J. e o poço


O Poço por ana/g

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=po%C3%A7o&page=22

J. saiu de casa com uma neblina forte atrapalhando tudo e um frio que começava na pele, passava pelos ossos e terminava na alma.  O sol era apenas uma presença tênue naquela manhã, na qual pequenos cristais gelados se acumulavam nas folhas das árvores e tornavam o clima mais úmido.

J. Coadjuvante como ele próprio se sentia agora, enfrentando a geada como enfrentava, muitas vezes, a si mesmo e suas limitações. Vinha pensando nisso quando chegou, finalmente, ao poço. O mecanismo também estava congelando.  Jogou o balde e começou a movimentar a roldana, logo que ouviu o ruído da água. Pele muito clara, logo suas mãos e seu rosto rapidamente ficaram róseos, para progredir para um vermelho estranho, típico. Os olhos azuis cerravam enquanto as mãos buscavam o balde; seus pensamentos vagavam, erravam entre suas memórias e seu presente porque o futuro não lhe parecia nada mais que uma sequencia rotineira e um pouco sem sentido. Uma vaca mugiu no pasto, logo adiante. J. estava tão conformado com sua vida que nada enxergava à frente. Finalmente o balde chegara às suas mãos. Apanhou-o, transferiu a água do balde para a tina que havia traazido e voltou-se para retornar à casa. Alguns metros depois, escutou os ruídos vindos do poço. De dentro dele.  O frio fez com que ainda se espantasse mais. Não conseguia, ali, reconhecer vozes humanas, menos ainda algum som de animal, daqueles que possuía em sua granja: patos, bois, cavalo, galinhas… Absolutamente nada se assemelhava àquele timbre rascado, incrivelmente agudo e dorido. Levou as mãos ao ouvido, enquanto, com cautela, apanhou uma enxada. Reclinou-se sobre o poço, e teve dificuldade de observar algo. Ali, no fundo, pensou ter percebido uma sombra. De repente o som aumentou muito de intensidade, e ele recuou. A enxada caiu de suas mãos e sentiu o sangue escorrer de seus ouvidos. Era ensurdecedor e terrivelmente agudo. Olhou para o poço, mais sentiu do que viu algo saindo de lá. Algo assustador que ele não conseguiu definir, pois o desmaio o apanhou e o fez descansar.

Pela tarde, J. não regressou à casa, nem pela manhã e tarde seguintes. Clara, sua mulher, então avisou a delegacia local, que saiu a procurá-lo. J. foi localizado quinze quilometros ao sul da granja: vagava como se o tempo tivesse congelado; errava como se nada de diferente tivesse ocorrido. Para a polícia e a pequena comunidade rural, o breve desaparecimento foi motivo para conversas, fofocas e diz-que-diz-ques. Surpresos também ficaram os policiais quando sua esposa o recebeu como se tal sumiço fosse uma rotina; ela recebeu J. bastante tranquila, entrou na casa, ofereceu café aos policiais que terminaram por não aceitar, tinham de retornar à delegacia, uma reunião com o delegado os esperava. Mas eles estranharam muito tal recepção. No dia anterior, Clara havia ligado bastante preocupada, quase histérica no telefone: gritara inclusive, exigindo providências urgentes. Agora, recebera J. como se tal desaparecimento fosse normal. Os dois policiais, ao retornarem, comentaram o fato. Era como, de algum modo, ela soubesse que nada de maior teria acontecido com o marido.  A impressão era a de que ela recebera notícias que informavam que  J.  não corria riscos maiores, mas não as havia repassado à polícia. De comum acordo, os policiais decidiram que, de quando em quando, retornariam à granja, para verificar como estavam as coisas. O sargento Eduardo Pinto verificou seu relógio: quatro e meia da tarde; acelerou o veículo, para não chegarem atrasados na delegacia. Mais alguns minutos e a reunião iniciaria.

Com o decorrer do tempo, a comunidade achou outros assuntos para falar, embora, realmente, não houvesse grandes opções de assuntos pessoais para escarafunchar, para aumentar o entretenimento: afinal, todos sabiam que o barbeiro tinha uma amante e que sua mulher fazia de tudo para evitar qualquer atitude, que o governo do Estado construiria uma estrada (a promessa tinha já cinco anos) para escoar a produção rural, no mais eram os ataques de epilepsia de Eleumara, a qualquer tempo, a morte ainda não explicada de Rafael Borges, alfaiate casado com Laurinda Estrela, enfim. por aí íam os assuntos do dia-a-dia do povo, afora as questões economicas como os valores das safras, e, sem dúvida alguma, as eleições próximas, onde haveria uma previsível vitória da direita, porque, como se sabe, os petistas são todos uns vermelhos comunistas canalhas inconfiáveis e por aí vai. De tal maneira assim, que o breve desaparecimento de J. não rendia muito como assunto, tendo, portanto, sido paulatinamente relegado ao esquecimento, embora todos reconhecessem que ele havia ficado com uma sequela importante: não conseguia mais escutar no ouvido esquerdo, apenas no direito. Os exames médicos confirmaram: ele havia ficado surdo daquele ouvido, mas não se lembrava de como aquilo tinha ocorrido, o que intrigou bastante o único oftalmologista que havia, num raio de quarenta quilômetros da granja. Também, sempre que perguntavam a J. o que havia acontecido, porque ele havia sumido e o que afinal houve com seu ouvido, mesmo os amigos mais chegados – não eram muito – recebiam a mesma resposta: a única coisa que J. se lembrava era de que acordara de manhãzinha bem cedo para fazer seu café. Daí para frente, uma lacuna enorme; sequer se lembrava do motivo pelo qual perambulara, até se afastar quinze quilômetros da casa e ser “achado pela polícia”. Um branco total, e daí não evoluía sua fala, menos ainda sua memória.

A única pessoa que sabia o que havia realmente ocorrido era Clara, que entendia perfeitamente porque J. havia tido sequelas após ouvir o que ouviu. Casar e morar ali tinha sido um risco calculado, que ela não revelaria nunca. Mesmo ela, porém, tinha dúvidas: ele teria, afinal, visto algo, mesmo que de relance? De qualquer modo, ela não poderia, simplesmente, fechar, lacrar o poço. Afinal era ali o seu abrigo predileto quando ficava junto aos seus, com os dentes aguçados e ouvidos extremamente sensíveis à caça enquanto J. como bom e arrependido cristão, dormia o sono dos justos.

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