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CEGOS VISIONÁRIOS E INTELECTUAIS CEGOS

Lyslei Nascimento

UFMG

A pressão social perdura, não obstante a invisibilidade do perigo hoje. Ela impele as pessoas ao inenarrável que, em escala histórico-universal, culminou em Auschwitz.

Theodor Adorno

Se o inimigo vencer, nem os mortos estarão em segurança.

Walter Benjamin

 

 

A cegueira, tanto em Jean-Paul Sartre (cego de um olho, e inteiramente cego no fim da vida) quanto em Jorge Luis Borges (cego como seu pai e avô) não os impediram de ter uma consciência universal e profunda do papel do intelectual na sociedade em que viviam. Muito além das posições políticas locais de Borges, que sempre foram objeto de críticas ferrenhas, o escritor argentino sempre resistiu ao uso político da literatura. No entanto, a delicada relação entre a literatura, a arte em geral, e a política pode ser observada, em vários de seus textos, como uma questão ética e imperativa.

Beatriz Sarlo destaca, em momentos variados da obra de Borges, como no célebre conto “A biblioteca de Babel” ou nos vários contos de A história universal da infâmia, por exemplo, uma resistência contra a ordem imposta e vigente de forma simbólica, visionária. O escritor, que sempre confessou sua aversão a uma literatura que fosse presa a pressões ideológicas, no prólogo de O informe de Brodie, pronuncia uma espécie de manifesto à liberdade:

Só quero esclarecer que não sou, nem jamais fui o que antes se chamava um fabulista ou um pregador de parábolas e atualmente um escritor comprometido. Não aspiro a ser Esopo. Meus contos, como os d´As Mil e Uma Noites, pretendem distrair ou comover e não persuadir. Este propósito não quer dizer que me encerre, segundo a imagem salomônica, numa torre de marfim. Minhas convicções políticas são demasiadamente conhecidas; filiei-me ao partido conservador – o que é uma forma de ceticismo – e ninguém me taxou de comunista, de nacionalista, de anti-semita, de partidário de Formiga Negra ou de Rosas. Acredito que com o passar do tempo mereceremos que não existam governos. Nunca dissimulei minhas opiniões, nem mesmo nos duros anos, mas não permiti que interferissem em minha obra literária, a não ser quando fui assaltado pela exaltação da Guerra dos Seis Dias.

A guerra a que Borges faz referência, nessa espécie de chave de leitura de sua obra, deu-se em junho de 1967. Nela pelejaram, num conflito armado, apoiados pelo Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Sudão, o Egito, a Jordânia e a Síria contra Israel. A Guerra dos Seis Dias foi deflagrada após uma série de ataques terroristas árabes contra Israel através das fronteiras com o Egito e a Jordânia, bem como o bombardeamento do norte da Galiléia pela artilharia síria. O Egito solicitou à ONU, numa estratégia militar astuciosa, que retirasse as tropas internacionais que guarneciam o Sinai. Esse pedido foi atendido. Imediatamente, deslocando-se para o Sinai, o exército egípcio estabeleceu aliança de guerra com a Síria e a Jordânia. As emissoras de rádio árabe transmitiam programas em hebraico para intimidar e anunciar à população israelense que seu fim estava próximo. Invocando o direito de autodefesa, Israel desencadeou um ataque contra o Egito e a Síria, conclamando a Jordânia a não intervir e, avançando pelo Sinai, venceu o exercito egípcio e expulsou as forças sírias do planalto de Golan. A Jordânia, então, entrou na guerra. Ao fim de seis dias de combates, a Judéia, a Samaria, Gaza, a península do Sinai e o planalto de Golan estavam sob o controle de Israel. A cidade de Jerusalém, que estivera dividida entre Israel e Jordânia desde 1949, foi reunificada sob a autoridade de Israel.

