Lástima (aconteceu em 2006)

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=cadeado
Escrito em 17 de novembro de 2006
Estou temporariamente sem a chave geral das salas de aula. Na escola onde trabalho, tudo deve ser fechado, lacrado, cadeado; nada pode ficar aberto. Há colegas que dão aula chaveados(as). Hoje, ao sair de uma das turmas, esqueci do caderno de chamadas na mesa do professor. Isso antes do recreio, que durou trinta minutos. Na volta, minha supervisora avisou que outro colega, ao entrar na mesma turma, viu que alguns alunos estavam mexendo no caderno de chamada e mesmo adulterando-a.
Esse, infelizmente, é o espírito da escola onde trabalho. Você deve tratar os alunos como estranhos, como pessoas nas quais não se pode confiar (e, verdade, pior ainda, muitas vezes realmente não se pode!). Objetos somem a toda hora e a tendência é você não questionar mais nada. Penso: fui ingênuo ao deixar o caderno na sala de aula? Ou simplesmente achei que isso não iria acontecer e que poderia confiar brevemente nos alunos?
Ah, sim, claro, eu liberei os alunos às10h10min exatamente no horário que bate para o recreio e, naquele horário, não havia mais ninguém no corredor, pois ficou informalmente instituído por alguns colegas que os alunos devem ser liberados às 10h, dez minutos antes, se possível. Se houvesse um professor no andar, eu teria para quem pedir a chave para fechar a sala. Como não havia, pensei que podia confiar, esquecendo que trabalho em um lugar no qual inexiste confiabilidade no outro. Os alunos que adulteraram sabem que absolutamente nada vai ocorrer com eles, que nada disso terá conseqüência, a não ser uma advertência que, teoricamente, é séria, mas que na prática é mero discurso.
Já com o professor, não. Fui chamado a atenção – justiça seja feita, minha supervisora foi gentil e mostrou-se pesarosa com o fato – terei de retificar o caderno, conferir data a data, etc., em um trabalho chato, maçante, burocrático.
A situação demonstra que questões de valores e de ética, que deveriam ter imensa relevância em uma escola, já que sua principal tarefa é a de formar pessoas, está esvaziada. Somente fazem o que lhes traga alguma vantagem. Se for preciso adulterar, se adultera, se for preciso mentir se mente, se for preciso passar como um trator por cima do outro, se passa. E isso, muito claro fique, não é de hoje.
Uma lástima.
De pronto!
Nós devemos eliminá-los, subjugá-los, os tornarmos nossos escravos, até que sejam todos extintos e que, com o passar dos anos, mesmo as suas lembranças se percam em névoas, em incertas impressões postas em algum lugar perdido nos escaninhos do tempo. E todos sabemos já por que devemos exterminá-los, submetê-los; simplesmente não podemos permitir, em nome do que somos e do que construímos, que esses outros nos tragam inseguranças, nos ameacem de modo tão oblíquo e insidioso. Se não aceitam quem somos, como somos e o modo como vivemos; se criticam a nossa cultura, nossos deuses e memórias, se ridicularizam nossa maneira de agir e de pensar, que não nos atrapalhem, que não difamem as nossas famílias, que não tentem levar à bancarrota os nossos negócios, seja diminuindo nossos lucros, seja incrementando nossos custos e prejuízos, de todo modo nos impedindo a fortuna.
Nascemos para o progresso de nossos planos e nossos domínios marítimos e territoriais cada vez mais se expendem, levando nossas luzes aos ignorantes, aos mercenários, pelo que assumimos nossa missão redentora, civilizatória, no sentido de colonizar os bárbaros, os néscios. Nossas eventuais limitações não devem nos paralizar, nos engessar dentro do que já somos. Devemos explorar ao máximo a grandeza histórica de nosso povo, a reconhecida destreza e eficácia de nossos exércitos. Não restemos acanhados ou moralmente constrangidos na defesa de nossos interesses, pois são os mesmos necessários em sua gênese e éticos em seus fundamentos. A compreensão, a convivência co outros não deve nos tornar fracos e impassíveis, menos ainda impotentes como os homens que se perdem em elocubrações filosóficas e morais aos quais falta a coragem, a bravura, o destemor de empreender o que deles se espera. Combatamos o bom combate, que é o da nossa ascenção; nos comportemos como romanos: se vis pacem para bellum é o lema herdado que nos conduzirá à frente. Aos inimigos do Estado, aos derrotados e aos que se interpoem entre nós e nosso destino redentor, apresentemos nossa repulsa e nossas masmorras.
