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Archive for the ‘Reflexões’ Category

Bom humor ou ironia?

Junho 26, 2009 noite Deixe um comentário

comedy / tragedy por Mr.  Mark

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=comedy&page=7

 

Maimônides disse: “O complexo está na superfície, mas para entendê-lo teríamos, nós mesmos, de sermos muito complexos.” Muitas vezes não temos a noção dessa complexidade. Partimos de nossas infelicidades quando tentamos entender o simples. De certo modo, somos culturalmente constrangidos a tornar mais difícil o que poderia ser entendido de modo menos doloroso.

Dependendo do nível de informação e das possibilidades reais de mobilidade cultural que possuímos, é esperável – quase impositivo – que sintamos dor, mal estar, depressão e um agudo sentimento de culpa e que, preferencialmente, nos dilaceremos. Há toda uma justificativa social para isso. Somos compelidos a infelicidade, às obrigações, às rotinas e assim por diante. Acreditamos firmemente em nossos terapeutas e em toda uma parafernália que sustenta e que se sustenta a partir do conceito triste de seriedade e de infelicidade.

Freud em O Mal Estar na Civilização (década de 30),argumenta que a construção da civilização é um exercício de repressão de Eros por parte de Tanathos,o que gera agressividade e desamor. O sistema social que nos limita é o mesmo que nos incita a sermos felizes, geralmente através da compra e venda, seja de produtos, de ideologia, ou de um estilo de vida. Assim, aprendemos a negociar ou a impor os nossos sentidos e sentimentos. Queremos inclusive que o outro sofra o que nós sofremos, o que é impossível, pois pessoas são diferentes. Podemos ser solidários, podemos ser piedosos, mas sentimos de modo distinto. Cada um chora o luto a seu modo.

Neste quadro o (bom) humor não é valorizado; antes é visto como um vício e não uma virtude, especialmente por quem se leva muito a sério o que, em realidade, é muito triste. Às pessoas muito sérias falta um pouco de autenticidade. Alguém que tenha a capacidade de trazer alegria a si mesmo e aos outros, não é bem visto por quem pretende demonstrar aos outros que viver infeliz é o normal e que portanto, somente a seriedade e a compra material ou a ascensão profissional são coisas que merecem ser vividas.

O humor, em si, é inclusivo, é uma virtude. Os que estão infelizes não suportam a leveza do humor. O mundo, afinal, é um calvário e, portanto, crêem que o ideal é buscarmos problemas como se isso fosse uma predestinação divina. No fundo, são pessoas que perderam o rumo do simples, da autenticidade, não se permitindo viver em paz. O tormento as comove, a intolerância e a sisudez são suas armas de combate.

Tais pessoas adoram a ironia, que é o inverso do humor. A ironia é uma arma, pronta para ser usada em qualquer circunstância; ela fere, ela marca territórios, ela exclui. Um irônico ri sempre dos outros, nunca de si mesmo. A ironia é sempre séria, sempre procurando algo a que cortar, é um fio de navalha, um estopim pronto a ser aceso. O irônico perde em humanidade, o bom humorado ganha em convivência, em solidariedade; o irônico se perde em solidões.

A não aceitação do humor pelo irônico bem fala a respeito de suas diferenças. Para o irônico, o bom humorado é o palhaço, o carente, o tolo, o bobo da corte, o que diverte aos demais buscando ser incluído por estes. O humor é algo viciante e só deve prevalecer desde que se lhe imponha regras, momentos, porque sendo sérias tais pessoas, elas possuem dificuldade em lidar com o inusitado, que é justamente uma das matérias primas do humor.

O humor é a flor do pensamento, sua ativação mais interessante. A ironia é a flor da tristeza e do afastamento. O humor, no fundo,  talvez tenha apenas comiseração quando encontra a ironia; irmã bastarda da leveza, seus passos irrompem trazendo o monocórdio, apontando armas enquanto o humor já se foi por ali, entre as árvores e os mares, apontando o caminho do que é belo, risonho e amorável.

É claro que ninguém é (ou pelo menos deveria) ser totalmente bem humorado ou irônico. Há uma necessidade de ambas as situações dentro dos diversos cenários que atravessamos diuturnamente. Contudo, quase sem querer ou sem percebermos acabamos tendo padrões de comportamento que demonstram que nossas escolhas fizemos para nós mesmos. Minha opção, consciente, já foi tomada. E a sua?