Nesse ano, Borges publica os poemas “A Israel” e “Israel”, realiza duas conferências: “O livro de Jó” e “Baruch Spinoza” e assina, juntamente com outros intelectuais, uma carta de apoio a Israel. Na ficção, a resistência política, que muito lhe foi cobrada, dá-se, sobretudo, em dois contos que tematizam o nazismo: “O milagre secreto”, publicado em Ficções, 1944, e “Deutches Requiem”, publicado em O Aleph, em 1949.

Em “O milagre secreto”, um escritor judeu em Praga, ao saber que será executado por fuzilamento pelos nazistas, pede a Deus que lhe conceda mais um ano de vida para concluir uma peça que estava a escrever. O título desse drama inconcluso é, como não poderia deixar de ser, “Os inimigos”. Sua história trata de disputas, poder e morte. Arma-se, na escritura, um espelhamento da rivalidade dos personagens através da referência a um matemático jogo de xadrez. Assim, o milagre secreto que se urde em segredo é o tempo da memória, não o da divindade. Entrelaçam-se, na trama de Borges, a temática de um escritor judeu condenado à morte pelos nazistas e fragmentos do Alcorão. Ambos, na narrativa, duplamente, sem se ofuscarem. Borges, assim, parece ter em vista a literatura como um tecido amplo, tão amplo que pode fazer convergir, sem conflito, sem superposição, as vozes que fora da ficção se elevam como inimigas. No discurso literário borgiano, a riqueza cultural, tanto judaica quando muçulmana, coopera para o enriquecimento do tecido literário. Dessa forma, no momento em que está para ser fuzilado, o escritor judeu, de pé contra a parede do quartel, espera o disparo do pelotão alemão que não vem. O sargento emite a ordem final. E, no entanto, o universo físico se detém. Todos ficam imóveis . Um ano solicitara o escritor a Deus para terminar seu trabalho; um ano, portanto, lhe foi outorgado. O dramaturgo, enfim,

minucioso, imóvel, secreto, urdiu no tempo seu alto labirinto invisível. Refez o terceiro ato duas vezes. Eliminou algum símbolo demasiado evidente: as repetidas badaladas, a música. Nenhuma circunstância o importunava. Omitiu, abreviou, amplificou; em certos casos, optou pela versão primitiva. [...] Pôs fim a seu drama: não lhe faltava já resolver senão um único epíteto. Encontrou-o; a gota de água resvalou em sua face. Iniciou um grito enlouquecido, moveu o rosto, o quádruplo disparo o derrubou.

Como uma espécie de narrativa especular, o conto “Deutsches Requiem”, reelabora o tema da morte, do duplo e da confrontação política a partir do ponto de vista inusitado de um torturador nazista. Contrapondo-se a voz do escritor judeu do conto anterior, a voz narrativa desse outro conto é a de um alemão nacional-socialista, que, na noite que precede a sua execução, rememora sua vida e sua luta pela construção do ‘Terceiro Reich’. Como responsável por um campo de concentração, coube-lhe a tortura e o testemunho do suicídio do poeta judeu David Jerusalem no campo de morte.

De acordo com o depoimento desse narrador, David Jerusalem era um escritor admirável pela sua capacidade de captar uma ordem múltipla e o infinito em cada individualidade, carregando sua escrita com a interessante metáfora dos “tigres transversais e silenciosos”.

Nos dois contos de Borges, uma trama se urde ironicamente, de forma sub-reptícia, como lhe é peculiar. A condição silente do judeu. Os dois personagens, tanto o dramaturgo quanto o poeta que se suicida para se ver livre da tortura, ilustram o estereótipo do judeu após Auschwitz, que deve ser silencioso e passivo, deixar-se torturar e exterminar sem direito a nenhum tipo de defesa.

Evidentemente, há uma crítica especializada em continuamente esmiuçar as palavras e as ações, ficcionais ou reais, de Borges. No ano em que se comemorava o centenário do seu nascimento, 1999, por exemplo, um sociólogo argentino reuniu, sob o título de Antiborges, uma série de textos contra o escritor. Essa antologia pretendia ser uma página discordante “da sufocante hagiografia” que estava sendo realizada em todo o mundo, para Borges. No entanto, esses escritos passam quase desapercebidos.

