Lyslei Nascimento. Minha alma é um tinteiro seco.


 por Vânia M. Ferreira

Fonte: http://www.flickr.com/search/?z=m&w=all&q=tinteiro+&m=text

MINHA ALMA É UM TINTEIRO SECO

Lyslei de Souza Nascimento1

Para Wander Melo Miranda

Todos os anos, os devotos italianos de San Gennaro vão a Nápoles e participam do rito que envolve a fantástica liquefação do sangue do mártir exposto em duas âmbulas. A fé, simulação cega de certezas de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem, é o poderoso vetor que faz o sangue coagulado dissolver-se.

O santo, decapitado na perseguição perpetrada por Diocleciano, teve suas relíquias conduzidas à Catedral de Nápoles pelo Rei Fernando da Espanha, em 1495. A cerimônia do milagre de San Gennaro é aberta a um sem número de peregrinos que podem ver exposto o sangue e, também, segundo a tradição, a liquefação e a ebulição do precioso líquido. Se o sangue não se liqüefaz, é mau presságio.

As ampolas ou âmbulas são relicários religiosos, objetos de encerramento que gozam do júbilo do oculto, do misterioso e do sagrado. Também possuem, esses continentes, a propriedade de manter segredos que esperam para serem revelados. Segundo Danielle Régnier-Bohler2, os relicários são guardiões de uma quintessência e de uma memória narrativa, além de se constituírem como metáforas de uma perenidade desejada pelo fiel.

As âmbulas podem ser vistas como as copas da carta de tarô, o crisol dos alquimistas ou o tinteiro do narrador-escritor em O castelo dos destinos cruzados, de Italo Calvino.3

O relicário de Calvino escapa, no entanto, ao sagrado e ao ritual que as âmbulas de San Gennaro e as relíquias ostentam. O Cálice Bento, o Santo Graal e outros signos que circulam na tradição religiosa e literária vêm envoltos em construções imaginárias do sagrado, daquilo que foi separado para a veneração. O papel do fiel é, portanto, crer, sem sombra de dúvida, no Santo Graal que, às vezes, pode ser, não só o cálice que contém o sangue de Cristo, como também o livro que contém a chave para a vida eterna. O Santo Graal, como descreve a lenda medieval, é um vaso de esmeraldas usado por Jesus na última ceia e com o qual José de Arimatéia teria recolhido o sangue de Cristo quando este teve o seu coração transpassado pela lança de um centurião. A lenda aparece a partir do século XII, nos romances de cavalaria como Perceval ou Le Conte du Graal, 1182, de Chretién de Troyes.

Ambas as representações dessa tradição, o cálice e o livro, veiculam a idéia de uma vida eterna e sem males e partem da premissa metafísica da fé.

Em Calvino, no entanto, a alma é um tinteiro seco. O cálice e o tinteiro se identificam à medida que alojam a tinta/sangue da escrita. O relicário de Calvino está seco. No fundo dessa copa – depositária infinita de referências literárias e pictóricas – descansa a tinta/sangue. Enquanto o texto que se apoia na fé, ilusão de quem crê, busca incessantemente o milagre – da liquefação do sangue de San Gennaro para a boa sorte ou o Santo Graal, para a vida eterna -, o texto de Calvino apoia-se na leveza poética que a ciência pode alcançar na literatura.

A leveza atua sobre a tinta seca dos múltiplos textos cruzados que compõem o resíduo no fundo do tinteiro e impelem o narrador-escritor a liqüefazer os textos que, às vezes, teimam em se apresentar sob o peso da tradição. O que faz a tinta de Calvino escorrer e criar novos e inusitados rastros sobre o papel é a busca alquímica de quem intenta, pela literatura, o conhecimento das coisas, retirando, no entanto, todo o peso da linguagem, fazendo dela e com ela a leveza do viver. A pena, o cálamo, a esferográfica de Calvino parecem indicar sempre uma encruzilhada de múltiplos caminhos que seguem o fio negro de tinta sobre o papel: o caminho das paixões – uma via de fato, agressiva, de cortes nítidos – e o caminho do não-saber, que requer reflexão e um lento aprendizado.

No tinteiro seco de Calvino, subjaz a multiplicidade das referências e inferências que a memória do leitor pode fazer. São imagens de borrões e de rasuras no pergaminho do escritor. O cálice/tinteiro religioso transborda, outros cálices estão vertiginosamente cheios e ainda se continua a beber no copo alheio, mas o tinteiro de Calvino está seco. Sua escrita tem, nessa representação, um subsolo que pertence a certas categorias da renda4. Calvino acaba por filigranar e socavar, através de evocações mnemônicas, os textos que estão precariamente sedimentados na tinta com que escreve. Em estado de dicionário estão todas as leituras e imagens – memórias infinitas, impossíveis de seguir, de rastros e rasuras – que constituem esse palimpsesto.