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Viver

Junho 26, 2009 noite Deixe um comentário

Itaúnas, Espirito Santo por bpwilby 

 Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=esp%C3%ADrito&page=2

VIVER

Na medida em que crescemos, buscamos nossa independência, que associamos e traduzimos como sucesso em termos materiais, o que é uma ilusão. Não crescemos por acumularmos coisas, mas pela nossa capacidade de entendimento de nós mesmos e/ou dos outros, o que implica em aceitação, transigência e sensibilidade para vermos nos outros o que, não raro, ocultamos de nos mesmos.

O exercício da aceitação, contudo, é penoso; preferimos bem mais cultuar nossas idiossincrasias e opor barreiras aos que não pensam ou agem do mesmo modo que nós. Somos sectários. Nosso possível sucesso profissional diz respeito ao mundo das coisas, mas não ao espírito. Confundimos instâncias e papéis sociais. Muitas vezes acreditamos poder usar os mesmos padrões do mundo material em nossos contatos humanos, o que é um erro crasso.

O homem gera o contrato, mas não é o contrato, do mesmo modo que uma obrigação pactuada não é uma obrigação moral, e por aí continuamos de modo ingênuo, arrogante ou pretencioso confundindo comportamentos e necessidades reais e ilusórias. Nos tornamos, finalmente maduros quando, ao longo dos anos finalmente compreendemos o que é realmente importante e o que obedece à mera aparência e conveniência social.

A partir daí, finalmente podemos refletir sobre o mundo das coisas e do espírito, sabendo que, embora ambos se interpenetrem, possuem essências distintas. Só então estamos razoavelmente prontos para a melhor das artes e a mais grata de todas as experiências: viver.

Café da Oca, POA, 23-06-2009

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Perguntas e respostas

Junho 20, 2009 noite Deixe um comentário

 por Dani Pizzo

Fonte:

http://www.flickr.com/search/?q=p%C3%A9rguntas+e+respostas&page=8

Há perguntas que nem sempre são feitas para ser respondidas; somente a experiência pode distingui-las das demais. Algumas são utilizadas como armas, tão-só para desqualificar aquele que deveria respondê-las; na verdade são afirmações ou cobranças disfarçadas com um ponto de interrogação. Sua existência é apenas uma forma de colocar o outro em uma situação de incômodo, de inferioridade, de culpa. Tais perguntas, no fundo, querem simplesmente ferir.

Há respostas complexas, que demandam situações, por vezes delicadas e que, em princípio, não deveriam ser envolvidas na questão; quem responde deve então ter uma perícia muito grande para recortar, do complexo, o que realmente importa e caiba aí, além de uma paciência beneditina para não encalacrar-se, deixando de citar fatos que julgue relevantes, mas que poderiam levar a discussões bem mais largas do que o que a pergunta, maliciosamente, quer saber. Nesses casos, o que mais importa na resposta são os “cortes” que a prudência recomenda.

Mais complicado ainda é você se quem pergunta é um (a) estrategista, pessoa que tem imenso talento para manipular cenários com o objetivo de obter o que deseja. Dá-se, pois, que as complicações muitas vezes são urdidas anteriormente e terminam por constituir um caminho nem sempre bem orientado, ou particularmente desorientado. A pergunta vem como um complemento para trazer maiores desentendimentos.

Recortar um conteúdo não é tarefa fácil e normalmente requer uma experiência bastante grande. Há pessoas que não se satisfazem com o que perguntaram e ficam cada vez mais buscando pontos de atrito, com o fito de poderem então dizer o que realmente pensam. Caberia às mesmas o exercício de pensar antes de perguntar ou simplesmente pensar sobre o que a sua pergunta encerra. Discussões são próprias, mas não quando simplesmente se quer partir de critérios arrogantes para impor sua própria opinião.

O exercício da mediação é quase que impossibilitado quando cremos que temos de defender como um castelo nossos próprios pontos de vista, quando queremos impor aos outros as nossas opiniões, geralmente desqualificando o terceiro para que nos sintamos vitoriosos ou para tentar inculcar um sentimento de culpa em outro, mesmo que saibamos que isso não é real. A deslealdade de uma discussão levantada a partir de prerrogativas infamantes só pode levar ao desrespeito e ao estresse sem sentido.