Juan Gelman, poeta argentino convidado a participar dessa antologia, é um dos críticos mais ferrenhos e mais lúcidos de Borges. Seu filho e a nora, grávida, foram seqüestrados e mortos pelo regime militar argentino, sua neta foi, depois do suplício da mãe, adotada por uma família uruguaia. Deve-se à campanha e à luta de Gelman para obter o direito de revelar à sua neta sua origem, a mudança das leis de adoção do Uruguai. A omissão de Borges, naquele momento, foi especialmente trágica para Gelman. No entanto, ao relatar uma entrevista que Borges concedera a uma conhecida jornalista, afirma:

É conhecida a desorientação e também o horror das opiniões políticas de Borges. Elogiou a Videla depois de um memorável almoço, deixou-se condecorar por Pinochet, opinou na Espanha pós-franquista que tudo era melhor com Franco, decidiu sugerir a Jimmy Carter um golpe de estado. Mas em 1981, em plena ditadura militar e antes da Guerra das Malvinas, assinou uma solicitação que as Mães da Praça de Maio fizeram publicar no jornal La Prensa em favor dos seus filhos desaparecidos. [...] no documentário mencionado declarou: “Por ser cego e não ler os jornais, eu era muito ignorante. Mas as pessoas vieram à minha casa (quando a ditadura ainda estava no poder) e me contaram histórias tristes sobre o desaparecimento de suas filhas, esposas, filhos, assim, agora que eu estou bem informado. Durante um tempo não soube de nada. As notícias não me chegavam, mas agora essas coisas não podem ser ignoradas. Sim, muita gente me acusou de não estar atualizado. Mas o que eu podia fazer? Vivo sozinho, conheço muita gente, não leio os jornais. Somente ouço o que meus amigos me dizem e eles pertencem a outra classe. Mas agora, é claro que sei tudo sobre essa miséria e todos esses crimes, um após o outro. É por isso que não falei antes. Ignorância, querida senhora, pura ignorância, como dizia o doutor Johnson. Agora creio que sei mais e me sinto triste, amando como eu amo ao meu país”, disse Borges, com tristeza na voz e um arremedo de sorriso.

Borges, nessa entrevista, ao reavaliar suas posições equivocadas, marcadas por uma ignorância que ele mesmo reconhece, pode ser contraposto ao posicionamento do escritor português, José Saramago, e o papel do intelectual frente aos acontecimentos políticos sobre os quais ele é chamado a opinar, ou sobre os quais opina mesmo sem ser chamado.

Saramago, que não é tecnicamente cego, apesar do uso das grossas lentes em seus óculos, valendo-se do conceito sartriano de “intelectual engajado”, após ganhar o discutível Prêmio Nobel de Literatura, esmera-se em publicar entrevistas e emitir opiniões sobre Israel e o conflito no Oriente Médio eivadas de judeofobia.

Sartre, diga-se, de passagem, em 1964 negou-se a receber o prêmio da academia sueca. Borges, sempre o desejou, porém nunca foi por ele contemplado, e o senhor Saramago, que efetivamente o ganhou, em que pese o caráter inexpressivo do prêmio, não o merecia.

A cegueira – metáfora recorrente na obra de Borges e do senhor Saramago – é uma perspectiva interessante no que se refere à condição do intelectual na contemporaneidade. Os artigos de Saramago, mais especificamente “Das pedras de Davi aos tanques de Golias”, publicado no jornal espanhol El País, foi reproduzido por dezenas de sites anti-semitas pela Internet. Além disso, o escritor português na televisão ou em fotografias publicadas em jornais do mundo todo, inclinado, quase grotescamente sobre uma folha amarrotada de papel, com as mãos estranhamente pensas sobre os olhos, reafirma o que disse durante uma viagem à Cisjordânia e à faixa de Gaza, comparando ao campo de extermínio nazista de Auschwitz as atitudes de Israel frente aos atos terroristas de certas correntes palestinas.

