Complexidades


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Talvez não seja essa a melhor forma de escrever o que realmente penso, mas normalmente as coisas complexas, como as que vivo e penso não cabem simplesmente dentro de um ou dois parágrafos. Com outras pessoas também ocorre o mesmo, e o erro primordial é procurar dar-se somente um sentido, uma depuração exagerada àquilo que sentimos e pensamos e, especialmente, procurarmos uma free way que nos leve daqui para ali, de lá para acolá. A vida e as suas alternâncias não admitem caminhos únicos como rodovias unilaterais e a maior parte das escolhas que temos de fazer não depende tão-só do nosso desejo, mas de um sem-fim de frases não-ditas, das intenções que revelamos enquanto nosso corpo fala, desde o menear das sombrancelhas até o cruzar de pernas. Defesas, negaças, tristezas, decepções, lembranças, compromissos, loterias, erotismo, capilaridades nervosas nos percorrem o tempo todo, e não seria  possível, mesmo que quizéssemos, dizê-las.

Ao tratarmos questões complexas de modo descartiano, capilarizado, perdemos o sentido do que estávamos buscando e, com isso nos descircunstanciamos, pois o todo é muito mais do que a simples adição, o encaixar perfeito e sincronizado das partes que o constituem. Fazemos isso por entendemos que nossa racionalidade ocidental e que os preceitos socialmente normalizadores são suficientes, são guias seguros para nossas decisões. Infelizmente não podem, pois as situações reais não atendem a padrões lineares, simétricos e contínuos. No mais das vezes, respostas parciais não privilegiam as interrelações existentes nas quais as perguntas estão inseridas. O mundo é um móbile.

Sentidos, sentimentos, decisões e ausências atendem a um sentido multifacetário, com diversas probabilidades. Uma das mais complicadas é a convivência, na qual vestimos e desvestimos continuamente máscaras que nos protegem e que nos alienam ao mesmo tempo das realidades. Não é possível falar em verdade, em mentira, em realidade, mas sim em verdades, em mentiras, em realidades, em buscas e em desilusões. O mundo é plural, como nós também o somos. Nossas experiências não explicam o mundo e compreender isso talvez fosse um primeiro passo para nos possibilitar uma vida melhor e de maior qualidade. Talvez, apenas talvez.

As questões complexas estão cada vez mais presentes, e isso ocorre não apenas em nível pessoal, mas político e econômico. Soluções gestadas para um ou mais problemas específicos traz conseqüências a todo um cenário que, inicialmente, não deveria ser afetado. Mas são. Assim, uma decisão tomada em Tóquio afeta negócios no Brasil. Militares intervêm em pontos distantes do mundo e sofremos direta ou indiretamente os resultados de suas ações. No entanto, como não estamos preparados para lidarmos com o complexo, nos encastelamos em nossas casas, nos refugiamos em nossas mobílias, resolvemos problemas não pelos meios institucionais possíveis, mas nos bares e nas cafeterias, nos fins de semana para, segunda-feira voltarmos a rotina de sempre.

Se as soluções exigem análises cada vez mais profundas e não prescindem de uma visão mais globalizada, temos de procurar sair de uma zona de conforto que nos impele a delegar, cada vez mais às instituições a administração de nossas vidas. No entanto, temos de nos render à Fernando Pessoa: se navegar é preciso, viver não é preciso, é necessário, humildemente, que não apenas nos informemos, mas, especialmente que formemos, mas não de um modo cínico, operacional e fascista. Talvez por isso me orgulhe de ser educador. Estou envolvido com seres humanos, especialmente adolescentes que são contraditórios, agressivos e, por vezes, cruéis. Por outro lado, são capazes de atenções e seguem o que lhes foi ensinado pelos pais, pelas conjunturas e pelas vidas que levam; de todo modo, são estudantes, pessoas em fase de crescimento. E participar eticamente de tais movimentos é, sem dúvida, muito mais compensador que explorar aspectos sombrios da humanidade.

O meu trabalho tem o signo de Eros, não de Thanatos; comungo com os atravessamentos que incidem sobre a possível educação pública em um bairro violento, pobre, marginalizado, em que as brigas territoriais de gangues decidem sobre se teremos ou não aula no dia seguinte. Mesmo assim, não me considero um desiludido. Anos atrás, Saramago disse em Porto Alegre, ou no II ou no III Fórum Social Mundial, que se sentia em contraponto quanto à palestra que deveria proferir, cujo assunto era Utopia.

Disse o Premio Nobel que cansara-se da ideia de utopia, entendendo mais relevante que houvesse uma dedicação honesta e eficaz em relação ao que poderia ser feito na realidade, nos embates do dia-a-dia. Desse ponto de vista, não há uma busca da utopia enquanto sonho, mas de uma efetiva melhoria conquistada nas lutas do cotidiano. Acho que sou meio Saramago. Não se trata do que eu sonho, do que desejo, mas do que posso fazer.

A complexidade ensina isso: o ideário desarticula o ideal, o moralismo detrata a moral, a previsão comanda o controle, e o contraditório apenas reforça o maniqueísmo. Afinal, nem sempre nossos pensamentos cabem na dualidade e menos ainda nossas ações devem ser sempre objeto de uma razoabilidade que rescende ao conservadorismo argumentativo. Como sabemos, ou deveríamos, a mídia não é uma invenção moderna…

 

 

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