De compromissos, bretes e realidades.


Passei uma boa parte, aliás toda a minha vida, tomando decisões baseadas no que entendia que era o correto, o que deveria ser feito em dado momento. A famosa voz da consciência, a distinção entre o que é melhor e pior. O que gostaria de ser feito e o que era necessário ser feito. Com isso obtive bons amigos, pessoas que me respeitam e me querem pelo que sou e não pelo que tenho ou possa vir a ter. Fiz muitas tolices, me arrependi centenas de vezes, assumi vários compromissos financeiros, paguei a todos e tenho um relativo sucesso na profissão que escolhi, a de educador. Sou razoavelmente inteligente, tenho um perfil conservador em relação aos meus gastos e não caio facilmente no canto de sereia do consumismo desbragado e alienante. Gosto de conversar com pessoas que possuem uma visão de mundo mais larga, menos prosaica, menos rasa –  até para poupar-me de discussões inúteis e palavras de ordem que mais manietam do que promovem a pluralidade de entendimento. Gosto de ler, de pessoas bonitas no sentido mais amplo da palavra e que tenham bom humor. Peças de  arte. Se vivesse na idade média, talvez quisesse ser um ourives, ou um artista, quem sabe. Gosto de vidas artesanais, construídas como catedrais góticas. Não sou um homem que se define como culto, no sentido acadêmico da palavra, mas tenho um certo grau razoável de entendimento dos fatos do mundo.

Acontece que tudo isso, e além das bobagens que cometi até meus atuais 58 anos (em setembro faço 59) tem um preço e às vezes o mesmo é alto demais. Esse preço se chama cobrança e, por vezes, falta de reconhecimento. Se você assume compromissos, sejam financeiros ou não, os deveres da cobrança os acompanham. Se tais compromissos forem financeiros, isso se quita e pronto – c’est fini, mas se forem sociais, isso acaba virando um motuum perpetuum. Às vezes me vem uma vontade enorme de esquecer tudo, puramente vagar como um ponto qualquer solto no espaço, mas sempre haverá um elástico, uma corda, um aviso ali na estrada que dirá que você está em uma rota desviante, enfim, que o brete o espera.

Até o momento não descobri o que cobra mais, se a vida desbragada ou se a vida mais regrada. No primeiro caso, contudo, ninguém vai esperar nada de você o que, na maior parte das circunstâncias até pode ter seu atrativo. O problema é que aí você manda sua própria auto estima às favas e é difícil recuperar, nesses casos, o que já se foi, como areia fina escorrendo entre seus dedos. Se você, ao contrário, buscar sempre sua consciência moral, haverá uma clara submissão. Grosso modo, são duas alternativas que também podem ser confundidas com duas armadilhas, dois modos distintos de viver a submissão.

As regras sociais são impositivas e sempre irão buscar que você pense e aja do modo que os demais querem que você viva, pois todos vêem nos outros as projeções do que gostariam de ser, do que desejariam ou, contrariamente, do que detestam. É claro que são necessárias janelas psicológicas para que você respire de modo mais confortável, certas aberturas justificáveis do ponto de vista humano e social. O que para uns é alívio, para outros é perversão. De todo modo, nada pára e hoje há um movimento pós-moderno de tão somente seguir. Ver a respeito Bauman. Se algo pode minorar o peso de tudo é o caráter, mas este, hoje em dia não é exatamente o motor que impulsiona o barco e menos ainda uma espécie redentora de way of life.

Talvez o pior seja a questão da auto imagem. Há um determinado instante em que você já tem alguma experiência, já possui uma certa tonicidade social, já viveu algumas situações significativas, então pensa que isso conta e muito, que pode referenciar relações a partir daí e esse é o momento crucial em que você tem “certeza” de que a sua palavra, que o seu discurso e o que você faz são suficientes qualificativos de reconhecimento, mas isso igualmente é mera ilusão. Quando você pensa que vai receber um reconhecimento de per si, as cobranças irão aderir e os ouvidos dos outros, mesmo de seus pares, passam a ser os de mercadores. Aí você se sente como alguém que não se faz entender; é o instante, mais ou menos prolongado, de você querer ser um canalha, sentir a doce sensação de ser um off road, de fazer apenas o que deseja, de agir da maneira menos comprometida possível. Mas aí o elástico do bom-mocismo te enlaça e puxa firmemente. Na realidade você não aprendeu a agir como um bad boy, você não sabe se movimentar em tais mares tormentosos e, confrangido, com um sorriso de esguelha percebe que sua própria história já definiu o que você, em todas as circunstâncias, foi e será.

Um comentário sobre “De compromissos, bretes e realidades.

  1. O caminho do meio, dizia Buda, é o caminho da sabedoria. Sartre foi mais sarcástico e disse que o inferno são os outros, ele mesmo era o inferno de quem lhe procurava em busca de conselhos. Ao final, me parece, na flor dos meus “poucos anos” e incipiente vida, risos, que devemos deixar tudo ao encargo da vida – como diriam os adeptos da Grande Mãe – ou de D”us como dizem os nossos e os vossos,ou todos nós – irmãos e primos!

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