Vida de ponteiros


 

Fonte:http://www.flickr.com/search/?q=forum+social&z=e&page=2Fórum Social Mundial por RMS - Rede de Mobilização Social

Relógios tem ponteiros, setas que ordenam nossos tempos. Na Idade Média ficavam na Igreja da comunidade e marcavam somente as horas, não os minutos, pois aquelas estavam associadas aos rituais católicos, o que iria mudar drásticamente, quando a revolução industrial começou a se disseminar em vários locais da Europa, com consequencias locais e, mais adiante, com repercussões globais, de acordo com as tecnologias disponíveis na época. O tempo passou a ser dedicado, preferencialmente, à produção, além de o lazer ter sido devidamente demonizado (especialmente o lazer do trabalhador, bem entendido). Assim, os ponteiros dos relógios passaram a ditar o ritmo das atividades humanas, embora o ludismo não tenha concordado pacificamente. Por outro lado, foi estabelecido um fluxo de trabalho contínuo, no qual o tempo passou a ser rigorosamente fatiado entre o trabalho, o descando para o retorno ao trabalho e as férias – quando possíveis. Logo, os ponteiros dos relógios são as flechas que nos dizem o que devemos fazer e quando devemos fazer – compromissos, ordens, especulações, trabalho, lazer, tudo aponta para nós. Mesmo o prazer, se assim quisermos, atende uma estética que nos coordena desde que Ford inventou a linha de produção.

No filme O Exterminador do Futuro 2 (1), T 1000 transforma seu dedo indicador em um punhal mortal que trespassa a cabeça uma de suas vítimas, uma inocente dona de casa. Não deixa de ser curioso que quando buscamos saber as horas, os relógios analógicos apontem contra nossos corpos suas lâminas de ponteiros. Somos uma civilização dura: não faz muito tempo que nos demos conta de que o mundo e seus fenomenos funcionam em rede e que, efetivamente, o todo não pode  ser entendido, a não ser equivocamente, como a adição de suas partes constituintes. Contudo, apostamos teimosamente no poder lógico da reta, embora saibamos que ela não existe, de per si, na natureza. Retas são invenções humanas, mas não prestamos muita atenção no que o mundo tenta nos mostrar, ocupados que estamos em submetê-lo aos nossos interesses.

Somos especialistas, medimos, tornamos a medir, baseamos nossas vidas em dinheiro, consumo e em volatilidade. Esquecemos, por exemplo, que materias primas são  igualmente voláteis e, muitas vezes, não renováveis. Por agirmos assim, atendemos a parâmetros que não prestam atenção aos entornos, aos limites, às consequencias. Desperdiçamos energia. Vinte por cento da humanidade consome oitenta por cento da energia produzida pelo planeta, mas tratamos de tal assunto como se fossemos assistir a um desfile de Gauthier.

Rompemos cadeias alimentares e ecossistemas e pretendemos que não haja consequencias; focamos nossos esforços quanto as concessões de direitos, mas somos muitas vezes precários interpretadores dos deveres. Para obter lucros, tornamos áreas agricultáveis praticamente estéreis à outras espécies, porque estimulamos a monocultura e deixamos de explorar outras culturas voltadas diretamente para a alimentação. Destruímos matas nativas e não as reflorestamos na mesma proporção.  Os exemplos se multiplicam e, assim como os ponteiros dos relógios, apontamos laminas contra nossa maior casa, nosso planeta. Obstinadamente nos aferramos a uma visão menor de mundo, e os modelos políticos igualmente não tem demonstrado capacidade e feedbarck para lidar com tais problemas, envolvidos que se encontram com suas próprias idiossincrasias. É um mundo sem perguntas, apenas seguidor de modelos. Genericamente o papel de predadores históricos e sociais sempre nos caiu muito bem.

 Se observarmos, contudo, veremos já sinais de que as mudanças começam a trazer resultados práticos; de um certo modo é como se uma nova consciência se tivesse instalando lentamente. A consciência de que não podemos continuar a tratar as situações de modo isolado, nem de que podemos permitir visões parcialistas em termos uma noção do todo que está envolvido. Esses movimentos de rede acontecem especialmente nos países nórdicos, nos quais o nível de qualidade de vida já é bastante evoluído, e a renda per capital é distribuída de forma mais equitativa. Por outro lado, as organizações não governamentais cada vez mais buscam soluções que se dão através de projetos que necessariamente não precisam do capital estatal – e, portanto, da submissão direta ou indireta aos governos dos diversos países. Isso configura um substrato alentador, e permite que tenhamos possibilidades claras de um desenvolvimento auto-sustentável. Assim como os processos de globalização, essas entidades igualmente agem em nível mundial. Alguns exemplos conhecidos são o Greenpeace, o WWF, os Médicos sem Fronteiras, além dos tradicionais, como a Cruz Vermelha e assim por diante. O mesmo movimento socialmente garantidor e ecologicamente marcado ocorre e se multiplica em países que são tradicionalmente poluidores, como os Estados Unidos. A China, contudo, embora seja uma das maiores emissoras de gases poluentes do mundo, tem o escudo do crescimento economico e um regime político que não permite maiores voos em termos de organizações civis.

De todo modo, se nos acostumamos com as lâminas, talvez estejamos vivendo um momento em que finalmente nos acordamos para a realidade , e ela nos aponta para um futuro incerto e dramático se persistirmos pensando políticas internacionais como se estivéssemos no início do século XVII. Embora tenhamos possibilidade de nos filiarmos ou nos refugiarmos em vários movimentos e ideologias políticas, isso se revela insuficiente. Se os grandes dinossauros ainda permanecem íntegros na economia mundial, temos de aprender a conviver com eles e insistirmos no sentido de melhorar a vida de milhões de pessoas. E isso tem ocorrido através de três eixos principais: uma educação ética, a organização da sociedade civil e instrumentos públicos que cerceiem as possibilidades reais do exercício da estupidez institucional. É para esses três eixos que devemos estender nossas redes de atenção plena.

 

(1) O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991),  original Terminator 2: Judgment Day é um filme cujo diretor é John Cameron, continuação de The Terminator, de 1984.  O andróide citado é no post é T 1000, que tem a missão de matar John Connor. T 100o é de metal líquido, podendo assumir multivariadas formas.  

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