Sou um Besnos da diáspora


SOU UM BESNOS DA DIÁSPORA

Sou um Besnos, brasileiro de nascimento e judeu de ascendência russo-lituana, pelo que acumulo histórias de meus antecedentes de migrações, de partidas, de fugas, de provisoriedade. Dou graças por viver no Brasil, país multiétnico que foi criado e se recria diariamente graças às influências dos que aqui aportaram.

Na primeira guerra mundial, meu padrinho nasceu em um cemitério tchecolosváquio, pois seus pais fugiam de soldados alemães; no entanto, estando a Tchecoslováquia sob o domínio da Alemanha, em sua carteira de identidade constava a nacionalidade alemã.  Seus olhos azuis, pele clara e constituição física faziam com que, já no Brasil, fosse confundido com um judeu entre os alemães e um alemão entre os judeus.  Embora fosse absolutamente contrário ao nazi fascismo e participasse ativamente de passeatas e movimentos contrários ao integralismo, não foram raras as vezes que se incomodou com tal confusão havida em relação à sua aparência.

É, se você não sabe ao que estou me referindo, vale dizer que os integralistas de Plínio Salgado buscavam cada vez mais obter influência política, contando com o beneplácito e a conveniência do regime getulista, o mesmo que mandou Olga Benário grávida para a morte nos campos de concentração nazistas, como uma espécie de presente a Hitler, pela ligação que a mesma tinha com Prestes. Pois meus queridos eventuais leitores, para quem a História é desconhecida, os integralistas faziam passeatas em vários pontos em Porto Alegre, inclusive na Oswaldo Aranha, bairro que os judeus locais consagraram. Contra eles, lá estava Benjamim, meu amado padrinho.

Esta é apenas uma das histórias reais que se entrelaçam e formam uma rede de vivências, desafios e que são contadas por pessoas comuns, que se dedicaram à liberdade contra regimes opressivos e ditatoriais. Alguém se lembra do DIP? É só pesquisar, a net está aí para isso.

Meu bisavô paterno nasceu na Lituânia, meu avô na Rússia, mas há passagens pela Bielorrússia; em tais paragens, seu nome era Vladimir . Em terras tropicais, pelos comuns problemas de linguagem e pela dificuldade que o mesmo tinha de lidar com o português, ingressou no país como Valdemar. Outro avô, por parte materna, Bernardo, veio ser alfaiate em Porto Alegre, onde se estabeleceu, depois de ter passado e vivido no Rio de Janeiro, em São Paulo, e em Santa Maria. Uma de minhas avós trabalhou em Buenos Ayres. As histórias são muitas, e não são mitos, como poderíamos pensar.

Peregrinos todos, meus ascendentes falavam o iídiche, língua semítica na qual foram acrescidas importantes contribuições do século XII D.C.. Essa barreira inicial, a da língua, fez com que semelhantes, em termos culturais, religiosos e étnicos procurassem os seus, fazendo com que italianos se fixassem na serra gaúcha, alemães a partir do Vale dos Sinos e locais bastante marcados dentro do Rio Grande do Sul, e assim por diante, sem esquecermos os negros, que aqui já estavam trabalhando como escravos e sendo mandados como soldados a lutar na Revolução Farroupilha ou por simples imposição ou pela esperança de serem libertos, caso saíssem vivos.

Os judeus financiaram as viagens de Colombo e foram empurrados para o comércio quandoa atividade – considerada indigna para um cristão –  foi inserida, junto com outras arbitrariedades típicas da idade média no índex católico. Meus antepassados então eram vendedores e mercadores, não porque especialmente lhes agradasse tais atividades, mas porque, às mesmas, tinham se habituado por forças que combinavam oportunidades, necessidades, circunstâncias e pressões políticas. Errantes, nômades, flutuantes, os conceitos locais de pátria e de casa eram estranhos, exógenos e não podiam ser totalmente entendidos e especialmente aplicados a um povo cuja história nômade tão-só mudava de cenário e de imposições sociais, religiosas, políticas e econômicas.

A Inquisição os pressionava à conversão ao catolicismo dominante, especialmente na Espanha, o que originou os judeus marranos que, uma vez tendo passado por todas as provas de assimilação greco-romana e católica continuavam, de modo oculto a rezar o Schma Israel e a  celebrar o Shabat, de modo oculto, em suas casas.

As restrições religiosas, a habitualidade dos pogroms europeus e russos, as várias expulsões, as circulações pelo mundo e seus continentes, que prepararam o terreno para o Schoah eram indicadores claros de que os judeus haviam sido escolhidos historicamente para peregrinar e que mesmo a concretização do Estado de Israel em 1948 não seria capaz de extinguir a Diáspora Judaica, que basicamente é o espalhamento dos judeus pelo mundo. Em Porto Alegre, nós, judeus éramos, durante certa época, chamados carinhosamente de pardais. Só mais tarde, descobriria o motivo: os pardais tem uma alta valência ecológica, o que faz com que vivam em praticamente todos os continentes e se adaptem muito bem às cidades.

