+C!Di Masi

Em vez de educar para o trabalho, educar para a vida

O sociólogo italiano Domenico Di Masi enfatiza que uma escola feliz deve preparar os jovens também para o tempo livre

 

Domenico Di Masi diz que o trabalho do professor já é um prazer por si mesmo

 

Fonte: http://www.folhadirigida.com.br/professor/Cad08/EntDomenicodeMasi.html

 

O professor italiano, sociólogo do trabalho e escritor Domenico Di Masi tem dito em suas palestras pelo mundo afora que a escola prepara as pessoas para serem tristes. É, sem dúvida, uma fala audaciosa que tem mexido com os cânones do magistério. Como os professores podem se sentir realizados com seu trabalho, formando pessoas para a tristeza? Como fazer do exercício do magistério uma atividade de e para o prazer? São algumas das perguntas formuladas por Folha Dirigida ao autor de “O ócio criativo” e “Sociedade sem trabalho”, entre outros livros que pregam a importância da preguiça e o dever do ócio a milhares de leitores espalhados pelo mundo.

Nesta entrevista, a única em que aborda exclusivamente o trabalho do magistério, ele diz que o trabalho do professor é “o mais lindo” e privilegiado que existe, por se tratar de uma atividade de estímulo à convivência criativa. Entre os conteúdos fundamentais para um bom trabalho, Domenico aponta a vocação estética e ética, sem as quais o professor não poderá desempenhar bem o seu trabalho. Em relação a salário, na contramão da maioria que amarga as dificuldades impostas pela baixa remuneração, ele diz que não é essencial à qualidade do serviço:

— É importante para dar uma certa tranqüilidade, mas não é fundamental — afirma.

Mas quando o assunto é pesquisa, o trovador da preguiça torna-se um radical e diz que ela é “a vida do professor”. Para ele, não é possível uma faculdade de Pedagogia abrir mão do ensino sistemático da Metodologia da Pesquisa e da Filosofia do Conhecimento. Veja a entrevista:

Folha Dirigida — Como o professor pode transformar seu trabalho numa atividade de prazer e confundi-lo com o lazer?

Domenico Di Masi — O trabalho do professor já é um grande prazer, porque consiste na troca de idéias com os jovens. Cada ano o professor ganha um ano a mais, e os estudantes têm sempre 20 anos. E isso é uma jóia extraordinária que o professor tem a sua disposição. A atividade do professor trata-se de um trabalho intelectual com jovens, e a programação é completamente autônoma, independente. Isso não pode, de maneira alguma, ser uma dor, um sacrifício. O trabalho do professor já é um prazer por si mesmo. É o trabalho mais lindo que existe. O ensino é a prática mais bela.

Folha Dirigida — As pedagogias estão estruturadas de forma a tornar possível este prazer na atividade do magistério?

Domenico — Claro! O meu trabalho, por exemplo, é estruturado com lições e aulas para todos, mas os trabalhos são para pequenos grupos e estimulam muito o uso da internet. Tenho um sítio na internet onde todo jovem pode conversar entre si e também falar comigo, conversar com os próprios pais, discutir com outros professores, discutir sobre os problemas da universidade, e também sobre cinema e televisão.

Folha Dirigida — O senhor tem dito em suas palestras que a escola é um lugar triste e que prepara para a tristeza. Por quê?

Domenico — Tudo na escola é triste porque prepara o jovens sobretudo para o trabalho. Veja bem, para um jovem de 20 anos a vida é feita muito mais de tempo livre do que de trabalho. O trabalho é um sétimo da vida. Então a escola não deve preparar para um sétimo da vida, mas deve preparar para toda a vida. Tem que preparar para o tempo livre: como escolher um filme, como escolher um livro, como tirar férias, como fazer amor, como viver e como ser cidadão. Se a escola parar de educar só para o trabalho e educar para a vida, automaticamente se tornará uma escola feliz.

Folha Dirigida — O que diferencia o trabalho do professor das demais atividades?

Domenico — O que há de específico no trabalho do professor é que seu compromisso é estudar, aprender, ensinar e viver.

Folha Dirigida — Quais instrumentos são imprescindíveis, para que o professor desenvolva seu trabalho com qualidade?

Domenico — Sobretudo a cultura, mas também a vocação ao aprendizado, o amor pela vida, o amor pelo estudante.

Folha Dirigida — O salário é fundamental para exercer o magistério com qualidade?

Domenico — Não, não é fundamental. É importante para dar uma certa tranqüilidade, mas não é este o problema. A qualidade do ensino consiste no fato de que o professor tenha realmente a vocação para ensinar. O ensino não pode ser uma coisa secundária na vida, tem que ser toda a vida de um professor.

