Objetos, mudanças e rios a atravessar


Hoje, 27 de dezembro de 2012, a empresa Papaléguas veio até nosso apartamento para carregar os itens de mudança para Fortaleza, Ceará. Foram dezenas de caixas catalogadas, rotuladas, inventariadas, anotadas com cuidado. Contrato firmado, nos resta a viagem. Tudo contabilizado e inventariado, enquanto assistia e ajudava na organização, pensei como foi possível, em doze anos, juntar tudo o que iria para a estrada. Pior, como o tempo nos dá a impressão de passar tão rápido? Cada item, cada objeto tão cuidadosamente acomodado te recorda a própria história, agora toda condensada. Doze anos de convivência, dois filhos agora, dois do casamento anterior, prazeres, ilusões, esperas, angústias, mágoas, tristezas, ímpetos, arrefecimentos, mal entendidos, risos, choros, alegrias, sexo, incertezas, conquistas, companheirismo, discussões – algumas mais sérias, outras não – sonhos, projetos, bens, erros, acertos e lá está indo uma boa parte da minha história em cada um desses itens. Tudo ali, como um arquivo de memórias, como um compartilhamento possível.

Não importa o valor monetário agregado aos itens, mas sim o que eles representaram em cada instante da minha vida, e muitos ainda irão me acompanhar, como insensíveis utensílios, objetos, coisas irão igualmente cruzar o Brasil do sul ao nordeste mas serão o que são, diferente das minhas memórias, dos meus vôos, de minhas novas histórias,  das possibilidades em aberto. Para aprender é necessário, imprescindível lançar-se, abrir mão, cruzar os rios e arriscar-se, sair metaforicamente da casa dos pais. Quem não o faz corre o risco de ser menino em forma de homem, Peter Pan para sempre. Não sair é não completar a transição, homem ainda incompleto, projeto talvez tímido do que poderá ou poderia vir a ser, ensina o mestre Ferres. Ser o que ainda não somos e buscar ser o que não mais é história, mas atualidade.

Assim viajamos todos para Fortaleza, Ceará, eu e os itens mas em meu desejo sou a clara, real e maravilhosa experiência de quem salta e se lança ao rio, sem boias, confiando em seu próprio corpo, em seus músculos, para ser, no mínimo, nadador.

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