A mesa está posta


Advertising in the 80's

Vida de consumidores, paraísos de luxo… nem sempre é assim, e não adianta esticar nossos desejos ao máximo, é absolutamente improvável que consigamos realizar nossas vontades, mesmo que a conta bancária nos possibilite um certo alargamento. Isso acontece porque o status que ambicionamos não se reduz somente às questões de compra e venda, à circulação de mercadorias. Os ambiciosos, a um determinado passo da vida, se dão conta de que não adianta apenas possuir. Por mais que tenham, não conseguem o Green Card da aceitação entre os pares que gostariam. Mesmo o clube de milionários tem as suas regras, e você estará jogando com outros que possuem a mesma envergadura que você. Ou maior.

Então, primeiro, é preciso entender as motivações. É preciso que você se coloque na prateleira, seja através do seu currículo, seja através do acúmulo de bens e capitais, seja através do acesso aos bens culturais e de consumo. Primeiro passo, considerando, por óbvio, que você possa bancar sua vida, a de seus possíveis agregados. A entourage deve ser mantida por você.

Segunda regra, é preciso entender a arte do desperdício, que é a indústria do descarte. Como absolutamente nada é definitivo, é necessário implementar uma política pessoal na qual a compra de desnecessidades e seus descartes sejam uma regra geral. Estar up to date é estar de braços com o desperdício.

Terceira regra, é bom que você se deslocalize, ou seja, que não crie raízes em lugar nenhum, que não haja localidades nas quais você se fixe. É imprescindível que você não tenha responsabilidades comunitárias onde quer que seja e, se tiver, que seja para poder ser compensada aqui e ali, ou com um acréscimo de lucro financeiro ou com uma melhoria na sua autoimagem. Há inclusive grandes empresas que estão se dando conta de que vale a pena se associar a empreendimentos sociais de vulto, não por solidariedade, por benemerência ou por qualquer desses sentimentos tão comuns à humanidade, mas para valorizar sua presença no mercado

Quarto, é preciso, a cada instante fazer uma (re), de acordo com o que for mais conveniente, o que significa que é interessante fazer uma (re)leitura social, implementar uma (re)alocação de recursos, estudar uma nova (re)engenharia de pessoal ou de objetivos, (re)construir continuamente a sua autoimagem, (re)projetar novas estratégias e (re)educar-se dentro da comunidade de conhecimento.

Quinta regra, é necessário que você gaste o que não tem (o que se chama de imprevidência, mas outros chamam de investimento) para simplesmente entrar no jogo, jogo esse que não traz nenhuma certeza, visto que estamos vivendo, de há muito, uma época em que a fluidez é a marca maior.

Vida de consumidores, paraísos de luxo… temos de (re)interpretar as regras, os momentos, as oportunidades, sem nos esquecermos, entretanto que nada disso, mesmo elevado à perfeição, tem o condão de nos conduzir exatamente onde queremos, pois nossas vaidades são, em tudo, incomensuráveis e  pelo fato simples de que a estrada do consumo só tem ida.

Mesmo a velha e boa educação não consegue garantir coisa alguma, porque as velocidades entre saber e consumir estão em padrões diferentes. O mundo das universidades, por si próprio, não é passível de nos catapultar onde queremos. As flutuações são indefinidas e, talvez o bom mesmo seja aproveitar cada instante. Nesse ponto, parece que estamos todos de acordo: o primeiro passo para o impossível permanente é, inequivocamente, o desperdício levado a cabo pela promessa de crédito. Enquanto tivermos gás, o balão subirá. Cessado o crédito, cessam as regalias.

Talvez por isso o mundo atravesse uma crise que se funda no crédito. Um dia uns tem de pagar as contas para outros poderem continuar uma ciranda infinita, na qual a exploração não mais é a do trabalho, mas a da fluidez das moedas e da não-produção real.

A educação aponta critérios e padrões, mas os homens infelizes dentro de suas possibilidade maximizam os riscos. Afinal, algum dia alguém irá se penitenciar, alguém irá purgar, alguém irá para o mundo dos destituídos e dos que não podem participar do banquete. Já perto do limite, ou mesmo ultrapassado este, sempre vale o estelionato financeiro sobre o Estado, que passou da condição de garantidor de direitos para o de financiador de má-gestão individual ou corporativa. Tanto faz como desfaz.

Crédito é muito mais do que os néscios querem, é o que lhes sustenta o way of life. Não esqueçamos: embora os acordos e as negociatas permaneçam como sempre foram, é de bom tom que economistas de plantão criem novos termos para (re)inventar o caos.  Se não há mais liquidez, igualmente não há mais responsabilidades. Recorrer ao Meio Público é esfarelar critérios, é aguardar um pouco mais.

Somos todos, portanto, mercadorias. Com arte ou sem arte, com case ou sem case, mas, indubitavelmente, com uma arrogância na qual o cinismo só encontra parâmetro na desfaçatez. Enquanto se reflete a respeito do dito e do não dito, é melhor ir sorvendo o que o banquete do consumo nos oferece de melhor. Por favor, sente, a mesa está posta. HILTON BESNOS

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