixarem os filhos

b) abrigagem, para conter adolescentes sociopatas

c) grande creche, para os alunos se divertirem

d) presídio, para manter temporariamente presos os transgressores 

23 – Protagonismo juvenil é

a) uma novela escrita para jovens

b) um happening dos anos sessenta

c) um modelo de submissão dos adultos aos adolescentes

d) o título de uma peça de teatro

24 – Burnout é

a) um estilo de vida

b) amar incondicionalmente todos os alunos

c) um tipo de lipoaspiração

d) um famoso pedagogo

25 – Vigotsky é

a) um marxista leninista frustrado

b) um dançarino do Ballet Bolshoi

c) um personagem do Ópera do Fauno

d) um prato da alta gastronomia polonesa

26 – Bandura é

a) uma técnica de bondage

b) um existencialista espanhol

c) o criador de um método didático

d) ponta direita do Real Madri

27 – A avaliação escolar pode ser

a) qualitativa ou psicoativa

b) quantitativa ou alfanumérica

c) uma atividade psico-compensatória

d) uma viagem

28 – Desatenção em aula é algo que ocorre porque

a) as aulas são um saco

b) os professores são um saco

c) a escola é um saco

d) um saco é um saco

29 – Preguiça mental é

a) um dos objetivos da instituição escola

b) uma psicopatologia do superego

c) um enrigecimento da rede neural

d) algo vagamente biológico

30 – Cobrar disicplina do aluno é

a) um ato de arbitrariedade demodée

b) contraproducente e arcaico

c) uma prática medieval abandonada

d) incompatível com o medo dos professores

31 – Piaget é

a) o sobrenome de Deus

b) o próprio Deus

c) alguém que serve para se fazer teses de mestrado e doutorado em educação

d) um chocolate suiço

32 – O resgate do aluno deve ser feito

a) pela SUAT

b) pelo Corpo de Bombeiros

d) por um cão São Bernardo

d) pela Brigada Militar

33 – Paulo Freire é

a) irmão de Roberto Freire, fundador do Partidão

b) um ornitólogo famoso, companheiro de Villa Lobos

c) neto de Gilberto Freire, sendo coautor do livro Casa Grande e Senzala

d) um dos maiores escritores portugueses, nascido em Cascais, Portugal

34 – Construtivismo é

a) um modelo construtivo baseado na customização de materiais da engenharia civil

b) uma tese econômica baseada no modelo neo-darwinista

c) uma forma de cooperação individual

d) um método de ensino à distância

35 – Para ser diretor de escola você deve

a) ser louco ou estar em processo depressivo

b) ser sado-masoquista

c) estar em terapia permanente

d) ter a síndrome do pânico

36 – Superv isor escolar é um tipo

a) de chefe de peão

b) de alguém que ninguém escuta e quando escuta não gosta do que ouviu

c) de alguém que todo mundo escuta mas ninguém entende

d) de estressor mental

37 – Orientador escolar é alguém que

a) sempre anda com uma bússola

b) faz o papel de escrivão, anotando ocorrências do tipo B.O.

c) faz o papel de delegado, ouvindo vítimas e agressores

d) trata alunos como bebezinhos, infantilizando-os até o nível da imbecilidade 

 38 – Conteúdo é:

a) o que está contido na disciplina

b) o que a disciplina contém

c) o nó górdio de Átila, o Huno

d) algo complicado

39 – Os últimos pareceres sobre pedagogia dizem que

a) o aluno sempre tem razão

b) o aluno sempre está certo

c) o aluno sempre está correto

d) o aluno é rei.

40 – Para lidar com indisciplina, o professor deve

a) pedir desculpas ao aluno

b) pedir desculpas ao aluno e à família do aluno

c) pedir desculpas ao aluno, à família do aluno e à direção da escola

d) pedir desculpas ao aluno, à família do aluno, à direção da escola e aos serviços da escola

41 – Uma boa saída para conter a indisciplina na sala de aula é

a) minimizar o que o aluno faz

b) dar uma entrada de cinema para o aluno assistir

c) ler o Kama Sutra em  aula

d) criar um teatro circense, onde a escola faz papel de palhaço

42 – Ridicularizar e escarnecer do professor é

a) desejado pelo sistema educacional

b) desejado pelos pedagogos pós-modernos

c) um movimento natural do protagonismo juvenil

d) algo totalmente normal dentro do que a escola espera que o aluno faça

43 – Círculo restaurativo é uma iniciativa que prevê

a) que a vítima e o agressor peçam desculpas um ao outro

b) a perda de tempo

c) um círculo autopolimpante

d) uma vítima, um agressor e uma carta inútil de boas intenções

44 – Um aluno que tenha um comportamento social beirando a sociopatia deve

a) fazer parte dos projetos alternativos da escola

b) representar a escola em eventos públicos

c) ser escolhido como amigo da escola

d) ser glorificado

45 – Se um professor ficar estressado em aula

a) é porque ele é desequilibrado

b) é porque não tem domínio de classe

c) é porque seu planejamento é inadequado

d) é porque não se atualizou

46 – Se um aluno adolescente disser que uma professora é gostosa e que gostaria de transar com ela, a mesma deve

a) falar calmamente sobre ética

b) fingir que não escutou

c) vestir uma burka 

d) fazer um strip-tease

47 – O principal papel dos professores é o de

a) não pensar nada e apenas executar o que lhe for mandado

b) conter o aluno em aula

c) implementar, com seu silêncio e omissão, a prática de bullying

d) tomar cafezinho na hora do recreio

48 – O professor que cobra que os alunos estudem

a) é um desatualizado machista repressor safado

b) alguém que teve uma infância infeliz e que procura descontar nos coitadinhos dos alunos

c) um sádico

d) um psicótico depressivo

49 – O ícone dos professores é

a) o Super-Homem

b) Jesus Cristo

c) Hitler

d) Mussolini

50 – Quando algo importante deve ser discutido em alguma reunião pedagógica

a) deve haver tumulto suficiente para não se chegar a qualquer conclusão

b) o tempo deve ser mínimo para discutir

c) a pauta da reunião deve ser alterada

d) mais da metade dos professores deve deixar de comparecer 

GABARITO

O gabarito? Ah, esse perdeu-se já faz muuuuito tempo…

CategoriasEducação

Professor: uma espécie em extinção

Novembro 4, 2009 noite Deixe um comentário

Mi por Atajo de locos

 

