Perdas


 

Fonte: http://www.flickr.com/search/?s=int&q=perdas&m=text

 

As imagens se vão, mas os pensamentos permanecem como pedaços quase materiais que nos lembram perdas, instantes, momentos, locais, cheiros que as imagens insistem em não carregar consigo. Então, uma grande parte de nós vai se tornando uma lembrança de algo ou de alguém que se foi, mas que quer ainda ficar aqui, dentro do peito, e mesmo que tomemos ou não qualquer providência (palavra estranha, aqui, providência) de qualquer ordem, em qualquer sentido, de repente o que era já quase uma recordação, torna-se um dèja vu e nos ilumina de modo tão caótico mas tão cálido que quase nos faz perguntar se a realidade é o que pensamos ou o que desejamos em um dado momento.

 

Não há como não vagarmos aqui e ali entre nossas imagens, não exatamente entre o que restou, pois nesses casos não há restos, não há sobras, todo o espaço de sentido e de sentimentos se retro-alimenta como a água e a chuva, mas de assumirmos nós mesmos o fato de sermos a imagem amada, querida, e suas evocações. Talvez seja essa a grande maravilha, a grande sabedoria de que somos o mais perfeito e o mais acabado roteiro de nossas trajetórias, somos as músicas que escutamos ontem e que, hoje, são nossas condutoras para uma jam session ou para um tango em algum lugar em que nossa vontade nos leve.

 

Todas as perdas são tristes, dolorosas, mas as que não são totais, as imagens, os cheiros, os sentidos que não se fizeram única e exclusivamente lembranças, não são ainda perdas, pois persistem em nossos momentos mais caros. Há uma casa em todos nós, e nessa casa especial só há poucos lugares. Talvez dois ou três. Enquanto houver um abrigo para tais sentidos em relação a algo ou alguém, esse não será uma perda: afinal, o que acolhemos sinceramente não pode ser apenas ilusão. Bem mais que isso, faz parte de nós. Talvez por isso sejamos únicos, talvez por isso sejamos tolos, talvez por isso sejamos fracos: essa a nossa música especial, a nossa lira, o nosso canto e a nossa liberdade.

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