Ano que vem, aposento.


Folha de ouro...Golden leaf... por max tuta noronha

Fonte:http://www.flickr.com/search/?z=e&w=all&q=giz+e+educa%C3%A7%C3%A3o&m=text

Não é fácil lidar com gente desequilibrada, mas até isso aprendemos, quando somos obrigados a conviver por força profissional. Fico, por vezes, pensando na minha aposentadoria, que deverá ocorrer no ano que vem, 2011. Me lembro que, aos trinta ou quarenta anos, sempre pensava na aposentadoria como algo absolutamente distante e, quase que de repente, bingo! ela já está chegando, a cada dia mais rápido, batendo à minha porta. Ano que vem, senão em Jerusalém, não mais aqui.

Vou me despedir da diuturnidade do exercício profissional, da sala de aula em um período particularmente triste da história da educação municipal de Porto Alegre. Convivo com o mecanismo burro da aprovação automática, com interferências e intervenções da Secretaria Municipal de Educação no processo de aprovação e, óbvio, avaliativo, com o esvaziamento do papel do professor, com violências simbólicas e físicas de toda ordem, com a sistemática humilhação e achincalhe praticado nas salas de aula, com o bullying, com apoio zero aos professores, e, sobrepairando tudo, com uma dificuldade cada vez mais crescente em ensinar, mesmo porque ninguém consegue fazer isso em meio à indisciplina e ao caos, que para muitos é chamado de protagonismo juvenil, portanto devendo trazer consequencia zero àqueles que as promovem. É esse o cenário que vou abandonar daqui a um ano, aproximadamente.

Do que vou sentir saudades? Das pessoas, de determinados alunos, do grupo da EJA, do clima descontraído, de determinadas turmas e só. Vou também sentir falta da minha atividade de ingressar em aula, das minhas manifestações e de um certo prestígio que acumulei graças ao meu caráter, à minha experiência e aos meus estudos. Em compensação, não vou sentir saudades das convivências forçadas, seja com alunos, seja com colegas, das famigeradas reuniões onde tudo se diz mas nada se concretiza, do ambiente de confinamento, dos gritos, dos berros nos corredores, dos chutes nas portas, dos palavrões cruzando os ares, de algumas colegas de expressão bovina ou indiferente e um coração transbordando de culpa, da indolência calculada, das conversas circulares, da falta de humor, da irresponsabilidade e da falta de consequencia sobre o que é feito ou que não é feito, das desculpas aos atos de vandalismo praticados, do medo genérico, da falta de comunicação entre os profissionais, das vaidades incontidas e dos amaldiçoados discursos compensatórios, da burrice compulsória, da ignorância dissimulada, dos oportunismos e das fofocas de corredores, além dos sorrisos falsos e dos hipócritas de todas as formas, tamanhos e cores. De nada disso eu vou sentir a mínima falta; pelo contrário, vou me sentir muito feliz em não ser mais obrigado, por força profissional, a conviver com tal horda.

Nunca imaginei que os meus sonhos, que os meus projetos, que o que pretendo para mim e para minha família dependesse única e exclusivamente do meu trabalho. Explico melhor: não acho que vá morrer ou entrar em depressão quando me aposentar. Para isso fui cultivando, ao longo dos anos, verdadeiros prazeres: ler, escrever, desenhar, assistir televisão, cuidar do meu blog, etc. Aprendi a gostar de viajar. Portanto, não ter de seguir rigorosamente uma obrigatoriedade estrita de horários obrigacionais não me levará, presumo, à depressão ou ao suicídio ou ao endurecimento das minhas redes neurais. Será o tempo da gratificação pessoal, o da terceira idade, desde que, é claro, como vive dizendo e com razão a Aninha, eu tenha saúde. Meu ponto fraco é a minha saúde, a minha diabetes, que eu trato com um desprezo suicida.

Voltando, na verdade lamento muito por aqueles que dizem que “não sabem o que fazer quando se aposentarem” e que muitas vezes apenas por vaidade pessoal ou por falta de projeto ficam se lamentando, buscando uma carga de trabalho maior ainda do que tem na ativa. É claro que cada qual sabe onde lhe aperta o sapato, mas também me parece justo que a pessoa, após décadas de dedicação ao trabalho, onde tanto em termos pessoais foi sacrificado ou renunciado, passe a ficar mais próxima de si mesma e de seus sonhos, de seus prazeres e de sua família. De todo modo, sempre haverá alguma ONG para ajudar, alguma atividade junto a um hospital, a crianças, a idosos, algo interessante para ler, uma viagem programada a fazer, um curso de teatro, um grupo de amigos, algo que não seja apenas para preencher vazios, mas para tornar a vida um passeio lúdico, talvez uma derradeira ida ao Paraíso.

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