Fonte: http://www.flickr.com/groups/35468132865@N01/pool/

 

Querida Sandra M:

 

 

 

Grato pelo texto, que reproduzo como o recebi. Abraços, hILTON 

 

PROFESSOR – UMA ESPÉCIE EM EXTINÇÃO 

 

 Por verônica Dutenkefer (20/06/2009) 

 

Esse texto que escrevo precisamente agora é mais um desabafo. 

 

Desabafo de uma profissional que está lecionando há mais de 22 anos e que não sabe se sobreviverá por mais dez anos,  que é o tempo que ainda precisarei trabalhar (por mais que ame muito o que faz). 

 

Trago comigo muitas perguntas que não querem calar. E talvez a mais inquietante é: O que será necessário acontecer para se fazer uma reforma educacional neste país???? 

 

Constantemente ouço ou leio reportagens com as autoridades educacionais proclamarem a má formação de seus professores. Culpando as universidades, a falta de cursos de formação e culpando-nos evidentemente. 

 

Se a educação neste país não vai bem só existe um culpado: o professor. 

 

E aí vem meus questionamentos: 

 

Como um professor de escola pública pode fazer o seu trabalho se ele precisa ficar constantemente parando sua aula para separar a briga entre os alunos, socorrer seu aluno que foi ferido por outro aluno, planejar várias aulas para se trabalhar os bons hábitos na tentativa vã de se formar cidadãos mais conscientes e de melhor caráter? 

 

Nos cursos de formação nos é passado constantemente a recusa de um programa tradicional e conteudista, mas nossas avaliações de desempenho das escolas, nossos vestibulares e concursos públicos ainda são tradicionais e  nos cobra o conteúdo de cada disciplina. 

 

Como pode num país….num estado…num município haver regras tão diferentes entre a rede particular e pública? 

 

Na rede particular as escolas continuam conteudistas, há a seriação com reprovação, a escola pode suspender ou até mesmo expulsar um aluno que não esteja respeitando as regras daquela instituição. 

 

A rede pública vive mudando o enfoque pedagógico (de acordo com o partido que ganhou as eleições), é cobrado cada vez menos do aluno, não se pode fazer absolutamente nada com um aluno indisciplinado que até mesmo coloca em risco a segurança de outros alunos e funcionários daquela instituição. 

 

Dia a dia…minuto a minuto… os professores são alvos de agressões verbais e até mesmo física pelos alunos. A cada dia somos submetidos a níveis de stress insuportáveis para um ser humano. 

 

Temos que dar conta do conteúdo a ser ensinado + sermos responsáveis pela segurança física de nossos alunos + sermos médicos + enfermeiros + psicólogos + assistentes sociais + dentistas + psiquiatras + mãe + pai ……. 

 

E quando ameaçados de morte e recorremos a uma delegacia pra fazer um boletim de ocorrência ouvimos: “Isto não vai adiantar nada!” 

 

Meus bons alunos presenciam o mal aluno fazendo tudo o que não pode ser feito e não acontecendo nada com ele. É o exemplo da impunidade desde a infância. 

 

Meus bons alunos presenciam que o aluno que não fez absolutamente nada durante o ano, passou de ano como ele, que se esforçou e foi responsável. 

 

Houve um ano que eu tinha um aluno que era muito bom. E ele começou a faltar muito e ir mal na escola. Os colegas diziam que ele ficava empinando pipa ao invés de ir pra escola. Um dia, tive uma conversa com ele, e perguntei o que estava acontecendo? E ele me disse: “Prá que eu vou vir prá escola se eu vou passar de ano mesmo assim?” 

 

Então eu procurei aconselhar (como faço com meus alunos até hoje) que ele devia freqüentar a escola, não para tirar notas boas nas provas ou passar de ano. Ele deveria vir a escola para aumentar seu conhecimento que é o único bem que ninguém poderá roubar.Que a escola iria ajudá-lo a aprender e trocar conhecimentos com os outros e ajudá-lo a dar uma melhor formação na vida.. 

 

Depois dessa conversa ele não faltou mais tanto…mas nunca mais voltou a ser o excelente aluno que era. 

 

Qual a motivação de ser bom aluno hoje em dia? 

 

Seus ídolos são jogadores de futebol que não falam o português corretamente e que não hesitam em agredir seus colegas jogadores e até mesmo os árbitros. Ensinando que não é necessário haver respeito as autoridades e aos outros. 

 

Ou são dançarinas que mostram seu corpo rebolando na televisão e pousando nuas para ganhar dinheiro. 

 

 Para quê eu me matar de estudar se há tantas profissões que não são valorizados e nem respeitadas??? 

 

Conheci (e ainda conheço e convivo) ao longo de minha carreira na escola pública, inúmeros profissionais maravilhosos. Pessoas que amam a sua profissão, que se preocupam com seus alunos, que fazem trabalhos excepcionais. Que possuem um conhecimento e formação excelentes, mas que estão desgastados e quase arrasados diante da atual situação educacional. 

