Escrever


2005-04-04

Escrever não é detectar costumes ou devassar intimidades, mesmo que se escreva sobre segredos ou a respeito dos meneios eriçados de macios pelos adolescentes. Os que tão-só criam e recriam leis, tratados, contratos, distratos e outros objetos pelos quaisos homens mercanciam coisas e desejos são escribas, não escritores. Se um escritor tem um ghost writer, não é ele o escritor, mas sim o ghost writer.Os escritores se fadigam na tarefa de apontar suas próprias contradições através de seus personagens; são todos um pouco assassinos de seus próprios escritos, que interrompem reticentemente ou com um ponto final. Assim.

Não sei se escrever é um ofício ou uma arte, ou se pode se conformar entre essas duas circunstancialidades; de todo modo, deixemos aos puristas verificarem se a poesia pode sobreviver sem a métrica, ou se a métrica foi apenas a economização, o regramento iluminista da livre aventura de criar momentos de puro encantamento.

Quem criou o cânone? Il cane?

Escrever pode ser extremamente dramático ou lirico, quase uma música que desliza sobre o papel, que adeja sobre nossos sentidos como uma sinfonia de Bach, ou que nos brutaliza como uma arremetida de uma plaza de toros. Ai, Espanha de todos os sonhos e muito de expectativa.

De todo modo, existe uma derivação, uma distância entre o pensar e o escrever. Essa distância deve ser reavaliada constantemente, para que o pensamento flua e captemos sua essência. Há um sem-fim de possibilidades e em meio a essas migrações cabe ao escritor recriar sentidos e tecer novas estruturas e limites.

Lembro-me que em uma belíssima aula de português, procurei definir a diferença entre palavra e escrita. Eu disse: palavras são vento; escritos são terra. Achei bonito, poético definir desse modo. O que se escreve se inscreve. A experiência está no mundo, e o que se recria passa a ser nova criação, mutante, ágil, única em sua historicidade. Perdem-se as falas, mas o inscrito dá suporte ao que foi conflituado pelo escritor.

O conflito advém das possibilidades, das estradas de terra, das pequenas – ou grandes – misérias humanas que perfazem suas tragédias. Ou, se quisermos, comédias.

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