A exibição desse senhor contrasta com as imagens singulares de Borges, junto ao Muro das Lamentações em Jerusalém. Numa fotografia publicada pela revista Proa, Borges parece um homem pequeno e frágil diante daquela parede que testemunhou séculos de perseguição, expulsão e extermínio de judeus. Cego, o escritor tateia, como quem lê em braile, a parede do Templo. Noutras imagens memoráveis de Borges, ele lava as mãos no mar da Galiléia e se apóia em sua bengala, ouvindo atentamente os rumores do dia.

Comunista pós-utópico, Saramago se utiliza na crônica “Das pedras de Davi aos tanques de Golias”, de uma grosseira inversão da narrativa bíblica. No texto, em que afirma estar preocupado com um suposto rigor histórico, o escritor acusa cem gerações de “conformidade acrítica”. Ou seja, durante cem gerações, a narrativa bíblica foi interpretada erroneamente e, somente agora, o iluminado Saramago irá trazer a verdadeira luz à humanidade cega.

Convém acompanhar, primeiro, a narrativa bíblica. Segundo o primeiro livro do Profeta Samuel, Saul era quem reinava em Israel e Davi era um jovem pastor de ovelhas, filho de um dos seus súditos. Em certa ocasião, os filisteus reuniram suas tropas para a guerra contra Israel e concentraram-se em Judá. Saul e seus homens também se reuniram e acamparam no vale próximo, e se puseram em ordem de batalha. De um lado de uma montanha estavam os filisteus e do lado de outra montanha, Israel. O livro de Samuel afirma que havia um vale entre eles. Sai, então, das fileiras dos filisteus um grande guerreiro. O seu nome era Golias. A sua estatura era de seis côvados e um palmo . Sua cabeça era coberta por um capacete de bronze, vestia uma couraça de escamas, que pesava cerca de cinco mil siclos de bronze. Trazia as pernas protegidas por perneiras também de bronze, e um escudo entre os ombros. A haste da sua lança era de ferro e à sua frente marchava um escudeiro. Esse soldado excepcional estacou perante as linhas de Israel e o desafiou: “Escolhei entre vós um homem, e venha ele competir comigo. Se me dominar e me ferir seremos vossos escravos; se, porém, eu o vencer e ferir, vós sereis nossos escravos e nos servireis.” Quando Saul e todo o Israel ouviram estas palavras, encheram-se de medo e pavor.

Davi era filho de um homem já idoso de Belém de Judá, chamado Jessé, que tinha oito filhos. Três deles seguiram Saul para guerra. Davi, o mais moço, cuidava das ovelhas de seu pai. Jessé, um dia, pede a ele que leve comida aos irmãos no acampamento. Davi, então, ali, toma conhecimento do desafio de Golias e vai ter com o rei: “O teu servo irá lutar com esse filisteu”. Saul, no entanto, responde-lhe: “Tu não poderás ir, porque não passas de uma criança e ele é um guerreiro treinado desde a juventude”. Davi, todavia, convence a Saul: “Quando o teu servo apascentava as ovelhas de seu pai e aparecia um leão ou um urso que arrebatava uma ovelha do rebanho, eu o perseguia e o atacava e arrancava a ovelha de sua goela. O teu servo venceu o leão e o urso, e assim será com esse guerreiro filisteu”. Saul, resignado, vestiu Davi com a roupa real de combate, meteu-lhe na cabeça um capacete e ainda uma couraça, cingindo a Davi com a sua espada. Davi tentou andar e não conseguiu porque a roupa era muito pesada e ele não podia com ela. Então, desembaraçou-se de tudo aquilo e tomou na mão o seu cajado, escolheu no riacho cinco pedras bem lisas e as pôs no bornal de pastor. Depois, apanhou sua funda e foi ao encontro de Golias.