 

Li a poucos dias num artigo que os cursos de filosofia, matemática, química, biologia e outros todos ligados a área de magistério não estão tendo procura nas universidades. 

 

Lógico!!!!!Quem é que quer ser professor????????? 

 

Quem é que quer entrar numa carreira que está sendo extinta, não só pela total desvalorização e respeito, mas também pela falta de segurança que estamos enfrentando nas escolas. 

 

Fiquei indignada com uma reportagem na TV (que aliás adora fazer reportagens sensacionalistas colocando o professor sempre como vilão da história) em que relatava que numa escola um aluno ameaçava os outros com um revólver e num determinado momento o repórter perguntou:”Onde estava o professor que não viu isso??!!” 

 

E agora eu pergunto: “O que se espera de um professor (ou de qualquer ser humano), que se faça com uma arma apontada pra você ou pra outro ser humano??? Ah…já sei…o professor deveria enfrentar as balas do revólver!!!! Claro!!! As universidades e os cursos de aperfeiçoamento de professores não estão nos ensinando isso.. 

 

Vocês tem conhecimento de como os professores de nosso país estão adoecendo???? 

 

Vocês sabem o que é enfrentar o stress que a violência moral e física tem nos submetido dia a dia? 

 

Você sabe o que é ouvir de um pai frases assim: 

 

“Meu filho mentiu, mas ele é apenas uma criança!” 

 

“Eu não sei mais o que fazer com o meu filho!” 

 

“Você está passando muita lição para meu filho, e ele é apenas uma criança!” 

 

“Ele agrediu o coleguinha, mas não foi ele quem começou.” 

 

“Meu filho destruiu a escola, mas não fez isso sozinho!” 

 

Classes super lotadas, falta de material pedagógico, espaço físico destruído, violência, desperdício de merenda, desperdício de material escolar que eles recebem e, muitas vezes, não valorizam (afinal eles não precisam fazer absolutamente nada para merecê-los), brigas por causa do “Leve-leite” (o aluno não pode faltar muito, não por que isso prejudica sua aprendizagem, mas porque senão ele não leva o leite.) 

 

Regras educacionais dissonantes de acordo com a classe social dos alunos. 

 

Impunidade. 

 

Mas a educação não vai bem, por causa do professor.. 

 

Encerro esse desabafo com essa pergunta que li a poucos dias: 

 

  

 

Essa pergunta foi a vencedora em um congresso sobre vida sustentável. 

 

“Todo mundo  ’pensando’ em deixar um planeta melhor para nossos  filhos…  Quando é que ‘pensarão’ em deixar filhos melhores para o nosso planeta?”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Desabafo

Outubro 21, 2009 noite 1 comentário

Empty man por Vlaams Frietje.

Fonte: http://www.flickr.com/photos/nadjazz/3291871373/

Nada do que necessitamos se encontra aqui. Nem atenção, nem presteza, nem interesse, nem conhecimento, nem educação, menos ainda respeito.  Aqui não há nada, senão o deboche cotidiano, diário, orquestrado por determinadas pessoas e seguido por outras. Aqui nada se entende, nada se busca, nada se efetiva ou se declara. Aqui alunos, que nem isso são, caminham pela sala, gritam, fofoqueiam, se xingam, sentam em cima das classes e absolutamente debocham dos professores, dos colegas, da direção, dos serviços da escola, enfim de tudo. Mentem com uma desfaçatez impressionante, sem o mínimo senso de ética.

A república do deboche é, teoricamente uma sala de aula. Na verdade é só uma sala, porque não há condições de se aprender qualquer coisa. Os que ali tentam ensinar ficam na posição de reféns e enquanto ali estiverem, devem cumprir a sublime tarefa de bancarem os bobos da corte; irá, tal pessoa que busca ensinar, passar por uma série de humilhações, onde será depreciada, negligenciada, ridicularizada, mergulhada no túnel amargo do estresse e da crueldade adolescente programada. Quem pensa que tais adjetivos são um exagero, é porque ainda não provou da inesquecível experiência, na qual uma horda de mais de vinte adolescentes são comandados por meia dúzia de seus iguais, o que ocorre por vários motivos que não importam ser citados aqui.

Sua capacidade profissional é jogada no lixo. Você perde seu tempo, seu ânimo, sua paciência. Fica pior ainda quando se agrega a isso um elenco discursivo que visa infantilizar o adolescente, isentando-o de suas responsabilidades ou ainda desqualificando o trabalho que o professor tenta, muitas vezes inutilmente, fazer.

Há um desperdício fantástico de energia, que deveria ser voltada para o conhecimento; na maior parte do tempo você tem de cobrar comportamentos/atitudes e quanto mais você o faz, mais o deboche aumenta, mais cresce o exercício da estupidez. Então você começa a indagar qual o propósito de estar ali e qual o sentido em existir uma turma assim. Então você percebe claramente que o seu papel não é o do professor, o do mestre, o do educador: o que você faz é simples contenção social.

A mesma sociedade que cobra educação de qualidade é a que joga filhos sem cuidados afetivos, sociais, financeiros dentro da escola  espera que a mesma os mantenha lá, enquanto o resto do mundo trabalha, compra, vende, vai aos motéis, frequenta os shoppings centers. Deseja-se que a escola retenha os adolescentes que iriam atrapalhar o fluxo normal dos negócios; cabe a ela, investida do papel de instituição pré-carcerária, minimizadora dos conflitos sociais, resolver problemas, mantendo adolescentes problemáticos temporariamente fora das ruas. Enquanto o discurso campeia solto, invocando liberdades individuais, garantias e direitos, fica o professor abandonado à própria sorte.

