AU – Apendicites (2013)


Já se disse que “Cultura” é uma palavra viscosa e que, portanto, não aponta com precisão para algo específico. Mas, cada vez mais, “Cultura” vem se tornando uma palavrarígida que compreende algo limitado. Em outros termos, “Cultura” vem deixando de ser sinônimo de “Vida” para tornar-se um entre tantos outros departamentos da vida. O departamento da “Cultura”, embora esteja relacionado com os outros departamentos da vida, vem se tornando mais autônomo e tende a ser entendido e sentido como algo em si, como um órgão ou um mundo próprio com as suas particularidades. Como os demais departamentos, o da “Cultura” participa da vida, ou seja, não é mais que apenas uma parte da vida. E, por razões variadas, uma parte relativamente pequena e, é forçoso reconhecer, também relativamente desprezível e, por outro lado, dinâmica. Uma espécie de apêndice, aquela parte do sistema digestivo humano cuja função é até hoje objeto de debates e que está sujeita a ocorrências como a apendicite.

Estamos habituados a este estado de coisas, ou seja, com o fato da “Cultura” não mais corresponder ao corpo inteiro, o que pode ser comprovado com facilidade no dia-a-dia. Toda vez que ouvimos a palavra “Cultura” pensamos em um grupo restrito de palavras e de coisas e não-coisas, o que pode variar de pessoa para pessoa, mas jamais chegando a evocar o mundo todo, a vida toda ou o corpo inteiro. Estas palavras, coisas e não-coisas giram em torno de “objetos de arte”, “manifestações populares”, “diversões”, etc, ou seja, do que convencionamos chamar de produção simbólica. Elas apontam, ainda, para lugares e momentos mais ou menos específicos e limitados, tais como “museus”, “teatros”, “espetáculos”, etc, ou seja, ao que designamos genericamente como eventos. Produção simbólica e eventos com localização e duração são termos que, à primeira vista, podem não sugerir rigidez e especificidade à palavra “Cultura”, mas se considerarmos com atenção o jeito como a nossa vida acontece perceberemos que se trata, sim, de um departamento com características bem definidas e, mais que isto, que esforça-se para conservá-las com insuspeitada agressividade. Em outras palavras, para a maioria de nós, é natural que “Cultura” seja exatamente o que veio se tornando e resistimos bravamente para que esta sua natureza não seja destruída.

Nem por isso apendicites deixam de ser possibilidades que podem matar o corpo inteiro ou que podem garantir uma vida toda relativamente tranquila sem apêndices.

Akira Umeda, 2013.

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