Golias se aproximava cada vez mais de Davi, precedido pelo seu escudeiro. Assim que notou Davi desprezou-o porque era jovem, ruivo e de boa aparência. Então, diz a Davi: “Sou por acaso um cão, para que venhas ter comigo com paus? Vem cá, e darei a tua carne às aves do céu e às alimárias do campo!” Davi, no entanto, retrucou: “Tu vens contra mim com espada, lança e escudo; eu, porém, venho a ti em nome do Deus dos Exércitos de Israel. Hoje mesmo o Senhor te entregará em minhas mãos, eu te ferirei e te deceparei a cabeça, e darei o teu cadáver e os cadáveres do exército filisteu às aves do céu e aos animais selvagens. Toda a terra saberá que há um Deus em Israel, e toda esta assembléia conhecerá que não é pela espada nem pela lança que o Senhor concede a vitória, porque o Senhor é o senhor da batalhe e ele vos entregará em nossas mãos.

Golias avançou e Davi pôs a mão no seu bornal, apanhou uma pedra que lançou com a funda. Atingiu o filisteu na fronte, a pedra se cravou na sua testa e ele cai com o rosto no chão. Desse modo, Davi vence o filisteu com a funda e a pedra. Não havia espada nas mãos de Davi. Ele correu, pôs o pé sobre Golias, apanhou-lhe a espada, tirou-a da bainha e a cravou no filisteu e, com ela, decepou-lhe a cabeça.

Este é o resumo do relato bíblico que foi grosseiramente parodiado por Saramago. Segundo uma estratégia retórica, ele começa o seu texto de forma irônica: “Afirmam algumas autoridades…” e “Outros estudiosos não menos competentes afirmam…”. Essa ironia, que dá o tom do texto, aponta para a tentativa do escritor de deslegitimar não só o discurso religioso, mas também as exegeses históricas e filosóficas da narrativa bíblica. Sendo assim, durante mais ou me nos três mil anos, todos estiveram enganados e ele, somente ele, descobriu a verdade. Qual seja: a narrativa bíblica – que ele conceituou como uma “famosa lenda que é contada de forma equivocada às crianças”, ou seja, segundo suas próprias palavras, uma “enganosa mistificação” – não pôde ser desmascarada até que ele, do alto de sua argúcia exegética e hermenêutica, pudesse fazê-lo.

Assim, achando-se deveras poderoso com sua pseudo-hermenêutica, o senhor Saramago, ateu confesso e freqüentador sob suspeita de textos considerados sagrados, afiança que a moral da história, enganosamente ensinada às crianças, ou seja, a máxima arquetípica e universal de que a astúcia vence a força, não passa de uma armadilha que há “25 ou 30 séculos” é espalhada como propaganda judaica! Tão astuto é o senhor Saramago que, ao manipular o relato, faz com que Davi enfrente Golias armado com uma pistola. Em sua crônica, Davi chega, literalmente, armado com uma pistola. Com essa grosseira ironia, atropelando todas as formas lógicas de se conceber a disputa entre Davi e Golias, ele falsamente se corrige: “É verdade, não parecia uma pistola, não tinha cano, não tinha culatra, não tinha gatilho, não tinha cartuchos…”. Desse modo, o cronista espera antecipar a identificação de Davi aos israelenses contemporâneos.

De acordo com o escritor, alguns “amantes das verdades místicas soberanas” protestarão que não era uma pistola, mas uma funda. Mas isso, para o escritor português, não faz diferença. Aliás, faz sim. Porque ao manipular o relato bíblico, que segundo ele só serve para ser um “fabricante de fantasias”, ao inverter e distorcer seus fundamentos, numa vergonhosa paródia, intenta converter Israel em um novo Golias, que dispara mísseis contra “inocentes desarmados”. Com essa deturpada conformação, ele pode afirmar: “Davi conseguiu matar o filisteu, não por ser mais astuto, mas simplesmente porque levava consigo uma arma de grande alcance, que sabia manejar”.

