O que fazer em 2012


Cuando todo va sobre ruedas por ๒eatriz ۞ LΘve ღγ Black Cạ†

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=viajando&page=3

Pedirei minha aposentadoria em 2012, logo tenho de ir pensando no assunto. Mais um ano de trabalho e um capítulo importante será encerrado. O capítulo obrigacional, a rotina do dia-a-dia. Já escutei muito sobre o assunto, tenho colegas que não sabem como e especialmente o que farão quando se aposentarem. Outros, por diversos motivos, fazem novos concursos e assim se manterão obrigados ainda por mais tempo.

Eu tenho algumas opiniões a respeito, e pretendo compartilhar.

Primeiro, o trabalho não é o centro da minha vida. O trabalho é o que mantém as coisas funcionando; só é fundamental nesse sentido pragmático.  A própria palavra trabalho vem do latim tipalium, sendo que tripaliu era um instrumento de tortura aplicado aos escravos e pobres que não pagavam impostos; estrangeiros indefesos dentro de uma sociedade escravocrata. Assim, a palavra trabalho (e sua atividade) tinha uma valência negativa, e com a mesma atravessou toda a idade média. O protestantismo, a partir do século XVI, contudo, viria a lhe atribuir um valor positivo. De todo modo, é interessante juntar que “Weber apontou para a noção de que as religiões e seitas protestantes contribuíram notavelmente para que o tal “espírito do capitalismo” emergisse triunfantemente e avaliou como o discurso teológico contido nas derivações religiosas que nasceram a partir das Reformas acabaram redundando em relevantes posturas no plano da economia através de sua influência na doutrina capitalista. Certamente Weber não foi o primeiro a relacionar religião, política e economia, mas em “A ética protestante e o espírito do capitalismo” ele apresentou elementos com uma contundência inovadora(1)”.

Então, é justo pensar que algo que era degradante ao espírito e à essencia humana (escravos não eram considerados humanos, mas sim objetos de livre mercancia e circulação) e, portanto, subordinado aos poderes políticos e econômicos dominantes, foi, por influências religiosas, erigido a algo não somente apreciável mas, de certa forma, necessário. Consideremos também que a ética protestante irá influir no âmbito de países que passaram a se desenvolver economicamente: Inglaterra, Escócia, Países Baixos, Suécia. Um pouco mais tarde, começaria, de modo difuso, tensionado, os primórdios da Revolução Industrial, cujo alcance e expectativas foram assumidos lentamente pelas culturas nas quais tal religião diminuía dramaticamente o poder e a influência do catolicismo. É claro que a passagem da artesania para o trabalho alienante e alienado denunciado por Marx não se deu de modo passivo. Que o diga o movimento ludista. Mas, para todos os efeitos civilizatórios, o trabalho, de tortura passou a ser considerada uma atividade que “enobrece o homem”, embora me pareça, por vezes que o único liame que os trabalhadores (e a classe proletária, diria Marx) apresentam com relação à nobreza é justamente o fato de que os menos aquinhoados continuam trabalhando e entendendo, não raro, que seu trabalho não pode misturar-se com o prazer, que o humor é incompatível com a aquisição de competências e que a marginalidade é prima-irmã do ócio.

Como trabalhei o tempo suficiente para me aposentar, serei pois, erigido socialmente a um nada? Tenho de me ocupar com isso ou assumir que devo trabalhar motu continuum, buscando, assim, não ser visto como um pária social? Há pessoas que sentem muito a aposentadoria. Estarei entre uma dessas, ou apenas e tão-simplesmente criarei objetivos para continuar com minha vida produtiva sem o estresse diário? Noto que alguns colegas e amigos entram em pânico quando pensam em aposentar-se. Estão sendo sinceros; da mesma forma que o trabalho foi erigido, de miséria social à condição de dignidade essencial ao ser humano, o ócio, por outro lado, é demonizado. Simplesmente não sabem o que farão e o que será de suas vidas. Os contornos dramáticos acompanham tais considerações. Especialmente quando o conhecimento, a leitura e o senso crítico não foi exatamente uma companhia constante na vida de tais pessoas. Quando o senso crítico e o conhecimento não são cultivados, temos a tendência a acreditar, muitas vezes de modo cego, no senso comum. Mas isso é outra história.

De todo modo, creio que terei direito inalienável e intransferível de um período sabático, de uma adaptação à uma nova visão do mundo e à busca da tribo à qual integrarei. Será, em princípio, uma tribo urbana. Projetos? Sim, tenho alguns, ligados às minhas paixões: desenho, blog, conhecimento, educação, escrita, cultura. Ao longo dos anos de trabalho, não abandonei o que sempre gostei, então, no final de uma das trilhas representada pela linha reta do trabalho, haverá algumas curvas a serem analisadas, desfrutadas. Juro que não me dedicarei à física nuclear e nem à matemática do caos! Pretendo, pois, ainda sem saber como, em administrar as minhas paixões.  Entre um chope e outro, entre uma viagem e outra, entre um dia e outro.  

(1) O trabalho enobrece o homem? – Parte 1 – Artigo sobre o ensaio “Para que trabalhar?” de Max Weber – Parte 1: Entre o catolicismo e o protestantismo e a aventura e o trabalho – Paulo Alexandre Filho – Publicado em 23.01.2004 – http://www.duplipensar.net/lit/alema/2004-01-maxweber.html. Consultado em 10/12/2010, às 14h53.

2 comentários sobre “O que fazer em 2012

  1. No míni Houaiss aposentadoria é descrita como o estado de quem já não mais trabalha. Entendo que o dicionário se refere a uma atividade remunerada dentro das leis que, depois de algum tempo previamente estabelecido e dentro de determinadas condições, nos permite cessar o trabalho até então executado e continuar recebendo o pagamento como quando o realizávamos.
    O trabalho não enobrece o homem nem a mulher, apenas faz com que a sociedade capitalista e desumana continue a existir, alimentando sua fome insaciável.
    Acredito que o trabalho pode ser dividido em:
    – emprego, para ganhar dinheiro e viver;
    – profissão, escolhida e assumida como trabalho até nossa aposentadoria.
    Qualquer das duas alternativas nos fecha portas ao longo da vida. Penso que a aposentadoria nos dá, no mínimo, a oprtunidade de rever sonhos, pensar outras possibilidades e, por que não, nos arriscarmos indo ao encontro do inusitado. Que venha essa nova etapa da vida!!!

    • Lucia, muitos de nós tem um temor quase reverencial por portas fechadas. Muitas vezes pensamos que elas não trarão um cenário melhor do que possuímos antes de abrí-las. A aposentadoria apresenta, aqui, novas possibilidades, novas portas e janelas que devem ser exploradas com a tranquilidade de quem aprecia ver paisagens desconhecidas. Vamos lá, pois! A viagem, essa sim, continua! Beijos grandes, hILTON

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