O que também a História demonstrou foi que tínhamos de obrigatoriamente ter um foco, uma identidade – os publicitários diriam uma brand – universal, não por ser moeda de troca, mas garante das nossas próprias culturas, tão díspares, mas sempre monoteístas; algo que nos apresentasse e principalmente nos representasse, para que pudéssemos, enquanto povo e comunidade,  compor o mosaico agregador entre necessidades, oportunidades, circunstâncias e política. Tal mosaico não poderia dispensar a memória tribal e a tradição ética e religiosa. Em algum ponto de sua história, os judeus intuíram que para que tantos fatores pudessem ser integrados, havia uma saudável obsessão a ser seguida: o conhecimento.

A partir de tal abençoada convicção, desde os primórdios, e além do comércio e da mercancia, surgiu os judeus professores, arquitetos, médicos, religiosos, cientistas, pesquisadores, escritores, administradores, políticos partidários, artistas, produtores de arte, matemáticos, músicos, publicitários, ligados às culturas locais e internacionais. Uma tribo, enfim, de indagadores, de um modus vivendii peculiar, onde mesmo a simples e pura assimilação  não podia abortar a Lei primeira do monoteísmo judaico e a tradição de peregrinar e estudar. Em tudo e por tudo o conhecimento sempre foi o principal passaporte para as sucessivas mudanças pelas quais flutuavam os judeus entre os influxos políticos e as aberrações odiosas. Passamos a ser conhecidos, então, como o Povo Escolhido, o que é sempre uma verdade relativa, pois nós, Seu Povo, O escolhemos de modo singular, único e definitivo, conforme diz a Lei:

SHMA ISRAEL ADONAI ELOHEINU ADONAI ECHAD,

ESCUTA ISRAEL O SENHOR É NOSSO DEUS, O SENHOR É UM.

Nossos sábios, contudo, nos dizem que a Lei ensina: “não faças aos outros o que não farias contigo mesmo”, e talvez esse seja um dos motivos que não nos faz sermos proselitistas. Afinal, somos todos seres humanos portadores da capacidade de transcendência, de ódios, de enganos mentais e portadores de uma miríade de ilusões, crenças, diferenças, de sermos ou não fiéis, corajosos, indignos, e por aí nos definimos ou, talvez, nos deixemos definir.

Além de sermos o Povo Escolhido, também aos judeus foi atribuído o honroso título de O Povo do Livro, aqui não pelo sentido religioso; nesse sentido não somos o povo da Bíblia, mas aquele que busca o conhecimento, a leitura, o que pode ser interpretado metaforicamente como o povo que busca conhecer, aprender e, sem dúvida, compartilhar o que dialeticamente está posto. Sabemos, portanto, que continuamos nômades, que os casamentos judaicos são consagrados abaixo de uma hupá, para que nos lembremos de que descendemos de tribos que construíram uma história a partir dos deslocamentos contínuos, das defesas de territórios, das ilusões de termos uma Jerusalém de Ouro. Em tais condições, bens materiais são apenas moedas de troca, são ilusões efêmeras, bolhas de sabão que explodem no ar, mas, com qualquer outra coisa na qual possamos pensar, também são garantes poderosos na hora em que formos novamente obrigados a trocar de lugar, peregrinos que somos.

Não somos melhores, não somos piores, somos seres em constante contradição em relação ao que quer que pensemos. Aliás, o humor judaico nos ensina isso claramente. Um judeu só é um judeu só, dois uma eterna interrogação e três infinitos pontos de vista. “Por que vocês, judeus, respondem uma pergunta com outra?” “Porque não?” seria a resposta.

Faço parte do povo que acredita piamente que quem salva uma vida salva a humanidade, que quem acende uma vela afugenta a escuridão. Peregrino, sou um Besnos descendente direto das tribos de Judá e de Israel.

4 comentários sobre “Sou um Besnos da diáspora

  1. A grandeza e a pequenez humanas se revelam no fluir da História. Lamento e lastimo a perseguição dos judeus ou de qualquer pessoa por questões de consciência. Como é bom poder pensar, dialogar e debater ! Viva a liberdade de expressão e o respeito pelo que não entendemos ou conhecemos. Baita abraço, Delmar.

    • Querido Delmar:
      É sempre uma felicidade privar dos seus comentários, porque a lucidez dos mesmos revela não apenas alguém que conhece o mundo, mas, especialmente, seus personagens. Nós todos construímos a História, e conforme sabemos, absolutamente não foram só os judeus a serem perseguidos; infelizmente muitos outros povos acabaram por serem submetidos à estupidez, à ganância e a crueldade de poucos. Recebe um grande abraço no teu cotidiano de ensinar História. Recebe um abraço ainda maior pela humanidade que colocas em cada manifestação, em cada diálogo, em cada linha e nas tuas atitudes. Grande abraço, hIL

  2. Não acredito em acasos, Plotino defendia que o acaso é a medida da nossa ignorância!
    Sou cristã o que me faz , de alguma forma, mesmo que transversa, judia por afinidade, por uma raiz comum, por um D”s comum…Sou Tenório de Albuquerque e dizem os etimologistas que esse sobrenome é de Cristão Novo ou Judeu batizado em pé, no porto de Belém, em Portugal… Sou fã da cultura, da escrita escorreita, bela.Do bom raciocínio, saborosa conversa nas noites estreladas. Taças de vinho, livros no silencio, convívios inteligentes… Sou sua fã, sei que não foi por acaso que nos encontramos!

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