Trabalhar enobrece, né?


Métro, boulot, dodo ...!!

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=metro&m=text

Só é obrigação o que não nos interessa; o mundo do trabalho é prenhe de coisas a fazer, de pouco tempo para fazê-las e de chatices inexpugnáveis. É claro que podemos ter muito prazer no que fazemos, podemos realizar muito, mas sempre temos alguém ou alguma instância que nos criteriza o que deve ser feito. Normalmente as compensações pessoais dizem respeito a como ou de que modo realizamos nossas atividades, mas isso não invalida sabermos que o mundo do trabalho é um mundo contratual, pactuado, com regras mais ou menos fixas e que, dependendo do que fizermos, segue um modus fascendi industrial. A atividade regida pela industrialização é onerosa à nossa saúde, aumenta nosso estresse, nos põe em convívios que gostaríamos de evitar e nos escraviza ao relógio. Contamos os dias para as férias e, normalmente, não sabemos o que fazer com elas, senão nos prepararmos para mais um ano de estresse. Descansamos o suficiente para começarmos de novo, e nos desorientamos minimamente em relação à bússola que sempre aponta as mesmas rotinas. Por isso, essa desorientação é extremamente benéfica à nossa saúde. Se não à física, com certeza, à mental.

Nos horários de intervalo de nossas atividades do que falamos, sobre o que pensamos? Sobre as mesmas atividades, os mesmos serviços, os mesmos problemas. Se não fazemos isso de modo voluntário (ou involuntário, dada a rotina das nossas ocupações), sempre haverá alguém a nos lembrar. Um diretor, um supervisor, um orientador, um chefe, um colega. Vivemos uma vida na qual o trabalho, muitas vezes opressivo, é nosso mais caro e mais estimado valor. Há workaholics por todo lado nos lembrando, nos alertando, nos dizendo, nos insinuando a respeito do que temos de fazer, do que deveríamos ter feito, do que foi feito de modo errado ou das nossas omissões. Tão certo quanto o sol nasce e se põe, sempre haverá alguém a nos lembrar, a nos martelar impiedosamente, a anotar, a registrar com uma memória implacável as nossas obrigações. A essas pessoas, chamamos de responsáveis.

Nas escolas, um dos ambientes mais insalubres que conheço, há, além disso, o fenômeno da circularidade. No mais das vezes as conversas são sobre os mesmos assuntos. Como se trata de um mundo feminino e as mulheres são socialmente injustiçadas, há um sentimento de culpa que perpassa tudo. Há professoras que querem ser mães de seus alunos, e o caminho óbvio para isso é a subjetivação elevada a seus píncaros. Por outro lado, a tão declarada objetividade masculina se perde entre tais culpas, se debate entre problemas caseiros e o psicologismo, não raro utilizado como bandeira ideológica. O matriarcado sufoca o profissionalismo, especialmente se não houver um esforço bastante grande quanto à qualificação do corpo docente. No mais se troca a teoria pela empiria e o objetivo pelo subjetivo. Ao analisarmos uma questão objetiva, outras entram em foco: “mas o aluno tem problemas na família”, “ele foi mal, mas tem potencial”, “ele só está pensando em namoro”, “o pai dele é alcoólatra”, e assim por diante. E tudo vira um enorme bazar, onde o conhecimento é barganhado em relação ao psicologismo de araque e ao serviço social de duvidosa qualidade.

Duas situações: Primeira. Há mais de quinze anos atrás, em aula em uma escola do município, uma professora me falou que não estava mais suportando a falta de profissionalismo e o caráter de improvisação e de precariedade da referida escola. Disse-me que, para ela, era inviável continuar lecionando em tal escola, porque entendia que o profissionalismo e a qualificação deveriam ser levados a sério. Dois meses após tal conversa, ela se exonerou. Ela havia ingressado por concurso público, e foi coerente com seu próprio sentimento, com seu sentido enquanto educadora. Ponto. Segunda. Ano passado havia vários alunos na escola onde leciono que tinham visivelmente problemas psicológicos graves. O serviço de orientação escolar tentou encaminhá-los para uma instituição social que atende adolescentes em situação semelhante àqueles que a escola encaminhou. Aí simplesmente a instituição devolve para a escola o seguinte argumento: não podemos atender todos, então a escola deve escolher aqueles casos mais graves e nos encaminhar. Ora, escola não é serviço psicológico nem psiquiátrico nem hospital. Pergunta-se como pode a escola decidir nesses casos? Não pode, não é? Simplesmente não pode. Ponto.

As duas situações mostram como se lida com questões profissionais. Na primeira há coerência entre discurso e fala, entre comportamento e ação. Na segunda há uma situação que beira a mais rematada irresponsabilidade. Entre esses dois pólos a escola se debate, e o estresse provocado por situações díspares atravessa no dia-a-dia as atividades de quem ensina e de quem aprende. Questões como essas faz com que pensemos em nossas atividades, praticamente todo o tempo. São angústias, temores, desconfortos com os quais temos de lidar e não sabemos como iremos reagir aos mesmos. É, portanto, indispensável que saiamos de vez em quando para reativar nossas baterias, talvez não o suficiente para enfrentar tais batalhas do dia a dia contratual que todos vivemos, imersos em uma sociedade que cobra o tempo todo e que proporcionalmente devolve poucos prazeres. Vivemos em ambientes totalmente mapeados e instáveis a partir de estruturas que podem ser mais flexíveis ou mais rígidas. É necessário sair um pouco disso, antes que o workaholic mais próximo nos fatie e nos jogue dentro do seu mar de obrigações.

2 comentários sobre “Trabalhar enobrece, né?

  1. HILTON,
    UFA…ATÉ QUE ENFIM TE ENCONTREI NO MEIO CIBER….OH HOMI DIFICIR DE DAR ENDEREÇO ELETRÔNICO…..CRUIZ CREDU!!!
    ACHO QUE SOMOS QUASE “COLEGAS GÊMEOS”…..ADOREI A PARTE ONDE MENCIONAS O GRANDE PARADOXO DO TRABALHO (TER MUITO O QUE FAZER, MAS NÃO SABER O QUE FAZER QUANDO NÃO SE TEM NADA. CARA, TU É DEMAIS…. E TEM GENTE QUE AINDA GOSTA MAIS DOS ANIMAIS DO QUE DE GENTE …EU PREFIRO OS BÍPEDES.AHAHAHAHAHAHAHAHAH

  2. achei sua reflexão muito interesante e é verdade muitas coisas q vc escreveu adorei muito…acho q o senhor deveria escrever um livro pois é um exelente escritor…

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