Mapeamento e complexidades


Museo della scienza e tecnologia di Tokyo por nanotubo

Fonte:http://www.flickr.com/search/?q=tecnologia

MAPEAMENTO E COMPLEXIDADES

Vivemos em um mundo mapeado, definido, onde as tecnologias da informática, da comunicação e das mídias são onipresentes; um cenário posto em exatidão, no qual cada vez mais a não linearidade se impõe em razão da complexidade cada vez maior das sociedades. Por outro lado, contrariamente à precisão da reta se ressalta a importância da curva, aqui entendida como as claras possibilidades criativas que se alimentam de um feedback coletivo, das nossas experiências e conhecimentos, que se difundem em rede e que constituem um contraponto a um mundo que herdou do tecnicismo um padrão não apenas comportamental, mas definidor de um paradigma disjuntivo. A criatividade não prescinde das interações em rede, da tolerância às diferenças, do saber ouvir, do desenvolver a empatia e conviver com o outro, muitas vezes divergindo de opiniões e de visões de mundo.

Não há assepsia no ato criativo, que não se restringe às certezas da reta. Contrariamente, é do pensar oblíquo, das relações não formais, da ubiqüidade, do que escapa à rotina, que podemos estender nossas possibilidades além das relações profissionais e de suas idiossincrasias. Podemos, sem o jugo da obrigação explícita, exercer convívios e criar hipóteses, aprofundando enriquecimentos pessoais, culturais e solidários. Assim, as idéias criativas podem se evidenciar não apenas em cenários contratuais, mas, por igual, no âmbito de um espírito de ócio e de liberdade.

A reta, que é um produto humano e que não existe na natureza, tem seu sentido e trajeto absolutamente definidos, o homem dá-lhe o início e destino; a curva, diversamente, erra, vaga, percorre o que não é conhecido; em suma, se arrisca a. Deste modo, não é demais associarmos a reta à precisão e a curva ligada às probabilidades das relações cognitivas e sociais em rede.

O exemplo icônico do mecanicismo é encontrado no espírito descartiano e dentro da física clássica, que constituíram e construíram uma visão de mundo regida pela disjunção entre corpo e mente, espírito e matéria, objetividade e subjetividade, exatidão e probabilidade. Para sustentar tal visão de mundo, era necessário erigir a ciência a uma substituta em potencial do sentido de transcendência tão cultuado na religiosidade. Esvaiu-se, com a idade moderna, iniciada com a revolução francesa em 1789, o poder que a Igreja Católica exerceu durante todo o medievo. O homem, que antes vivia de acordo com um processo produtivo no qual dominava todos os passos e procedimentos, passou a conviver com a desonra de ter um patrão e, portanto, não poder mais determinar sua própria vida. A partir da venda de sua capacidade laboral, passou a conviver com sua própria dependência. A reação a tal estado de coisas foi o ludismo.

O início do processo industrial, especialmente, aliado ao desenvolvimento de um capitalismo predatório ressaltou ainda mais clara a dissociação pregada pela ideologia mecanicista e as necessidades e sonhos das classes burguesa e proletária, ainda em processo de emergência social. Embora a mensagem política e institucional fosse a da liberdade econômica e social, a realidade não era condizente com a mesma. Os novos operários, submetidos, passaram a conviver em um cenário que os oprimia e os alienava em relação ao trabalho. O processo produtivo lhes era cada vez mais desconhecido e sua influência sobre o mesmo era basicamente nula. Apenas a venda da sua capacidade de trabalho sustentava a si e a sua família.

O desenvolvimento das cidades, muitas vezes de modo descontrolado, as novas vias de acesso e a implantação da coletivização de serviços públicos agenciada pelo Estado, a destruição pura e simples de recursos naturais para alimentar o processo de produção, as novas tecnologias e a concentração de renda findaram por não solucionar qualquer dos graves problemas nos quais mergulhou a sociedade. A naturalização da miséria, as guerras artificialmente fabricadas e mantidas pelos Estados em atenção aos interesses comerciais, o consumismo alienante e alienado e as mudanças dos processos industriais em face do gerenciamento científico não solucionaram de modo significativo qualquer dos problemas emergentes que se relacionavam com uma melhor qualidade de vida, incluindo-se aí não apenas salários nominais, mas questões como seguro desemprego, políticas públicas de saúde, moradia e segurança.