Segundo o tresloucado escritor, as pedras de Davi mudaram de mãos. Agora, seriam os inocentes terroristas palestinos que as jogam. De repente, a narrativa bíblica que era uma mentira judaica para enganar criancinhas incautas passa a ser exemplar para a defesa do que ele acredita ser um ponto de vista crítico. A seu critério, a narrativa fabular, antes denunciada como uma mentira, muda de registro para o tempo histórico, e passa a ser o pilar de uma nova argumentação. Diz ele: “Aquele ruivo Davi de antanho sobrevoa em helicóptero as terras palestinas ocupadas e dispara mísseis contra inocentes desarmados”. Assim ele prossegue, tentando construir uma imagem perversa de Davi, o israelense, que se converteu, para ele, num “novo Golias”.

E esse novo Golias, ajudado por seu amigo norte-americano, seguiria a devorar os inocentes. Além de um maniqueísmo simplório, que reduz o conflito palestino-israelense num jogo de paus e pedras, e do anti-americanismo que beira ao racismo, e da óbvia desconsideração do terrorismo como um dos mais terríveis inimigos do nosso século, o escritor afirma que Israel precisa “aprender uma lição”.

Os israelenses são vistos como um todo homogêneo, um bloco maciço de carne exaltada e perversa que marcha “intoxicada”, “contaminada” e “incurável” contra os inofensivos palestinos. Esse vocabulário, usado pelo escritor, absolutamente idêntico ao discurso nazista do judeu como doença e câncer da sociedade, traduz de forma inequívoca sua judeofobia. Segundo o escritor, os judeus são sádicos e masoquistas, eles “reavivam sem cessar sua própria ferida, para que não deixe de sangrar”. Ao mesmo tempo, os judeus, todos eles, são eternas e performáticas vítimas, para que “todos se sintam culpados, direta ou indiretamente, pelos horrores do holocausto”. Essa ambigüidade causa uma espécie de vertigem. São os judeus vítimas masoquistas ou poderosos guerreiros impiedosos e injustos? Por favor, decida-se!

Ao observar as imagens das pessoas nas, atualmente, sinistras ruas de Jerusalém – a cidade da Paz – a outrora atmosfera rica e multicultural da cidade torna-se nervosa e tensa, o preço que seus habitantes têm pagado por ali viver, sejam eles judeus, cristãos ou muçulmanos é muito alto. Seria mais fácil desistir. No entanto, os sobreviventes dos campos de concentração e extermínio europeus que a fundaram, buscando nela abrigo e liberdade, os sionistas militantes, as vertentes mais ortodoxas de todas as religiões, os rigorosos soldados, os doces músicos, os judeus brancos do norte, os judeus de todas as cores, africanos e árabes, homens de diferentes procedências, de culturas diversas, têm, em Jerusalém, a certeza de que poderão se reerguer das cinzas. Israel não é um todo homogêneo como quer o senhor Saramago. Sua capital exemplifica, de forma muito especial, essa condição. Jerusalém é, pois, metáfora da nação.

A tentativa de Saramago de deslegitimizar Israel passa pelo requinte de aproximar os terroristas palestinos daqueles que foram queimados, torturados e mortos em campos de extermínio, daqueles 6 milhões de civis que foram brutalmente assassinados nos campos nazistas pelo único motivo de serem judeus, às vítimas do Holocausto às quais Saramago chama, desrespeitosamente, de “imensa multidão de desgraçados”.

Tais posicionamentos provocaram alguns comentários discordantes por parte de outros escritores. Um deles, o também Nobel de Literatura de 2002, o húngaro Imre Kertész, avalia-as como um ato “não-consciente”, uma escandalosa comparação, um paralelismo irresponsável. Na atualidade, afirma Kertész, o conceito de holocausto migra, sem mais nem menos, de maneira populista e para fins igualmente populistas, para outros discursos, outros momentos trágicos da história contemporânea.

Contrariamente ao que pensa Kertész, ao se manifestar de forma clara e inequívoca comparando os judeus aos nazistas e Israel a Auschwitz, avalio que Saramago não comete um ato inconsciente e que muito menos deve ser categorizado como irresponsável. Classificar seus textos, entrevistas e opiniões como inconscientes retiram delas qualquer peso e outorgam ao seu discurso apenas um sintoma de decrepitude decorrente do envelhecimento precoce. Afirmar a irresponsabilidade de Saramago outorgaria a esse escritor, que se vale de seu status de escritor best-seller para emitir falsos juízos, a condição de inimputável, é eximi-lo da responsabilidade que lhe deve ser efetivamente conferida. Não há inocentes após Auschwitz.

