O albergue e o lenhador


 

Ontem assisti “O Albergue” (Hostel), direção executiva de Quentin Tarantino e direção de Eli Roth. O filme conta a história de três mochileiros que, viajando pela Europa, vão à Bratislava onde, um a um são seqüestrados e torturados nos escombros de uma indústria abandonada, até que o último (casualmente um americano), interpretado por Jay Hernandes (Paxton), consegue fugir e vingar-se. No filme há muita tensão, muito sangue, várias cenas de tortura, vômitos, berros e gritos angustiados, mulheres belíssimas com muita disposição para sexo amplo e irrestrito e muitos efeitos especiais. A fórmula comum para o sucesso comercial está garantida.

Fiquei então pensando nos filmes de Quentin Tarantino e também nos de David Cronenberg, ambos dedicando suas filmografias ao bizarro, ao escatológico e ao nauseante. São produções dedicadas a mostrar atos, cenas, propostas regidas pela violência e pela estupidez humanas. Alguns desses filmes foram mais reconhecidos e premiados internacionalmente, outros nem tanto. Mas não cabe aqui discutir isso, mas o cerne comum a ambos os diretores: a violência. 

Explorar tais caminhos de modo comercial e sem qualquer sensibilidade maior me parece o caminho adotado pela dupla, Tarantino americano e Cronenberg canadense. Contrastando com ambos os diretores, me veio à mente o filme de estréia de Nicole Cassel, o Lenhador (The Woodsman), estrelado por Kevin Bacon. No filme, o tema da pedofilia é tratado do ponto de vista de um ex-presidiário (Walter)que foi preso justamente por se envolver em tal situação. A diferença básica entre uma linha de abordagem e outra é que, nos filmes de Tarantino e de Cronenberg, a violência é o que importa, enquanto, no filme de Nicole Cassel, há nuances que humanizam o personagem: ao invés de eleger a moralidade conservadora como ícone, Cassel traz à luz os dramas que tornam o protagonista mais próximo da realidade. Ao optar por essa visão, Casel buscou aprofundar-se na mente e no comportamento do protagonista, em eterna luta contra o seu desejo e a necessidade urgente de reprimí-lo.

Se analisarmos Hostel e The Woodsman, poderíamos enveredar por várias discussões: sobre sexo e violência, sobre violência simbólica, sobre torturas, sobre a banalização dessa mesma violência, sobre a pedofilia enquanto doença socialmente perigosa; sobre o bizarro, sobre os nossos desejos e como a indústria cultural os utiliza comercialmente; como explorar o sentido de brutalidade e de destruição que existe em cada um de nós e que é represado em nossas instâncias psicológicas mais profundas.

É sabido que tais sentimentos de violência podem explodir a qualquer momento, em face de uma infinitude de circunstâncias, comprovando que somos muito mais impelidos a agir pelas nossas pulsões límbicas do que pelo neocórtex. Talvez em cada rejeição às diversas maneiras de estupidização, estejamos sendo humanos, mas não deixamos de ser quando igualmente permitimos que as mesmas irriguem nossas mentes e corpos. Essa dicotomia, essa tensão permanente entre eros e tanathos talvez seja o maior exemplo das nossas belezas e das nossas feiúras, das nossas bondades e crueldades, tão socialmente praticadas e tão dessacralizadas em nosso íntimo. Sem dúvida, do ponto de vista cultural, tal balanceamento comportamental é o maior desafio que enfrentam nossas educações e urbanidades.

Não basta, portanto, sermos o que somos, mas é imprescindível que sejamos o melhor que possamos ser, e esse é um caminho árduo a ser trilhado, especialmente quando nos defrontamos com as dimensões Jeckill and Hide, tão marcadamente exploradas em um mundo rápido, voltado para o hedonismo e no qual valores são tão depreciadamente descartados.

A permissão e a permissividade do que entendemos por “liberdade artística” e outras sempre nos possibilita o sentido da escolha; contudo, talvez nós mesmos, em nossas precariedades, nos esqueçamos disso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s