O que menos importa é a pergunta ou mesmo sua resposta, se partimos do ponto de vista de que possuímos a razão. Qualquer movimento contrário será visto ou como uma defesa indevida, ou como uma queixa inapropriada. O passo seguinte é querer forçar o outro a pensar e a agir de acordo com o que desejamos. Não temos aí uma relação adulta, mas a mera submissão. Submetem-se, em princípio, os que dependem de terceiros e essa dependência pode ser de várias ordens, mas sempre caracterizará a dependência. Há pessoas que se habituam a subserviência de outras, e que, por estarem assim acostumadas, não conseguem ver no outro alguém que se posiciona de modo distinto ao seu.

Trata-se, muitas vezes, de uma postura arrogante, possivelmente de alguém que encarou no mimo a si mesmo uma virtude. Para a mesma não há limites possíveis, mas a simples e comum gritaria que não leva a nada, a não ser ao desrespeito, à quebra de limites e à falta de convivência. Preços altos demais a pagar? Depende da relação que você tem com quem você quebrou os limites.

A pedagogia do silêncio, talvez, seja uma resposta apropriada, não no sentido de afastamento, mas como uma viva recordação de que estamos todos sujeitos a aprender. Nem que tenhamos de nos portar como Sísifos ou que a vida, com sua imensa sabedoria, tome a nós mesmos como aprendizes.

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Paradoxo

Junho 20, 2009 noite Deixe um comentário

♥  MUNDO UNO  ♥ por Tommok

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=mundo&page=7

Talvez em nenhuma outra época tenhamos acumulado tantos recursos científicos, técnicos e de conhecimentos. No entanto admitimos um caos social organizado e consciente orquestrado por parte daqueles que não tem qualquer compromisso senão com sua própria vaidade e egoísmo. Aceitamos pacificamente que pessoas e organizações acumulem riquezas materiais publicáveis apenas em cifras de milhões, de bilhões, assim como o fazemos em relação aos milhões que vivem abaixo da linha da miséria e que não tem acesso à medicina, à educação, à habitação e condições mínimas de cidadania. Continuamos tratando de fontes de reservas animais, vegetais, minerais e do subsolo como se fossem inesgotáveis, quando sabidamente não são. Nunca, por efeito das tecnologias de comunicação, da informática, da medicina, da biotecnologia e da agricultura estivemos tão próximos de conseguirmos solucionar os problemas mais aflitivos que afligem a todos, o desemprego, a violência, o cansaço, a dor e, por outro lado, nunca depredamos tanto, além de demonstrarmos conscientemente nossa indiferença social, cultural, afetiva e financeira em relação ao outro. Somos radicais na preservação dos nossos sítios, mesmo que as raízes plantadas estejam minguando dia-a-dia.

Descartamos valores como solidariedade, maturidade, amizade e compaixão, substituindo-os pela arrogância, pelo dinheiro e pelo consumo. Como desaprendemos a conviver, para quase tudo deve haver uma lei, uma norma, uma regra, uma normatização para regular nossos comportamentos, o que aumenta a sensação de perda de liberdade individual. Para sabermos que não podemos dirigir alcoolizados milhões são mobilizados em campanhas publicitárias para dizer-nos o que já foi ditado pelo bom senso. Admitimos ainda regimes fechados de governo, bem como o jogo sórdido promovido por meios de comunicação. Sabemos definir problemas, mas não temos ética nem respostas institucionais equilibradas para encaminhar as soluções.

O mundo, mesmo assim, progride. Nunca houve tantos hospitais, tanta informação, tantas possibilidades de uma vida com maior qualidade. As organizações sociais, comunitárias e assistenciais se multiplicam. Indústrias criam necessidades artificiais para que nós, consumidores, possamos nos perder em sonhos e cartões de crédito, enquanto campeia a violência e a desumanidade programadas, o que aumenta o cinturão de miséria que a cada dia se torna mais denso, apertando os limites das grandes cidades.

Confiamos em religiões, mas não em nossos vizinhos que, na maior das vezes, desconhecemos. Dizemo-nos civilizados, mas banalizamos a tortura, a guerra comercial e os extermínios étnicos, que, em nome das religiões, são tolerados, incentivados e mesmo banalizados pela imprensa, a mãe de todos nós. Nossa solidariedade termina onde começa nosso interesse. Somos um poço de paradoxos e examinamos nossos umbigos como se o mundo todo estivesse ali, para prestar suas homenagens às nossas frágeis e inconsistentes arrogâncias.

