AU – Palimpsestos (2013)


Desde sempre me incomoda a realização automática de eventos que visam concentrar o maior número de pessoas e o maior número de atrações (oferecidas sob o discurso de uma duvidosa porém enfatizada diversidade) que ocorrem seguindo uma periodicidade (anual, bienal etc). Evidentemente, há justificativas concretas e plausíveis que levam a este estado de coisas: a dimensão metropolitana, a sociedade de massas, a democratização, a ampliação do acesso, a ideologia do para todos etc, para citar aquelas que são dignas e corretas (pois há as que não coincidem com dignidade nem com correção). Mesmo em cidades pequenas do interior, o automatismo das soluções produzem eventos gigantescos, hiperdimensionados, que efetiva e literalmente são para todos os habitantes destas cidadezinhas, e que ocorrem uma vez na vida e outra na morte. São os chamados festivais, os fests, os megasgigas e teras. Em São José dos Campos, uma cidade de médio porte, há, no âmbito das políticas públicas municipais, o Festidança (que tende a concentrar atrações de dança em uma semana do ano), o Festivale (que tende a concentrar as atrações de teatro em uma semana do ano), além de projetos em parceria com o Governo do Estado de São Paulo que concentram manifestações diversas em períodos de 2 a 4 dias de um ano (Revelando São Paulo, Virada Cultural, Festival da Mantiqueira etc). Assim, automática e gigantescamente, têm sido desenhados os eventos na cidade. Não há grandes questionamentos com relação a esta solução que concentra as manifestações artísticas concretas e isola as possíveis reflexões sobre o campo artístico. Os automatismos não costumam ser questionados; soluções que se manifestam de tal forma programam as mentes e os corpos de forma a não deixar brechas para indagações, tal como ocorria nas antigas linhas de produção fabril. Mas, diferentemente do que ocorria nas fábricas, tal programação de grandes eventos concentrados/isolados não se articulam coerentemente a um propósito claro, ao menos no âmbito das políticas públicas (na seara das iniciativas privadas, tudo se articula em função de ganhos financeiros). Fábricas montam linhas de produção de carros para alimentar e manter viva a necessidade por carros e para se perpetuarem através dos lucros desta ação. Órgãos públicos de cultura e arte montam linhas de produção de eventos gigantescos, concentrados e isolados para quê? As respostas podem ser claras, mas é inegável que há sempre uma névoa pronta para obscurecê-las.

A poética (o conjunto de modelos de experiência) do gigantismo, da concentração, do isolamento e da dispersão faz sentido, mas, ao menos para mim, também traz incômodos e evocações históricas e políticas indesejáveis (como as provenientes do nazismo, nos tempos modernos). Há outros modelos (outras poesias) e quero me dedicar a pensar sobre eles, situar-me nos paradoxos. Mas sei que para que este pensamento venha a ser implementado, reconhecido como poesia legível e legítima, as linhas do texto do programa que definem uma verdade inquebrantável e hipnótica necessitam ser reescritas, hackeadas, rasuradas. Palimpsestos.

Akira Umeda, 2013.

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