As imagens de transbordamento e de sede insaciável contrapõem-se à imagem austera e elegante do tinteiro seco. A tinta seca, longe de ser um empecilho à escrita, apresenta-se, em Calvino, como uma soma das multiplicidades textuais que compõem a escrita. Os livros se respondem, combatem-se, completam-se reciprocamente e é no contexto cultural em que esses textos são produzidos que cada operação do escritor ganha sentido. Esse trabalho fabulatório está para o compor e o recompor, o reduzir pouco a pouco o tom da matéria verbal grandiloqüente até chegar no nível de um balbucio de sonâmbulo.5

A primeira imagem evocada, cálice/relicário, é da sacralidade da escritura com sua solenidade que se quer transcendente para o homem. A segunda, tinteiro/tinta, é sobretudo uma desconfiança no fazer dos homens e na auto-construção do seu destino. O texto, por essa via, perde a aura e se apresenta como artefato e matéria literária.

A tinta seca no tinteiro elegante está para o exercício da memória do escritor e do leitor; parceria indispensável nesse empreendimento. Tudo o que se aprendeu de cor, o que se recitou mentalmente, o que se fundou num repertório de textos é continuamente revolvido pela pena do escritor. O texto disperso na memória volta a se apresentar fluido na reescrita, sem vibração nostálgica, mas sempre como um texto que é lido/escrito pela primeira vez e que pode ser considerado como um arquivo dos materiais acumulados pouco a pouco, ao longo de estratificações sucessivas de interpretações iconológicas, de humores temperamentais, de intenções ideológicas, de escolhas estilísticas.6

A espessura que a tinta seca pode evocar liga-se ao peso do existir dentro da tradição. O resíduo da tinta apresenta-se como um repertório iconográfico de textos que, em Calvino, aparecem sobrepostos, em palimpsestos que subjazem na memória. A suspensão da capacidade da tinta de escrever, sua concretude, pode, ao apresentar-se, paradoxalmente, como uma espécie de resíduo alquímico em que a pena do escritor explora confins negros do pensável, materiais narráveis, possibilidades discursivas.

O milagre da pena do escritor consiste, assim, em liqüefazer a tinta seca e reescrever com leveza os textos sedimentados na memória ou extrair dos resíduos das narrativas tinta para novas histórias. Do caos primitivo da tinta seca, escoam possibilidades de matizes e nuanças de outros textos que anelam pela travessia do leitor.

Copas, vasos, relicários, âmbulas, crisóis e tinteiros são todos depositários da tinta/sangue com que se escreve a ficção. A intervenção da pena do escritor, de sua esferográfica, no entanto, dissolve o peso da escrita que se quer, como afirma Calvino, leve como as densas colchas de asas de borboletas; as pegadas de cascos alados que são mais leves que as patas dos insetos; um polvilhar dourado sobre as folhas, como deixam cair certas libélulas. Esses rastros servem, porém, como guia no emaranhado de possibilidades narrativas.7

A tinta residual e condensada no fundo do tinteiro lembra a nigredo, da alquimia. Mircea Eliade em Ferreiros e Alquimistas8, associa à cor negra a redução de substâncias à matéria prima, à massa confusa. A tinta seca de Calvino, vista como essa massa residual informe, corresponderia ao Caos, pensado na Alquimia. Uma das máximas dos alquimistas aconselha: “Não efetue qualquer operação antes que tudo tenha sido reduzido à Água”. Semelhantemente, em Calvino, o texto só pode ser gerado se a condensação da tinta – resíduos de tantos textos – for diluída para se obter a leukosis, a albedo: ressurreição da nigredo – da tinta negra – em uma outra narrativa.

Tal qual o alquimista, o escritor deve obter a dissolução dessas substâncias textuais para que haja possibilidade de engendrar novas e inesperadas tramas. Para o escritor-alquimista, o conhecimento do mundo é a dissolução de sua compacidade9, a prima matéria, a massa confusa, o abyssus. De uma certa forma, uma volta a um estado primordial em que a divina tintura pode fluir, sem perder de vista que

dessa esfera árida partem todos os discursos e poemas e todas as viagens através de florestas batalhas tesouros banquetes alcovas nos trazem de volta para cá: o centro de um horizonte vazio.10

No Castelo dos destinos cruzados, o centro do horizonte vazio parece ser, ironicamente, o lugar de onde e para onde convergem todas as narrativas. A redução do resíduo à tinta liqüefeita é que fundamenta essas novas narrativas. O fenômeno da regressão – a volta da matéria em sua forma líquida, portanto, narrável, sujeita à escrita – pode ser relacionado, também, ao nascimento e à morte. Morte iniciática tal como se depreende da nigredo, da putrefactio, da dissolutio. Para a alquimia, toda morte é, antes de tudo, uma reintegração na Noite cósmica, no Caos pré-cosmológico, enfim, um retorno à fase seminal da existência. Logo, a criação (uma nova escritura), como aparecimento de Formas, é efeito de uma morte iniciatória e a ressurreição corresponderia ao redimensionamento da materia prima – onde se contempla o Todo e se decidem as Escolhas – em uma nova materia. Para Calvino, toda narrativa é percorrida pela sensação da morte em que parecem debater-se, ansiosamente, personagens reais e fictícios que se agarram nos liames da vida.11