No entanto, continuamos, e as nossas vidas vão construindo pontes entre tais paradoxos e inconsistências. Então nos dizem que o caminho para que consigamos sair destas incongruências é a educação, mas mesmo ela não tem a capacidade de iluminar tanto esta longa estrada. É necessário, além dela, que tenhamos informação, além de uma tábua de valores e de virtudes que não se esgotem e não se esvaiam quando surgem interesses menores.

Hay hombres que luchan un dia y son buenos. Hay otros que luchan un año y son mejores. Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos. Pero hay los que luchan toda la vida: esos son los imprescindibles. Bertold Brecht.

É necessário cultivar a inteligência no sentido civil, não nos alienarmos do que ocorre, não pensarmos que o que acontece além de nós não nos alcançará, mas nos colocarmos na pele daquele que já foi alcançado pelo infortúnio; que não tenhamos medo de contrariar pessoas ou instituições e que busquemos a probidade; que tenhamos coragem para dizer o que é justo mesmo que tenhamos prejuízos com isso. É hora de nos tornarmos mais que homens e mulheres, mas humanos. Somos todos humanos e não podemos compactuar com o vírus paralisante e letal da estupidez.

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Conveniências e realidades

Junho 16, 2009 noite 2 comentários

Estranha Criatura - Construção por José Ferreira 2009

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=ACEITA%C3%87%C3%83O&w=all

Pois, em algum livro de interesse, li que a sala dos professores é um dos locais mais estressantes que existe. Infelizmente a minha experiência me faz concordar com tal assertiva. Há muitos anos lecionando, já perdi a conta de quantas impropriedades, tolices, desmandos e idiossincrasias me brindaram em tal ambiente. Talvez por isso a minha tendência seja a de não permanecer ali nas horas de intervalo. É claro que, ao longo do tempo, algumas raríssimas amizades vão se solidificando. O que ocorre é a proximidade de pessoas que, por se respeitarem, paços de interesses comuns, o que pode ser potencializado e vir a se transformar em algo mais do que o cumprimento de uma agenda profissional. Contudo, isso depende de tempo, de confiança e de um envolvimento todo especial, que não pode ser confundido com conveniências que nada mais são do que os ajustes de interesses, que podem ser mais ou menos nobres, egóicos ou narcisistas, mais solidários ou individualistas até as raízes dos cabelos. De qualquer modo, as conveniências existem e continuarão existindo. Satisfazê-las ou não depende de uma tábua de valores que vamos incorporando ao longo das nossas histórias e, que são elementos constitutivos de nossa personalidade. A questão de fundo é quando você, de modo ostensivo, sacrifica deliberadamente a sua tábua de valores em nome da conveniência, sua ou de outros. Você deixa de ser o que o identifica consigo próprio ou a de outros. Você deixa de ser o que o identifica para ser simplesmente agradável, querido, etc., pelo outro. Você fratura a si mesmo e expõe a sim mesmo, pois, por várias circunstâncias, pretende ser conveniente, azeitado, aceito, por esse outro; você não se sustenta porque renunciou a sua identidade, não coloca seus pontos de vista e sua visão de mundo porque “não vale a pena”. Sua submissão o afoga e você simplesmente esqueceu como nadar ou apenas abandonou a si próprio. O que alavanca esse processo de perda de auto-imagem, em princípio é a conveniência, mas também pode ser o sentimento de culpa, de depressão, de sentir-se vazio, pelo que você busca, para compensar tal situação, naturalizar o que não é de forma alguma natural, mas tão-só ideologicamente construído. Dentro de uma sociedade complexa, vários papéis devem ser exercidos e, para cada um deles, espera-se o desenvolvimento de habilidades específicas: a atenção no caso do aluno, o comprometimento profissional, a perícia em atividades de risco, a prontidão quando necessárias respostas rápidas, e assim por diante. Há papéis sociais, contudo, que exigem mais do que habilidades, mas uma simbiose entre aquelas e o sentimento, o feeling, uma prontidão afetiva, amorosa, que pode mesmo levar a doses mais ou menos razoáveis de renúncias e sacrifícios pessoais. O mais evidente de todos esses papéis é o da filiação. Se você abre mão das suas convicções simplesmente para atender aos desejos dos seus filhos, você deixa de ser pai, passa a ser simplesmente uma pessoa com a qual eles entretêm relações de conveniência. Cabe a você decidir o que fazer. A paternidade – de modo genérico – consciente leva a lidar com múltiplos cenários e com uma carta de valores distintos: amor, ética, compromissos, responsabilidade e educação, cada um significando e sendo significado dentro de uma relação que muitas vezes é confundida com mera conveniência. Sendo tais fatores muito mais que especulações, temos ainda de considerar que vivemos em uma sociedade de consumidores, de alta rapidez e volatilidade, em que conversas necessárias com adolescentes são muitas vezes trocadas por bens materiais, como tênis, viagens, celulares, festas, etc. Mercancia-se com os adolescentes da mesma maneira como mercancia-se com um comerciante o preço de uma camisa. Isso implica em que o adolescente sofrerá uma perda no que respeita aos valores sociais e éticos que teria de desenvolver e seguramente desempenhar quando adulto. O mundo se resolve através da negociação e não através da mediação, o que é um erro. Há valores que não são passíveis de ser negociados; para bom entendedor, há situações e cenários que não se prestam para tanto. De qualquer modo, a conveniência se presta sempre a quem não sustenta a sua posição ou tem interesses em se demonstrar desta ou daquela forma. A conveniência busca a submissão e se alimenta de vagos sentimentos de culpa, reais ou manipulados por terceiros. Ser conveniente é igualmente uma escolha pessoal, que pode ser evitada. Talvez a consideração desses fatos seja uma opção para refletirmos sobre nós mesmos e, especialmente, matutarmos sobre exercermos ou não o direito inalienável de nos respeitarmos, deixando de ser marionetes teleguiados pelo desejo de terceiros.

