Bom humor ou ironia?


comedy / tragedy por Mr.  Mark

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=comedy&page=7

 

Maimônides disse: “O complexo está na superfície, mas para entendê-lo teríamos, nós mesmos, de sermos muito complexos.” Muitas vezes não temos a noção dessa complexidade. Partimos de nossas infelicidades quando tentamos entender o simples. De certo modo, somos culturalmente constrangidos a tornar mais difícil o que poderia ser entendido de modo menos doloroso.

Dependendo do nível de informação e das possibilidades reais de mobilidade cultural que possuímos, é esperável – quase impositivo – que sintamos dor, mal estar, depressão e um agudo sentimento de culpa e que, preferencialmente, nos dilaceremos. Há toda uma justificativa social para isso. Somos compelidos a infelicidade, às obrigações, às rotinas e assim por diante. Acreditamos firmemente em nossos terapeutas e em toda uma parafernália que sustenta e que se sustenta a partir do conceito triste de seriedade e de infelicidade.

Freud em O Mal Estar na Civilização (década de 30),argumenta que a construção da civilização é um exercício de repressão de Eros por parte de Tanathos,o que gera agressividade e desamor. O sistema social que nos limita é o mesmo que nos incita a sermos felizes, geralmente através da compra e venda, seja de produtos, de ideologia, ou de um estilo de vida. Assim, aprendemos a negociar ou a impor os nossos sentidos e sentimentos. Queremos inclusive que o outro sofra o que nós sofremos, o que é impossível, pois pessoas são diferentes. Podemos ser solidários, podemos ser piedosos, mas sentimos de modo distinto. Cada um chora o luto a seu modo.

Neste quadro o (bom) humor não é valorizado; antes é visto como um vício e não uma virtude, especialmente por quem se leva muito a sério o que, em realidade, é muito triste. Às pessoas muito sérias falta um pouco de autenticidade. Alguém que tenha a capacidade de trazer alegria a si mesmo e aos outros, não é bem visto por quem pretende demonstrar aos outros que viver infeliz é o normal e que portanto, somente a seriedade e a compra material ou a ascensão profissional são coisas que merecem ser vividas.

O humor, em si, é inclusivo, é uma virtude. Os que estão infelizes não suportam a leveza do humor. O mundo, afinal, é um calvário e, portanto, crêem que o ideal é buscarmos problemas como se isso fosse uma predestinação divina. No fundo, são pessoas que perderam o rumo do simples, da autenticidade, não se permitindo viver em paz. O tormento as comove, a intolerância e a sisudez são suas armas de combate.

Tais pessoas adoram a ironia, que é o inverso do humor. A ironia é uma arma, pronta para ser usada em qualquer circunstância; ela fere, ela marca territórios, ela exclui. Um irônico ri sempre dos outros, nunca de si mesmo. A ironia é sempre séria, sempre procurando algo a que cortar, é um fio de navalha, um estopim pronto a ser aceso. O irônico perde em humanidade, o bom humorado ganha em convivência, em solidariedade; o irônico se perde em solidões.

A não aceitação do humor pelo irônico bem fala a respeito de suas diferenças. Para o irônico, o bom humorado é o palhaço, o carente, o tolo, o bobo da corte, o que diverte aos demais buscando ser incluído por estes. O humor é algo viciante e só deve prevalecer desde que se lhe imponha regras, momentos, porque sendo sérias tais pessoas, elas possuem dificuldade em lidar com o inusitado, que é justamente uma das matérias primas do humor.

O humor é a flor do pensamento, sua ativação mais interessante. A ironia é a flor da tristeza e do afastamento. O humor, no fundo,  talvez tenha apenas comiseração quando encontra a ironia; irmã bastarda da leveza, seus passos irrompem trazendo o monocórdio, apontando armas enquanto o humor já se foi por ali, entre as árvores e os mares, apontando o caminho do que é belo, risonho e amorável.

É claro que ninguém é (ou pelo menos deveria) ser totalmente bem humorado ou irônico. Há uma necessidade de ambas as situações dentro dos diversos cenários que atravessamos diuturnamente. Contudo, quase sem querer ou sem percebermos acabamos tendo padrões de comportamento que demonstram que nossas escolhas fizemos para nós mesmos. Minha opção, consciente, já foi tomada. E a sua?

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