Nossos mineiros – Cristovam Buarque


Foto:

 

Nossos Mineiros

Cristovam Buarque, em Correio Braziliense, em 16/10/2010

A história da tecnologia está diretamente ligada ao bolso, não ao coração. Ela mostra a evolução do conhecimento em função de servir ao lucro, não à solidariedade. Mesmo as técnicas que permitem construir pontes são mais justificadas pelos ganhos do comércio do que pela liberdade e comodidade das pessoas. Até as técnicas médicas para fazer remédios ou equipamentos cirúrgicos são mais motivadas pelos ganhos econômicos de empresas do que pela saúde das pessoas.

O resgate dos mineiros chilenos é uma exceção nesta visão da tecnologia do bolso para a tecnologia do coração; do lucro de alguns para o alívio e a alegria de todo um povo.

Durante semanas e, sobretudo por 23 horas, o mundo inteiro comungou, graças à tecnologia de telecomunicações, para ver o êxito da engenharia no resgate dos mineiros chilenos, graças à vontade nacional, à competência de técnicos, à coragem de socorristas e ao apoio de todos os 17 milhões de chilenos.

Todos, no Chile e no planeta, despertaram e se solidarizaram com os mineiros soterrados, mas não despertaram para outro tipo de soterramento que pesa sobre 800 milhões de seres humanos, espalhados sobre a superfície da Terra: os adultos analfabetos, sem acesso à luz das letras. No Brasil, 14 milhões de adultos estão soterrados na escuridão do analfabetismo e não nos comprometemos nem nos mobilizamos para lançar-lhes a cápsula da alfabetização.

Foi Paulo Freire, um brasileiro, a pessoa que mais inovou na técnica de salvamento de soterrados na escuridão do analfabetismo. Suas cápsulas de alfabetização foram usadas com sucesso em diversos países. Mas o Brasil persiste na omissão diante do analfabetismo. O atual governo venezuelano conseguiu resgatar todos os seus soterrados na ausência de letras, como o governo chileno fez com os soterrados na falta de oxigênio. Mas nós continuamos relevando o assunto, alfabetizando no lento ritmo de quem não tem compromisso com a solução do problema.

Não nos decidimos a usar as cápsulas que já conhecemos. Nossos governos não se preocupam em condicionar programas e gastos a essa ação resgatadora, os universitários não aceitam ser socorristas alfabetizadores, os candidatos a presidente nem ao menos tocam no assunto durante os debates.

O salvamento dos chilenos exigiu a invenção de técnicas nunca antes utilizadas, custou cerca de R$ 1,5 milhão para cada um deles, e o Chile pagaria 10 ou 100 vezes isso, se preciso fosse. O salvamento dos nossos mineiros custaria R$ 300 para cada um. Em quatro anos, seria 0,1% da receita nacional para alfabetizar 14 milhões de brasileiros.

Por que o soterramento físico cria solidariedade e o soterramento intelectual é tolerado, como se o problema não existisse?

Pode ser porque o analfabetismo não se mostra como espetáculo dramático nos noticiários da televisão; pode ser porque a vida seja importante independentemente das oportunidades dos vivos; pode ser porque o salvamento dos mineiros garanta mais votos e a alfabetização conscientizadora possa tirar votos. Mas é, sobretudo, porque a erradicação do analfabetismo não empolga, nem permite a comemoração nas ruas, apenas muda definitivamente a realidade de um país.

Dentro de poucos dias, as ruas de Santiago e de Copiapó estarão iguais ao passado. A diferença será o aumento de 33 homens caminhando por elas e um sentimento de orgulho, que poderá trazer mais unidade nacional, mas pouco será visto diretamente como conseqüência do salvamento dos mineiros.

O Brasil, porém, seria um novo país se dessoterrássemos, recuperássemos para a vida moderna, os milhões de analfabetos que teimamos em deixar sem letras: vivos ao ar livre, mas incapacitados para usufruir plenamente da vida moderna. Sem chance de emprego e renda satisfatórios, sem saber em qual ônibus estão subindo, qual remédio estão tomando, em que ruas estão, sem sequer conhecer plenamente nossa Bandeira Nacional.

Nossos analfabetos continuam soterrados, sem a luz das letras. E nós continuamos jogando fora a chance de declararmos o Brasil um território livre do analfabetismo e de sentirmos o alívio e a alegria de termos nossos mineiros incorporados ao mundo moderno.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s