Os posicionamentos que podem ser vistos na crônica “Das pedras de Davi aos tanques de Golias”, enquadram os saramagos na categoria das pessoas de “caráter manipulador”. O que, segundo Adorno, em seu tempo, destinava-se apenas aos monstros nazistas, e hoje, no entanto, pode ser observado em muitas pessoas, como delinqüentes juvenis, chefes de quadrilhas e similares . Essas pessoas – continua Adorno – têm a condição e a possibilidade de inverter drasticamente a realidade e, com o seu narcisismo e a sua vaidade, podem fomentar a mentira, promover um discurso que legitima o terror e que tem como premissa a anulação da autonomia, da reflexão e do não se deixar levar. Infelizmente, essa é uma tentação à qual muitos intelectuais não resistem.

Abusando da condição que lhe outorga uma mídia prêt-à-porter, os saramagos instigam o ódio e o racismo. O sentimento judeofóbico pessoal, hostil a Israel, transforma-se, de forma virulenta, em anti-semitismo. No Brasil – em cujo território diz-se que há uma invejável harmonia entre os imigrantes de todas as nacionalidades e respeito a todas as religiões – e na Argentina, cuja história de luta contra a ditadura e o não-direito, diz-se, são notáveis, houve manifestações organizadas contra Israel.

A hostilidade aos judeus, que dura 2.000 anos, parece ter se cristalizado de tal forma que é possível que ela tenha se convertido numa forma de conceber o mundo. O objeto desse ódio, no entanto, é um povo que de nenhum modo está disposto a desaparecer da face da terra. É contra esse direito que insurgem as palavras responsáveis e conscientes dos saramagos de todo o mundo.

Talvez, não seja possível, para o escritor português, uma crítica imparcial. A maioria dos intelectuais que julga o confronto entre palestinos e israelenses de forma unívoca, simplista e ignóbil, perde uma excelente oportunidade de promoverem a consciência bilateral dos direitos entre as partes através das artes. A literatura, a música, a poesia não possuem fronteiras, as frases ditadas pelo anti-semitismo ancestral sim.

Os saramagos, enfim, têm dirigido seu olhar cego para Israel. O frio juízo dos saramagos europeus alcança, infelizmente, eco também no Brasil e na Argentina – berço, no Novo Mundo, de tantos imigrantes, de tantos perseguidos. No Brasil, o apoio ao escritor português, no que se refere a esse tema, parece ser uma espécie de estrabismo que delega a ele o direito de falar pelos países de língua portuguesa. Afinal, a baixa auto-estima nacional emociona-se ao ter alguém, mesmo que com o acento da antiga metrópole, falando português e sendo ouvido pela mídia internacional. Esse nacionalismo ultrapassado e servil, reconhecendo nesse astuto senhor um beletrismo que não há, denuncia as forças colonizadoras do discurso fascista da língua, da nossa língua portuguesa, nos moldes que nos ensinava Barthes na sua célebre Aula.

A identificação com o discurso dos homens das letras, suas mal e parcamente concebidas metáforas, eivadas de técnicas de manipulação, encontram nos seus destinatários um destino frágil. Amos Oz, escritor israelense pacifista, francamente contrário à atual política israelense, ao rebater a infeliz comparação de Saramago, afirma que “aquele que falha ao distinguir entre diferentes níveis da maldade acaba agindo a serviço do mal”. Na visão de Oz, o autor do romance Ensaio sobre a cegueira mostrou padecer de uma “cegueira moral”, não porque emite sua opinião sobre um fato, mas porque, como intelectual, dito engajado, não poderia deixar de avaliar amplamente a situação. Ao contrário, Saramago reafirma: “o que disse, dito está. Se a palavra Auschwitz choca tanto, direi, então, crime contra a humanidade”. Isso disse ele, após os protestos gerados por suas declarações.