Folha Dirigida — Quais as relações do prazer com a competência profissional?

Domenico — A competência te dá segurança e a segurança é um prazer, é uma das formas de prazer. Por isso é importante desenvolver a competência. Mas, infelizmente, hoje a competência não é adquirida por todos. Mas ela pode ser continuamente reciclada.

Folha Dirigida — Diferentemente dos países europeus, no Brasil os professores de educação infantil têm os salários mais baixos e na hierarquia do magistério, são em todos os níveis os que gozam de menor prestígio. O que acha desse desnível no magistério brasileiro?

Domenico — Quase sempre na sociedade capitalista os trabalhos mais complicados, mais difíceis e mais perigosos são os mais desvalorizados. O mesmo acontece na escola. É muito mais difícil ensinar para as crianças pequenas do que ensinar ao estudantes universitários, então os professores da educação infantil deveriam ser melhor remunerados. É tudo ao contrário, é o paradoxo da sociedade capitalista.

Folha Dirigida — A pesquisa é, de fato, fundamental no exercício do magistério?

Domenico — A pesquisa é a vida do professor. Naturalmente, se é fundamental na vida do professor, é preciso que ele aprenda, de fato, a metodologia da pesquisa, a ética da pesquisa durante os seus estudos universitários. Não pode existir uma faculdade de Pedagogia sem essa epistemologia, sem a metologia da pesquisa e a filosofia do conhecimento.

Folha Dirigida — No Brasil, os trabalhadores de educação têm se organizado em sindicatos únicos. Como avalia essa tendência?

Domenico — Poderia ser até uma maneira de os professores serem mais solidários com os outros grupos sociais. Mas é ambivalente, porque pode ser também uma forma de tirar a identidade do professor.

Folha Dirigida — Os bens culturais são mais necessários ao professor do que aos integrantes das demais categorias profissionais?

Domenico — Sim, é óbvio, porque o professor tem que se aprimorar continuamente, atualizar-se sempre. Não pode ensinar se antes não aprendeu. A atualização, os livros, os filmes, o teatro, a música são fundamentais, tanto como para um escultor é fundamental o mármore.

Folha Dirigida — O que é essencial para um bom desempenho como professor?

Domenico — O professor tem que aprender sobretudo como se aprende. É muito importante que o professor tenha uma forte vocação estética e ética.

Folha Dirigida — Como vê o crescimento da oferta de cursos não presenciais?

Domenico — Eu acredito que precise de uma forte integração e uma parte da formação tem que ser feita presencialmente. Mas tudo isso está em fase de experimentação. A internet ainda é uma coisa nova. Mas eu estou muito satisfeito com a possibilidade de integração entre internet e escola.

Folha Dirigida — Considera a prova fundamental para medir o conhecimento?

Domenico — Não é o mais fundamental, mas é uma das coisas fundamentais. O que é absolutamente fundamental é a pedagogia. Se ensina-se bem, é claro que o exame é importante, porque estimula o jovem a ter prazos. Mas não é o essencial. Pode até não fazer a prova, mas não se pode minimizar a pedagogia. O problema da escola elementar brasileira não é não ter a prova, mas é que não tem qualidade. Sem qualidade, o resultado é sempre o mesmo. O importante é que a escola seja boa, de qualidade. Hoje a escola privada no Brasil é bem feita, mas a escola pública não. A escola particular é bem feita não proque existe provas, mas porque tem uma boa pedagogia.

Folha Dirigida — O que se pode esperar de um país com elevado número de analfabetos?

Domenico — O não desenvolvimento. Nenhum país pode se desenvolver com o analfabetismo. Aliás, hoje nem basta saber ler e escrever. Precisa saber o Inglês e também a internet.

Folha Dirigida — Como avalia a grande concorrência pelo vestibular existente no Brasil?

Domenico — Ganham sempre os ricos, porque vêm das melhores escolas. É uma aberração e sei que aqui no Brasil existe isso. As escolas elementares, são melhores as privadas, as universidades, são melhores as públicas. Mas visto que o custo do ensino na escola privada é muito alto, no final o acesso às pública é só para os ricos.

Folha Dirigida — É essencial que o ensino seja público e gratuito?

Domenico — O ensino é como o ar, é como a água, é como o sol, não se pode subordinar à riqueza. Tem que ser subordinado à capacidade do jovem. A escola tem que ser pública, gratuita e exigente.

Folha Dirigida — O senhor costuma dizer que a escola deve educar para o ócio. Por quê?