Tomemos o que é nosso e nos pertence de direito e anexemos ainda o que julguemos nobre e passível de riqueza no interesse supremo do nosso povo. Consagremos nossa religião, nossos mandamentos, nossas cartas como a única e inviolável defesa da nossa sociedade e de nossos princípios éticos. Devemos espalhar ao mundo as benesses dos nossos Pais, da sua sempre nobre mensagem de paz, de solidariedade e mesmo de piedade eterna àqueles que vociferam e destilam seu fel contra nós. Sejamos progressistas ao proporcionarmos aos demais povos as nossas inteligências, a nossa religião, para que eles não mais chafurdem nos seus mitos de todo abomináveis. O mundo, este lugar inigualável de fortunas e de bem estar existe para que nele plantemos as nossas raízes sociais, culturais, religiosas e economicas fecundas e de todo resplandescentes. Levemos a nossa mensagem às mais longínquas paragens, para que sejamos todos abençoados em nosso mais belo poema, o da civilização plantada em meio a hostilidade que nos cerca.
Aos opositores cruéis de nossas glórias, aos que nos detratam e que querem impedir nossas vitórias, se nada mais restar, que provem do fio do nosso aço e do nosso ódio.
Ataquemos, pois, e de pronto!
Comprei
Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=credit+card
Comprei um carro novo. Comprei um apartamento novo. Comprei um suéter novo, e também uma calça e mais um novo terno. Comprei uma nova idéia de cultura e, por fim, banhei-me em meus dinheiros e em minhas ilusões.
Depois de tanto ter comprado, adquirido, alienado, alugado, recomprado acreditei, do fundo da minha alma, que havia, de uma vez por todas, e de modo irrevogável, irretratável e indiscutível, comprado a minha felicidade.
Como vês, permaneço terrivelmente velho.
Confissão

Fonte: http://www.flickr.com/photos/mollanas/2192168179/
Quis ativar em mim o gosto pelo meu passado, por tudo que me havia sucedido até chegar aqui, nesse momento, e poder te dizer o que se passou comigo, mas não de um jeito fugaz, nunca um “oi” desses descosturados pelo tempo, desses que dizemos e na verdade soam como um “estou indo embora”; não, que dessas saudações já ando farto, não as suporto mais. Contrariamente, queria te dizer o que fui para que entendesses o que sou, e talvez pudesses entender melhor os desvãos dos meus pensamentos, mais ainda um pouco das minmhas inarredáveis promessas, bem mais sobre o que estendo em direção ao teu amor. Queria tanto te dizer o que fui e, no entanto, agora que estou aqui, olhando teus olhos, pouco mais do que calar é o que faço. Retraio-me frente a ti como um órfão, como uma estrela sem poesia, como um mar parado na imensidão da calmaria. Perco-me tanto de ti quanto me perco em ti, me perco de ti tanto quanto me perco de mim. Estou aqui, mas nada posso fazer mais do que simplesmente balbuciar. Sinto uma dor imensa ao pensar nos meus próprios esquecimentos, e só não sou leve porque teu olhar me centra à terra, me traz de volta de meus pensamentos para tua companhia.
Um pouco só, abraçando a solidão é o modo como me vejo ao aproximar-me de ti, porque tu és o meu todo, e nada que possas dizer poderá te remover de dentro do meu coração. Mesmo as tuas ausências e o que possam causar-me de desconforto não são capazes de te arrancar de mim, e talvez por isso tenha tanto de te dizer o que em minha alma ocorreu quando, bem antes de te conhecer, já te buscava. Tenho necessidade de dizer-te o que os anos de angústia me roubaram, o que os anos de tristeza me marcaram para que possas por em mim o bálsamo dos teus olhos. Quero te contar de mim, pois me necessito ver em ti, quero criar um avatar de mim para mergulhar em teus olhos, quero libertar-me de vez dos pesadelos que me tornaram o que sou, para renscer em teu olhar.
O tempo, contudo, conspira contra mim, e sei que, pouco mais, pouco menos, irás partir não apenas daqui, mas de mim, e a tua lembrança não será necessariamente forte para me fazer escrever, de modo mais atento, o sentimento e o sentido com os quais moldasses meus desejos. Preciso pois, falar-te agora, e mesmo que não me possas escutar, mesmo que te ausentes, continuarei dizendo para mim mesmo o que tua falta me traz. Enfim, a qualquer momento, talvez por um motivo ínfimo, restarei cansado e cairei novamente no vazio em que me tornei em consequencia da intensa dor que me traz a falta dos olhos teus.
