BBB9 e Orwell


big brother brasil por celebritynanet

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=big+brother+brasil+&page=4

Não vês que todo o objetivo da Novilíngua é estreitar a gama do pensamento? No fim, tornaremos a crimidéia literalmente impossível, porque não haverá palavras para expressá-la. Todos os conceitos necessários serão expressos exatamente por uma palavra, de sentido rigidamente definido e cada significado subsidiário eliminado, esquecido. […]

Como será possível dizer “liberdade é escravidão” se for abolido o conceito de liberdade? Todo o mecanismo do pensamento será diferente. Com efeito, não haverá pensamento, como hoje o entendemos. [George Orwell, 1984, apud Mídia Sem Máscara]

Fonte: http://januacoeli.wordpress.com/2009/01/16/a-novilingua-gay/

  

Big Brother é um sistema lógico que domina o megabloco da Oceania, onde trabalha Winston Smith, ligado ao Partido Único IngSoc. Sendo funcionário do Ministério da Verdade, a função dele é a de reescrever dados na conformidade do que rege o Partido. Tais argumentos estão no livro 1984, escrito por George Orwell em 1949. O Grande Irmão a tudo fiscaliza e é esse megasistema que informa quais os que podem afrontar o IngSoc. O livro famoso de Orwell, que cria a novilíngua, é um marco contra a tirania e deveria ser lido por quem se interessa por questões como liberdade, totalitarismo, ideologia, etc.  

Big Brother é um programa da Endemol/Globo,  cujo objetivo é colocar pessoas lindas, saradas, de preferência que gostem de exposição, que tenham facilidade em formar grupelhos, grupos,  allianças e que não se incomodem absolutamente com nada, a não ser com o fato de que o vencedor ganhará um milhão de reais. Então, a partir daí é criado todo um texto de novela, embora os fatos sejam reais. Toda a construção do programa, onde as pessoas ficam confinadas em uma casa que é mudada de edição para edição (essa é a nona) se resume a três fatos: (1) ver quem irá ganhar o prêmio; (2) ver como as pessoas se comportam em grupo e individualmente e (3) exercer o voyeurismo.

Muito, mas muito diferentemente do livro de Orwell, onde o tema principal é uma tensão permanente entre liberdade e totalitarismo, entre atitudes que confrontam a ética e o controle, entre individualismo e massificação, no Big Brother da Endemol/Globo temos uma linha construtiva que irá se basear nos atos de voyeurismo institucionalizado, onde o erotismo permeia do início ao fim, com algumas grandiloqüências vazias e desesperos editados durante 24 horas, mas só para quem tem pay per view, claro. A massa fica com o programa noturno e algumas insersões durante a programação diária.

Durante as edições do Big Brother Brasil tivemos praticamente de tudo. É um programa de espia, no qual podemos avistar coxas, seios, suaves olhares, desejos e altas manipulações.  Afinal, alguém controla a ilha de edição, mesmo porque se tudofosse mostrado, provavelmente o interesse seria perdido. Não há novela que suporte as  idiossincrasias e especialmente as rotinas do dia-a-dia. BBB também sempre deixa um gancho para o dia seguinte, afinal um programa que vá diariamente para a TV durante três meses necessita criar um factóide todo dia.

Dentro desse mundo de entretenimento e de frivolidade, algo do comportamento humano pode ser analisado, se considerarmos as edições do programa. No entanto isso tem de ficar muito claro: que tudo é editado, pasteurizado e servido como papinha para alimentar os desejos de espectadores passivos, às vezes nem tão interessados nas articulações do programa, mas sim em seu caráter visual.

Destaque para o programa é a atuação de Pedro Bial, que vive chamando a casa do BBB de nave, os participantes de heróise cometendo textos em que a adjetivação e o senso-comum tem lugar absolutamente garantido. A pieguice domina o texto, mas, se formos avaliar ao que o programa se propõe, provavelmente é esse mix macarrônico de coisa alguma que os espectadores gostamou queremouvir, ou seja, um novelão erótico e frugal, sem um pingo de contato com a realidade. No BBB praticamente nenhum dos participantes (com raras excessões) fala sobre cinema, artes, política, cidades, educação, dinheiro, trânsito ou qualquer coisa que faça refletir. Exceto poucas excessões, contadas nos dedos de apenas uma das mãos, nenhum dos “brothers” tem opinião ou argumento sobre coisa alguma, a não ser para a intriga, os menoscasos, os fuxicos e as intenções de pegação dentro da casa. Invariavelmente as mais gostosas irão receber convites para poses em alguma revista masculina, o que aumenta ainda mais uma libido pré-fabricada. 

E assim Orwell encontrará em Pedro Bial um criador de novilíngua, pela qual o sistema totalitário de 1984 pretendia suprimir e modificar palavras com o fim de controlar pensamentos. O âncora, ao invés de suprimir/modificar, apela para a mesmice intelectiva, propondo, de certo modo, a obliteração do néo-cortex, ao infundir uma linha de texto na qual o substantivo herói, por exemplo, é confundido com participante. Se você ingressar no BBB, será um herói, independentemente de qualquer fato passado em sua vida. Passados alguns meses ninguém se recordará de quem você, herói tão conhecido, é, mas isso faz parte do mundo lascivo, egóico,  consumista e non sense do BBB.

Contudo BBB tem um interesse notável, mas este reside não nas indas e vindas do programa, mas no que ele revela, especialmente nas áreas de sociologia, comunicação e educação. Na última, dentro do que se denomina de pedagogia social. Nesse sentido, BBB é bastante útil pois suas mensagens, postas em ambiente televisivo e que acabam por trazer a lume várias situações instigantes, entre as quais de como uma mensagem pode ser passada para públicos absolutamente heterogêneos e que vivem culturas diferentes. Como será que um adolescente percebe o BBB? E qual será a leitura do programa em nível educativo? Mesmo que se apontem negatividades, mesmo essas devem ser investigadas. Há, portanto, múltiplas possibilidades de se abordar o BBB, o que não é uma vantagem somente sua.

De qualquer modo, Orwell talvez não parasse para ver BBB mas, sem dúvida, se espantaria com a micro concretização de um de seus livros mais famosos, 1984. Como diz a Rede Globo, a gente se vê por aqui.

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