Domenico — A escola deve educar um sétimo para o trabalho e seis sétimos para o ócio, em função do ócio, porque o ócio é os seis sétimos da vida, é a essência da vida. Atualmente a escola ensina só a trabalhar, como se trabalha, e ninguém nos ensina o tempo livre. O tempo livre que poderia ser o tempo do gozo, da jóia, da criatividade, vira o momento da violência, do tédio, da droga.

Folha Dirigida — A sociedade industrial sobrevive ao ócio?

Domenico — Não, é o ócio que sobrevive à sociedade industrial.

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Especial
Domenico De Masi

 

Você já imaginou fazer apenas o que gosta a vida inteira? Mas e daí, viveria do quê? Sonhos? Se imaginarmos o trabalho como um fardo, a situação realmente parece impossível. Mas e se o trabalho, o lazer e o estudo começassem a se misturar em nossas vidas de tal forma que não desse mais para diferenciar uma coisa da outra?

Esta é a proposta de Domenico de Masi, sociólogo italiano da Universidade La Sapienza, de Roma, e presidente da Escola de Especialização em Ciências Organizativas, a 53 Studim. Ele defende a idéia de que é chegado o momento de cultivarmos o ócio criativo para uma nova era. Utopia? Não. Cada vez mais pessoas e empresas aderem aos seus conceitos e passam a ter vidas mais felizes e produtivas.

A produção desta entrevista ocorreu dentro do conceito de teletrabalho e envolveu pessoas comprometidas com esta idéia. Luiz Carlos Pires, jornalista e antropólogo, coordenou a equipe formada por Sonia Grisolia, diretora da Wwriters e Wwork, Manoel Fernandes Neto, diretor da MFN Comunicação e www.nova-e.inf.br e Mario Persona, diretor de comunicação da Widesoft e editor de www.widebiz.com.br. A tradução é de Cristina Fioretti Persona.

ePergunta: Quais foram os ganhos tangíveis e os que continuam intangíveis na revolução virtual do trabalho e no tempo livre, observados no XV Seminário de Ravello, onde o senhor foi um dos organizadores ?

Domenico De Masi: Os ganhos tangíveis consistem no fato de que se consegue produzir mais bens e serviços com menor esforço físico e menos stress intelectual. Os ganhos intangíveis estão na possibilidade de se usufruir, em tempo real, de uma rede de interlocutores, de amigos, de colaboradores.

Pergunta: Reunidos no Japão na mesma época do Seminário, os sete países mais ricos do mundo acharam que para a nova economia ser implantada em todo o planeta os ricos precisariam dar Internet para os pobres. Como os filósofos em Ravello viram isto ?

Domenico De Masi: De espontânea vontade os ricos nunca darão nada aos pobres. É necessário que os pobres saibam defender os seus direitos e obter as próprias vantagens. Em todos estes anos nos quais o G7 se reuniu, na América o número de presos dobrou e em todo o mundo aumentou a distância entre ricos e pobres.

Pergunta: Na Widebiz, na Nova-e e na wwwWriters, empresas virtuais, o teletrabalho faz parte dos seus cotidianos, onde se mistura prazer, estudo e trabalho, mas também se sente culpa pela liberdade, o que nos leva a trabalhar mais e, às vezes, não sabemos se estamos trabalhando por culpa ou diversão. O aprendizado do ócio criativo passa por esta etapa em que não percebemos que estamos transformando o paraíso num inferno ?

Domenico De Masi: O ócio criativo é uma arte que se aprende e se aperfeiçoa com o tempo e com o exercício. Existe uma alienação por excesso de trabalho pós-industrial e de ócio criativo, assim como existia uma alienação por excesso de exploração pelo trabalho industrial. É necessário aprender que o trabalho não é tudo na vida e que existem outros grandes valores: o estudo para produzir saber; a diversão para produzir alegria; o sexo para produzir prazer; a família para produzir solidariedade, etc.

Pergunta: Hoje na Internet percebemos, por um lado, os poderosos de sempre tentando cercear e organizar o caos, e por outro, os “criativos” inventando soluções que pulam estas barreiras, como os programas Napster e o Gutnella. A sociedade criativa sobre a qual o senhor fala estaria nascendo aqui e como se distribuiria nela o poder ?

Domenico De Masi: Na sociedade industrial a maioria das funções de trabalho exigia pouquíssimas aptidões profissionais. Mesmo um macaco poderia trabalhar na linha de montagem. Na sociedade pós-industrial a maioria das funções de trabalho exige notáveis aptidões intelectuais. Disso deriva o perigo de um superpoder das classes profissionais, de uma ditadura dos clérigos sobre os leigos.