Lembrar o amanhã
Fonte http://www.flickr.com/search/?q=amanh%C3%A3
|Lembrar o amanhã é saber que hoje (já) é a consequencia de ontem e que os amanhãs somente serão realmente novos dias na medida em que não nos permitirmos afundar nos compromissos, horários certos e outras obrigações, além dos processos produtivos, pelo menos não o nosso espírito.
É buscarmos, de um modo ou de outro, mais satisfações e menos estresses. Lembrar o amanhã é saber que hoje, daqui a pouco será o passado e que o momento em que digito esse texto já se diluiu entre os móveis, as paredes, as ruas e as ventanias.
Recordações de hoje e projetos nos levarão até amanhã; somos inexoráveis conosco mesmos. Cada um de nós tem a sua própria noção do de um tempo-dimensão, que é o da nossa estrutura biológica, e, assim como cada um de nós vê algo de modo distinto da forma como outro o vê, ocorre tanto assim com os nossos espaços, com os nossos sentimentos. Nossos sentidos igualmente determinam o que observamos, pois observar não implica necessariamente em passividade, como os físicos quanticos já nos informaram, mas sim em possibilidades. Na medida em que interferimos sobre o que vemos e o que vemos interfere sobre nós, não somos nem deuses nem instrumentos, mas máquinas desejantes, conforme Deleuze. Frustrações incorporadas, seres neuróticos em busca de novos referentes que sejam plenos de culpas e de redundãncias. Somos o que nos construímos, dentro das opções possíveis, mas, mesmo sem elas, continuamos a nos construir.
Somos seres que aprendem, porque os seres vivos aprendem, não poderia ser diferente. Lembrar as frustrações é prorrogarmos seus efeitos, para que possamos criar uma nova consciência comportamental, a partir do que já conhecemos, ou restarmos em nossas zonas de conforto. Nos construindo no cotidiano, o tempo cronológico se esvai mas isso, de certo modo, não importa. Talvez seja mais significativo o cultivo da vaidade, estar up to date quando necessário. De qualquer modo, talvez seja interessante lembrar o amanhã, no mínimo para não esquecermos de nós mesmos e de que, queiramos ou não, não somos meramente as lajes de um calçadão.
Pedro e Benjamim

Fonte: http://www.flickr.com/photos/algo/92463787/
Partilhava o homem de uma amizade sincera com Pedro. Um dia, ambos não mais se viram, e Pedro foi morar muito longe, e acabaram, como ocorre de quando em quando, por se perderem. Anos se passaram e eles passaram a ser, um para outro, uma cálida lembrança, um fio de sonho, passagens e memórias em comum.
Em uma noite de inverno, Pedro estava em sua casa quando, de repente iniciou uma ventania muito estranha, incomum. Ao olhar pela janela, notou que as folhas das árvores pareciam imóveis. Tudo, de repente, ficara suspenso; mesmo os sons comuns da rua emudeceram. Então, de onde lhe vinha aquele tremor, aquela sensação repentina de frio, senão…de si mesmo?! Onde estava Benjamim, e porque a lembrança do amigo lhe era tão viva, tão real, tão próxima que praticamente podia escutá-lo, sentir-lhe a presença? Onde, Benjamim, onde você estava, agora, perguntava-se angustiado Pedro, enquanto as sombras deslizavam, imperceptíveis entre Pedro e as janelas?
……
Em algum lugar ermo, perdido no tempo, Benjamim observava Pedro. Via-lhe o desespero, as lágrimas que acudiam o amigo, mas, sabia, que, independentemente da vida que ambos levaram, dos destinos e das estradas percorridas, estavam mais próximos que nunca. Em breve poderiam, calmamente conversar, enquanto, lá fora, uma chuva miúda anunciava mais uma noite fria e sem luar.
