Novos comportamentos


máscara por Peka!

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=mascaras

Ontem, no lotado ônibus R 41 havia uma senhora muito muito idosa e com dificuldades para andar, em pé no corredor. Ninguém ofereceu-lhe lugar. Pelas tantas vagou um lugar. Imediatamente antes da senhora iniciar sua movimentação para sentar na poltrona, uma mãe alertou a filha pré-adolescente, toda vestida de rosa pink e segurando uma boneca enorme: “filha, pega o lugar!” Bastou isso e a new barbie se jogou na frente da senhora, capturando o lugar, enquanto a idosa continuou ali, de pé.  O que mais me aborreceu foi ver a mãe instruindo claramente a filha ao individualismo.

Às vezes penso que determinados valores como solidariedade, respeito e consideração foram riscados da vida urbana e absolutamente nada de positivo ficou em seu lugar. A solidariedade foi substituída pelo individualismo narcisista, o respeito pela intolerância e a consideração pela mais gélida indiferença. Assim nos tornamos cada vez mais pessoas com menos, no sentido do convívio com os outros, bem como no sentido afetivo. Noto isso em vários cenários: na escola onde trabalho, nas ruas, nos ônibus, nas filas, nas irritações doentias do trânsito e no estresse dominante: uma boa parte dos viventes esqueceu o bom humor, a gentileza em pequenas atitudes e que podem tornar os ambientes mais leves e tornar mais suave o cotidiano.

Na escola, por exemplo, quando participo de reuniões profissionais, observa que uma parte significativa dos meus pares não tem uma atitude colaborativa, se comportando como soldados no front que estão na eminência do ataque inimigo. Sensíveis a qualquer palavra, idéia ou argumento que não lhes contemple a vontade, esses professores tem uma sensibilidade de um led touch screen. No entanto, costumam dizer o que pensam de modo inadequado e agressivo e de preferência com uma voz tonitroante, que é para deixar a sua inconformidade muito clara. Mesmo que haja sentido no que se diz, há modos de dizer e pessoas que parecem ter a capacidade de falar mesmo o melhor de modo desagradável, como se estivesse promovendo uma caça às bruxas, uma vendetta.

Em muitas reuniões vejo meus pares como porcos-espinhos reunidos dentro de um espaço mínimo e com fome. É notável o embate. Possivelmente isso ocorre, entre outros motivos, porque há um privilégio social do individualismo e do consumo desenfreado e veloz em detrimento do comunitário, do avizinhamento solidário e do consumo consciente. Se a mídia exige algo, você recebe isso passivamente, de maneira domesticada, perdendo a noção de esperar, de ter paciência, de saber ouvir. Assim, você se torna, aos poucos, um adulto inconstante, que pensa que o mundo foi feito para sustentar seu implacável ego, o que faz com que reaja com rispidez a qualquer situação que não possa trazer algum bônus, algum privilégio, algo a ser consumido, alguma pílula dourada embutida num kit de satisfação. Com o ego inflado e a parcial obliteração do super-ego, você está pronto para a estúpida conclusão de que o mundo lhe deve algo e que os outros devem serví-lo.

No fundo você não quer se envolver, porque não há vantagem nisso, apenas se livrar do desagradável, pelo simples fato de que você, adulto, está sendo cada vez mais mimado como consumidor que deve suportar seus problemas com mais contas e compromissos a pagar. Não havendo nem interesse nem paciência e muito menos bom humor você está caminhando a passos largos para se tornar um boçal ignorante, algo vago mas desagradável com o qual os outros são obrigados, por obrigação profissional, a conviver. Você está fadado a ser uma figura triste, gris, preconceituosa, sem um nível de informação filtrado pela criticidade, apenas um alguém sem qualquer motivação maior do que verificar o tamanho do seu umbigo.

A partir daí compete aos outros terem de suportar a sua indiferença, o seu palavrório e as suas convicções, lamentarem as suas idiossincrasias e inconsistências o que, convenhamos, não é pouco e muito menos é razoável Se você foi ensinado assim e se não houver nenhuma circunstância especial ou excepcional na sua vida, você continuará assim, um tanto mais insuportável quando a idade aumentar e achará, na maior parte dos casos, que somente você tem razão, a despeito de tudo e de todos, pois o mundo está em débito com você.

De qualquer modo, é claro que existem pessoas extremamente delicadas, gentis, bem humoradas e que com sua inteligência, sagacidade e bom astral colaboram, em muito para a melhoria das relações e a distensão de momentos delicados. A lamentar apenas que as mesmas, como a idosa senhora, continuem de pé, no ônibus.

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