Pergunta: O senhor acha que as novas empresas ponto-com já administram seus recursos humanos de forma inovadora?

Domenico De Masi: Os call-center são linhas de montagem muito parecidas com aquelas com as quais a Ford construía o velho Modelo T. As empresas pós-industriais ponto-com administram os recursos humanos como se fossem velhas empresas industriais. Ainda ninguém inaugurou modelos organizacionais baseados na motivação (no lugar do controle), na desestruturação do tempo e do espaço, na redução do horário de trabalho, na perfeita igualdade entre homens e mulheres.

Pergunta: O senhor vê o teletrabalho que algumas empresas já adotam como a forma correta de motivar, bastando para isso estar longe da empresa no mundo real para ser mais criativo? O que é, na sua opinião, um modelo de relação de trabalho ideal?

Domenico De Masi: O teletrabalho serve para economizar tempo, dinheiro e stress. Sozinho, não assegura nenhuma criatividade. Uma relação de trabalho ideal permite aos trabalhadores não apenas ganhar dinheiro, mas também de satisfazer as necessidades de introspecção, amizade, amor, diversão, beleza e convivência.

Pergunta: O senhor enxerga a instituição do trabalho como a conhecemos hoje como inadequada. Suas idéias não poderiam vir a se tornar em uma nova instituição, sujeita também ao envelhecimento?

Domenico De Masi: Todas as idéias estão sujeitas ao envelhecimento. Esta é a lei do progresso.

Pergunta: Idéias são importantes, porém colocá-las em prática são sempre um desafio. O senhor acredita que suas idéias devam ser colocadas em prática, ou seriam elas apenas uma previsão do que acontecerá naturalmente ?

Domenico De Masi: Nenhum progresso acontece automaticamente. É necessário criar um movimento de opinião e depois um grupo de luta para colocar em prática as idéias inovadoras.

Pergunta: Toda a economia convencional está baseada na forma como trabalhamos hoje. Não haveria uma mudança drástica na economia caso suas idéias fossem postas em prática, ou será que seria necessário primeiro uma mudança na economia para criar o ambiente propício à concretização de suas idéias?

Domenico De Masii: As mudanças estruturais e aquelas culturais se influenciam entre si. Eu espero que a difusão de minhas idéias consiga criar um grupo crítico de pessoas dispostas a mudar realmente o seu modelo de vida e lutar para conquistar a felicidade.

Pergunta: O senhor poderia dar um exemplo de algum país ou empresas que já estejam aplicando suas idéias, ou parte delas, com resultados positivos e que possamos identificar?

Domenico De Masi: Em todo o mundo começa a haver pessoas ou grupos ou empresas ou cidades que impõem os seus modelo de vida sobre bases completamente novas. No Brasil é suficiente ver o caso de Ricardo Semler em São Paulo, o caso de Lerner em Curitiba, o caso de Oscar Niemeyer no Rio.

Pergunta: Muitas pessoas simpatizam com suas idéias. Estariam elas apenas concordando com sua natureza abstrata porque não gostariam de mudar tanto ?

Domenico De Masi: A maioria das pessoas que concorda com as minhas idéias sente uma real necessidade de modificar o modelo de vida imposto ao ocidente americanizado sob o impulso do pensamento empresarial: competitividade cruel, stress existencial, prevalência da esfera racional sobre a esfera emocional.

Pergunta: Sabemos que todos estamos, de um modo ou de outro, descontentes com o modo de vida que levamos, o que nos leva a filosofar sobre alternativas sonhadas. O sucesso de suas idéias não poderia ser atribuído justamente ao fato de poder ser tomado como algo intangível pelas pessoas, algo irrealizável ?

Domenico De Masi: Espero que não.

Pergunta: O senhor disse que gostaria de alimentar seus dias de ócio criativo no Brasil. Como isto seria possível num país que, apesar de sua dança, oralidade, alegria e sensualidade, é extremamente injusto socialmente ?

Domenico De Masi: Diz Oscar Niemeyer, isto é, o maior arquiteto vivo: “O que conta não é a arquitetura mas os amigos, a vida e este mundo injusto que devemos modificar”. E diz também: “Se eu fosse um homem rico, me envergonharia”. Se eu vivesse no Brasil, procuraria imitar Oscar Niemeyer.

Pergunta: A natureza das empresas hoje é bem diferente daquilo que o senhor imagina como sendo ideal. O senhor acredita que mudanças drásticas precisariam ser feitas em todo o sistema produtivo para poder abraçar uma nova forma de trabalho?