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Bem vindo à tribo

Junho 15, 2009 noite Deixe um comentário

Ser Diferente..... por Vely***

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=diferente&page=2

Uns dias atrás, mais ou menos um mês, tive uma nova abordagem de um mundo desconhecido. A sensação não foi a de acolhida, senão de estranhamento.  Observei que determinados padrões que não só eu conhecia como tinha ajudado a criar se esboroaram, se perderam nesse novo mundo. Algo assim como você se empenhar em plantar e cuidar de uma ameixeira e, após tanto zelo, colher uvas. Nessa situação você perde a referência do que ajudou a criar, especialmente quando a videira parece gritar: “mas foi você que me criou!”

“ Não, eu não criei uma videira, eu criei você ameixeira, e ameixeiras não produzem uvas”, é o que digo, mas novamente parece que a videira não ouve. Ela insiste, mas nada pode modificar o meu passado, assim como não posso admitir o que não fiz. Mas, por outro lado me parece que isso não importa muito ao mundo que desconheço. Durante muito tempo investi afetividades, amores, carinhos e cuidei da ameixeira e agora ela vem me dizer que é uma videira! Estranho mundo esse, local em que você, sabendo que deve alcançar a nado a outra margem do rio, se joga com vitalidade e força mais do que suficiente para enfrentrar a correnteza, mas a cada braçada que dá, a margem se afasta na exata medida do esforço dispendido.

Os referenciais que você tentou imprimir perderam-se em um processo do qual você não participou. Apenas existem alguns deles, talvez aqueles que alertem a videira que na realidade ela é uma ameixeira, o que ela reluta em aceitar. Ela deixa de existir enquanto algo que foi criado, para se transformar em algo artificialmente manipulado. A questão crucial é que a agora videira, quer convencê-lo de que você deve embarcar no mesmo barco, ou seja, você deve admitir não apenas que a ameixeira é uma videira como ainda comer as ameixas sentindo o sabor de uvas…

Você deve se habituar com um mundo que não é mais o seu, mas que não repõe referências que sejam entendíveis por você. Não há uma interface possível porque estamos lidando com linguagens diferentes e, especialmente com comportamentos que partem de visões diferentes de mundo. Você não tenta ser impositivo e se arrepende na medida em que elegeu tão-só questões argumentativas e éticas para estabelecer as suas relações de autoridade, e percebe que elas não funcionam mais, porque os argumentos, cada vez mais se perdem em uma complexidade diáfana. Tudo, em todos os aspectos se dilui, e você acaba, por fim, entendendo que pertence a uma tribo exógena. Não há mais argumentos porque não há mais idéias a serem pensadas ou defendidas.

