A rede da morte em Santa Maria, RS, BR


Depois do infortúnio, buscam-se os culpados. No caso do incêndio da Boate Kiss, que levou à morte 231 jovens, o Prefeito de Santa Maria,  Sr. César Schirmer disse, em entrevista concedida para a j. Sandra Annemberg, da Rede Globo e para quem mais  quisesse ouvir, que não poderia opinar sobre a segurança da boate, que tinha apenas uma porta, que servia de entrada e de saída concomitantemente, porque esse “era um assunto técnico”. Trata-se de uma opinião canalha, temerária e oportunista. Melhor entrevistar uma enguia.

Foram presos integrantes da banda não-me-importa-qual e também um ou dois dirigentes da boate. Ninguém prendeu, contudo, o Sr. Prefeito, a quem cabe, no papel de gestor fiscalizar as casas/locais de entretenimento, cobrando a segurança devida, nem o Impávido Sr. Chefe do Corpo de Bombeiros, para quem cabia o papel de liberar alvarás para que tais eventos ocorressem. Apenas ambos fizeram o papel de comoção habitual, enquanto as famílias rezavam seus mortos, esmagadora maioria de jovens universitários, especialmente da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM.

Ora, Santa Maria é reconhecidamente um pólo cultural e educacional situado na região central do Rio Grande do Sul, com uma vasta circulação de jovens que provêm dos mais distantes locais, inclusive do exterior. Então isso nunca foi novidade, bem como a habitual inação e irresponsabilidade dos gestores públicos quando se trata de fiscalizar o que faz parte do dia comum dos cidadãos. É para isso que existe o poder de polícia da administração pública, instrumento legal que possibilita a interdição de estabelecimentos, seja de que origem  forem que não estejam cumprindo as normas públicas de segurança. O poder de polícia é o que o IBAMA, por exemplo, tem para fechar serrarias clandestinas nos confins do Brasil, que a INFRAERO possui para interditar aeroportos, e assim por diante, só para citar dois exemplos.

No caso de Santa Maria, justo por ter as características de tamanha flutuação de população jovem, nos parece ainda mais adequado que houvesse uma legislação específica para tratar de assuntos de regulamentação e segurança de casas de entretenimento, boates, etc, pois jovens querem, normalmente, ter um trabalho, viver, divertir-se e confraternizar. Não sei o que a Câmara de Vereadores de Santa Maria pensa a respeito do assunto ou se legisla a respeito do tema; o que sei é que tudo isso configura uma rede, mas não uma rede de acasos, de pesares pelo que aconteceu, de luto pelo que se chama de infortúnios do destino. Não. O que aconteceu em Santa Maria foi uma rede de irresponsabilidade, uma rede de morte programada. Isso iria acontecer em qualquer momento. A fatalidade foi ter ocorrido em Santa Maria, mas poderia ter ocorrido em qualquer lugar. Mas parece que ali, em meio ao desespero e à fumaça, a armadilha, a jaula de fogo mortal foi construída sistematicamente, uma vez que, para muitos, nada se compara ao dinheiro. Vejamos:

1) o conjunto não-me-interessa-qual resolve fazer um show pirotécnico em um ambiente fechado com apenas uma porta de saída, com superlotação e com as pessoas interessadas em se divertir, portanto relaxadas e embaladas por um clima que deveria ser, em tudo e por tudo, festivo. Me parece razoável que qualquer imbecil sabe que isso não poderia acontecer. Pois aconteceu.

2) Pela planta baixa da boate, o que acontecia em uma de suas áreas não poderia ser visto por quem estivesse em outra área. Ou seja, não havia sequer uma visão geral do ambiente onde a festa acontecia. Talvez por isso os seguranças não entendessem o que estava ocorrendo e tivessem também participado de modo estúpido ao impedir que pessoas aterradas pelo pânico não saíssem da boate sem apresentar a comanda paga.

3) os donos da boate sabiam que haveria superlotação, que haveria show pirotécnico, conheciam a própria boate e tinham absoluta consciência de que não havia possibilidade real que as pessoas participantes pudessem se evadir em meio ao pânico.

4) O poder público, por outro lado, parece que não estava nem aí para o que poderia ocorrer, com uma omissão criminosa.

Hoje o Rio Grande do Sul morre um pouco com o que ocorreu em Santa Maria. Passamos uma carta ao mundo de nossa gestão fracassada, pelo menos em relação ao que ora expomos, e simplemente não adianta dizer para uma mãe, um pai, um irmão, uma irmã, um tio, dizermos para uma família que o futuro de seu filho morreu por um infortúnio, por um capricho cruel do destino. O destino, na verdade, não tem nada a ver com isso. Os humanos irresponsáveis, assassinos, sedentos pelo lucro, sim. Que eles possam,até as suas mortes, sentir o gosto do sangue dos mortos em cada uma de suas noites amaldiçoadas.

O nome do prefeito de Santa Maria é César Schirmer e não Gerson Schirmer, como escrevi. Obrigado aos leitores, estou retificando. 30/01/2013. hILTON.

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