A carta da morte no Tarô, assim, pode ser lida em sua ambigüidade como portadora de raízes adubadas de cadáveres mal curtidos e de ossos depenados que, entre sepultamentos e exumações, possibilitam a reescrita. A transformação alquímica, como recomenda o Liber Platonis Quartorum, deve ocorrer num occipício como vaso, uma vez que o crânio é o receptáculo do pensamento e do intelecto (os capitis… vas mansionis cogitationis et intellectus; citado por Jung em Psychologie und Alchemie, p. 363). O alquimista em seu laboratório diante do crisol se assemelha ao escritor em seu escritório diante do tinteiro e ao São Jerônimo dos quadros citados por Calvino. O simbolismo mineralógico, os rituais metalúrgicos, as magias do fogo e as crenças na transmutação dos metais em ouro aproximam-se do trabalho do escritor com as palavras.

A descida aos Infernos – a morte iniciatória – e a experiência que transforma a tinta seca em tinta líquida se traduzem através do simbolismo saturnino, da melancolia, da contemplação de crânios.

A figura de Cronos-Saturno simboliza o Grande Destruidor que é o Tempo, e portanto não só a morte (= putrefactio) como também novo nascimento. Saturno, símbolo do Tempo, é muitas vezes representado com uma balança na mão. (…) Não se deveria esquecer nesse “domínio da Balança” (que os torna oniscientes e clarividentes), nessa familiaridade com a obra do Tempo (a putrefactio, a Morte que destrói omne genus et formam), nessa “sabedoria reservada apenas àqueles que anteciparam durante a vida a experiência da morte, a explicação da célebre “melancolia saturnina” dos magos e alquimistas?12

Calvino, na proposta das lições americanas sobre a exatidão, evoca Maat, a deusa da balança. A precisão é explicada pelo escritor como um projeto de obra bem definido e calculado, como a evocação de imagens visuais nítidas, incisivas, memoráveis e como uma linguagem que seja a mais precisa possível como um léxico que traduziria as nuanças do pensamento e da imaginação. Essa preocupação com aponta para o trabalho diligente do escritor-alquimista e sua tendência à introspecção própria aos melancólicos. Segundo Calvino:

Os antigos nos ensinam que o temperamento saturnino é próprio dos artistas, dos poetas, dos pensadores, e essa caracterização me parece correta. É certo que a literatura jamais teria existido se uma boa parte dos seres humanos não fosse inclinada a uma forte introversão, a um descontentamento com o mundo tal como ele é, a um esquecer-se das horas e dos dias fixando o olhar sobre a imobilidade das palavras mudas. Meu caráter apresenta sem dúvida os traços tradicionais da categoria a que pertenço: sempre permaneci um saturnino, por mais diversas que fossem as máscaras que procurasse usar. Minha veneração por Mercúrio talvez não passe de uma aspiração, um querer ser: sou um saturnino que sonha ser mercurial, e tudo o que escrevo se ressente dessas duas influências.13

O escritor-alquimista efetua, com o crisol/tinteiro, o engendramento de uma narrativa que traz inscrito o traço daquele que a concebeu e de quantos textos o escritor/leitor percorreu em sua vida. Tanto mais, diz Calvino, que Balança é o seu signo zodiacal. Contrapondo Mercúrio (as trocas, o comércio, a destreza) e Saturno (a melancolia, a solidão, a contemplação), Calvino opera os dois pratos da Libra e tal qual o trabalho quase obsessivo e maníaco do alquimista-escritor, a narrativa ressurge como mosaicos construídos pelo desfiar/fiar de tradições e textos que constituem o tecido narrativo. Assim,

todas aquelas copas não passam de tinteiros secos à espera de que da negrura da tinta venham à tona os demônios as potências do ínfero os papões os hinos à morte as flores do mal os corações na treva, ou bem que paire aí o anjo melancólico que destila os humores da alma e extravasa extratos de graça e epifanias.14

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1 UFMG.

2 RÉGNIER-BOHLER, Danielle. Ficções. In: ARIÈS, Philippe e DUBY, Georges. História da vida privada: da Europa feudal à Renascença, p. 334 – 335. (Histoire de la vie privée, vol. 2: De l’Europe féodale à Renaissance).

3 CALVINO, Italo. O castelo dos destinos cruzados. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. (Il castello dei destini incrociati).

4 CALVINO, 1993, p. 131.

5 CALVINO, 1993, p. 155.

6 CALVINO, 1993, p. 156.

7 CALVINO, Italo. Op. Cit., p. 48.

8 ELIADE, Mircea. Ferreiros e alquimistas. Rio de Janeiro: Zahar, 1979, p. 118 – 130.

9 CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. Trad. Ivo Barroso, 1991, p.21. (Lezioni americane: Sei proposte per il prossimo millennio).

10 CALVINO, 1993, p.58.

11 CALVINO, 1991, p. 46.

12 ELIADE, 1979, p. 124.

13 CALVINO, 1991, p. 64-65.

14 CALVINO, 1993, p. 128.

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