A voracidade do consumo, da aparência, da manipulação, do dinheiro, da posição social e do diuturno refazer de papéis sociais simplesmente o cansa. Não se trata, inclusive, de falta de vitalidade para encarar de frente esse novo mundo, mas apenas se trata de falta de vontade de participar dessa mutação adolescente, especialmente se adultos estiverem se posicionando desta maneira. Todos os valores importam, mas alguns muito mais do que os outros, e você os sustenta e mantém. Preso em uma experiência de vida sólida, você não pretende participar desse happening de factóides do dia-a-dia, não precisa mais andar em meio à corda bamba para se fazer respeitado, em trocar de idéia como quem troca de roupa, o que não o faz inflexível, mas experiente. Você já atingiu esse ponto, e o fez independentemente do que você possua em termos materiais. Não precisa mais ser sempre agradável para não desapontar sua mãe, seu pai, seus filhos, sua mulher e assim por diante. Não precisa mais da mutável aparência para ser aceito por a ou por b. Simplesmente você é.

Bem vindo à tribo.

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Dias e noites

Junho 10, 2009 noite 2 comentários

São Paulo, inicio de noite ... por João Paulo Cauduro Filho

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=noite

O dia é a indústria, é o empreendimento, é a fábrica, é o movimento; a noite não, a noite é a entrega, o tempo passando devagar, como biologicamente ele se fez, e não um tempo de horário de verão. A noite não é apenas um passar de horas, a noite é a própria hora a partir dos seus momentos de devaneio, de criatividade, de impulsividade.

A noite revela os monstros e os bons; ela os absorve e os recebe na sua rede de estrelas. O dia não. O atavismo do dia é engolfar-se em si próprio, reto como uma lâmina. A noite? Ah, essa é curva, incerta, mal-sabida e mal-dormida. A noite é para poucos, o dia, para todos.

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Lembrando o amanhã

Junho 10, 2009 noite Deixe um comentário

C'è tempo por CarloAlessio77

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=tempo&page=2

Lembrar o amanhã é simplesmente sabermos que hoje é o amanhã de ontem e que os novos dias se sucedem na medida em que fugimos das institucionalizações que nos tomam uma boa parte da vida, com seus compromissos, horários certos e processos produtivos.

Lembrar o amanhã, de certo modo, é mais do que sabermos que ele é uma possibilidade concreta, mas buscarmos, de um modo ou de outro para que ele seja melhor, para que tenhamos mais satisfações e menos estresses.

Lembrar o amanhã é saber que o dia de hoje, daqui a pouco já é o passado e que o tempo em que digito essa mensagem já se diluiu entre os móveis, as paredes, as ruas, as ventanias.

Recordações de hoje e projetos encetados hoje ainda, nos levam até onde estamos. Tanto quanto o tempo, somos inexoráveis conosco mesmos.

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Amor, amor, amor

Abril 17, 2009 noite Deixe um comentário

"A MAÇÃ DO AMOR" por Fabiana Velôso

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=amor

Vivemos em um mundo obrigacional, pleno de rotinas, horários, contratos, com definições cartesianas do que podemos ou devemos fazer e o contrário; nosso mundo apenas agora está se tornando um pouco mais flexível, mas todas as chateações parecem ser tão inerentes a nossa vida ocidental que nos habituamos a isso. Nossa saída de emergência é o consumo cada vez mais alienado e alienante.

E, de repente, amamos.

E quando amamos, queremos, de certo modo tolo, tentar entender nossas relações amorosas dentro do contexto em que vivemos, o que não é possível. Amar não é uma obrigação, não é só sofrimento, não é nos doarmos patologicamente ao outro para depois chegarmos à conclusão de que erramos lamentavelmente. Os erros do amor não são erros, são lições. Uma delas, preciosa, vem de um rabino, do qual infelizmente não lembro o nome, mas que viveu na Idade Média e ensinou que o amor é uma orquestra, mas que não podemos esquecer que para que a orquestra nos eleve com a sua música, é necessário que cada instrumento permaneça tendo as suas características. Um oboé deve ter o som de um oboé, um violino de um violino. O que o rabino quis ensinar é muito profundo e ao mesmo tempo muito realista.

Temos a tendência a modificar a quem amamos. Assim como trôpegos escultores, queremos adaptar o outro àquilo que entendemos que é o melhor em nossa opinião; nessa saga, tanto fazemos que acabamos por efetivamente modificar o outro. Na sua maioria, para pior. Modificamos tanto que um dia nos damos conta de que aquela pessoa por quem tanto demonstramos amor é uma desconhecida; o que não reconhecemos é que nós próprios a reformatamos assim, nós a quisemos assim, porque não aceitamos nosso amor do jeito que ele é, não aceitamos o outro da maneira como ele se porta, então passamos às nossas tentativas cirúrgicas de melhorar a pessoa pela qual nos apaixonamos.

