Oposições e individualidades


opposition por *_Abhi_*

Fonte: http://www.flickr.com/search/?w=all&q=opposition&m=text#page=4

Se tem algo que me cansa é ler textos cuja marca ideológica é quase insultuosa, no sentido de não respeitar a opinião do outro. Para quem tem por hábito agir assim, não é possível a divergência, porque se esta ocorrer, acontecerão as infindáveis discussões para provar que o meu ponto de vista é o melhor. Normalmente parte-se para a ironia ou a desqualificação do infeliz que comigo não compactua.  Então, se o sujeito tem um blog dito de esquerda, tenderá a bater sem dó nem piedade em quem tenha uma opinião de direita. É importante (não se sabe por que e nem para quem) provar que , no fundo, quem não compartilha do meu prato, dos meus talheres, é mau. Com um certo cuidado retórico, poderei também dizer que o oponente ideológico representa o mal. Isso vale, evidentemente, para o sujeito de direita em relação ao de esquerda.

Sempre pensei que isso é por demais arriscado, pois você acaba por contratar para si mesmo um papel muito claro: o do megafone. Sou megafone quando me obrigo, seja por convicção, seja por maneirismo, a endossar determinados pontos de vista, mesmo que com os mesmos eu discorde, para simplesmente sentir-me acolhido, respeitado por um determinado grupo político, social, econômico, cultural e assim por diante.

Quando Bauman (1) analisa as questões de recriação identitária, fala sobre as complexidades da filiação e, no mundo atual mundo do consumo, da constante (re)criação identitária. Não basta que eu seja de tal ou qual maneira e que pense de modo a me filiar a essa ou aquela posição, mas, especialmente, eu devo parecer isso. Daí seguirmos tendências não só do ponto de vista do consumo, mas também no que concerne a matriz ideológica na qual pretensamente estamos imersos.

Dufour (2) ao pensar a pós-modernidade diz que grandes categorias de pensamento orientadores do sujeito no modernismo encontram-se atualmente em vias de descrédito, e uma delas é o sectarismo político, enquanto protagonista da história do Estado, baseada esta em duas grandes vertentes: a do território e a do sangue – em suma, da terra dos pais. Retornando a Bauman, o mesmo problematiza a questão do envolvimento, aqui visto no sentido de compromisso. Em um mundo fluido, no qual as tradições são muito mais resultados de uma sociedade de produtores, moderna, há uma tendência a que os comprometimentos escoem pelo ralo, atendendo às necessidades cada vez mais pragmáticas e individualistas da formação do próprio homem como mercadoria.

O que se observa hoje em dia é que as defesas radicais em relação à posições políticas cada vez vem diminuindo sua aceitação entre os mais jovens. Isso não se dá por acaso, e Dufour é muitíssimo claro em perceber tal fenômeno, que é buscado pela cooptação das consciências aos rituais capitalistas pós-modernos. Antes de se agregar a uma determinada ideologia, seguindo os padrões rituais do momento, os jovens aderem à causas específicas. O mesmo homem que protesta contra a mortandade das baleias pode não aderir ao discurso político que denuncia, por exemplo, guerras étnicas e limpezas raciais. O mesmo jovem que vai às ruas contra o governo A ou B ou C se aliena das verdadeiras causas que fizeram com que tais governos dessem oportunidade para tais protestos. Em suma, o político, enquanto discurso, se esgota.

Há, contudo, aqueles que acreditam, que crêem nas bandeiras que pretendem honrar. São os modernos, aqueles cujo sacrifício em relação a uma causa faz parte de sua história pessoal. São os que ficam, os que enfrentam lutas para que todos colham seus benefícios. E são esses também os desacreditados dentro dos parâmetros pós-modernos. Ao dar voz e atividade às suas lutas, são eminentemente simbólicos, algo que não interessa à circulação de mercadorias (novamente Dufour) pois não são acríticos.

No entanto, há muitas vezes o discurso pelo discurso, e é contra esse que estou me insurgindo. Não é possível que se ridicularize alguém pelas suas idéias. E é isso que vejo muito, até porque não se discutem idéias, se discutem e se estereotipam pessoas. Os que ridicularizam normalmente são aqueles que vestem fantasias indicativas da sua tribo. Assim como todo jovem rebelde punha as mesmas calças jeans, blues nos anos 70 e, a partir daí compunham um uniforme adequado, absolutamente reconhecíveis, bem como os nemos tem as suas insígnias, os partidários da direita política costumam ostentar sorrisos cínicos e argumentos identificáveis pelo sarcasmo com que conduzem seus argumentos, que provavelmente cairão no vazio pois os ignorantes da esquerda não irão entendê-los, enquanto os da esquerda preferem uma sisudez perplexa e um negar absolutamente histérico a qualquer coisa que não lhes seja ao menos retoricamente favorável. E assim, vão compondo seus tipos, seu life stylle, seus esgares.     

Fashions, de todo, aguardando a hora do indizível prazer de, sem pudor, jogar a primeira pedra.

(1) Bauman, Szygmunt, in Vida para Consumo, Jorge Zahar Ed., 2008

(2) Dufour, Dany Robert, in A arte de reduzir as cabeças…….., Ed. Companhia de Freud, 2005

 

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