Desde que purguemos


máscara por Peka!

Fonte: http://www.flickr.com/search/?w=all&q=mascara&m=text

Não há qualquer problema em simular, bastando elevar a mentira a níveis de arte. Podemos optar entre só-mentir, dissimular, iludir, enganar, ser subreptício, enfim, exercer todo o arco de opções possível no sentido de elevar a nossa vontade, necessidade ou auto-estima ao grande simulacro onde, além do já visto, haverá a desídia, a calúnia, a malícia, o sarcasmo, a ironia, a subserviência, a traição. Como sabemos, contudo e de longa data, obter-se o simulacro é mais trabalhoso, pois, normalmente envolve terceiros. Aqui talvez seja necessária a coação,  a intimidação, mesmo o suborno ou as promessas compensatórias. Dependendo das circunstâncias, mesmo a fé ou o peso esmagador da organização pode gestar um criadouro de submissos, a partir de suas próprias mediocridades e zonas de conforto. De todo modo, em meio ao processo, você se sentirá íntimamente imundo, covarde e tão abominavelmente estúpido que poderá vislumbrar, talvez pela primeira vez na vida, os efeitos que a falta de caráter causam. Chegará, pior, o dia em que os que hoje lhe adulam, lhe bajulam e lhe são subalternos, dirão ou farão entender que o conhecem tão perfeitamente como sua própria sombra, que lhe esquadriam os pensamentos e as vontades. Cuidado. Aproxima-se o momento em que sua prepotência vai começar a ser insuficiente e, tal como uma casa, mostrar suas primeiras fissuras, seus incontidos sinais de ruína, em que a sua estupidez será como um tapete de grosserias a demonstrar sua verdadeira face, tempo em que as suas desinteligências serão vistas e comentadas por todos, ridicularizadas a olho nu.

Não se esqueça, o poder não é uma passagem de mistérios, mas um pêndulo, no qual somos apenas pontos flutuantes, não mais que isso. Nos iludimos aqui e ali, como se fossemos os reis de um castelo, e nos desiludimos enormemente quando chegamos a conclusão que o rei está nu e que o castelo é de cartas (marcadas). Vítimas de nossas próprias negligências e depredados em nossas mercancias de papel machê,  nada mais nos resta do que apreciarmos a nós mesmos no espelho. Após um banho gelado. 

Haverá um tempo em que a simples e pura luz da simplicidade será suficiente para nos sufocar de tal modo que mesmo o ar parecerá ter envelhecido, como uma dessas capas antigas que se coloca sob o sofá e que  findam por encher-se de pó, mais feito de memórias do que de sonhos. Nos sentiremos então, como que revestidos por uma sombra andrajosa, gosmenta,  um réptil rastejando entre pedras, uma casquinha de estrume seco e contagioso. Então nossos desejos serão apenas isso, arcos sem flechas, céus sem estrelas, neblinas de horrores e de velhas passagens obscuras. Será então necessária uma depuração, que deixe a amargura construir sua casa e que a angústia, o dolo e a exposição das chagas trará engulhos a quem você mais conhece: você mesmo.

Só após a purgação estaremos prontos, afinal, para começar a aprender.

2 comentários sobre “Desde que purguemos

  1. Interessante, me lembrou que primeiro precisamos aceitar que temos o que aprender, para então poder fazê-lo. Algo às vezes sofrido que demanda um humildade muitas vezes libertadora.

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