Nosso césar: o pioneiro


Oito Anos 

 Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=a+bola+%C3%A9+minha&m=text

Quando era garoto, costumávamos brincar de jogar bola, futebol de mesa, bolita de gude, ferrinho ou, simplesmente de conversarmos, peregrinando da casa de um para a casa de outro amigo. Éramos todos filhos de pais aposentados ou comerciantes, que não tinham uma vida financeira estável. Assim, não podíamos ter o que quiséssemos, pelo que constrangidamente nos submetíamos àquele césar que tivesse à disposição uma bola de futebol (ele podia, então, escolher qual a posição e o time que iria jogar, sofrendo as pressões necessárias), a mesa para jogar o futebol (nosso césar então ditava quais as regras do jogo, que lhe eram sempre as mais convenientes) ou o melhor “som” (no qual tentava impor que todos escutássemos as suas músicas prediletas).

Cada vez que pensávamos em um jogo, um torneio, ou uma brincadeira pudesse envolver nosso césar, sabíamos que deveríamos bolar alguma estratégia para não nos submetermos de modo tão inglório ao nosso tirano particular. Nosso césar, cujo pai era médico, trazia já em si, pela educação que recebia no cotidiano a bactéria virulenta da arrogância, e não perdia uma oportunidade para, de modo mais sutil ou mais direto nos dizer “eu tenho, vocês não, portanto, pobres infelizes, vocês dependem de mim, logo eu digo o que vai ser e como vai ser”.

Fomos crescendo, passamos à adolescêcncia e quase todos morávamos próximos; um grupo leal de cinco ou seis pessoas, uma “turma” que ía aprendendo no dia-a-dia a trilhar seus próprios caminhos, buscando suas opções de vida. Éramos assim, crescendo em meio às espinhas, acnes, às expectativas, às rejeições do mundo feminino, aos primeiros “amassos” e às aprovações e reprovações do mundo adulto, carregando apelidos, nos iludindo na escola, matando aulas, rodando por aí, tendo a noção clara de que o mundo, ao contrário do que nos diziam, não era algo perfeito, retilíneo, previsível.

O passar do tempo, contudo,  nos fez perceber que já não era tão importante o futebol de mesa ou as correrias em torno do quarteirão e, assim, aos poucos, a dependência do nosso césar foi amainando. Alguns de nós mudamos de endereço, Robson, Cacau, Ricardo e sua irmã Tania; Ricardo e seu irmão Júnior se mudaram para o Riio de Janeiro, a vida prosseguia. Um pouco antes, contudo, a notícia nos alcançou: nosso césar havia perdido o pai, o famoso pai médico de quem tanto se orgulhava e que nos tratava com um gentil desdém. O império de césar começava a ruir; sua família vendeu a casa (aquela, a mais bonita, onde morava o menino mais rico), e de um momento para outro tudo simplesmente sumiu. De repente, as coisas em relação ao nosso césar foram se diluindo, as lembranças também foram minguando.

Que me lembre, nunca mais vi nosso césar. No mínimo quatro décadas se passaram e, sem dúvida, se cruzássemos em alguma rua, provavelmente não nos reconheceríamos. Mas, honestamente, aquele guri me ensinou muitas coisas importantes, como abominar a arrogância, o mando pelo simples desejo de mostrar o poder que aos demais submete.

É claro que não precisaríamos suportar o nosso arrogante companheiro porque, de um modo ou de outro, conseguiríamos tranqüilamente viver sem ele e sem seus brinquedos e exigências tolas. Quando, por exemplo, caminhávamos ou andávamos de bicicleta, íamos aos cinemas, admirávamos e nos entorpecíamos ante o mundo feminino, raramente nosso césar estava conosco. Não que não quizéssemos a sua presença, mas a verdade é que, infelizmente (hoje vejo assim) o nosso césar era uma pessoa muito só, que precisava urgentemente dos seus brinquedinhos para justificar seu mando e a sua peculiar arrogância. Em verdade cada um de nós tínhamos nossa turma, nossa fraternidade, nossas pequenas confissões e pecados e erros e acertos, nossos propósitos; nosso césar tinha tão somente objetos, gadgets convenientes e que, em determinados momentos ou circunstâncias garantiam-lhe um poder de tigre de papel.

Lendo este post, alguns poderiam supor que nós todos éramos muito cínicos, pois sabíamos da necessidade emocional do nosso ditadorzinho e então aproveitávamos tais circunstâncias; talvez em parte isso pudesse ser utilizado como argumento, mas, mesmo assim, dávamos a ele, em contrapartida possibilidades reais de integração, chances de estreitar amizades, de participar efetivamente de uma fase cheia de ebulição, contrariedades e conquistas, como a adolescência. Por outro lado, não tínhamos maturidade suficiente para entendermos tais processos no final da infância e iniciando uma adolescência em meio a tantas possibilidades.

Para nós, o nosso césar era apenas um monumental chato, que nos levava um pouco da inabitual paciência, mas que convivíamos numa boa. Por outro lado, a vida me ensinou que o nosso césar foi apenas um biscuit,uma avant première, um prólogo ao infinito de chateação, de prepotência e de mando sem sentido com os quais fui brindado até aqui. Nesse sentido, nosso césar foi, sem dúvida, o pioneiro!

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