Talvez falte ao professor um instrumento legal/protetor semelhante ao  estatuto da criança e do adolescente ou ainda um conselho tutelar, onde os mestres exerçanm seu protagonismo (infelizmente não juvenil).  O sistema está falido, e isso todo mundo sabe. A questão é ter coragem e assumir, de uma vez por todas, que câncer não pode ser tratado com bandaid.

 

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O mundo simbólico e Baskhara

Outubro 5, 2009 noite Deixe um comentário

 Yes, maths por akirsa

Fonte: http://www.flickr.com/search/?w=all&q=math&m=text

Estou em aula, em uma turma C30 (correspondente ao último ano do ensino fundamental), aplicando Baskhara para a resolução de algumas equações de segundo grau. Venho trabalhando regularmente há mais de um mês sobre o assunto, portanto não havia nenhuma novidade. Pura aplicação de fórmula. Contudo, pelo menos três alunos me fizeram perguntas que demonstraram claramente sua falta de conhecimento sobre o tema. Não, não se tratava de erros de cálculo, mas questões mais profundas como, por exemplo, escrever uma equação e entender que assim as suas raízes estavam determinadas. Ou de não saberem operar com cálculo algébrico, ou de não saberem a diferença entre uma equação completa e incompleta, não sabendo nominar seus termos. Isso mesmo tendo algoritmos e cálculos já postos em seus cadernos.

Uma das fontes de angústia quase que perene dos professores é justamente identificar, entender e buscar alternativas em relação ao aluno quando este te olha e pergunta(1) sobre um assunto já visto em aula, com exemplos e exercícios analizados de umodo consistente, como se o tema fosse algo inteira e absolutamente novo, como se não tivesse havido qualquer referência pretérita ao mesmo. Quanto, no caso, equações de segundo grau são explicitadas, exercícios são feitos, dados são coletados e, após algum termpo alunos sequer se dão conta das coisas mais triviais a respeito do assunto, temos a sensação muito clara de que uma construção conceitual erodiu, esfacelou-se como um castelo de cartas. Há simplesmente um não-reconhecimento, uma ininteligibilidade sobre o assunto, e não uma mera desistência ou erro de cálculo. O processo de aprendizagem, em relação àquele ponto, simplesmente faliu.

Ora, se o aluno inclusive possui as fontes seguras para buscar o que necessita para resolver uma determinada dificuldade e sequer se dá conta disso, há questões que, além de interferir na aprendizagem, extrapolam o processo de cognição. Seriam problemas de atenção ou de habilidades precípuas? Seria uma questão de dificuldade de aprendizagem que impede o aluno de aprender ou um comportamento que igualmente o paralise ante o tema? Necessitariam tais alunos de um atendimento especializado, possivelmente de um psicopedagoga incorporado a uma equipe tarefa multidisciplinar? Ou bastaria recomendar-se ao mesmo o uso de Ritalina, tão banalizada nos Estados Unidos como pílula anticoncepcional?

DUFOUR ao analisar as questões do pós-modernismo, se detém sobre a questão simbólica e sobre a influência e o privilégio da imagem em relação à linha argumentativa.  Sendo falantes, a fala nos estrutura, e há uma relação muito próxima e forte entre a autoridade e ao lugar da palavra no discurso. O acesso à fala nos leva não só às nossas instâncias psíquicas como nos põe em contato com um mundo simbólico, construído através de uma instância discursiva.  DUFOUR cita os significantes deiticos indicadores de pessoa (eu, tu, ele), de espaço (esse, este, aquele, aqui, ali, acolá) e de tempo (agora, ontem, amanhã). Quando falo determino, ao mesmo tempo, uma indicação de pessoa, de espaço e de tempo, podendo inserir o mundo no meu discurso. Ao representar o mundo, me insiro neste mesmo universo simbólico que (re)criei.  Assim, o discurso acessa a função simbólica a partir da representação do real ou do não-real, mas sempre dependente da minha insersão no mundo que modifico de acordo com a minha fabulação e na medida em que ocorre tal interação.

Falar, ler, escrever, ouvir se inserem e se interligam através da autoridade e da alteridade da palavra. O discurso, assim, necessita de um fio condutor, de uma alteridade coerente entre os que falam e os que escutam. Se não há tal fio discursivo, está obstruída a função simbólica. Fala-se mal, ouve-se o que é possível, lê-se o mínimo indispensável e escreve-se de modo fonético, não ortográfico. Como desenvolver uma autonomia cognitiva se é falho o ingresso no mundo simbólico, se não é o consumo ou a mídia que garantem o processo de aprendizagem? Uma vez que a exposição e o privilégio de um mundo imagético torna um espaço que, pelo própria essência do homem, era destinado para a linguagem e a fabulação, os efeitos são sensíveis e imediatos.: a minoração da capacidade de se inserir em um mundo socialmente construído com base na linguagem, uma dificuldade maior de assimilação e de adaptação a um universo no qual os significantes e o grafismo cada vez mais ocupam espaços significativos nos cenários do dia-a-dia.

Assim, uma vez que ocorrem dificuldades na formação do ingresso ao mundo simbólico e que se perdem os fios do discurso, onde se irá instaurar o senso crítico que permite a descentração de si próprio em relação ao objeto a ser conhecido? Como organizar de modo minimamente satisfatório um background que permite acercar-se do conhecimento e como entender, se entendendo, a curiosidade cognitiva benéfica e sã da qual nos falou FREIRE? Como prestigiar uma auto-imagem que rapidamente se deteriora nos meio edulcorado e acrítico da passividade imposta pela midia e pelos avanços publicitários? E, de todas, a mais grave questão: como, através de que meios fortalecer a identidade humana buscando sua autonomia real e não fictícia?