Amor não é obrigação, não é drama, não é tristeza. Claro que há momentos assim, mas o amor é livre, leve. Mais uma borboleta que um pássaro, mais uma poesia que uma crônica, mais uma espera que uma chegada, mais um murmúrio que uma risada. Todos rimos às gargalhadas, mas o amor, sutil, requer passagens mais tranquilas, mais coloridas por ser amor, e não por ser uma tela na qual pintamos nossos desejos. 

O amor não é sublime, não é nobre, não é sequer pagão. O amor não exige compromissos, mas, sim, solidariedade; não requer cobranças, mas sim entendimentos; não requer que saibamos exatamente o que o ser amado vai fazer; contrariamente, vive dos pequenos presentes que a delicadeza concede, que a alma sente. Erramos quando estamos amando, mas jamais erramos por amor; talvez por outros sentidos, por outros sentimentos, nunca erramos por amar demais. Podemos errar quando sufocamos o outro a tal ponto que ele se sinta constrangido, manietado.

As lágrimas do amor verdadeiro são bençãos; as que as simulam são por sentimento de posse, por simples desejo de posse, não por amor.

O amor, como condição humana, é a que nos torna mais próximo aos deuses. A linguagem dos deuses é a música, dizia Beethowen. Talvez a linguagem humana em sua essência seja o amor.

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Perguntas e tolices

Janeiro 20, 2009 noite Deixe um comentário

Discussion por svenwerk

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=Discussion

 

Fotografia, filme, palavra escrita e falada,  muitas maneiras de conduzirmos nossos sentidos em relação à realidade. Orientados ainda por princípios cartesianos, discutimos de forma excludente: afinal uma imagem vale mil palavras? o romance acabou? Deus existe? Anjo tem sexo? e assim por diante, as dúvidas tolas vão se acumulando como um eterno bestiário. Nada disso importa, pelo menos não dentro de um caráter de inclusão.  Talvez a melhor resposta seja, para esse tipo de dúvida: depende do contexto. O que é melhor, uma foto ou uma escrita? Depende da situação, depende da circunstância. Não estamos habituados a pensar assim, mas sempre de um modo que remete sempre a situações bipolares: ao melhor e ao pior. Não se trata disso, mas de pensarmos que os cenários variam e que perguntas tolas merecem respostas tolas.

Vamos tentar nos habituar a refletir de modo mais flexível. Qual a relevância de respondermos determinadas perguntas e, pior, nos ofendermos em busca de uma resposta que não leva a absolutamente nada? Apenas a nossa sede de poder, de provarmos, seja com uma ironia, seja com um cassetete, que nosso ponto de vista é o mais forte, o mais poderoso, o mais qualquer coisa assim. Quem é melhor? Judeus, muçulmanos? Melhor seria se deixássemos que cada um seguisse a sua história, as suas crenças, desde que não procurasse impor aos demais a sua ideologia a ferro e fogo. Essas escolhas muitas vezes são motivo de fenômenos como o bullying, que já começam a infernizar a vida dos outros desde a escola.

O que importa não é a certeza fechada nem a convicção estéril e cristalizada, mas a possibilidade real de convivência com os outros. O que o mundo ganha se continuarmos a cultivar perguntas que levam a uma asnice total?  A reprodução da miséria intelectiva e a diminuição das possibilidades de convivência.

Me lembro de uma reunião, entre várias, na qual ficamos muito tempo discutindo tolices, enquanto o que deveria ser discutido não o foi. Acho, no fundo, que é uma estratégia. Você não discute o que interessa e fica perpassando ad infinitum o que não tem a menor importância. Nos habituamos a viver assim, a colocarmos muito mais tempo e energia discutindo apaixonadamente bobagens.  Ponha, por exemplo, uma foto de Sebastião Salgado e um texto de Brecht, sob o mesmo tema. Importa saber qual dos dois é melhor? Nada, o melhor é aquele que mais diz a quem lê a mensagem!

Lembro Einstein, que disse que a inteligência era muito menos interessante que a ignorância pois, enquanto a primeira tinha limites, a segunda era absolutamente sem qualquer tipo de limitação. A bizarrice acompanha todos nós, e isso é certo: o pior é quando acreditamos nela e a elegemos como um parâmetro a ser seguido…

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