Lutos e expectativas


Escrito em dezembro de 2012, em Porto Alegre, já em licença, mas antes da aposentadoria, que viria em março de 2013.

 

Nos últimos tempos, tenho lidado com lutos de um lado, e expectativas de outro, o que faz com que nem sempre possa estar em equilíbrio, mesmo razoável. A questão da aposentadoria é um luto, como se o sistema produtivo em que você estava inserido te dissesse, por vezes gentilmente, por outras nem tanto, que você está simplesmente fora, que passou, para esse sistema, a ser um estrangeiro. É algo mais ou menos assim, um corpo estranho, alguém que perdeu a capacidade de trabalho em um determinado cenário ao qual você estava não só integrado mas habilitado plenamente a continuar navegando.

Há um aviso, uma placa logo ali adiante que sinaliza que o seu tempo naquela estrada é finito e simplesmente fluiu. Você tem ainda muita energia, mas não ali, naquele local e espaço; essa é a sensação de luto que, de alguma forma, algumas vezes sutil, lhe informe da sua dispensa pro tempore.

Talvez seja por isso que muitos retardam ao máximo a aposentadoria, mesmo tendo tempo suficiente para exercê-la de pleno direito, buscando adiar este momento, como que dizendo para seus pares: “olhem, eu ainda estou aqui, eu posso, sou capaz”. Ilusões da alma e do desejo, pois tal atitude apenas prolonga o momentoso tormento de romper o vínculo de se desacomodar do que, até então, era sabido e consabido. Embora haja uma boa parcela de possíveis aposentandos que, durante sua estada no mundo produtivo criem uma miríade de sonhos em relação ao ato de se aposentar, passam a conviver com um fantasma bastante incomodo: o do ostracismo. Assim, se você não tiver opções para pós-aposentadoria, haverá algo rondando o processo todo, e nada agradável.

A aposentadoria significa também um encontro muitas vezes adiado: o consigo mesmo. O tempo nos impele ao rumo da rotina, e nos habituamos a isso.Na aposentadoria, contudo, nos defrontamos cada vez mais com o espelho e com a nossa maior ou menor capacidade com que lidamos, ao longo de nossas vidas de obtermos, durante os anos produtivos, o sucesso financeiro e pessoal. O que construí ou não, o quanto investi ou não, meus níveis de satisfação pessoal e profissional, alcançados ou não, com maior ou menor exito, estarão ali, em cada uma das rugas acumuladas, placidamente nos fitando. Para muitos esse encontro inevitável é um motivo mais do que suficiente para adiar este ritual de passagem, essa visão realista e crítica do que pretendíamos alcançar e do que efetivamente obtivemos.

É possível que essa fuga de si mesmo tenha me levado a ouvir, tantas e tantas vezes frases marcadas como “não vou me aposentar nunca”, “não sei o que faria aposentado”, “não sei como tem gente que se habitua a não fazer nada”, “o trabalho, para mim, é uma distração” e tantas outras. No fundo é simplesmente procurar procrastinar o inevitável dentro de um curso normal de vida. Esquecemos certas inevitabilidades. 

Recordo-me de quantos me perguntaram o que iria fazer aposentado. Eu respondia com bom humor ou com respostas mais reflexivas. Na verdade nunca pensei muito no assunto o que talvez definisse, à época, meu modo de ver as coisas. Hoje me surpreende o luto de me ver “um inativo” e, por isso, escrevo. Durante esses meses procurei me situar em relação a um cenário novo. Não raro quase me enclausurei, deixando simplesmente o tempo flluir, me deixando levar como um barco à deriva, sem ter noção real de perspectivas novas, ou ao menos de esboçar novos projetos. Tudo me parece muito vago, circunstancial, como se o tempo de alguma forma fosse um conspirador.

Aprendi algumas coisas; talvez a melhor de todas tenha sido a de que meus amigos/colegas que permaneceram trabalhando não tem condições de interromper suas vidas em face da minha aposentadoria. Ao invés de amargurar-me, passei a procurá-los, pois acredito que os vínculos melhores devem ser preservados. E pensar e agir assim me faz muito bem. Sou convidado a sair, a participar de almoços, jantas, festividades, comemorações, formaturas. Procuro ir a todos os eventos e me sinto confortável, feliz, pleno.

Reconheço, contudo, que deveria sair mais, arriscar mais, visitar mais amigos e pessoas que foram tão importantes na minha vida pessoal e profissional, mas tenho tratado tais situações com uma indiferença obsessiva. Talvez esse luto ainda me mantenha assim, meio manietado, como se um sentimento oculto de culpa me restringisse à novas rotinas de vida. Isso, contudo, passará. Estou aprendendo também que não se perde tempo; não, não, apenas deixamos de fruí-lo. Novos tempos exigem novas aprendizagens. De tudo isso surge um projeto que me define por essência: em 2013 quero voltar a estudar e/ou participar de algum projeto voltado para a educação. Sinto muita falta do envolvimento que o estudo proporciona e com ele, adicionalmente, mas não menos importante, com o processo de socialização e de conhecer novas pessoas, de migrar para outras realidades, de me integrar a novas pluralidades. De todo, ao fim e ao cabo, o luto passará e, finalmente me sentirei mais livre e desperto.

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