Essa re-afirmação demonstra sua visão vitimada por uma mídia unilateral e expressamente fomentada por uma propaganda anti-israelense, veiculada, principalmente pelos telejornais internacionais. Neles, imagens manipuladas e frases ditas fora do contexto são mentiras que parecem verdades, construídas de forma a se ter um parâmetro unilateral do conflito. Mirar o mundo do ponto de vista da cegueira não é, em absoluto, ser cego, mas deixar-se inundar por um discurso midiático, político e econômico pautado por racismo e preconceitos ancestrais.

A afirmação de Amoz Oz de que Saramago está acometido de uma terrível cegueira moral, aponta para uma outra questão importante: “quem não distingue entre os diversos graus do mal, se torna servidor do mal”. Segundo Oz, “a ocupação israelense pode ser injusta, mas compará-la com os crimes nazistas é como comparar Saramago com Stalin”. Dessa forma refere-se, pelo que se percebe, ao alardeado comunismo do escritor português – e à sua pequenez até mesmo na escala do Mal. No entanto, pela incapacidade de distinção entre os episódios da história judaica, Saramago torna-se porta-voz de um mal maior, absoluto e que transcende a mera opinião. Não há discurso irresponsável após Auschwitz.

Orlana Fallati, num memorável artigo publicado na revista italiana Panorama, clama sua vergonha pelo fato de que na Europa haja passeatas de indivíduos vestidos como homems-bomba suicidas vomitando palavras de ordem convocando ao assassínio de Israel . Em suas testas, como em seus sites da Internet, as suásticas instigam a populaça contra os judeus. Os membros dessa turba dariam qualquer coisa para verem os judeus de novo em campos de concentração e extermínio.

Segundo a escritora e jornalista italiana, é vergonhoso que a Igreja Católica permita a um bispo estar alojado no Vaticano, depois de ser pego, em seu luxuoso Mercedes, com um arsenal de armas e explosivos em Israel. Em seus discursos, esse mesmo bispo agradece em nome de Deus aos homens suicidas que massacram os judeus nas pizzarias e supermercados e os chama de mártires “que se dirigem para a morte como quem vai a uma festa”.

Para Fallaci, é vergonhoso que na França queimem sinagogas, aterrorizem judeus, profanem cemitérios. Eu, como acadêmica, também considero um escândalo e uma vergonha que a professora Mona Baker, egípcia radicada na Inglaterra, encabece uma lista para a não-contratação e a demissão de intelectuais israelenses das universidades. É vergonhoso que essa mesma professora tenha despedido dois tradutores, os únicos da Universidade de Manchester, na Inglaterra. E é vergonhoso que quando questionada, ela apenas afirme que os despediu não porque eram judeus, mas sim porque eram israelenses.

Penso que é vergonhoso também que, no Brasil, desde os anos 1980, o cidadão de origem alemã, radicado em Porto Alegre (Rio Grande do Sul), Siegfried Ellwanger Castan (conhecido pelo pseudônimo S. E. Castan), sócio-diretor da Editora Revisão, venha editando, vendendo e distribuindo em escala nacional e internacional livros anti-semitas, nazistas e negadores do Holocausto. E que, condenado por crime de racismo, esse indivíduo, que aguarda recurso no Superior Tribunal de Justiça, corra o risco de ser inocentado .

Finalmente, considero um escândalo e uma vergonha que um escritor, um intelectual com a fama e o alcance de Saramago, empunhe sua pena e levante sua voz para insuflar o ódio e não a tolerância. É vergonhoso que o seu discurso não tenha a sabedoria própria dos grandes homens das letras, mas a desavergonhada paródia dos filmes de farwest americano, ou seja, a que afirma que judeu bom é judeu morto. É vergonhoso e lamentável que o ponto de vista da cegueira seja expresso em um discurso judeofóbico em língua portuguesa.

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