Âmbar


 Sombras por Danann

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=luz+ambar&page=6

                                                                                                                                     

                                                                                                                                      Para Esther 

 

Aprendi que existe dois tipos de solidão: aquela desejada e a provocada por circunstâncias, sem a vontade de quem está só. Assim, pelo menos teoricamente podemos optar e isso faz parte da nossa trajetória de vida. Não sei porque isso veio à minha mente… talvez porque esteja muito frio hoje, seja domingo à tarde e a chuva continua escorrendo pelas ruas, pelas calçadas, acostamentos e janelas do apartamento e especialmente pela minha alma. Vejo televisão, ou pelo menos finjo para mim mesmo que o faço, tentando disfarçar o que já sei. Sequer me interesso pelo programa, de todo feito para imbecis. Ritualmente abro a porta do meu apartamento em busca de algo ou de alguém que possa estar circulando pelo corredor… Ninguém. Aqui e ali uma luz âmbar ultrapassa os desvãos de algumas portas, indicando que há pessoas em alguns dos apartamentos e é só. Fecho a porta e retorno para meu espaço interno. De pé, olho para cada um dos móveis como se fosse pela primeira vez.

À mesa, meu filho tem sete anos e conta suas histórias, do que está fazendo na escola, e sorri amorosidades que as crianças possuem de modo espontâneo e cálido. A vida é isso, um banho tépido, um frescor infantil e sem malícia. Agora minha mulher circula entre o quarto e a cozinha, com seus olhos rápidos e seu corpo ágil. Num instante e ela sorri para o filho, enquanto põe seus olhos em mim. A xícara, como fui esquecer de pô-la na mesa, bem na hora do café? Vou para a cozinha, trago o restante da louça. Um gol explode na televisão e tudo automaticamente congela para escutar de quem foi, como foi e se vai haver slow motion. Mais um pouco e a noite irá cair, e enquanto nosso filho estiver dormindo, estaremos abraçados, comentando as coisas do dia-a-dia, os momentos atribulados, preparando mentalmente uma agenda para o dia seguinte. Corte.  Meu primeiro filho, dos quatro que tenho, está estudando no quarto, o vestibular vem aí e as suas inquietações aumentam, especialmente com física e com química. As chamadas ciências duras além, é claro, da matemática. Pouca gente gosta de matemática. Muitos a associam aos rigores da linguagem, às armadilhas do pensamento, às inflexibilidades enfrentadas na vida cotidiana. Meu filho apenas a suporta, não mais que isso. Já são duas horas da manhã, e ele acaba de desligar a luz do quarto. Levanto-me e caminho pelo apartamento. Tudo desligado, posso finalmente dormir. Sempre sou o último a deitar. Passo pelo quarto, olho meu filho, desejo que tenha uma boa noite de sono e caminho para a cama. Corte. O estádio está repleto e quando o Inter entra em campo o Beira-Rio vem abaixo. Cantam-se hinos de torcidas, a alegria nos acompanha como uma cálida companhia. O domingo é de sol e é muito certo, para quem é torcedor, que o Palmeiras será apenas uma vitória a mais do Inter. Naquela tarde o Inter empatou. A sensação de empate é talvez a pior de todas: não é uma derrota nem é vitória, é algo intermediário, que incomoda ao Inter e incomoda menos ao Palmeiras. Voltamos para casa e a sensação não é boa. Corte.   

Corte. Corte. Corte. Nada mais existe, as lembranças apenas me trazem esse sentido, esse sentimento de corte. O apartamento está vazio, retorno de meu sonho, os devaneios findaram e estou aqui, parado no meio da sala, olhando as minhas recordações. O computador, esse poderá vir em meu socorro! Vou rápido em direção ao mesmo e ao ligá-lo procuro desesperado por alguma mensagem. Não há nada no messenger, nada no orkut e, na caixa de mails apenas bobagens e piadas (os argentinos diriam chistes, não?) sem graça, mandadas por alguém cujo nome real não é muito familiar. Há também algumas pessoas em sites de relacionamento que dizem querer falar comigo. Uma outra piada, eu sei, apenas contada de modo diferente e por outros protagonistas. Pego o meu celular e tento ligar para um amigo, daqueles que faz cinco meses que não vejo. O número está desabilitado. Meu amigo sumiu. Jogo o celular sobre a cama, vou para sala e desligo a televisão. Poderia ir a um cinema, mas sequer tenho ânimo para pesquisar no google. Finalmente resolvo tomar um banho. Pode ser que a água fria lave bem mais que o meu corpo, pode ser que, de algum modo, alivie a minha solidão. Penso no corredor do prédio e descubro claramente o que sou, quem eu sou e porque sou o que sou. A luz filtrada dos apartamentos e que iluminava parcamente o corredor,  invade minha alma. Sou assim. Uma luz âmbar.

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