Domenico De Masi: Não. Podem começar também em empresas individuais. Quando uma empresa inaugura um modelo organizacional baseado em minhas idéias, ganha muito mais e os seus trabalhadores são muito mais felizes.

Pergunta: Como o senhor vê a contribuição da Internet e de uma sociedade voltada para o virtual na concretização de suas idéias ?

Domenico De Masi: A Internet é uma oportunidade maravilhosa. Estou feliz em viver em um mundo onde existe a Internet.

Pergunta: Que conselho o senhor daria a um empresário que quer redesenhar sua empresa levando em consideração suas idéias ?

Domenico De Masi: Que venha para a Itália, para minha escola, e fique conosco todo o tempo necessário para projetar uma empresa feliz.

Pergunta: Na relação de trabalho, o senhor acha que o Estado deve ajudar a direcionar para o ideal ou simplesmente tirar sua mão do processo e deixar que ele aconteça naturalmente ?

Domenico De Masi: No contexto humano, nada acontece naturalmente: tudo é fruto da inteligência, da programação e da vontade das pessoas. Só o liberalismo crê que o mercado resolve “naturalmente” todos os problemas.

Pergunta: Quanto mais a sua teoria é debatida mais empresas surgem com conceitos duvidosos: desenvolvem uma nova visão da escravidão onde o chicote é um sistema interno de comunicação terrorista que apregoa o trabalho e a servidão como único bálsamo para o desenvolvimento profissional. Gostaríamos que o senhor comentasse esta questão e dissesse quanto tempo vai demorar para estas empresas perceberem o equívoco.

Domenico De Masi: Muitos seres humanos são masoquistas. Depois se tornam sádicos. Depois se tornam sadomasoquistas. Não sei se ou quando as minhas idéias triunfarão. O meu dever é difundi-las e agir tenazmente para que se firmem o mais rápido possível.

Pergunta: Quando o homem vai usar a tecnologia favoravelmente a um estilo de vida enriquecedor?

Domenico De Masi: Ricos economicamente? Hoje já é usada com esta finalidade. Ricos humanamente? Quando substituirmos uma sociedade competitiva por uma sociedade solidária.

Pergunta: É possível humanizar o capitalismo ?

Domenico De Masi: O capitalismo é baseado no egoísmo e na competitividade: isto é, sobre premissas brutais, não humanas. Portanto é impossível humanizá-lo.

Pergunta: A nanotecnologia prevê um futuro sem fome, doenças, velhice e trabalho. O natural seria estar desempregado e fertilizando uma sociedade efetivamente criativa e ociosa. Mas como somos impulsionados pelas ambições pessoais de TER e não de SER, esta mudança de foco drástica não seria pura utopia, relegando a nanotecnologia a categoria de não compatível com a espécie humana?

Domenico De Masi: A espécie humana sempre combate a sua incansável luta contra a morte, a dor, a miséria, o cansaço. Um bilhão de pessoas já conseguiu vencer esta batalha contra a dor, a miséria e o cansaço. Resta a morte, mesmo se vivemos o dobro de nossos bisavós.

Pergunta: Como o senhor sente o ócio contemplativo, o ócio pelo ócio, o simples prazer de contemplar a vida ?

Domenico De Masi: Eu não gosto do ócio puro: depois de um pouco de tempo, me aborrece. Eu gosto do ócio “criativo”: isto é, a síntese do trabalho, do estudo e da diversão. O ócio criativo nunca me aborrece. Nem mesmo se tenho que responder a 22 perguntas.

Domenico De Masi por MediolanumFreedomConference

Domenico di Masi

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=domenico+di+masi

O ócio é precioso
O sociólogo que prega horas livres
como estímulo à criatividade lamenta o
desperdício de tempo nos reality shows

Maurício Oliveira

“Quem entra em uma aventura dessas está à procura da fama instantânea, do sucesso fácil. Em um ano estará arruinado”

O sociólogo italiano Domenico de Masi se tornou conhecido em todo o mundo ao pregar o ócio como solução para os problemas existenciais e econômicos da humanidade. Para ele, as jornadas longas no trabalho são a origem das altas taxas de desemprego e, mais que isso, um desrespeito à natureza humana. “É impossível ser criativo nessas condições. As boas idéias só aparecem quando há tempo livre para pensar”, diz. Um recente fenômeno da mídia tem desafiado as teorias do italiano, no entanto: os programas do gênero reality show. Febre em vários países, inclusive no Brasil, eles demonstram que ter uma infinidade de horas à disposição não assegura o surgimento de gênios. Ao contrário, parecem contribuir para reforçar o papel que o ócio sempre cumpriu no imaginário popular: o de pai de todos os pecados. De Masi, 64 anos, falou sobre o assunto na entrevista a seguir, concedida em um hotel de São Paulo às 8h30 da manhã – horário escolhido por ele.