Peregrinação
Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=conversa&w=all&s=int#page=6
Em algum lugar, bem longe de onde estou, começou minha peregrinação. Cheguei aqui, com todos meus sentidos, com meus percalços, com um pouco menos de espírito mas ainda sendo solidário, cheguei aqui, talvez para simplesmente sentar e te contar uma grande história, mas não essas de vultos e heróis pátrios, nem de descobridores, nem de talentosas pessoas. A história que venho te contar é a minha mesmo, essa que fui entretecendo nos dias e nas noites em que vaguei por aí, em que fui eu um parco herói de baixo coturno. Mas, se não quiseres escutá-la, não vou sequer me amolar, pois a compreensão habita em mim. Assim como o conformismo. Não, não te preocupes se te disse que percorri grande distância para que fosses meu ouvinte. Esquece, afinal, como se diz por aí, eu sou mentiroso. Essa é a minha fama, e portanto é nela que baseio meus comportamentos. Depois de tantos anos, é bom que brindemos à alcatéia com nossa mais solene indiferença. Me querem mentiroso, pronto! assim eu serei, e não se discute mais isso.
Sim, é por esse motivo talvez, por dares mais atenção aos boatos que aos fatos que não me queres escutar. És uma pessoa dessas sérias, comprometidas, probas, que tem muitos compromissos e não deves mais perder teu tempo me dando tua atenção. Sim, sim, as pessoas sérias sempre dão alguma coisa aos outros, para que esses fiquem lhe devendo favores. Eu, cá com meus botões, percebo: me destes já uma parte do teu tempo, mas não podes mais fazê-lo, então só posso agradecer a tua misericordiosa contenção ao me ouvir, pelo menos até aqui e a história – ah, sim, a história! – não, não te preocupes, afinal ela é longa, o tempo se esvai como líquido entre as mãos, e é melhor assim que tudo fique para outro dia, quando também não mais irei contá-la.
Não te dês ao trabalho sequer da curiosidade, pois em mim habita o improviso e decerto, do muito que te diria, a maior parte seria pura invencionice, assim, hás de sair agora, no que te dou razão, embora não te dê meus argumentos, minhas metáforas, sequer minhas metonímias, que tanto aprecio. Ficamos assim, então, sem mágoa, sem remorsos, sem desconfianças, tu partes e levas contigo o que trouxesses, tuas tarefas, teus agendamentos, tua pouca paciência, enquanto eu, pássaro livre e altaneiro levo em mim apenas o trinado da liberdade dos que nada tem a perder. Adeus, então.
Morte no engarrafamento

Fonte: http://www.flickr.com/photos/brazilpress/3752784322/
Junho de 2009.
Ontem à noite, retornando da escola, por volta das 22h40, eu de carona, notamos um engarrafamento que normalmente àquela hora não acontece. Noite fria, meio de semana, retornando do trabalho com cansaço acumulado e, sem mais nem menos, tudo parado, o trânsito sem fluxo. “Só pode ser a BM fazendo blitz” - comentamos. Mais comentários casuais. BM é a sigla da Brigada Militar e em uma blitz param-se veículos, para verificar documentos, pessoas ou ambos. Erramos. Adiante, uma mulher já madura jazia morta, no lado oposto da via. Vestia um blusão pesado e uma calça comprida, cor escura. Há duas semanas um jovem igualmente morto, vitimado em mais um dos infindáveis acidentes envolvendo motos, também se encontrava jogado na pista, desta vez no início da noite, por volta das 18h15, no momento em que eu me dirigia à escola.
Nos dois casos os cadáveres estavam sós, ninguém os pranteava e, muito provável, até pouco tempo eram pessoas dotadas de capacidades, de sonhos, de famílias e dos inevitáveis compromissos do dia-a-dia. Talvez tivessem filhos, talvez não, mas agora estavam ali, no meio da via pública, como se fossem res – coisas abandonadas o que, naquelas circunstâncias, de certo modo, eram. Passamos pela mulher, pelo corpo da mulher da qual não sabíamos o nome e absolutamente nada. O automóvel voltou a deslizar pela avenida. A curiosidade se esgota rápido, flui como água e parece que todos nos habituamos, desde muito com a banalização da morte, com a rotina onde sequer esse evento necessita de uma justificativa, a não de algo como um comentário breve, um muxoxo, um piscar de olhos, um menear de cabeça e só.
