E a palavra de Cristo?


Minha jornada solitária pelo século

24 Julho 2006

Estou lendo “Minha jornada solitária pelo século”, biografia de Roger Garaudy, filósofo e intelectual francês que, transitando entre o cristianismo e o comunimo, optou pelo islamismo. O livro trata, contudo, não de uma questão de confissão de fé, mas de uma viagem interessante sobre as idéias e os fatos que orientaram em grande parte os grandes dilemas do século XX.
Garaudy, nascido em 1913, é formado em Letras e Filosofia pela Sorbonne. Nesta obra encontraremos algumas referências ao Brasil, que ele visitou. Em relação aos grandes abandonos do povo, contrabalançados pelo trabalho de figuras ímpares, ele escreveu a respeito de Dom Fragoso, que, em plena época da ditadura, arriscava-se em Crateús, Ceará, para levar adiante sua obra:

Dom Fragoso considera que sua tarefa é fazer germinar as sementes do reino de Deus, do reino já existente no coração de alguns homens, do reino por vir, quando estiver no coração de todos. (…) Para Dom Fragoso:
Não foi apenas para libertar o homem de seus pecados que o Cristo veio ao mundo. O Cristo veio para liberá-lo também das conseqüências do pecado. Estas conseqüências denominam-se prostituição, racismo, marginalização dos camponeses, ausência de estradas e caminhos, falta de habitação, detenção da propriedade da terra por um pequeno número (enquanto uma multidão não tem uma gleba para trabalhar), cultura que não está à altura nem a serviço de todos os homens…
Cada homem é uma imagem do Deus criador (…) Quando o homem não é respeitado em seu direito de criar (…), de exprimir-se, de decidir, então, este homem não é mais a imagem do Deus criador: Deus não é mais respeitado em sua imagem humana.
Mas, afinal de contas, quem é Dom Fragoso?
Entrou no Seminário Arquidiocesano em João Pessoa, PB, em 1934 e ordenando-se sacerdote no dia 02 de julho de 1944.Foi Assistente Eclesiástico do Círculo Operário de João Pessoa e da Juventude Operária Católica [JOC] do Nordeste. Em maio de 1957, assumiu a função de Bispo Auxiliar de São Luiz do Maranhão até 1964. Foi ‘Padre Conciliar’ no Vaticano II, de 1962 a 1965. Em 14 de março último foi lançado o livro Igreja de Crateús, uma experiência popular em libertadora, escrito pelo mesmo Deom Fragoso citado por Roger Garaudy. Em entrevista, diz Dom Fragoso:
“A – A: Depois do Vaticano II e Medellin outros ventos sopraram. Como você vê a Igreja, hoje?
D. ABF: Os modos de ser Igreja são múltiplos… Quero reduzi-los a dois:
as igrejas verticais, centralizadas, autoritárias, ‘clericais’, muitas vezes ‘fundamentalistas’. Penso que desencantaram muita gente e não cativam e apaixonam mais os que buscam a Igreja de Jesus.
A Igreja Povo de Deus, todo ele co-responsável, ministerial, profético, integrado pelos Excluídos e os Pequeninos, que luta por pão em todas as mesas, pela cidadania para todos, que recusa todas as formas de exclusão, que considera espaços de viver a fé, o espaço político, o espaço das relações humanas; povo que acredita ser a Proposta do Movimento de Jesus, o Projeto do Reino.
Tenho a impressão de que a Igreja é chamada a uma conversão radical, no seguimento de Jesus: valorizando a vida humana, a cidadania para todos, a sensibilidade a todos, os apelos das vítimas da injustiça e convencida de que são os Excluídos, os Pobres, que têm a Missão insubstituível de conceber, gestar e dar à luz um mundo humano.”

Fonte: http://www.adital.com.br/site/conteudo.asp?lang=PT&ref=crateus

Infelizmente, a Igreja atual rejeita os grupos com opções sexuais distintas do hereto, rejeita a utilização de células tronco para estudos médicos, é apoiada pela Opus Dei, que segundo denúncias, é o braço mais fundamentalista e que se reporta apenas ao papa, não aceita ordena homossexuais, é contra o uso de qualquer contraceptivo, mesmo sabendo claramente que a AIDS mata milhões pelo mundo. A Igreja do passado pode alinhar entre suas contribuições para a estupidez humana a inquisição e mais recentemente sua posição de neutralidade entre os crimes nazistas. É claro que pode alinhar também preciosidades (sem ironia) entre as suas contribuições para o desenvolvimento da humanidade, seja lá isso o que seja.

Nesta altura, não se sabe o que a Igreja Instituição fez com a palavra de Cristo.

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