Veja – Os participantes dos programas Big Brother Brasil e Casa dos Artistas passam semanas sem conversar sobre temas relevantes e quase nenhum deles demonstra cultivar o hábito da leitura. Isso não é uma evidência de que as pessoas, em geral, não sabem aproveitar o tempo livre?

De Masi – O tempo tem valor relativo, depende de quem o usa. Um elefante, que vive 100 anos, não pode pedir a uma borboleta que o espere por meia hora, porque isso representa boa parte da vida dela. Em nossa sociedade competitiva, somos educados apenas para o trabalho, tanto pela família como pela escola e pela sociedade. Mesmo se levando em conta as atuais jornadas de dez horas diárias, o trabalho ocupa apenas um sétimo do total de horas que temos para viver e o lazer consome três vezes mais tempo. Precisamos de educação para desfrutar o ócio, mas ele ainda é considerado um perigo para a sociedade. Esses programas de televisão revelam grupos de pessoas que não conseguem dar sentido ao tempo e ao ócio, e nem é por culpa delas. É que não foram educadas para isso. E o pior é que, do outro lado da tela, há milhões e milhões de pessoas que também poderiam estar aproveitando melhor o tempo. Programas desse tipo são a morte do tempo.

Veja – No programa Casa dos Artistas há um participante que até tenta introduzir discussões mais filosóficas, mas é sempre repelido pelos demais. Já os rapazes e moças que têm o corpo supermalhado e adoram conversar sobre assuntos relacionados ao físico são os mais populares entre os colegas e o público. Pensar está fora de moda?

De Masi – Não podemos considerar que os participantes desse programa sejam um extrato fiel da sociedade, já que estão submetidos à condição incomum de ser vigiados 24 horas por dia em um ambiente de disputa. A triste verdade é que boa parte dos competidores dos reality shows estará destruída dentro de um ano. Na Itália, conheci um jovem que caiu em profunda depressão depois de participar do Grande Fratello. Ele viveu uma fase de assédio incrível e esqueceu-se de que, na verdade, não era nada além de um produto descartável, artificial. Outras “celebridades” foram sendo fabricadas e os convites para ele, diminuindo. Ficou desesperado. Foi o triste desperdício de uma vida humana.

Veja – Uma casa que reúne pessoas classificadas como “artistas” não deveria ter um nível de criatividade acima da média?

De Masi – Creio que os artistas capazes de aceitar um convite do gênero não sejam artistas de primeira linha. Fernanda Montenegro não está lá, está? Os que entram em uma aventura dessas estão à procura da fama instantânea, do sucesso fácil. Em um ano serão tão vítimas quanto o rapaz da Itália. O único verdadeiro beneficiado é o empreendedor da televisão, o sistema midiático. Os demais, tanto quem participa dos programas quanto quem os vê, não passam de vítimas.

Veja – A forma como o tempo é desperdiçado nesses programas parece ser uma demonstração do que ocorreria caso o ócio fosse “popularizado”, como o senhor prega. Saber desfrutar o ócio não seria um benefício naturalmente reservado à elite?

De Masi – Na primeira fase, a de conscientização sobre a importância do ócio, creio que sim. Tudo tem sido nivelado por baixo, quase sempre por objetivos comerciais, e não é fácil para ninguém escapar desse apelo. Mas o ócio criativo, aquele que junta trabalho, lazer e estudo na mesma atividade, não é apanágio da elite. Saber aproveitar o tempo não significa necessariamente conviver com a chamada alta cultura. Prova disso é que considero o Brasil como o país que corresponde melhor a minhas idéias. Quando o povo organiza os desfiles de Carnaval, está praticando ócio criativo. O Carnaval do Rio é a expressão mais completa de ócio criativo. Gera riqueza, divertimento e conhecimento. E é popular, extremamente popular.

Veja – As empresas vivem criando metodologias para que seus funcionários administrem melhor o tempo, evitando desperdícios com telefone, internet, reuniões longas demais, cafezinhos etc. Elas estão erradas ao demonstrar essa preocupação?

