Venda e venda


day 38 - caught between my sheets por jblamejor

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=vendado

Venda x venda.  Venda. Vendável. Vendido. A venda venda os olhos e vendados, não raro, vamos à venda. Somos mercadorias, e Bauman está correto em Vida para Consumo (ed. Zahar, 2008). Nos tornamos mercadoria, de certo modo, por osmose, porque não resistimos aos apelos midiáticos que tentam conformar a nossa identidade, o nosso lugar dentro do contexto social. Sofremos a influência dos amigos, dos parentes, do meio em que circulamos. Talvez por isso não seja, no mundo do consumo, tão necessário pensar, tão cabível expormos nossos rostos a nós mesmos. Basta seguir o fluxo do consumo, aquele que (novamente Bauman) não tem fim. Leciono matemática: de certo modo o consumo lembra o universo dos números inteiros: ilimitados, decrescendo até o infinito, crescendo até o infinito, passando pelo ponto de harmonia, de equilíbrio, o ponto zero. 

Na lógica da sociedade do consumo, o negativo corresponde àqueles que sofrem diuturnamente as marcas da exclusão. Os que não tem cartão de crédito nem cheque, os exilados do mundo produtivo, os que não tem acesso. Já os que tem, precisam estar prontos para mostrar, demonstrar inequivocamente o seu comportamento de mercadoria, mercantilista, objetivando o acolhimento pelos seus pares ou uma proposta mais vantajosa do mundo produtivo.  Não há associatividade sem o compartilhamento não apenas de conveniências mas, igualmente, de uniformes simbólicos. Os que integram o banquete do consumo devem suportar uma (re)construção de imagem, porque são a tanto exigidos. A instância fashioned não mais é uma opção, mas uma estrada a ser seguida, mesmo que você saiba conscientemente até onde possa chegar. Existe limite para você, mas não para a estrada. Frase de Bauman: na sociedade do consumo, a solidariedade é a primeira vítima. Enquanto isso, ficamos aqui e ali, vagando, sem que haja qualquer espaço público no qual a inesgotável capacidade de convencimento da publicidade não seja exercida. Contudo, além dos espaços públicos, os privados também sofrem o assédio da compra e venda, da mercancia.

Tudo democraticamente busca convencer para a compra: os portais da web, as emissoras de rádio e televisão, os produtos culturais (começando pelos patrocinadores, apoiadores, etc, mais o merchandising explícito), os políticos (promovendo sua auto-imagem e disseminando suas ideologias), os espaços públicos locados (cartazes, papelotes, outdoors). Não há um espaço sequer, um milímetro, um argumento que não tenha possibillidade de ser transformado em mercancia. Talvez por isso, mas sem dúvida não só por isso, o mundo do simbólico, da ética e dos valores também sofra a influência de tais fatores.  Bauman fotografa brilhantemente o estado de coisas atual. Somos, no fundo, gadgets, vendendo nossas imagens para conseguirmos melhores empregos, bolsas de estudo, vantagens econômicas, persistirmos em nossas zonas de conforto, sermos reconhecidos, de preferência adorados, invejados, enfim, ascendermos à glória, à fama e ao poder. É a redenção de todos os seres humanos que trazem no consumo constante e impertinente o único consolo para suas vidas e para seus sonhos ambiciosos.

Àqueles degredados, aos que convivem nos anéis da degradação econômica, social e financeira, reservamos o lugar tão ameaçador de párias, de renegados, ou de potencialmente criminosos. Enquanto o círculo da miséria, do desemprego aumenta, continuamos registrando os fatos em nossos seminários, congressos, casas legislativas, escolas, ongs, e por aí vai. O mundo se esboroa, mas nos parece que isso só será real quando os alicerces das nossas casas forem atingidos. Então, se pudermos, iremos morar em outro lugar, além, adiante, alhures, acolá, mas aqui não permaneceremos. Se, contudo, não pudermos, é bom que preparemos o repasto, porque a alcatéia que criamos deliberadamente virá, com força, morder nossas fatias de solidão.

 

 

 

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