Chá com bolinhos


Chá de cozinha por Mira.Art

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=ch%C3%A1+com+bolinhos&page=2

A velha senhora buscou, no seus guardados, as fotos dos seus netos. Achou-as, cuidadosa que era, e as deixou sob  a mesa do comedor, dirigindo-se à cozinha, onde – apeteceu-lhe! começou a preparar um chá com bolinhos. “Nada melhor do que um chá, em uma tarde chuvosa como hoje”, considerou. Enquanto as nuvens de chuva – “cumulus nimbus”, diria nossa querida vozinha – escureciam a cidade, o Borracha preparava-se para invadir a casa da velha. Tinha verificado sua rotina: ela não poderia nem conseguiria opor resistência, o corpo e a idade não lhe permitiriam, além do que ela era aposentada e morava sozinha. Os filhos só a viam de meses em meses. “Perfeito, hoje vou fazer a festa”, pensou. Agora mesmo sabia que ela estava provavelmente fazendo algum chá com bolinho, coisa de velha. Sorriu e apertou com força o pé-de-cabra e verificou se a faca continuava consigo. Tudo bem. Borracha, quase sem qualquer cuidados – até para não levantar suspeitas – aproximou-se debaixo da chuva, que já se transformara em tempestade. “Vou fazer uma limpa, só dinheiro e jóias”, susurrou, antegozando o momento que se aproximava…

Logo que a velha senhora começou a desfrutar o gosto do chá e dos seus maravilhosos bolinhos – não havia quem não invejasse seus dotes culinários – percebeu claramente o barulho da porta dos fundos sendo forçada. “Ladrão”, teve a cerrteza imediata. O que aconteceria a seguir? Sentiu que alguém entrara na casa. A sensação de desamparo ocorreu-lhe, mas, sabia, tinha de lutar contra a mesma. O telefone mais próximo se encontrava na sala, e era tão antigo quanto a casa. Recriminou-se por não ter comprado um celular, ou um telefone sem fio, o que seria suficiente para si mesma, pois raramente saía. Novo  movimento. A visão periférica da velha senhora acusou: o desconhecido havia, efetivamente, entrado na cozinha.

O tempo, a chuva, a escuridão, a própria casa, tudo congelou, tudo ficou momentaneamente suspenso, como se o próprio ar, de repente, ficasse sólido.

Borracha ficou tão espantado quanto estático. Do meio do cenário, da xícara de chá, das bolachinhas, dos bolinhos, da velha mão enrugada da sua pretensa vítima brotou uma pistola Taurus PT 59 S calibre 38. Borracha surpreso, parado. O alvo perfeito. Quatro disparos foram feitos. O primeiro atingiu-o no ombro esquerdo, o segundo na articulação do joelho direito, o terceiro  no estomago. Ele se curvou, mas não viu mais nada. O quarto tiro o atingiu no lobo temporal, mas sequer foi registrado. Ele já havia mergulhado para a escuridão.

Dez minutos após ter terminado o chá, a velha senhora dirigiu-se à janela, onde ficou olhando a chuva amainar. Somente após fumar seu cigarro habitual, dirigiu-se lentamente para o telefone da sala. O corpo ainda vertia sangue. “Os peritos vão ter trabalho”, pensou, resignada.

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