De Masi – Sim, porque hoje a produtividade não pode mais ser medida pelo tempo. Antigamente, a eficiência era calculada com base na fórmula matemática elaborada por Taylor: é a quantidade de produtos dividida pelo tempo humano dedicado a sua execução. Ou seja, uma empresa se tornava mais eficiente ao fazer mais produtos no mesmo tempo ou ao diminuir o tempo para produzir os mesmos produtos. Agora, a fórmula de eficiência excluiu o fator tempo. Podem-se ter muitas idéias em poucas horas ou nenhuma em uma jornada inteira. Ou ter uma só em uma vida inteira, e ela ser suficiente. Empresas que vivem de produzir idéias e se preocupam com esses pequenos desperdícios de tempo estão fora de sintonia com a modernidade.

Veja – Muitas companhias parecem concordar com suas teorias ao dizer que valorizam profissionais com vida fora do escritório, e não mais os viciados em trabalho. No entanto, as pressões do mercado fazem com que elas exijam cada vez mais de seus funcionários. Como lidar com essa contradição?

De Masi – Empresas são ambivalentes como qualquer pessoa. Dizem uma coisa, mas na verdade pensam outra. Esse tipo de situação é resultado do cultural gap, um fenômeno antropológico e psicológico. Todos nós formamos nossa personalidade em certa época e com ela vivemos a época seguinte. Vivemos com a mentalidade do passado. Com as companhias acontece a mesma coisa. Antes, a empresa criava um produto e depois tentava impô-lo à sociedade. Um chefe tinha de se ocupar apenas do produto 24 horas por dia e por isso precisava estar em tempo integral na firma. Hoje, os produtos surgem para ocupar lacunas de mercado. O chefe tem de estar ciente da visão do mercado, circular, conhecer outros lugares, outras pessoas. Tudo isso faz parte do trabalho, não dá para separar uma coisa da outra. O problema é que a maioria das empresas quer que seu funcionário ainda se comporte como naquele tempo em que era preciso estar em período integral na empresa. É uma forte esquizofrenia.

Veja – Mas, se todo mundo tiver horários livres e irregulares, quem é que vai tocar o barco dentro da empresa?

De Masi – É claro que vai continuar existindo um grupo de pessoas dedicadas ao trabalho manual, físico. Uma linha de montagem não pode ser levada para casa, até porque há um colega ao lado que depende de seu trabalho para fazer o dele. Nesses casos, a esperança são a automatização e a redução da carga horária. O que se poderia fazer em benefício dessas pessoas imediatamente é reduzir o número de horas dedicadas a essas tarefas. Chegará o dia em que 100% do trabalho humano será intelectual. Atividades perigosas, repetitivas e chatas serão feitas por máquinas. Quando o trabalho é executado com a cabeça, ele anda sempre com você, pode ser carregado para todos os lados e é possível fazê-lo no domingo à noite, na praia ou enquanto se lava a louça.

Veja – Por enquanto, contudo, raros são aqueles que podem dizer ao chefe que vão pegar um cineminha no meio da tarde…

De Masi – Pode ser que isso ainda não seja possível, mas a verdade é que a maior parte das pessoas já está em condições de dar alguns passos em direção ao ócio criativo, ainda mais com o advento das novas tecnologias. É antes de tudo uma decisão pessoal. As empresas que não colaboram com esse tipo de mudança estão sendo burras, estão perdendo lucro. Meus colaboradores em Roma podem fazer o que quiser com o tempo deles. Ir ao cinema, a exposições, encontros amorosos, tudo no horário de trabalho. No prédio em que fica meu escritório há um cinema, e todo mundo cansa de ir lá. Pode-se ter uma bela idéia na poltrona do cinema, na fila do cinema. Difícil é tê-la no escritório. E o importante para a empresa moderna não é possuir o tempo do colaborador, mas as idéias dele.

Veja – Como o funcionário de uma empresa em que todos passam mais de dez horas por dia pode tomar a iniciativa de trabalhar menos?

De Masi – É uma escolha pessoal, e isso inclui buscar alternativas de todo tipo para uma relação mais humana e prazerosa com o trabalho. Funcionários de grandes empresas costumam passar duas horas por dia com o filho e doze horas com o chefe. Não faz o menor sentido. O sujeito diz que age assim pelo bem do filho, é esse o álibi, mas para o filho não pode haver bem maior que ter os pais por perto. Os chefes também deveriam perceber isso. Quem fica mais tempo com o filho e consegue dar uma eventual escapada no meio da tarde para passear no parque certamente estará mais feliz e aberto a idéias.

Veja – Trabalhar muito para acumular patrimônio e assegurar um futuro seguro para os filhos não é uma boa justificativa?

