Os bondes e o papel machê


bonde.jpg por Vanderlei Campos

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=bonde&page=2

 

Com cinquenta e cinco anos, já posso falar que algumas coisas “na minha época” eram diferentes de hoje. O tempo, a experiência e os fatos nos modificam. Lembro que vivi uma Porto Alegre em que pais e filhos passeavam tranquilamente pelo centro nos finais de semana, já tarde da noite, sem nenhuma preocupação maior com a violência; em que, como crianças podíamos escolhar o “campinho” onde jogar bola; de como andávamos uniformizados com as vestes das escolas; dos mistérios assombrosos da adolescência. Não tínhamos computadores, mas carrinhos de lomba; não tínhamos brinquedos eletrônicos, mas carrinhos de madeira pintados à mão. Entre as lembranças, uma especialmente carinhosa é a dos bondes, associados ao romantismo de uma época que não existe mais. Os bondes pararam de circular em março de 1970 em Porto Alegre, quando eu tinha 16 anos; era, portanto parte do meu dia-a-dia até a adolescência.

Recordo dos motorneiros uniformizados, do valanço que o veículo fazia, dos bancos de madeira. Era muito gostoso andar de bonde: como diríamos hoje, era um meio de transporte agradável, ecológico, quase auto-sustentável. Os bondes gaiola acabaram com a invasão dos automóveis. Hoje, mais de quarenta anos após, chegamos a conclusão de que os bondes eram uma ótima alternativa, especialmente por serem movidos por um combustível limpo, como a eletricidade, não poluente e não-fóssil.

Esquecendo de considerações técnicas, incabíveis aqui, os bondes eram uma experiência física, tátil, um contato com algo mais natural (suas estruturas eram feitas de madeira), um convite à proximidade, à conversa, à comunicação, aos comentários sobre o que estava acontecendo na política. Andar de bonde gaiola era sentir-se mais livre, mais fraterno.

Hoje não há mais bondes. Infelizmente. Mas esse “infelizmente” não termina aqui, não se trata de puro saudosismo, mas de indignação pois os crápulas, sempre de plantão, adulteraram violentamente o sentido do que conhecemos como bondes, Hoje, “bonde” passou a ser sinônimo de gangues que andam por aí, especialmente nas periferias, espancando, amedrontando, criando áreas de domínio, “guetos”, estruturas de poder paralelo que submetem suas vítimas a todo tipo de indignidades. Se a palavra foi desvirtuada por essa corja, seu sentido foi bem mais. Hoje, “participar de um bonde” é integrar um grupo marginal, violento, com regras absolutamente demarcadas e hierárquicas. É estar a serviço de um trem de abominações e covardias, é concordar em juntar-se com uma matilha.

A escola em que trabalho atende a uma comunidade assolada por grupos de tráfico, aos quais vieram juntar-se os “bondes”, que chegam a mais de uma dezena em Porto Alegre. Os “bondes”, ao que se saiba, tem como única ocupação a de marcar território e de mostrar que são “os caras”, que “mandam”, que “apavoram” e que, enfim, fazem o que bem entendem do jeito que bem entendem na hora que bem entendem. Que se tenha notícia, as pessoas “marcadas” pelos bondes serão vitimizadas, desde ameaças até a pancadaria covarde.  Os “bondes” não possuem, ao menos que eu saiba, qualquer componente ideológico, como alguns outros grupos de terrorismo urbano de ultra-direita, como os skinheads ou os grupos neonazistas, que tem uma inspiração política baseada no racismo e na limpeza étnica. São auto-afirmativos, cumprindo sua função de ameaçar e vandalizar, impor-se através do medo da marcação de territórios. Evidentemente, em relação à escola pública onde trabalho, ocorre o mesmo. A situação, grave em relação a determinados alunos, ou ameçados ou integrantes de “bondes”, deriva para um sentimento de insegurança generalizado, ampliado cada vez mais pelas reverberações do dia-a-dia em que o diz-que-me-disse campeia solto. Na verdade, todos nos sentimos, com maior ou menor intensidade, emparedados, mas sem que as mesmas ofereçam abrigo e proteção. A cada dia de trabalho tais paredes parecem, cada vez mais, ser feitas de papel machê.

Um comentário sobre “Os bondes e o papel machê

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