Na escola, ao aluno que se comporta passivamente ainda mais acorrem e confortam teorias e psicologismos de caráter duvidoso, que se apóiam ou em sentimentos de culpa ou em políticas educacionais compensatórias. Aos alunos que cada vez mais menos sabem, cola-se a idéia de que efetivamente eles são menos, do ponto de vista cognitico e, portanto, merecedores de créditos adicionais que os equiparem aos demais. Pensemos, por exemplo, na distorção naturalizada da aprovação automática. Se aceitarmos realmente que dificuldades profundas existem, não é tratando uma infecção com bandaid que iremos resolver a situação.

Compreende-se, pois, que a apreensão do conhecimento via conceito depende basicamente do acesso ao mundo simbólico, através da insersão em um mundo discursivo, no qual haja preponderância de uma linha argumentativa em detrimento ao mundo imagético. Esse acesso, contudo, esse caminho não se torna razoável na medida em que o desejamos, mas na medida em que possamos detectar as suas ausências, determinadas pela dificuldade no exame do objeto que se dá a conhecer.

 

DUFOUR, Dany-Robert_ A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Companhia de Freud Editora. Rio Comprido. RJ.2005 

 

 

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Lástima (aconteceu em 2006)

Outubro 4, 2009 noite Deixe um comentário

Cadeado em Florença por luís...

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=cadeado

Escrito em 17 de novembro de 2006 

Estou temporariamente sem a chave geral das salas de aula. Na escola onde trabalho, tudo deve ser fechado, lacrado, cadeado; nada pode ficar aberto. Há colegas que dão aula chaveados(as). Hoje, ao sair de uma das turmas, esqueci do caderno de chamadas na mesa do professor. Isso antes do recreio, que durou trinta minutos. Na volta, minha supervisora avisou que outro colega, ao entrar na mesma turma, viu que alguns alunos estavam mexendo no caderno de chamada e mesmo adulterando-a.

Esse, infelizmente, é o espírito da escola onde trabalho. Você deve tratar os alunos como estranhos, como pessoas nas quais não se pode confiar (e, verdade, pior ainda, muitas vezes realmente não se pode!). Objetos somem a toda hora e a tendência é você não questionar mais nada. Penso: fui ingênuo ao deixar o caderno na sala de aula? Ou simplesmente achei que isso não iria acontecer e que poderia confiar brevemente nos alunos?

Ah, sim, claro, eu liberei os alunos às10h10min exatamente no horário que bate para o recreio e, naquele horário, não havia mais ninguém no corredor, pois ficou informalmente instituído por alguns colegas que os alunos devem ser liberados às 10h, dez minutos antes, se possível. Se houvesse um professor no andar, eu teria para quem pedir a chave para fechar a sala. Como não havia, pensei que podia confiar, esquecendo que trabalho em um lugar no qual inexiste confiabilidade no outro. Os alunos que adulteraram sabem que absolutamente nada vai ocorrer com eles, que nada disso terá conseqüência, a não ser uma advertência que, teoricamente, é séria, mas que na prática é mero discurso.

Já com o professor, não. Fui chamado a atenção – justiça seja feita, minha supervisora foi gentil e mostrou-se pesarosa com o fato – terei de retificar o caderno, conferir data a data, etc., em um trabalho chato, maçante, burocrático.

A situação demonstra que questões de valores e de ética, que deveriam ter imensa relevância em uma escola, já que sua principal tarefa é a de formar pessoas, está esvaziada. Somente fazem o que lhes traga alguma vantagem. Se for preciso adulterar, se adultera, se for preciso mentir se mente, se for preciso passar como um trator por cima do outro, se passa. E isso, muito claro fique, não é de hoje.

Uma lástima.

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Meu dicionário

Julho 15, 2009 noite Deixe um comentário

 Sempre um verbete a mais!

 

Sombra do meu eu por Dani Burman

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=sombra&m=text

ÂNIMO

O ânimo nem sempre nos acompanha. De vez em quando sai andando por aí, meio sem rumo, nos deixando sós como sombras deslocadas de nós mesmos…

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Mapeamento e complexidades

Julho 7, 2009 noite Deixe um comentário

Museo della scienza e tecnologia di Tokyo por nanotubo

Fonte:http://www.flickr.com/search/?q=tecnologia

MAPEAMENTO E COMPLEXIDADES

Vivemos em um mundo mapeado, definido, onde as tecnologias da informática, da comunicação e das mídias são onipresentes; um cenário posto em exatidão, no qual cada vez mais a não linearidade se impõe em razão da complexidade cada vez maior das sociedades. Por outro lado, contrariamente à precisão da reta se ressalta a importância da curva, aqui entendida como as claras possibilidades criativas que se alimentam de um feedback coletivo, das nossas experiências e conhecimentos, que se difundem em rede e que constituem um contraponto a um mundo que herdou do tecnicismo um padrão não apenas comportamental, mas definidor de um paradigma disjuntivo. A criatividade não prescinde das interações em rede, da tolerância às diferenças, do saber ouvir, do desenvolver a empatia e conviver com o outro, muitas vezes divergindo de opiniões e de visões de mundo.

Não há assepsia no ato criativo, que não se restringe às certezas da reta. Contrariamente, é do pensar oblíquo, das relações não formais, da ubiqüidade, do que escapa à rotina, que podemos estender nossas possibilidades além das relações profissionais e de suas idiossincrasias. Podemos, sem o jugo da obrigação explícita, exercer convívios e criar hipóteses, aprofundando enriquecimentos pessoais, culturais e solidários. Assim, as idéias criativas podem se evidenciar não apenas em cenários contratuais, mas, por igual, no âmbito de um espírito de ócio e de liberdade.

