AAMF – Interjeição


Interjeição

 

E a Sra. Rios não disse que ela mesma compraria as flores – ela não era Clarissa Dolloway, muito menos, estava preocupada com a preparação de alguma festa ou jantar: estava aturdida por outra coisa e disse o compatível com seu próprio recheio.

As comparações são muitas vezes injustas, quase um apelo à covardia. Ela não era Clarissa Dolloway: jamais defecaria pão-de-ló, urinaria Shalimar ou seu marido daria discursos no Parlamento. Aquela mulher estava sendo, desde que viera ao mundo, apenas a Sra. Rios: uma coisa feminina morena, pequena e notável, talvez sempre correndo o risco de se confundir com alguma força da natureza. E ajustando o foco, pondo de lado o eufemismo do pitoresco, porque isto não é uma gravura de Rugendas, indo diretamente ao assunto: ela também poderia ser espevitada, intranqüila, minúscula, indócil, agressiva e inflamável, sempre na pele de uma sensitiva desconfiada, sempre engatilhada para que se defendesse, pouco lhe interessando que o ataque externo não passasse de mera suposição. Enfim, em seu íntimo, os indícios e as hipóteses de agressão era certezas. Não era agradável sua convivência. Por acaso, alguém pode gostar da companhia de um porco espinho? Sem contar que a Sra. Rios, talvez como decorrência de seu temperamento, era viciada na insistência da palavra final. Ninguém merece tal tortura.

E o que a Sra. Rios disse, naquele seu instante indignado, foi Mas que buceta! – buceta, diga-se de passagem, proferido com a ênfase dum belo ponto de exclamação.

Analisando o fenômeno com meticulosidade, pode ser escrito que, pela boca da Sra. Rios, buceta deixava de ser o onde a vida começa, alguns trabalham e muitos se divertem, pois num rompante espontâneo, a palavra proferida derretia sua pose de substantivo e se impunha como interjeição hiperbólica: – Mas que buceta!

É provável que nem todos se vissem em maus lençóis emocionais diante daquela súbita aparição – a que arrancou dos lábios da Sra. Rios um Mas que buceta! – , principalmente os que sabem tirar de letra as surpresas desagradáveis, nunca perdendo seu tempo em reduzi-las a sustos tolos. Eles, esse mais sensatos e inteligentes, mal recorreriam a um Oh! ou a um Ai! Meu Deus!, não ultrapassando as fronteiras do Mas o que é isso?, mesmo que soubessem do que se tratava diante do grau de resistência de seu olfato.

O certo, independente de suas razões, é que o objeto de indignação e assombro da Sra. Rios – o que a fez dizer Mas que buceta! – era duplo e muito se assemelhava a duas bananas descascadas e putrefatas, boiando imóveis e silenciosas pelo interior daquele vaso matinal. Tenho certeza de que se a Sra. Rios fosse menos teimosa e inabordável, pois estava careca de saber no que seu marido havia se transformado, desde que perdera seu emprego num banco, jamais recorreria ao seu Mas que buceta!  por tão pouco.

Revolucionário, como o zíper ou os descartáveis para qualquer coisa, seu Mas que buceta! prometia especulações e jogos associativos, perambulando, meio indeciso, pelo que os gramáticos têm considerado como derivação imprópria, fazendo da Sra. Rios uma pequena especulação do acaso: sem alterar a estrutura do vocábulo, ela conseguira trocar sua classe gramatical, e um substantivo foi transformado em interjeição para seus momentos de incompreensão da mera natureza das coisas.

Definitivamente, com a minúcia dos que contam azulejos pelas paredes ou só pisam com o pé direito quando sobem uma calçada, seu marido, desde que perdera seu emprego num banco e se enfurnara pela escuridão do próprio quarto, lembrando  um adolescente de cinquenta anos, sempre corria o risco de esquecer seus expurgos vitais pelo interior da louça do banheiro. Talvez aquilo fosse sua forma peculiar de dizer estive aqui, estou vivo e vocês não dão a mínima para meu estado de calamidade.

Todos temos nossos deslizes, fazendo com que cada desvio íntimo ponha em dúvida o categórico da normalidade – não é por acaso que Caetano Veloso escreveu que De perto, ninguém é normal. Portanto, a circunstância regular de tempo, garantindo encontro marcado com a necessidade, seguindo a linha Vou aos pés todos os dias, sempre após o café da manhã!, não fazia parte do metabolismo do marido da Sra. Rios. Aliás, ela também não se aliviava, caso não recorresse a determinados chás. De certa forma, naquela família, os intestinos sempre se resolviam pela esperança de que talvez hoje algo acontecesse, e ele, o marido entupido da Sra. Rios, sabia melhor do que ninguém que quando a coisa sinalizava que seu momento solene chegara, era imprescindível que a deixasse sair. O relevante era que ela viesse a furo! Sem contar que ele preferia sempre expandir seu diâmetro, às vezes provocando sangramento, e soltar tímidos gemidos do que simplesmente aderir ao  Almeida Prado 46.

Entretanto, como sempre devemos olhar para o que quer que seja pela compaixão e pelo otimismo de Poliana, aquela menina doce que usava e abusava do jogo do contente, até mesmo quando quebrou sua espinha, a prisão de ventre do marido da Sra. Rios deveria ser sempre aplaudida e observada com certo respeito.    

Seria muito pior para todos que precisassem entrar e sair daquele banheiro, conforme suas necessidades, se aquilo os esperasse diariamente. Pelas barbas do Profeta, ou pelo sinalzinho de beleza de Marilyn Monroe, um susto quinzenal malcheiroso, com a pontualidade difusa das chuvas nordestinas, não prejudica quem quer que seja, desde que haja resiliência por parte dos supostos sofredores. Os pobres cagalhões esculpidos como bananas descascadas e putrefatas só precisavam de boa vontade e pressão de uma válvula e “all we need is Love”.

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