Do ponto de vista estatal era necessário intervir para garantir minimamente melhores condições para as classes mais marginalizadas pelo capitalismo; a idéia de welfare state (estado de bem estar social) passou a preponderar em algumas economias de ponta. Contudo, a escola monetarista de Chicago foi decisiva na implementação do neo-liberalismo a partir do controle das economias emergentes através de organismos financeiros internacionais, como o Fundo Monetário Internacional e o Bando Mundial, fundados a partir da reunião de cúpula de Breton Woods, após o final da Segunda Guerra Mundial, e que passaram a gerenciar a economia mundial, sob o controle dos Estados Unidos.

Enquanto isso, as ciências exploravam de modo cada vez mais aprofundado os fenômenos naturais. Se às matemáticas coube papel importantíssimo em um mundo regido pela disjunção e pelo mecanicismo, igualmente restou às mesmas, junto com a física molecular e a biologia uma distinta visão de mundo, seja a partir das relações biológicas e eco-estruturais, seja a partir do desenvolvimento da física nuclear. Através do projeto genoma cada vez mais o homem buscou se assenhorar dos conhecimentos do código genético, enquanto as multinacionais voltadas para a agricultura e alimentos solidificavam processos de implantação de novas tecnologias. Os novos avanços em medicina empurraram a idade média do homem para além de setenta anos e a explosão do consumo alienante passou a ser a mola mestra da economia.

O desenvolvimento das ciências sociais e naturais, especialmente os trabalhos de Schrödinger, Manuel Castells, Einstein, Planck, Freud e o surgimento dos serviços enquanto novo agente econômico, fizeram com que cada vez mais surgisse a necessidade do trabalho em rede, no que a implantação da web e da informática tiveram um papel fundamental. A comunicação não apenas institucional entre mestres e estudantes se expandiu de modo exponencial e hoje a tecnologia da informação permite com que fatos sejam apreciados no mundo todo de modo quase que simultâneo, graças às tecnologias dos satélites. É claro que devemos ter em mente que as informações são geradas e editadas por grandes redes de televisão e de mídia que não são infensas às pressões do capital, dele dependendo através do dinheiro dos anunciantes. Por isso, não sejamos românticos. No entanto, mesmo que recebamos tais informações como plânctons, há um mar informativo no qual temos mesmo dificuldades de navegar. Cabe a nós mesmos e aos sistemas educacionais formativos, em grande parte, a tarefa de nos tornar cidadãos do mundo, o que é especialmente difícil dentro da complexidade da educação e dos processos de ensino-aprendizagem. Sermos conscientes de nosso papel no mundo não é tarefa fácil, especialmente em uma época na qual os valores morais (não moralistas, por favor…), a ética e a solidariedade foram alienadas pelos verbos ter e possuir ao invés dos verbos ser e conviver.

De todo modo, a consciência de que somos muito mais nossos sentidos e sentimentos do que razão já é um bom início a trilhar, assim como a inegável constatação de que vivemos em um mundo no qual o estabelecimento de redes de solidariedade e de conhecimento são muito mais possíveis do que eram há cerca de cinqüenta anos atrás. Cada vez mais existem organizações no mundo todo preocupadas com a vida neste nosso planeta, e as manifestações a respeito das interações entre os humanos e seu habitat são cada vez mais intensas. Talvez tenhamos matado já muitas possibilidades, mas muitas ainda restam a ser cultivadas. O tratamento que se dá às questões cruciais, como, por exemplo, as de qualidade de educação, da permanência das guerras e do aquecimento global não podem ser deixadas simplesmente no âmbito do poder político e econômico: já sabemos onde nos levaram.

É cada vez mais necessário que expandamos os conhecimentos e nos relacionemos de modo que as sociedades civis organizadas, as ONGS e os mecanismos de agregação social possam tomar a si encargos cada vez mais complexos e que, ao fim e ao cabo, serão melhor solucionados fora do circuito oficial e do stablishment. Aproveitemos sabiamente as oportunidades da tecnologia para efetivarmos um contra-fluxo dentro desse sistema, criando comunidades bottom up de que nos fala brilhantemente Steven Johnson. Necessitamos de feedback, de interação, de inteligência coletiva; somos carentes cada vez mais da curva enquanto metáfora criativa. Afinal, se é preciso uma resposta à naturalização da miséria e da corrupção, e se nós mesmos sofremos as suas conseqüências, porque não buscarmos minorá-las através da nossa participação?

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