A reta, que é um produto humano e que não existe na natureza, tem seu sentido e trajeto absolutamente definidos, o homem dá-lhe o início e destino; a curva, diversamente, erra, vaga, percorre o que não é conhecido; em suma, se arrisca a. Deste modo, não é demais associarmos a reta à precisão e a curva ligada às probabilidades das relações cognitivas e sociais em rede.

O exemplo icônico do mecanicismo é encontrado no espírito descartiano e dentro da física clássica, que constituíram e construíram uma visão de mundo regida pela disjunção entre corpo e mente, espírito e matéria, objetividade e subjetividade, exatidão e probabilidade. Para sustentar tal visão de mundo, era necessário erigir a ciência a uma substituta em potencial do sentido de transcendência tão cultuado na religiosidade. Esvaiu-se, com a idade moderna, iniciada com a revolução francesa em 1789, o poder que a Igreja Católica exerceu durante todo o medievo. O homem, que antes vivia de acordo com um processo produtivo no qual dominava todos os passos e procedimentos, passou a conviver com a desonra de ter um patrão e, portanto, não poder mais determinar sua própria vida. A partir da venda de sua capacidade laboral, passou a conviver com sua própria dependência. A reação a tal estado de coisas foi o ludismo.

O início do processo industrial, especialmente, aliado ao desenvolvimento de um capitalismo predatório ressaltou ainda mais clara a dissociação pregada pela ideologia mecanicista e as necessidades e sonhos das classes burguesa e proletária, ainda em processo de emergência social. Embora a mensagem política e institucional fosse a da liberdade econômica e social, a realidade não era condizente com a mesma. Os novos operários, submetidos, passaram a conviver em um cenário que os oprimia e os alienava em relação ao trabalho. O processo produtivo lhes era cada vez mais desconhecido e sua influência sobre o mesmo era basicamente nula. Apenas a venda da sua capacidade de trabalho sustentava a si e a sua família.

O desenvolvimento das cidades, muitas vezes de modo descontrolado, as novas vias de acesso e a implantação da coletivização de serviços públicos agenciada pelo Estado, a destruição pura e simples de recursos naturais para alimentar o processo de produção, as novas tecnologias e a concentração de renda findaram por não solucionar qualquer dos graves problemas nos quais mergulhou a sociedade. A naturalização da miséria, as guerras artificialmente fabricadas e mantidas pelos Estados em atenção aos interesses comerciais, o consumismo alienante e alienado e as mudanças dos processos industriais em face do gerenciamento científico não solucionaram de modo significativo qualquer dos problemas emergentes que se relacionavam com uma melhor qualidade de vida, incluindo-se aí não apenas salários nominais, mas questões como seguro desemprego, políticas públicas de saúde, moradia e segurança.

Do ponto de vista estatal era necessário intervir para garantir minimamente melhores condições para as classes mais marginalizadas pelo capitalismo; a idéia de welfare state (estado de bem estar social) passou a preponderar em algumas economias de ponta. Contudo, a escola monetarista de Chicago foi decisiva na implementação do neo-liberalismo a partir do controle das economias emergentes através de organismos financeiros internacionais, como o Fundo Monetário Internacional e o Bando Mundial, fundados a partir da reunião de cúpula de Breton Woods, após o final da Segunda Guerra Mundial, e que passaram a gerenciar a economia mundial, sob o controle dos Estados Unidos.

Enquanto isso, as ciências exploravam de modo cada vez mais aprofundado os fenômenos naturais. Se às matemáticas coube papel importantíssimo em um mundo regido pela disjunção e pelo mecanicismo, igualmente restou às mesmas, junto com a física molecular e a biologia uma distinta visão de mundo, seja a partir das relações biológicas e eco-estruturais, seja a partir do desenvolvimento da física nuclear. Através do projeto genoma cada vez mais o homem buscou se assenhorar dos conhecimentos do código genético, enquanto as multinacionais voltadas para a agricultura e alimentos solidificavam processos de implantação de novas tecnologias. Os novos avanços em medicina empurraram a idade média do homem para além de setenta anos e a explosão do consumo alienante passou a ser a mola mestra da economia.

O desenvolvimento das ciências sociais e naturais, especialmente os trabalhos de Schrödinger, Manuel Castells, Einstein, Planck, Freud e o surgimento dos serviços enquanto novo agente econômico, fizeram com que cada vez mais surgisse a necessidade do trabalho em rede, no que a implantação da web e da informática tiveram um papel fundamental. A comunicação não apenas institucional entre mestres e estudantes se expandiu de modo exponencial e hoje a tecnologia da informação permite com que fatos sejam apreciados no mundo todo de modo quase que simultâneo, graças às tecnologias dos satélites. É claro que devemos ter em mente que as informações são geradas e editadas por grandes redes de televisão e de mídia que não são infensas às pressões do capital, dele dependendo através do dinheiro dos anunciantes. Por isso, não sejamos românticos. No entanto, mesmo que recebamos tais informações como plânctons, há um mar informativo no qual temos mesmo dificuldades de navegar. Cabe a nós mesmos e aos sistemas educacionais formativos, em grande parte, a tarefa de nos tornar cidadãos do mundo, o que é especialmente difícil dentro da complexidade da educação e dos processos de ensino-aprendizagem. Sermos conscientes de nosso papel no mundo não é tarefa fácil, especialmente em uma época na qual os valores morais (não moralistas, por favor…), a ética e a solidariedade foram alienadas pelos verbos ter e possuir ao invés dos verbos ser e conviver.