De Masi – Houve uma época em que os ricos não trabalhavam para ter tempo de desfrutar a riqueza. A aristocracia de Florença usava a riqueza para aproveitar a vida. Hoje eles são os que mais trabalham, para ficar ainda mais ricos. É uma estupidez. Riqueza, hoje, é sinônimo de stress. Muita gente se muda para cidades grandes, como São Paulo, por imaginar que terá melhores condições de trabalho. Mas as metrópoles são muito dispersivas, desafiam a criatividade. Se fôssemos fazer uma pesquisa sobre onde nascem as idéias no Brasil, veríamos que boa parte provém das cidades médias, que oferecem ambiente propício para a criatividade. Atenas, na época de Péricles, contava com 40.000 habitantes. Florença, no tempo dos Medici, tinha 50.000 até 1348, quando houve uma grande peste que reduziu a população para 20.000 moradores. Todo o renascimento se deu somente com essas 20.000 pessoas. Michelangelo, Da Vinci e pelo menos mais noventa gênios surgiram daí. Qual era a grandeza dos habitantes de Florença? Em vez de acumular bens, eles desejavam apenas dar novo significado às coisas que tinham.

Veja – Todos fomos criados com a noção de que o trabalho dignifica. Ser reconhecido como alguém trabalhador sempre foi uma virtude. Como educar nossos filhos nesse aspecto?

De Masi – O primeiro artigo da Constituição italiana diz que a Itália é uma república fundada sobre o trabalho. É como se dissesse que é fundada sobre um sétimo da vida. Devemos ensinar nossos filhos e netos a fazer apenas o que ele gostam, em todos os sentidos. Quem aprende isso com os pais ensina os próprios filhos a fazer o mesmo. Quem está preso à mentalidade anterior ainda ensina que o trabalho está acima de tudo na vida. É difícil para um pai que teve um tipo de educação orientar o filho de forma diferente. Muito difícil para quem sempre encarou o trabalho como um sacrifício, uma dor, um castigo pelo pecado original. Segundo a mentalidade industrial, o trabalho levava à riqueza na terra e ao paraíso no céu. Hoje sabemos que ele não é totalizante, é apenas um sétimo da vida. Se uma moça de 25 anos estiver procurando um marido, vai preferir aquele que trabalha muito mas é tosco ou o que não trabalha tanto mas é simpático, alegre, pratica esportes, gosta de cinema, de literatura e sabe conversar sobre qualquer assunto? Ao contrário dos séculos anteriores, a identidade de uma pessoa não está mais ligada a sua capacidade de trabalhar, mas principalmente à forma como desfruta seu tempo livre, a sua personalidade global.

Veja – Depois dos atentados terroristas aos Estados Unidos, muitas pessoas passaram a falar que andam repensando aspectos da vida. Procuraram velhos amigos, decidiram dedicar mais tempo à família e tiveram a sensação de que o trabalho não era tão importante. Até que ponto essa influência permanece?

De Masi – Quando há um evento como esse, até se cria uma comoção momentânea, mas o sistema global sempre acaba vencendo. E na América é a economia competitiva. Depois de 11 de setembro, algo mudou em Nova York, um pouco menos em Chicago, um pouco menos em Seattle. Na bolsa de valores, no entanto, nada mudou. O lado emocional foi afetado, mas o concreto não. Os americanos seguem trabalhando demais, estressados, engordando. São escravos do tempo. O imperialismo continua, ainda mais duro do que era. Na América, os atentados não causaram nenhum efeito positivo. A reação foi de dor, de raiva. Era a primeira vez que a guerra chegava tão perto deles. Na Itália, nós nos habituamos a sofrer com a proximidade de tantas guerras. Mas quem não está acostumado a sofrer reage com agressividade. Foi o que os americanos fizeram.

Veja – O senhor está finalizando um novo livro, sobre a criatividade através dos tempos. O que é ser criativo?

De Masi – A criatividade é a síntese de duas coisas: fantasia e realização. Michelangelo é criativo não apenas porque projetou a cúpula da Catedral de São Pedro, mas depois de pensá-la convenceu o papa e coordenou a construção. Criatividade não é somente ter idéias, como se imagina. Isso é apenas fantasia. Só os gênios são fantasiosos e realizadores ao mesmo tempo. Como gênios não aparecem aos montes, o segredo é montar equipes que mesclem pessoas fantasiosas e realizadoras. Isso significará um ganho para os que têm ambos os perfis. A criatividade floresce em ambientes intelectualmente competitivos. Com os meios de comunicação de massa, ambientes assim poderiam ser criados em pouco tempo em todo o mundo. Podemos transformar o planeta em uma grande Florença do renascimento. Esse é o lado potencialmente bom da globalização.

 

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