Vivemos em um tempo em que poucas coisas são capazes de nos mobilizar, de nos fazer sair da apatia e da indiferença, ressaltada alguma injustiça sofrida ou a catalizadora indignação. Corpos mortos em acidentes não mais nos comovem, e não paramos um segundo para refletir sobre o fato. A morte é não muito mais do que um mero dado estatístico, pouco importando se ela se deu graças a uma doença, a um assassinato, a um suicídio. Olhamos corpos reais com a mesma naturalidade e indiferença que observamos corpos virtuais na web, na televisão, nos jornais ou em qualquer outra mídia. É muito mais provável que lamentemos sincera e profundamente a morte de um cão ou de um gato do que a morte de uma ou mais pessoas, simplesmente porque criamos laços afetivos com os animais, mas somos individualistas a ponto de não nos importarmos – e especialmente de não nos vermos refletidos e em interação com o outro.
Nos sentimos e agimos como peças de engrenagens, a tal ponto que não temos e não nos concedemos tempo para pensarmos no que realmente importa, a não ser em nós mesmos, em nossa produtividade, em nossos desejos materiais, em nossas solidões, em procurarmos saber se temos ou não dinheiro para pagar o aluguel ou o financiamento, a troca de carro, o cartão de crédito, além de, claro, nos envolvermos no acúmulo precário de bens que, por sua vez são ainda mais inflados de uma futura e previsível obsolescência. Na condição de peças, de coisas massificadas, o uommo machina assim vê o outro, especialmente quem não conhece, pelo que naturaliza-se a indiferença na mesma proporção em que esquece-se a solidariedade.
Das lições, nada aprendemos. Parecemos necessitar de uma catarse coletiva, de um crime bárbaro e do incentivo midiático para promovermos nossos sentidos e sentimentos. Somos edulcorados, acríticos e, especialmente, egoístas em relação aos outros. A continuar assim nos transformaremos, da forma mais rápida possível em seres kafkanianos, insetos sociais dentro de comunidades de interesses mercantis onde, ao invés de feronômio, andaremos tontos, iluminados da clara cegueira de que nos noticia Saramago, tateando em busca – talvez – de nossas combalidas humanidades e de alguns valores fundamentais que devemos ter jogado em alguma gaveta ao longo das nossas histórias.
O homem caminhando
Fonte: http://www.flickr.com/search/?w=all&q=caminhando+e+chuva&m=text
Há um homem que busca ver o que se esconde sob a chuva que molha as calçadas, as ruas, que se precipita sobre a cidade. Ele está ali, olhando através da vidraça as luzes âmbar das noites, mas seu pensamento está absolutamente longe, distante de tudo aquilo. Sua vontade atravessa a chuva, a noite, e vai perseguir seu desejo. Não, ela não está, não, ela já se foi, e tudo é passado. Há uma intensa sensação de vazio, um ato de resignação que o acompanha nos últimos meses. O homem veste um impermeável, sai para a rua, acende um cigarro e caminha em meio à chuva e ao frio. De certo modo, a água que cai o transporta à infãncia, à casa de madeira onde nasceu, e a lembrança do sorriso de seu pai de repente lhe aquece o coração.
Ele anda, anda, e vê luzes em perdidas janelas de apartamentos e ter cruzado por pessoas apressadas. Caminhou serenamente entre a chuva, tentando justamente não pensar, se concentrando apenas na força de suas pernas, em sua respiração e na própria noite. Finamente, entrou em uma cafeteria, improvável, pequena. Havia ali apenas duas pessoas além dele. Pensou que o café lhe faria bem, e foi o que aconteceu. Saiu para a noite, acendeu outro cigarro e continuou andando. O pensamento recorrente apanhou-o em cheio. Lia, as crianças, Fabiana, o amor, a casa, tudo acabado, e cada lembrança era como um alfinete que o feria. Continuou andando.
Quando o dia amanheceu, ainda o encontrou ali, como que carregando um peso excessivo que teimava em assoberbá-lo. O sol iluminou-o enquanto ele, o caminhante, buscava timidamente o caminho de volta.
Declaração tardia
Isso fez com que eu ficasse cada vez mais seletivo, que cada vez ficasse mais bem humorado e tivesse, através do contato com o mundo feminino, uma visão diferenciada – ou pelo menos mais balanceada - da vida, embora, evidentemente, me tornasse menos flexível às bobagens que escuto e às conversas fúteis com as quais sou obrigado a conviver. Qualificar uma visão melhor de mundo, misturando o feminino ao masculino, a curva à reta, a sensibiidade à razão, talvez essa tenha sido a melhor herança que me deixaram as mulheres com as quais mantive amizade, aquelas que amei e, mesmo, àquelas que me relegaram ao sempre possível nicho do esquecimento.
Beijo grande. Amo vocês.
hILTON






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