De todo modo, a consciência de que somos muito mais nossos sentidos e sentimentos do que razão já é um bom início a trilhar, assim como a inegável constatação de que vivemos em um mundo no qual o estabelecimento de redes de solidariedade e de conhecimento são muito mais possíveis do que eram há cerca de cinqüenta anos atrás. Cada vez mais existem organizações no mundo todo preocupadas com a vida neste nosso planeta, e as manifestações a respeito das interações entre os humanos e seu habitat são cada vez mais intensas. Talvez tenhamos matado já muitas possibilidades, mas muitas ainda restam a ser cultivadas. O tratamento que se dá às questões cruciais, como, por exemplo, as de qualidade de educação, da permanência das guerras e do aquecimento global não podem ser deixadas simplesmente no âmbito do poder político e econômico: já sabemos onde nos levaram.

É cada vez mais necessário que expandamos os conhecimentos e nos relacionemos de modo que as sociedades civis organizadas, as ONGS e os mecanismos de agregação social possam tomar a si encargos cada vez mais complexos e que, ao fim e ao cabo, serão melhor solucionados fora do circuito oficial e do stablishment. Aproveitemos sabiamente as oportunidades da tecnologia para efetivarmos um contra-fluxo dentro desse sistema, criando comunidades bottom up de que nos fala brilhantemente Steven Johnson. Necessitamos de feedback, de interação, de inteligência coletiva; somos carentes cada vez mais da curva enquanto metáfora criativa. Afinal, se é preciso uma resposta à naturalização da miséria e da corrupção, e se nós mesmos sofremos as suas conseqüências, porque não buscarmos minorá-las através da nossa participação?

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Perda de tempo

Junho 14, 2009 noite Deixe um comentário

labirinto por medeiros_pl

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=labirinto&page=3

Conversando a gente se entende? Concordo, mas na escola onde trabalho falta muito para conseguir conversar algo que não seja os assuntos circulares e sem futuro, além das reclamações acerca de quase tudo e todos na sala dos professores. Há uma enorme apatia para a discussão de temas relevantes, como, por exemplo, carreira profissional. Assuntos sensíveis sistematicamente não são analisados a fundo. Contudo o fato não pode ser debitado unicamente à direção. A dinâmica, em reuniões é a seguinte:

Primeiro os assuntos administrativos continuam desde sempre tendo prioridade;

Segundo, os assuntos privados continuam furando qualquer pauta, pois qualquer professor se acha no direito de interromper o trabalho proposto para resolver ou discutir os seus problemas o que demanda tempo e paciência de seus pares, mesmo porque assuntos individuais deveriam – é o que diz o bom senso – ser resolvidos em outra instância que não reuniões grupais de professores;

Terceiro, praticamente nenhum assunto é esgotado, porque não existe a cultura de um estudo anterior sobre temas relevantes e então os professores apelam para o famoso achômetro sem qualquer referência que possa colaborar efetivamente para um melhor encaminhamento do assunto;

Quarto, nessa altura da peleia, alguém levanta um caso específico e pronto! os colegas comentam sem qualquer critério além da suas próprias convicções e, num zás! troca-se de assunto, normalmente porque “não se tem tempo” para concluir o tema. Por outro lado cada um que quis ou pode falar fez a sua catarse psicológica e então pode, confortado (a) enfiar sua viola no saco e voltar para os assuntos da vala comum, a saber-se, desde seus achaques pessoais até a vida das suas empregadas ou algum comentário a respeito do nada.

O interessante é que a escola tem duas horas de reunião por semana o que, por baixo, perfaz cerca de oitenta horas em dez meses de atividade. Se pensarmos que são três turnos de atividade, são duzentas e quarenta horas por ano letivo. Não é pouco, então fica claro que o problema não é tempo, mas, de um lado a sua administração e por outro o papel convenientemente passivo dos professores.

Temas como avaliação, questões pedagógicas, carreira profissional, relações com a comunidade, papel dos diversos setores na escola, indisciplina e outros nunca chegam sequer a constituir um mínimo consenso mediado e menos ainda uma orientação clara e unívoca, o que leva a maiores confusões que tendem a fazer com que cada dia de trabalho seja um dia a mais de aventura, de acordo com as circunstância do cotidiano.

Para tanto concorre a alienação de colegas que pensam especialmente em acariciar seus egos, obter vantagens quanto a horários, discutir seus teréns e não dar atenção a qualquer assunto que demande estudo, posicionamento político ou o envolvimento com questões profissionais. Embora uma boa parte tenha qualificação em cursos de especialização e de mestrado, são raros os que se posicionam quando o assunto mereceria intervenções qualificadas, ficando todos reféns de quem grita mais, de quem chora mais, de quem se estressa mais e de quem controla mais os mesmos professores.

Por fim, alguma mente iluminada determina regras, regras e regras que, todos sabemos, existem para serem burladas, desrespeitadas, distorcidas. Por exemplo: não suporto mais ouvir a expressão “regras de convivência” e “direitos e deveres”, quando a escola não possui estrutura suficiente para responsabilizar quem burla tais semânticas lingüísticas. Assim como não suporto mais o psicologismo de colegas que sistematicamente tentam livrar a responsabilidade de alunos com o argumento de que eles “tem problemas”, ao que se segue uma lista infinda de atribulações et caterva.

Realmente um desperdício absurdo, no qual o tempo passa a ter uma valia cada vez menor e a qualificação profissional se perde em meio a uma situação onde a indefinição pedagógica parece ser o bem comum a ser incessantemente buscado.

