Ensinamentos “vegetarianos” da Mariana.


Frutta e verdura alla Fiera di Ottone por fede0253

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=verduras

ENSINAMENTOS VEGETARIANOS DA MARIANA

Outra delícia de texto da Ana Godoy, diletíssima amiga!

Ainda que os tempos não sejam dos melhores, apesar do turbilhão que está sendo o meu existir nos últimos meses, agradeço à vida, sempre, por conseguir, ainda, aprender. E aprender com os filhos é a melhor coisa do mundo! Por mais que eu goste da aprendizagem formal, nenhuma teoria ou saber retórico suplanta o ensinamento de uma criança, que ensina sem saber que está ensinando, de uma forma absolutamente pura e sincera. Diferentemente de nós, adultos, seus discursos estão totalmente colados à sua prática pelo simples fato que eles não aprenderam, ainda, a dissociar essas duas coisas (que bom seria se nunca tivéssemos aprendido!).

Minha pequena Mariana, do alto dos seus 3 anos, chegou em casa semana passada toda faceira porque sua melhor amiga na escola, a Daniela, era, agora, vegetariana. “Sabe, mamãe, que a Dani agora não é mais carnívora?! Eu que contei pra ela não ser mais!” Confesso que fiquei meio gelada. A última vez que o Pedro (7) tentou convencer alguém a deixar de comer carne, arrumou uma confusão tal que tive que trocá-lo de escola! “Como assim, Mari, explica melhor….”, pedi. E ela explicou, direitinho, que tinha dito pra Dani que o chester que ela estava comendo no sanduíche um dia tinha sido um bichinho, que teve de ser morto para virar refeição. Conta a Mari que a Dani não acreditou muito, mas que no dia seguinte a mesma história se repetiu, tendo por protagonista, dessa vez, a salsicha do cachorrinho-quente e, por coadjuvantes, as balas de goma do aniversário de uma outra coleguinha. “E agora, mãe, a Dani disse que não vai mais comer bicho morto! E trouxe só pão com queijo hoje no lanche.” Fiquei muito emocionada com o jeitinho da Mari contando a sua história, e sobretudo com a sua carinha de satisfação; mas ainda estava preocupada….

Ao buscar as crianças na escola no dia seguinte, tentei fugir de fininho do pai da Dani, com medo de uma represália (não estava precisando de mais confusão pro meu lado!). Eis que, pra minha surpresa, ele veio me parabenizar pela filha que eu tinha! Disse que achou lindo a Dani contando pra ele e pra mãe como ela tinha aprendido, com sua amiga Mariana, que a gente não precisa se alimentar de animais “pra ficar forte”, e como é importante amar e respeitar os bichinhos. Ele, um uruguaio acostumadíssimo a comer carne todo santo dia, ficou tocado e se comprometeu a tentar uma dieta vegetariana não-ortodoxa. A mãe, ainda certa de que proteína animal fosse fundamental na dieta humana, ainda tentou, no domingo, oferecer um franguinho assado. O almoço em família, no entanto, foi frustrado com a choradeira da Dani, que, vendo o franguinho estaqueado no prato, armou a maior saia-justa pra mãe (que, graças aos deuses do Olimpo, não maldisse à Mariana nem a mim, mas resignou-se a tentar a tal dieta ovo-lacto vegetariana).

Estou feliz pela Dani e sua família que, com certeza, terão muito mais saúde e paz de espírito a partir de agora. Mas, sobretudo, muito orgulhosa da Mariana. Ela me mostrou não só que é possível, sim, tocar as pessoas nas suas crenças mais arraigadas, mas, principalmente, mostrou COMO fazê-lo. A Mariana sempre teve uma personalidade plácida, por essência. Diferentemente do Pedro-faca-nas-botas, que arma o maior barraco quando alguém nos convida pra um churrasco, fuma na frente dele ou maltrata um animal (mesmo sem querer, como outro dia quando ele presenciou o atropelamento de um bicho-cabeludo e ficou revoltado o dia inteirinho, querendo que eu pegasse a placa do carro e fosse à polícia!), a Mariana conseguiu convencer a amiga e a sua família por um meio pacífico, de amor. O amor feroz do Pedro é até certo ponto lindo de ver quando percebo a vida lhe saindo de dentro assim aos borbotões… Tenho certeza de que ele será um ferrenho defensor das causas ambientais. Imagino-o já dependurado em um mastro de navio com uma camiseta do Green Peace. Mas essa forma exarcebada de discurso causa por certo mais problemas do que soluções. Eu mesma já perdi a convivência de duas amigas por conta dos ímpetos do meu filho… E ele mesmo já perdeu oportunidades de convivência com os colegas porque os pais o julgam “xiita”… O que a Mariana me provou foi que o “afetivo é o mais efetivo” (não lembro qual psicanalista disse isso), que a doçura não prescinde a razão, que a paciência é uma virtude a ser cultivada e que a compaixão é a base de toda a sabedoria, inclusive (e sobretudo) da vegetariana. Se não comemos um animal em respeito à sua vida, como não respeitar o modo de viver de um outro semelhante, como não respeitar as opiniões contrárias (ainda que não façam sentido!), as diferenças (aliás, por enquanto, somos nós, vegetarianos, os diferentes)?!

Umas semanas atrás tivemos na região uma grande feira de agropecuária (a Expointer). O Pedro, ao ver uns vídeos sobre as crueldades a que os humanos expunham os animais que ali estavam saiu bradando; “Eu mato, eu mato esses caras!…” Furioso, enraivecido, se soubesse dirigir tinha pegado as chaves do meu carro e partido pra um confronto direto! A Mariana, vendo o furacão em ação, disse calmamente: “Pedro, aí tu vai ser igual a eles!” Ao que o pequeno parou e concordou: “É mesmo…” Ainda bem que temos, eu e o Pedro, a Mari pra nos lembrar dessas coisas…

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