Eu, Saramago e L’Osservatore Romano


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,deus-nao-existe-fora-da-cabeca-das-pessoas,452076,0.htm

De José Saramago li, até o momento, dois livros,  A caverna e Ensaio sobre a cegueira. Ambos me impressionaram muito e me fizeram ter uma outra relação com a escrita. Há escritores que são definitivos e Saramago, em minha opinião, é um deles. Não só pelo estilo, mas pelas histórias, ambas comovedoras e extremamente humanas. Os seus livros, em vários momentos, alternavam frases de chumbo, pensamentos de angústias remotas, opções fluidas como desenhos feitos a dedo em areias de praia. O peso de ser humano alternado com a possibilidade de ser mais do que a si próprio se admite. O autor ajudou na minha formação dentro das suas histórias; misturei-me e sofri com seus personagens, muitas vezes ri junto com eles. Enquanto a previsibilidade cinza da Caverna me engessava e me fazia observar a loucura de vidas sem sentido, Ensaio sobre a cegueira me fez lembrar como somos todos cegos e de que modo lidamos com essa incapacidade de ver, que é a mesma de nos movermos. Talvez a maior formação seja a que vem através dos livros, onde podemos observar não somente a decorrência dos personagens, mas, especialmente, as nossas próprias excitações e melancolias. Me vi através do que Saramago me fez ver, e essa lição é inesquecível.

De  repente, e somos todos humanos para compartilhar da experiência da morte. Saramago a provou em 18 de junho, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias,   nos braços de sua amada Pilar Del Rio.  Teve enterro com honras de Chefe de Estado. Enquanto o mundo reverenciava respeitosamente a memória e a obra do primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Premio Nobel de Literatura, em 1998, surgiu justamente do Vaticano, através do seu Jornal L’Osservatore Romano, uma crítica virulenta escrita por um Claudio Toscani, para o qual Saramago era ateu (coisa que o autor nunca negou), comunista (idem) e marxista (ibidem).  O Vaticano emitiu um juízo de valor sobre o cadáver de um homem que claramente não aceitava a própria instituição católica. Para o Vaticano, houve a vendetta que vilipendiou um morto. Cristo, tenho certeza, se me permite a Instituição Católica, não teria feito tal comentário desleal e desonroso. Parece que nos tempos atuais cada vez menos o Vaticano compactua com as palavras e com a vida do Filho de Deus, a quem diz representar na Terra.

Afinal, se Saramago não era católico, mas ateu, e sendo bastante impesssoal, qual o interesse do Vaticano  em uma retaliação post-mortem?

De todo modo, não tomem meus leitores a crítica ao que disse e mandou publicar o Vaticano como uma reprimenda ao Cristianismo;  respeito, por convicção própria, o direito universal de ter-se uma consciência religiosa, o que não me impede de fazer uma diferença bastante clara entre o que ensinam os ministérios e o que se pratica em nome de quem deveria ser maximamente respeitado.  Conforme se diz: o que Pedro diz sobre Paulo diz mais sobre Pedro do que sobre Paulo.

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