Sugere-se que:

Primeiro, os professores reflitam sobre a possibilidade de que sua profissão tem um campo teórico próprio, e que conhecê-lo não é nenhum demérito, antes pelo contrário, é necessário para sua prática;

Segundo, que haja uma pauta permanente de estudos a respeito de vários temas que não são passíveis de soluções imediatas, porque são complexos, a ver: avaliação, currículo, relações ensino-aprendizagem, maximização dos recursos da escola, investigação sistemática sobre o plano de carreira, influência de empresas privadas sobre a vida dos profissionais da escola, plano político pedagógico, relações institucionais com a provedora, estudos sobre os conselhos de classe e encaminhamento das questões que prevêem retenção ou promoção de alunos, registros, tratamento de questões funcionais, relações com a comunidade, forma de atuação pedagógica e muito mais;

Terceiro,  que procure se objetivar as falas dos professores e que eles se comportem em respeito aos seus pares como gostariam de ser respeitados e que aprendam a escutar, a refletir não com base nas suas opiniões pessoais, mas à luz do que estudaram, utilizando argumentos que não sejam dispersivos, passionais ou simplesmente tolos;

Quarto,  que não se perca tanto tempo com questões administrativas. Não adianta haver uma pauta se ela simplesmente não é cumprida. Não adianta haver pautas que não tenham a ver, em primeiro, com as aflições dos alunos e dos professores, com as suas necessidades prementes;

Quinto,  que se proponha, se reconheça e se implemente uma cultura política na escola, de modo que a mantenedora também seja cobrada, responsabilizada e pressionada acerca do que faz ou do que deixa de fazer, deixando a escola de ser uma mera caixa de ressonância do que encaminha a secretaria municipal de educação, passando a constituir uma identidade própria e afinada com sua visão de educação.

 

 

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Imbroglio

Junho 14, 2009 noite Deixe um comentário

Dr. Bogéa por Guilherme Kramer

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=confus%C3%A3o&page=7

Há pessoas que sentem prazer em incomodar, aborrecer os outros e não deixá-los trabalhar. Há todo um cinismo concatenado aí, de todo modo buscando desestabilizar um quadro que deveria ser mais ou menos harmonioso. Em sala de aula, os movimentos são cíclicos mas os comportamentos, previsíveis. O start desses hábitos podem ter iniciado há muito tempo, mas continuam do longo de todo um processo que deveria ser de aprendizagem; como esta não ocorre unicamente na escola, compreende-se que os mesmos são culturalmente estruturados ao longo de uma história pessoal. Não é obra de ficção, mas a realidade de cada qual é trazida à baila no processo educacional formal. Em suma, as pessoas repetem padrões. Poderão ou não aprender com eles, mas isso dependerá não apenas de tal reconhecimento, mas de situações que possam ou não ser apreciadas ou que as levem para alguma posição melhor do que a que se encontram, a partir do próprio conhecimento dos mesmos padrões, o que forçosamente se dá a partir de seu autoreconhecimento e da melhoria de sua autoestima.

Os padrões de comportamento influenciam na própria possibilidade de aprendizagem. Cada vez mais os professores tem de adotar posturas de autoridade para poderem trabalhar, pois as demais instâncias que poderiam ter peso de orientação no aprendizado se omitem, sendo massa de manobra nas mãos de filhos, especialmente de adolescentes que atravessam essa fase de vida sem um referencial consistente no que respeite a valores que deveriam ser adquiridos seja através da família ou da comunidade onde transitam. Adolescentes simplesmente se autodeterminam com base na resistência ou na omissão aos papéis sociais e familiares; sobra portanto, ao professor, o papel psicológico de corte, que deveria ser exercido pelo pai.

Por outro lado, o professor passa a ler sua imagem colada a uma autoridade que tanto os adolescentes querem negar quanto a papéis que esses mesmos profissionais não vêem como cumprir, nem tem desejo de que isso ocorra. O papel profissional do professor escorrega, então, para uma perigosa relação falsamente familiarizada e que não raro se torna artificiosamente naturalizada na medida em que aquele aceite epítetos como “tio”, “tia” ou se porte como se coubesse a si papéis sociais eminentemente paternos. A aceitação do professor passa a ser identificada com uma dose dupla de autoridade: a dos pais, que os adolescentes aprenderam a mitigar e manipular e aquela que deriva de um conhecimento curricular, que, para o bem ou para o mal, pouco interessa a muitos dos seus alunos, imersos em um mundo no qual dinheiro, consumo, sexo e poder foram elevados a uma condição suprema. De todo o professor vê a sua imagem profissional associada à repressão, especialmente em relaçâo àqueles que se habituaram a viver uma violência objetiva ou simbólica.

Nesse quadro, devemos admitir, por forçoso, que a escola igualmente produz violência simbólica, por um lado, e muitas vezes se omite quando há violência física. Ao proceder desse modo, simplesmente torna ainda mais exacerbado valores que tendem a redimensionar a incapacidade à sociabilidade, à convivência e à criação efetiva de um ambiente educador. Em tal cenário, aqueles alunos que buscam conhecimento na escola, assim como seus professores, tornam-se reféns de um ambiente no qual valores como ética, solidariedade, respeito ao outro, cidadania e polidez simplesmente foram volatizados pela estupidez de uma cultura que torna os homens cada vez mais ignorantes em relação a si mesmos e mais predadores em relação à comunidade que habitam. Há uma circulação cada vez mais densificada de critérios que apontam para uma negatividade no convívio social, o que obriga a que, bem prematuramente, violências sejam suportadas, máscaras sociais sejam empunhadas e, dentro de um processo de injustiça inominável, se aprofundem fossos entre aqueles que deveriam teoricamente buscar o conhecimento para uma melhoria cultural e aqueles que ali estão para, igualmente de modo teórico, serem vetores de tal processo. A estigmatização é real e, se de vez por todas, as influências extra muros ingressaram nas escolas, estas se quedam por aí, paralizadas ante um mar normativo e positivista ao qual interessa bem mais o assistencialismo e os métodos de contenção social do que os parâmetros de aprendizagem que deveriam presidir os movimentos das escolas.

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